A música é verdadeira quando ela transcende os rótulos e
atinge as mais variadas camadas sociais com a mesma intensidade. O Duo Taufic soa
como um mosaico de múltiplas sonoridades que não apenas os ouvidos eruditos mas
também os populares. Quem conhece seus álbuns ou já foi a um dos seus shows
sabe do que estou falando.
2112. "É um orgulho pra toda nossa classe musical ver que o Brasil produz
músicos como esses dois. Eu me confesso fã completo dessa dupla gêmea de música
e de sensibilidade..." Ouvir um elogio de uma lenda como o Roberto
Menescal é um baita incentivo, não é?
Roberto. Com certeza esse elogio do Menescal
nos honra e nos alegra muito. Como produtor musical o Menescal faz parte da
história da música popular brasileira além de ser um músico formidável! Eu tive
a honra de ser ouvido por ele, a primeira vez, através do meu disco de violão
solo “Eles & Eu”, e através do qual o Menescal declarou a sua grande
admiração pelo meu trabalho como violonista! A partir daí, ficamos amigos e
seguimos em contato compartilhando novidades e muita música.
2112. Vocês começaram muito cedo na música
e o que é melhor... com apoio dos seus pais e familiares. Qual é a formação
musical de vocês?
Roberto. Eu e o Eduardo temos 10 anos de
diferença, sendo eu o mais velho. A música sempre esteve presente na nossa casa,
em primeiro lugar graças ao nosso pai que era um grande artista e grande amante
da boa música! A música era, na nossa família, um motivo para estarmos juntos e
passar o tempo...essa é a verdadeira função da música; aproximar as pessoas! A
nossa formação musical é 90% autodidata, muito estudo e dedicação fizeram parte
do nosso cotidiano além de muito trabalho em bares, bailes, concertos...enfim,
tocando pra valer e aprendendo com quem estava conosco, pessoas mais
experientes e dispostas a nos ajudar a crescer como músicos!
Eduardo. Com toda a certeza, os pais tem
papel fundamental no incentivo e solidificação de nossas carreiras artísticas.
Me interessei pela música aos 9 anos, tendo Roberto como referência, e aos 11
ganhei meu primeiro instrumento, um piano vertical. Tive poucas aulas com o
Maestro Waldemar de Almeida, e depois, aos 13 anos, me tornei músico
profissional, sempre atualizando meus estudos de forma autodidata, inclusive
nas áreas de orquestração, arranjo e composição, o que sempre me fascinou!
Roberto foi morar na Itália quando eu ainda tinha 10 anos, então ele acompanhou
de longe a minha evolução na música, cada vez que vinha ao Brasil ficava
admirado de como a música estava presente na minha vida. Desde essa época, e à
distância, amadurecemos nossa admiração mútua, o que nos faz tocar de forma tão
espontânea e una.
Roberto. Acho que antes de tudo vem a
essência como ser humano. É dela que partem as outras coisas da vida... E a
música não fica fora dessa regra. A nossa música é realmente o resultado do
nosso respeito recíproco, do amor pelo que fazemos, da procura pelo belo, da
escolha da melhor sonoridade e da preocupação em compartilhar a nossa arte com
todos, independentemente de idade, gostos e culturas!
2112. Hoje existe uma enorme ansiedade em
formar bandas, gravar discos, fazer shows... Qual a visão de vocês sobre essas
questões e quais conselhos dariam para quem está começando?
Eduardo. Os tempos e a forma de fazer e
consumir música mudaram muito e não cabe a mim julgar se para melhor ou pior...
Mas ao meu ver a música tem que ser “viva”, tem que emocionar, tem que ser útil
a todos e não permanecer reclusa em comportamentos egocêntricos! Tocar ao vivo
é o que todo músico ou artista deveria fazer pois isso é o que alimenta o ciclo
do fazer música, pessoas indo ver shows e dando uma razão para continuarmos a
realizar a nossa obra!
2112. Sabemos o quão difícil é para um
artista viver exclusivamente de sua obra em países como o Brasil onde a cultura
é sempre relegada a segundo plano. Vocês já estão conseguindo viver apenas da
música?
