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segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Entrevista Nélio Rodrigues

Esta entrevista era para ter sido feita a dois, mas um dos convidados não respondeu ao convite. Mas o Nélio se esforçou 100% o que garante qualidade qualidade absoluta ao resultado final. O meu muito obrigado a esse grande ser humano e historiador do rock brasileiro.     

2112. Nélio, como você tomou conhecimento da existência dessas gravações ao vivo da Soma após tantos anos? 

Nélio. Através do Marcelo Fróes, que criou o selo Discobertas.

2112. Depois de ouvir o material, qual foi a sua primeira reação? 

Nélio. Foi de surpresa e também de uma contida euforia. Afinal, vivemos num país que não tem (ou tinha) o hábito de preservar e cuidar de sua própria cultura. Por isso, não resta muita coisa do rock brasileiro dos anos 60 e 70 por aí. Portanto, qualquer documento, seja qual for, em papel, em gravação, em disco, que ainda aparece por aí, devemos dar as mãos aos céus.  

2112. As fitas estavam em boas condições?

Nélio. Não tive contato com elas.

2112. O que Bruce Henry achou da intenção de lançar o material? 

Nélio. Ele ficou feliz com o que ouviu e reconheceu algum valor artístico ali. Ao contrário do que pensava sobre o disco de sua primeira banda brasileira, os Outcasts, que achava artisticamente pobre.  

2112. Ele participou com vocês do processo de restauração das fitas e da parte gráfica?

Nélio. Não que eu me lembre. Mas não estou certo disso.

2112. O que foi mais complicado no processo de restauração do material? Foi um trabalho muito exaustivo? 

Nélio. Não sei dizer, já que não participei disso.

2112. O material recebeu overdubs ou tudo foi preservado como foi gravado? 

Nélio. Sem overdubs, tal qual como foi gravado.

2112. O registro traz o set completo do show ou não deu para aproveitar o material todo?  

Nélio. Não. Acho que duas ou três músicas gravadas com a cantora capixaba Cris Portela ficaram de fora por questões burocráticas. E também porque não eram do repertório do Soma.  

2112. Você que teve a sorte de participar de shows da banda me diz como era a Soma em ação? 

Nélio. Infelizmente, só vi o Soma uma vez na vida. Até hoje, considero um dos melhores shows, incluindo os internacionais, que já tive o prazer de ver. Show espetacular. Um set acústico, ao estio Crosby, Stills & Nash, e um elétrico absolutamente espetacular. Nessa época, o Ritchie fazia parte da banda. Era como se estivesse vendo uma das grandes bandas norte-americanas daquela época.  

2112. Junto ao material ao vivo foram incluídas quatro faixas de estúdio que foram lançadas na obscura coletânea Barbarella lançada pelo selo Red Bird Records em 1971. Você sabe informar se esse material chegou a ser lançado no exterior como era o projeto original? 

Nélio. Na edição original que tenho não tem nenhuma faixa de estúdio. Desconheço a existência de qualquer disco lançado no exterior que tenha essa faixas de estúdio do Soma.

2112. No Brasil foi lançada pela CID em 1971. A coletânea obteve algum sucesso entre o público e tocada nas rádios? 

Nélio.  A banda não tinha contrato com a CID, que apenas cuidou da distribuição do disco. Que eu me lembre, não aconteceu nada com esse disco. E sequer havia indicação de que se tratava de uma banda brasileira, ali no meio dos artistas internacionais que faziam parte da coletânea. E também não saiu uma linha sequer nos jornais e revistas da época.

2112. Essas faixas de estúdio foram remasterizadas? 

Nélio. Acho que o Bruce andou remasterizando, sobretudo porque uma das faixas faz parte da trilha do filme “1972”, que foi lançada em CD.

2112. Após o lançamento da coletânea a banda se apresentou no Festival de Guarapari que gerou essas gravações. Você presenciou a apresentação da banda? 

Nélio. Não. Só li alguma coisa sobre o festival em jornais e revistas da época.

2112. É verdade que o pagamento da banda foi em maconha? 

Nélio. Bem, quem me contou isso foi o Renato Ladeira ou o Arnaldo Brandão. 

2112. A banda precisou dividir o alojamento com os integrantes da banda A Bolha? Saberia dizer se aconteceu alguma jam session entre as duas bandas? 

Nélio. Sim, as duas bandas ficaram no sítio de um dos organizadores do festival. Não fizeram nenhuma jam, só fumaram muita maconha. 

2112. Na contra capa do cd mostra que houve lançamento em vinil com a inclusão de letras e ilustrações. Porque o encarte do cd não incluiu as letras e fotos da banda?  

Nélio. Tenho o vinil original e nunca vi o CD. No vinil tem apenas o inner sleeve com um texto meu, de um lado, e do outro a relação das faixas de cada lado do LP, e de seus autores. Não tem foto da banda, até porque nem o Bruce tinha alguma disponível pra ser usada no disco. 

2112. O seu livro Histórias Secretas do Rock Brasileiro é a única fonte de informação sobre a Soma. A banda era tão underground assim ou a imprensa da época não estava interessada? 

Nélio. A imprensa da época não dava muito espaço para o rock brasileiro Saia alguma coisa, mas nada que se compare com a cobertura que o rock brasileiro dos anos 80 teve.

2112. Na sua opinião, porque a banda não vingou? Você como eu acredita que a Soma estava à frente do seu tempo? 

Nélio. O Soma, como muitas outras bandas daquela época, não estavam nas rádios e não apareciam na televisão. E pouca coisa saia nos jornais e em revistas que abriam um mínimo de espaço para as bandas do rock underground brasileiro. Quando fui ver o Soma com um amigo, eu pouco sabia sobre eles. Talvez por isso tenha sido surpreendido com o show que apresentaram. Depois, como se manter como uma banda com shows esparsos exclusivamente no Rio. Muito difícil viver de rock nessas circunstâncias. Por melhor que a banda fosse. 

2112. Acredito que se banda tivesse a sorte de ter assinado com um grande selo e com um bom trabalho de marketing a história seria outra, você não acha? 

Nélio. Muitas bandas excelentes, como A Bolha, o Liverpool (depois Bixo da Seda), Os Lobos, o Módulo 1000, o Som Nosso de Cada Dia, entre outras, não conseguiram ir muito longe. O rock brasileiro ainda pertencia a um gueto. Tinha contra si o rock inglês e o norte-americano, o samba, a MPB, a música nordestina, o desinteresse das grandes gravadoras e por aí vai. Fora dele, só Rita Lee, Raul Seixas e Erasmo. Os Mutantes e O Terço foram as únicas que alcançaram um sucesso relativo em boa parte do país e conseguiam encher ginásios onde quer que fosse. O resto, nadava conta a corrente o tempo todo.

2112. Obrigado pela entrevista. ... o microfone é seu!

Nélio. É sempre bom lembrar que existia rock no Brasil antes dos anos 80.

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