2112. O que mais o influenciou na decisão de ser músico?
Wilson Ricoy. Minha família sempre gostou muito de música e ela sempre esteve presente em casa. Meu pai amava Tango e as Big Bands do Jazz, como Glenn Miller, Duke Ellington e Tommy Dorsey. Meu irmão adorava a "Santíssima Trindade" do Hard Rock, Deep Purple, Black Sabbath e Led Zeppelin. Minha irmã me mostrou The Beatles, Rolling Stones, The Hollies e por ai vai. Mas o que me deu aquele "empurrão" para ser músico foram mesmo os filmes do Elvis Presley e o seriado The Monkees, que eram exibidos da TV quando eu era criança.
2112. Em 1980 você inicia seus estudos sob influências de Eric Clapton, B.B. King, Stevie Ray Vaughan e bandas como Deep Purple, Led Zeppelin e Rolling Stones. O que você procurava além do desejo de ser tornar músico profissional?
Wilson. Comecei a estudar a sério mesmo em 1988. Pra falar a verdade, eu só queria tocar como esses caras e me divertir no processo... rs. Mas conforme fui estudando e entendendo o que esses caras faziam, o desejo de ser músico profissional foi aflorando cada vez mais e esse desejo foi fundamental para que eu me aprofundasse ainda mais nos estudos.
2112. Hendrix por exemplo era autodidata e influenciou e ainda influencia diversos guitarristas. A técnica é realmente necessária ou o feeling sempre fala mais alto?
Wilson. Como também dou aulas, eu sempre vou defender que o conhecimento é necessário, bem como manter a técnica em dia, para que você possa executar aquilo que seu coração manda. Se você depende apenas do feeling, você vai ficar refém de estar bem naquele dia ou não. George Lynch, guitarrista da banda Dokken disse em uma entrevista que tinha uma certa inveja de guitarristas que possuíam conhecimento formal, pois ele se sentia muito dependente de estar ou não com inspiração para tocar. Quando estava sem inspiração, não saia nada. Eu continuo buscando a mistura perfeita entre feeling e técnica para que eu possa me expressar devidamente no instrumento. Acho que esse é o Santo Graal de cada guitarrista.
2112. Wilson é muito difícil achar uma linguagem própria de tocar?
Wilson. O sonho do guitarrista é encontrar a sua "impressão digital", quando você ouve duas ou três notas e já identifica quem está tocando. BB King e David Gilmour são ótimos exemplos. Miles Davis também. Como nós sempre nos espelhamos em alguém quando começamos a tocar, é um caminho árduo encontrar um estilo próprio. Eu sigo tentando. Nunca gostei muito, por exemplo, de tirar solos nota por nota. Prefiro entender o raciocínio do solo e eu criar os meus caminhos. Já existe um Stevie Ray Vaughan. Já existe um Eric Clapton. Eles já trilharam os caminhos deles e eu acho que tenho que criar o meu, para que eu possa seguir desenvolvendo meu estilo e linguagem.
2112. ... com o advento dos home studios cada vez mais sofisticados gravar um disco em casa é uma realidade que facilita bastante a vida do músico. Como produtor qual a sua visão sobre essa nova realidade?
Wilson. Acho que isso democratizou a possibilidade de que
nossa música alcance lugares antes inimagináveis e sem a necessidade de fazer
parte de um elenco de gravadora. Você sobe sua música hoje em qualquer
plataforma e logo tem comenários do pessoal da China, da Croácia, da
Argentina... isso é muito louco! Sou muito a favor da utilização dos home
studios, seja para a gravação de demos ou mesmo de álbuns inteiros. Conheço
vários casos de álbuns bons e que foram gravados em um quarto. Temos que
aproveitar a tecnologia a nosso favor, sem purismos, na minha opinião.
2112. Que conselhos daria aos músicos que pensam em
gravar mas que não tem experiência com estúdio? O que é mais necessário eles
saberem antes de gravarem?