Roberto. O trabalho de músico engloba
diferentes possibilidades de atuação: concertos, didática, gravações, televisão
e rádio, etc... Nós sempre trabalhamos na música e isso nos orgulha muito. Apesar
das dificuldades e das incertezas econômicas seguimos em frente felizes do
reconhecimento que cresce em relação à nossa obra! Infelizmente a música no
Brasil vem sofrendo uma triste decadência no que diz respeito ao gosto popular,
criando mitos e alimentando um mercado que com o tempo destruirá (torcendo que
não!!!) o que temos de mais precioso: a mais rica e bela música do mundo!
Eduardo. A música sempre foi nosso trabalho,
único trabalho. E sempre conseguimos nos manter trabalhando com a música. Como
Roberto mencionou, não é só nos palcos que se ganha a vida como músico! Sempre
mergulhamos nas várias vertentes de trabalho, como cinema, estúdio de gravação,
arranjando, orquestrando, ensinando... Dá pra fazer muita coisa quando a sua
paixão é a música, quando você sente que seu trabalho é gratificante. Esperamos
não ter que fazer outra coisa pra sobreviver, rsrsrsr.
Eduardo. Olha, como Roberto foi (e ainda é) a minha principal
referencia como músico, o som que ele ouvia (e trazia muitos LPs da Europa) era
o mesmo som que eu acabava ouvindo. Ou seja, música de ótima qualidade. Canções
e músicas instrumentais. Elis Regina, Egberto Gismonti, George Benson, Michel
Petrucciani, Paralamas do Sucesso, Chick Corea, Tom Jobim, Chico Buarque, Pat
Metheny, Oscar Peterson, Ivan Lins, Djavan, entre centenas de outros... Tudo
que ouvimos naquela época reflete na bagagem musical do Duo Taufic.
2112. Entre os muitos discos ouvidos...
quais deles foram essenciais para o crescimento de vocês como músicos?
Eduardo. Acho que não temos predileção quanto
aos álbuns ouvidos por nós, todos foram muito especiais, necessários e influentes.
2112. A cena instrumental no país melhorou
muito com o aparecimento de grandes bandas, festivais e trabalhos maravilhosos.
Ainda não é o ideal... mas está bem melhor se comparado a alguns anos atrás.
Falta apenas a grande mídia apoiar e divulgar a cena. A recompensa final acaba
sendo a fidelidade dos amantes da boa música que compram os cds e vão aos
shows, não é?
Eduardo. De fato, o aparecimento de novos
festivais no Brasil, no ramo de música instrumental, tem dado uma boa
credibilidade na promoção dos músicos e fidelização do público. Certamente, é
uma ótima vitrine pra nós e uma forma de agregar ainda mais nosso público. Não
só os espaços e projetos destinados à música instrumental aumentaram, mas o
número de músicos de alto nível também. Isso nos alegra demais, ver nosso
Brasil produzindo artistas reconhecidos pelo som peculiar e pela beleza de suas
estéticas musicais tão fortes e admiráveis. Quanto aos discos, vendemos sempre
nos shows, o público sempre compra, até como forma de lembrança de uma noite
especial!!!!
2112. Vocês costumam ouvir rádio para
saber das novidades?
Eduardo. Eu e Roberto trabalhamos como
produtor musical, temos estúdio de gravação. Produzimos mais de 600 álbuns de
artistas nacionais e internacionais. Não ouvimos constantemente as rádios, mas
sempre estamos ligados nas boas novidades do mercado mundial, mas só nas boas
mesmo!!!hahahah
2112. Em meio as novas bandas quem mais
chamou a atenção de vocês? Pessoalmente curto muito o Peu Abrantes Trio. Vocês
conhecem?
Roberto. Eu não conheco o Peu Abrantes mas
vou dar uma sacada sim! Tem tanta coisa boa pra ouvir que é difícil acompanhar
tudo. Ultimamente procuro outras fontes de inspiração para a minha música como
a clássica ou a música africana!
Eduardo. Pois é... Muita coisa pra
acompanhar. Com as plataformas digitais de música a gente fica maluco!!!! O Peu
Abrantes com certeza deve ser maravilhoso, vou conferir!!!! No Brasil,
trabalhos como o do Marcus Abjaud, Antonio Loureiro, Felipe Silveira, Cainã
Cavalcanti, entre outros artistas da nova geração, tem me fascinado!!!
2112. Existem pessoas que só ouvem um
determinado estilo de música e eu acredito que um músico só cria seu próprio
estilo quando ele se abre a todos os tipos de sons. Vocês concordam com isso?
