2112. Recentemente você lançou Além da Poeira seu terceiro álbum solo. Como você o definiria para as pessoas que ainda não conhecem o seu trabalho?
Celso. Então, esse meu terceiro disco que o Além da Poeira é um ep com seis faixas e é o terceiro álbum, né? Que estou fazendo é uma trilogia que começou com Doze Idosos de Veneno em 2021 o álbum Veja no ano passado e agora Além da Poeira é como vou dizer. É um disco como vou dizer que traz as minhas referências que vão do rock clássico, hard rock, blues e um pouco de influências daquelas baladas folk, né? Assim ele está um álbum bem anos 70 com influências do Led Zeppelin e alguma coisa do Iron Maiden estão presente nesse último trabalho. Talvez só a primeira faixa que se chama Vexames que lembre um pouco aquele rock brasileiro dos anos oitenta principalmente Barão Vermelho ainda com Cazuza tem essa pegada anos oitenta.
2112. Perguntei isso levando em conta a arte da capa que me soou bem, bem blues. A intenção era essa ou foi apenas uma coincidência?
Celso. Não, a capa não tinha essa intenção de ser bem blues mas acabou sendo uma coincidência, né? Aquela coisa meio Robert Johnson, Crossroads ficou bem bacana essa idéia da capa. A idéia dessa foi do meu produtor musical Alex Maldini. Ele me mostrou vários modelos então assim o mais bacana aí ficou essa. Alguém tipo como se fosse eu andando uns trilhos caminhando ou indo ouvindo lá longe uma poeira. Tem tudo a ver com a idéia do título e da música.
2112. O álbum traz seis faixas autorais. O que mais te influencia na hora de compor as músicas ou escrever as letras?
Celso. Este é um disco com seis faixas, todas autorais mas são de fases
diferentes. Por exemplo, a faixa de abertura Vexames é a música que a gente
compôs no ano passado eu, o Yuti e o Maldini. Veio a idéia de uma letra na
cabeça eu passei pro Yuti. Ele complementou a idéia, fez a música e o Maldini
deu um toquezinho também na letra. É uma música bem recente. O processo de
composição eu componho de várias formas. Eu posso começar com uma letra ou de
repente alguma coisa no violão de algum fato que ocorreu comigo que passa pela
minha cabeça. É muita coisa, são muitas influências pra escrever. Então a idéia
que vem no momento eu procuro sempre anotar e depois eu vou dando uma lapidada
nela.
2112. Como foi o processo envolvendo gravações, mixagem e masterização? Você
mesmo produziu o álbum?
Celso. Então, esse disco a gente começou a gravar ano passado novamente no estúdio do Maldine. A produção novamente foi dele e eu dei uns toques tipo eu quero isso, eu quero aquilo. A produção executiva foi dele e a produção artística em parte foi minha e dele, entendeu? A gente chegou sempre num consenso do que eu queria pras músicas quero essa com uma pegada assim, quero uma pegada mais assim. As músicas já existiam como eu falei de várias épocas, umas mais recentes, outras mais antigas mas a idéia central sempre foi fechar essa trilogia de músicas autorais que fosse um disco mais puxado pro hard rock e o blues está lá implícito talvez até na faixa vexame tem um pouco dessa idéia do blues. Mas a idéia é aquelas minhas influências principalmente do Led Zeppelin está muito forte que amo muito. Eu sempre gostei das misturas que eles fizeram, da evolução que eles tiveram. Então vi que esse disco a maioria das músicas tem a ver com essa pegada, com esse pensamento, né? Essa idéia do tipo de som que eles fizeram lógico guardada as devidas proporções. Não estou me comparando a eles mas eles como influência, não só ele mas o Rush, o Iron Maiden... essas bandas que faz um som mais pesado mas com a minha característica principal que eu sempre quis unir um som mais pesado com as letras que tem aquela coisa da estética poética que eu sempre vi no Cazuza, no Renato Russo, no Caetano Veloso que também são outras influências minhas.
2112. O álbum assim como o anterior traz alguma participação especial?
Celso. É esse disco ele traz mais algumas participações especiais. A mais conhecida é o Ricardo Palmeira, guitarrista que tocou com o Cazuza, João Penca e os Marquinho Amestrados, Adriana Calcanhoto... ele é irmão do Zé Palmeira que foi baixista do Barão, tem também a cantora mineira Sandra Grego que tem um trabalho autoral muito bacana e quem puder procure ouvir o disco dela A Fome de Viver e tem também um amigo meu de longa data o Leonardo Morais, guitarrista que hoje mora na Europa. É um cara que tinha uma banda de rock chamada Monocarma que tinha um som que tinha muita influências da banda Grand Funk Railroad. É um puta guitarrista. São essas três pessoas, três amigos que me deram essa moral nesse disco fazendo a participação especial. E eu gostei muito.