Wilson. Momento polêmica... rs. O primeiro passo é saber que, se você vai participar de uma sessão de estúdio, seja ensaio ou gravação, chegue com a sua parte pronta. Isso mostra respeito com os integrantes da banda. A sua parte você deve resolver em casa e chegar pronto no estúdio, onde serão discutidos detalhes do arranjo e entrosamento entre os instrumentos. Não importa se é um estúdio profissional ou um home studio, como já falamos. A regra número 1 é essa. Outro ponto é você tocar relaxado e com foco. A tensão e a distração te levam ao erro. Relaxe e seja você mesmo durante a gravação. Por isso a preparação prévia é essencial. Se você chega preparado, nada vai te abalar e você pode ficar calmo e confiante.
2112. Neil Young por exemplo comentou que ele e o Crazy Horse gravam tudo ao vivo muitas vezes num único take para preservar um clima mais próximo possível de suas apresentações. O que você acha disso?
Wilson. Sou super a favor. Mas é muito importante que a banda esteja muito entrosada e se conheça muito bem, para que o processo seja realmente produtivo, eficiente e eficaz. Sempre defendi também que o álbum deve sempre refletir aquilo que a banda vai fazer no palco. Não faz sentido, na minha opinião, você colocar no disco um quarteto de cordas e um naipe de metais, por exemplo, se, ao vivo, você toca em trio...rs.
2112. Você estudou no Instituto de Guitarra e Tecnologia (IG&T) com o lendário Wander Taffo e acabou mantendo contato com vários nomes da guitarra. Isso de uma certa maneira te influenciou?
Wilson. Minha vida como músico e estudante de guitarra se divide entre antes e depois do IG&T. Sem dúvida alguma foi um marco na minha vida. Além do conteúdo excelente ministrado pela escola, ter aulas e contato direto com monstros como Márcio Okayama, Wanderson Bersani, Edu Ardanuy, Mozart Mello, além do próprio Wander Taffo, estar no IG&T elevou meu nível de tocar e minha vontade de me aprofundar nos estudos. Nessa época, tinha aulas aos sábados pela manhã, mas passava o dia todo na escola, usufruindo de toda estrutura que a escola oferecia, além de pegar dicas com esses grandes nomes da guitarra em cafés e papos informais. Nessa mesma época, através dos workshops organizados pelo IG&T, tive contato direto e pude conversar com outros grandes expoentes do instrumento como John Petrucci (Dream Theater), Paul Gilbert (Mr. Big), Steve Morse, Roberto Frejat, Herbert Vianna, entre outros. Foi uma época de ouro, que fez com que eu me apaixonasse ainda mais pelo instrumento.
2112. Acredito que o interessante do estudo é o contato direto com outros ritmos que vai além dos que estamos acostumados a ouvir por negligência ou preconceito. O que você ouve hoje que não ouvia antes?
Wilson. Excelente observação. Quando você começa a entender melhor o instrumento, você deixa um pouco seu gosto pessoal de lado e começa a abrir os olhos quando percebe um trabalho musical (não apenas de guitarra) bem feito. Hoje em dia ouço um pouco de tudo, sem preconceito, desde que seja música de verdade e bem tocada. Isso me fez prestar atenção em excelentes guitarristas que, até então, não estavam no meu radar, como Ricardo Silveira (João Bosco), João Castilho (Djavan), Claudio Venturini (14 Bis) e Toninho Horta (Milton Nascimento). Atualmente estou estudando com o grande André Christovam que, apesar de ser uma das minhas maiores referências e influências no Blues nacional, tem um conhecimento de MÚSICA (em letras maiúsculas mesmo) absurdo. Na discografia recomendada por ele durante nossas aulas, tomei contato com nomes como Kenny Burrell, John Scofield, Albert Lee, Bill Frisell, Robben Ford, Pat Metheny, além de outros instrumentistas, como Stanley Turrentine (saxofonista), Miles Davis (trumpete) e John Coltrane (saxofonista), só pra citar alguns.
2112. Essa diversificação musical ajuda na hora de criar o próprio estilo?
Wilson. Sem dúvida alguma! A audição e estudo da linguagem (e do "sotaque") além do universo do Blues e do Rock, contribui para aumentar a minha versatilidade e colabora muito com o desenvolvimento da minha própria linguagem, juntando todos esses "ingredientes" para que eu possa fazer a minha própria "receita"... rs.