Roberto. A música é uma linguagem universal e
o músico é o fruto do que ele escuta no arco da sua vida, desde criança e assim
por diante. Não gosto muito de catalogar a música em estilos, mas a nossa
cultura funciona assim... O Brasil é um celeiro musical incrível, um exemplo
vivo de possibilidades musicais sem limites. Escutar Chico Buarque é fazer um
passeio em vários estilos assim como Jobim, Edu Lobo e tantos outros. Então
você acaba descobrindo universos musicais diferentes. Assim, como essas influência
de sons, achamos o som do Duo Taufic.
Roberto. Com certeza, a minha geração teve a
sorte de crescer em meio a muita música boa. Mais do que orgulho sinto gratidão
pelas pessoas que me apresentaram a MPB, o chorinho e logo após o jazz e o
fusion! Daí em diante, sendo música feita com arte, consumi muitas coisas e,
como músico, sou o fruto dessas influencias!
Eduardo. Idem!!!
2112. Como é a recepção do Duo Taufic no
exterior? Vocês fazem muito o roteiro dos festivais?
Eduardo. O DT é sempre muito elogiado nos
concertos feitos no Brasil e no mundo. Existe uma química entre nós e a nossa
música realmente proporciona aos ouvintes boas sensações. Acho que tocar para
nós é uma terapia e isso passa para o público. A música flui livre de
pensamentos paralelos, passeia pelo público e retorna a nós em forma de
energia... É realmente uma troca muito gratificante! Já tocamos em muitos
festivais e continuamos a receber convites!
2112. Diversas matérias citam a música do
duo como brasilian jazz. Vocês concordam com essa definição?
Roberto. Não concordo absolutamente! Eu na
realidade não consigo rotular o Duo, pois no nosso repertório temos variadas
formas musicais. O que nos caracteriza realmente são as fortes melodias e o
modo como dialogamos com os dois instrumentos! isso não é brasilian jazz! É,
como diz Hermeto Pascoal, MÚSICA UNIVERSAL!!!!!
2112. Pessoalmente sou contra o uso de
rótulos pois restringe a música a um determinado gueto. Isso incomoda vocês?
Eduardo. Na verdade não incomoda, pois quem
nos conhece vai nos ouvir de qualquer forma, rsrs! Quem não nos conhece com
certeza não vai achar o Duo Taufic numa sessão de Axé, Pagode, Rock, etc...
Então estamos tranquilos... O que vimos se aproximar mais do nosso som foram
classificações como MPB, JAZZ, BRAZILIAN JAZZ, CLASSICAL, WORLD MUSIC.
Roberto. Geralmente mantemos a forma original
das composições mas nada impede de mudar repentinamente o que tocamos... Nos
sentimos livres e a confiança que existe entre nós nos proporciona a segurança
necessária para arriscar sempre algo de novo!
2112. O que mais influencia vocês na hora
de compor suas músicas?
Roberto. Não existem regras. O que mais nos interessa quando
compomos é o equilíbrio e o bom gosto, seja melódica ou harmonicamente. O que
acontece é que procuramos sempre a beleza no que fazemos e pra gente é
importante que essa beleza chegue no coração de quem nos escuta... Só assim
damos um sentido à nossa arte!
Eduardo. A influência na hora de compor parte
da soma de experiências vividas na música e na vida. Às vezes tem motivações
fortes, as vezes a música só vem! Outras vezes a gente tem que compor algo na
pressão! Depende demais. Mas estamos sempre prontos a escrever músicas!!!
2112. Sei de músicos que no período de
composição se resguardam de tudo que é externo para não serem incomodado ou
influenciado. Um caso clássico desta natureza aconteceu com Jimmy Page e Robert
Plant do Led Zeppelin que se isolaram no campo para compor o material do que
seria o terceiro álbum da banda. Isso realmente funciona?
Roberto. Bom, essa é uma pergunta difícil de
ser respondida... no meu caso eu preciso do contato com a natureza, ela sim me
inspira muito...Mas para trabalhar a composição, o arranjo, acho que um lugar
silencioso onde possa me concentrar é sempre bem-vindo!