2112. Você tem algum álbum de cabeceira?
Wilson. Pergunta cruel...rs. Tenho vários. Vou citar alguns que ouço com muita frequência: Burn e Made In Japan (Deep Purple), Mandinga (André Christovam), Som na Guitarra e Marginal Blues (Celso Blues Boy...outra grande influência), Sinatra At The Sands (Frank Sinatra), Completely Well (BB King), Images & Words (Dream Theater), Just One Night (Eric Clapton com Albert Lee) e Stone Crazy (Buddy Guy).
2112. Ao longo dos anos você participou de diversos projetos autorais. O que essas experiências te acrescentou ou mudou a sua concepção musical?
Wilson. O autoral permite que você possa colocar sua história e seus sentimentos para fora. Acho sensacional a maneira como André Christovam faz isso com maestria e ele é sempre uma grande inspiração para mim. A grande vantagem do autoral é justamente a liberdade criativa, onde você pode utilizar todo o seu background e criar algo novo, como se fosse um artista a pintar uma tela em branco. É uma experiência muito prazeirosa quando você executa a sua própria música ao vivo e vê a plateia interagindo e cantando. Isso não tem preço!
2112. Você sempre trabalhou como músico contratado ou já teve as suas próprias bandas?
Wilson. As duas coisas. Porém são experiências totalmente distintas. Quando você é um sideman (músico contratado), você precisa entender muito bem o seu papel e entender que você não é o artista principal e deve ficar restrito a executar aquilo para o qual te contrataram, a não ser que o próprio contratante te peça algo diferente. Nas minhas próprias bandas, a liberdade de ideias e expressão são bem maiores, além da responsabilidade de ser o responsável por tudo: fazer o papel de empresário, motorista, roadie... tudo ao mesmo tempo agora... rs. Em ambas as situações, saber conversar (pessoal e musicalmente) com os demais músicos é essencial. Nem sempre o holofote está sobre você e entender seu papel, seja contartado ou em banda prórpia, é essencial para ser bem sucedido.
2112. Existe registros dessas bandas?
Wilson. Infelizmente são bem raros, mas tenho alguma coisa, sim. Além do meu próprio canal do YouTube (https://www.youtube.com/@wilsonricoy), tenho algumas coisas registradas nos canais da Blended Blues Trio (https://www.youtube.com/@blendedbluestrio) e da Night Shakers (www.youtube.com/@bandanightshakers7274). Além disso, você pode encontrar o primeiro som autoral da Blended Blues Trio no Spotify, "Ressaca", que tem a participação do nosso grande irmão Ivan Márcio na gaita (harmônica). Também nas plataforma de streaming é possível encontrar o álbum "Questões Temporais", da cantora Laura Passoni, onde toquei guitarra, violão bandolim, ukulele e baixo, além de também ter produzido e arranjado o álbum em parceria com meu amigo Daniel Santina.
2112. Atualmente você faz parte da Blended Blues Trio e Night Shakers que se dedicam a tocar blues, rock, jazz e soul. Vocês tocam apenas clássicos dos gêneros ou também incluem material autoral?
Wilson. Apesar de grande parte do nosso repertório nas duas
bandas ser composta de versões de grandes clássicos desses estilos, sempre
procuramos incluir alguns sons autorais nossos ou de amigos queridos. A música
"Bebendo Meu Whisky" de autoria do nosso saudoso amigo Tarcísio
"Capitão Caverna" Duarte, por exemplo, está sempre presente nos
nossos shows.
2112. Falando em material autoral, está cada vez mais
difícil achar lugares que abram portas para esse estilo de música. Isso tem
levado muitos músicos a desistirem de tocar material alheio, não?
Wilson. Concordo 100%. São pouquíssimas casa que abrem espaço não somente para o som autoral, mas também para o Blues e Jazz em geral. Acho isso triste. Se vem algum músico de Blues ou Jazz consagrado, a casa fica sempre cheia. Ou seja, o público para o estilo, existe. Precisamos vencer essa barreira e fazer com que esse público abrace também as bandas nacionais que estão em busca de um lugar ao sol.
2112. Ao tocar material alheio vocês incluem algo além do que está nos arranjos originais?
Wilson. Quase sempre...rs. Como falei anteriormente, nunca gostei muito de copiar as músicas nota a nota. Então, tanto na Blended como na Night Shakers, nós pegamos a estrutura original da canção e trabalhamos em versões que tenham a nossa cara. Além disso, os solos são quase sempre improvisados ali na hora, o que faz com que cada apresentação nossa seja quase única.
2112. Além de músico você ministra aulas. Os alunos são muitos ansiosos para aprender? Eles mencionam projetos de formarem suas próprias bandas? Como você lida com essas situações?
Wilson. Diferente da época que eu cresci, aquela pessoa que chega com o sonho de aprender a tocar para montar a sua própria banda é cada vez mais raro. No meu estúdio, onde dou aulas na minha cidade, cheguei a ter algumas turmas de prática de bandas, onde eu atuava como se fosse um coach, preparando e orientando os músicos para poderem se apresentar de uma maneira apropriada. Com o tempo, abandonei esse projeto por falta de interesse das pessoas. Hoje em dia, meus alunos são, em sua maioria, pessoas que já tem outra profissão, digamos, formal e não querem ser os próximos Jimi Hendrix ou Eddie Van Halen, mas sim que querem tocar bem o instrumento apenas como hobby ou formar bandas amadores com amigos, apenas por diversão.
2112. Ser profissional de música no país é como matar não um dragão por dia. Falta apoio do público, locais adequados, cachês dignos, abrir mão de tocar material autoral por covers etc. Mas as pessoas tendem a glamourizar muito a profissão de vocês, não é?
Wilson. Aqui a frase "todo mundo vê as pingas que eu tomo, mas não vê os tombos que eu levo" é uma analogia perfeita para a profissão de músico. O que as pessoas veem no palco, é o produto final. Mas ninguém vê os bastidores que você mencionou. Não sabem de quanto tempo e quanto você investiu para estudar e se preparar muito para estar no palco. O quanto você investiu para ter um equipamento bom, para que a plateia tenha um som de qualidade. A remuneração quase nunca é adequada. Preciso ter outras fontes de renda, além de ser músico, para poder equilibrar meu custo de vida. That's life, como já dizia Frank Sinatra... rs.
2112. Como entrar em contato para estudar com você? As aulas são presenciais ou on line?
Wilson. As pessoas podem entrar em contato comigo diretamente pelo WhatsApp (12) 98155-0164. Dou aulas presenciais aqui no meu estúdio ou online para qualquer lugar do planeta... rs. Tenho método próprio chamado "Guitarra Sem Stress", com aulas e cronograma de estudo 100% personalizado para o aluno, de acordo com seu nível de conhecimento e disponibilidade de tempo para estudar. Esse método foi desenvolvido com base em todo o conhecimento que adquiri não apenas no IG&T, mas também fazendo aulas particulares com nomes como Marcos Ottaviano, Amleto Barboni, Lancaster Ferreira e Daril Parisi (Platina), além do próprio André Christovam. Meu estudos sobre fisiologia e psicologia também foram aplicados nesse método, para que ele seja o mais eficiente e prazeiroso possível para o aluno.
2112. Muito obrigado por ceder um pouco do seu tempo para me conceder essa entrevista. O microfone é seu...
Wilson: Carlos, te agradeço demais pelo espaço para falar um pouco mais sobre esse instrumento que eu amo tanto e poder compartilhar minhas experiências com seu público. Ficarei feliz se minhas palavras puderem ajudar alguém a iniciar, continuar ou mesmo retomar seus estudos. Meu conselho, o mesmo que minha mãe me deu há muito tempo atrás, é continue tocando! Não subestime o poder de cura que a música tem. Música faz bem para a alma! E, caso eu possa ajudar nesse processo, contem comigo! Grande abraço, pessoal...e keep playing!




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