Eduardo. Compor é um momento onde a sua
cabeça está focada em idéias, em buscas, em achar beleza e originalidade
naquilo que está proposto a escrever. O silêncio e reclusão são necessários na
minha opinião, mas alguns imprevistos também podem trazer uma idéia legal à
tona, rsrsrsr.
Roberto. O nosso desejo é levar as nossas
composições ao ambiente das orquestras. Já começamos a elaborar algumas
possibilidades para esse fim e quem sabe o próximo disco do Duo não tenha essa
dimensão!?!?
2112. A música produzida por vocês é ótima
para ouvir no carro, para caminhar, ler um livro, tomar um bom vinho... enfim,
é uma trilha sonora perfeita para quem quer curtir a vida longe do estresse
ouvindo música de qualidade. Parabéns!
Roberto. Obrigado! ficamos felizes por isso.
Diversas mães que compraram os nossos cds nos contaram que as crianças adoram o
nosso som, e não foram poucas as que falaram da reação dos filhos ao ouvir os
nossos cds! Isso nos alegra muitíssimo porque sabemos que as crianças, livres
de filtros, possuem a real capacidade de ouvir e sentir a música.
Eduardo. Muito obrigado! Esse feedback das
pessoas pra gente é o objetivo principal da música que tocamos. É ter um
sentido pra quem nos ouve. Fazer lembrar de momentos especiais, ou sentir
saudade de algo! A música está cumprindo sua missão quando toca alguém. Isso
nos fortalece também e nos mantém na instiga de produzir mais...
Roberto. Os dois discos mencionados nasceram
do desejo da Barbara e da Paula de fazer algo com o Duo Taufic. A nossa forma
de acompanhar é realmente peculiar e para uma cantora é muito bom ser
acompanhada por instrumentos que procuram a beleza do acompanhamento, nesse
caso o violão e o piano formando juntos uma grande orquestra de cores,
dinâmicas e vibrações. Com certeza virão outras vozes e pra gente vai ser um
prazer!
2112. O álbum Tudo Será Como Antes é uma
bela homenagem ao Clube de Esquina. Como foi realizado a escolha do repertório?
Eduardo. A Paula Santoro, que tem família em
Natal (onde moro), veio de férias e nos encontramos. Foi no meu estúdio, e em
uma manhã decidimos que teria tudo a ver gravarmos algo que nos apaixonasse e
que tivesse ligação com as origens da Paula, ou seja, algo de Minas Gerais. Foi
tiro certo!!! Tocamos um pouco das músicas do Clube da Esquina, que estaria
completando 40 anos naquele ano, e ali mesmo nasceram alguns arranjos e
escolhemos parte do repertório. Foi um momento de pura liga, deu certo
demais!!!! E nunca tínhamos tocados juntos, hahahah. A música tem dessas
fascinantes capacidades de aproximar pessoas. Voltando ao repertorio não foi fácil
de escolher entre centenas de perolas produzidas em Minas especialmente durante
o movimento do Clube. Amadurecemos os arranjos e escolhemos o resto das músicas
à distância: Paula no Rio de Janeiro, Roberto na Itália e eu em Natal. Depois
gravamos em dois dias no Rio de Janeiro.
2112. Os shows receberam ótimas críticas o
que comprova a qualidade do repertório, as interpretações ímpares de Paula
Santoro e as belas releituras que vocês deram as músicas. Tem projeto de lançar
cd/dvd dos shows?
Eduardo. Não está nos planos ainda, mas seria
uma boa!!! Existem alguns vídeos de shows no youtube.
Eduardo. Sim, teríamos uma turnê de 2 meses
na Europa, mas em decorrência do corona vírus tudo foi cancelado. Mas esperamos
remarcações de datas. No Brasil, fechando agenda para segundo semestre.
2112. Qual telefone/e-mail para
contratação de shows e aquisição dos cds?
Roberto. Vocês podem acessar nosso site
oficial (www.duotaufic.net).
2112. ... o microfone é de vocês!
Duo Taufic. Primeiramente, gostaríamos de
agradecer ao convite do 2112 em nos entrevistar. E dizer que amamos nosso público
que nos presenteia cada vez mais com mensagens e sensações maravilhosas quando
nos ouve tocar. Isso já é o bastante pra nos manter firmes na arte de fazer
música. Muito obrigado a todos! E teremos novidades nesse próximo mês! Dois
novos clipes serão lançados. Fiquem ligados no site e nas nossas redes sociais.
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