2112. Este ano você completa vinte e quatros anos de carreira. O que mais te influênciou a ser músico?
Celso. Cara, vinte e quatro anos como músico autoral do underground, né? Eu
comecei lá atrás com o Antônio Bastos e Marcelo Ferraz na minha primeira banda
e o Alma da Noite era uma coisa despretensiosa. Mas como sempre gostei de
escrever com a banda eu passei a aprender compor então eu fui pegando gosto
pela coisa. O que mais me influenciou a fazer música foram essas bandas de
rock, né? O Led Zeppelin, os Beatles, o Barão Vermelho, o Jimi Hendrix, Janis
Joplin e o rock brasileiro dos anos oitenta. A MPB também. Gosto muito do
Caetano, do Gil, Belchior, Chico, Gonzaguinha... essa turma toda que tem um
texto muito forte e eu acho muito importante a música que tenha um texto que
seja forte, que não seja só uma letra por estar ali para compor a música, tem
que fazer você pensar, fazer você rir, chorar e se divertir também. Então eu
acho o texto é uma coisa muito importante na música e essas são minhas maiores
influências.
2112. Você poderia falar um pouco sobre o Alma da Noite sua primeira banda? Vocês faziam apenas covers ou já compunham material autoral e quem fazia parte da banda?
Celso. Então, o Alma da Noite começou em dois mil e dois exatamente. O dia vinte de outubro de dois mil e dois fizemos o primeiro ensaio. Eu trabalhava numa gráfica por quarenta anos, né? E lá tinha um amigo que dizia que era baterista e tinha um outro de dezessete anos, o Marcelo Ferraz que dizia que era guitarrista e eu fiz amizade com um cara que era colecionador de música e era baixista chamado Antônio Bastos. Eu ja tinha registrado um livro de poesias na Biblioteca Nacional chamado Peso das Palavras. Dei uma cópia para ele e ele falou assim: "Pô gostei muito das seus poemas, vamos fazer uma banda". Aí eu falei: "Nunca tinha cantado em banda nenhuma só assim em bares da vida tipo karaokê." Eu nessa turma de malucos começamos a ensaiar e que eu me lembre, breve só tinha uma cover que a gente tocava que era Soldados da Legião Urbana. O resto era tudo música que a gente compôs umas oito a dez músicas e aí era esse o repertório dos ensaios. Aí em 2013 ele saiu da banda e aí a gente colocou um outro amigo para segurar ali o baixo porque a gente não queria acabar com a parceria com o Antônio Bastos. Ele foi morar no Rio de Janeiro e eu moro em Niteroi e ele resolveu montar uma outra banda lá e queria que eu fosse o vocal e a gente continuasse com a parceria. Aí eu me dividi entre as duas bandas o Alma da Noite e a banda Trilha. Então algumas músicas que eram do Alma da Noite foram para a Trilha e uma ou outra ficou e eu e o Marcelo Ferraz passamos a compor pela primeira vez. Ele também nunca tinha feito música e então passamos a compor algumas músicas para o Alma da Noite. Então fiquei dividido entre as duas bandas.
2112. Existe alguma gravação ou vídeo desse período?
Celso. Então, eu tenho muitas gravações do Alma da Noite em vídeo e em áudio. A
gente chegou a gravar um cd demo com três faixas tá guardadinho e bacaninha. Um
dia desses aí eu posso lançar ele se houver interesse de alguém em ouvir, né? E
o Alma da Noite durou até dois mil e dezesseis.
2112. O que te levou seguir carreira solo? A banda continua na ativa?
Celso. O Alma da Noite foi até dois mil e dezesseis e A Trilha começou em dois mil e três e foi até mais ou menos dois mil e treze. Aí eu com o baterista que tocava no Alma da Noite o Sardinha montamos a banda cover Plano Z. Então a gente passou a tocar apenas covers. Só que nessa época eu já tinha gravado o primeiro single que iria em entrar no (Dois Olhos Veneno) Pátria Amada minha, da Renata Mendes e do Alex Mendes Benjamin. E a gente ia participar de um festival que eles queriam que tocasse cover mas queriam que eu tocasse algum autoral. Então eu botei essa música no festival com essa banda Vamos Ver e fomos finalistas, ficamos em segundo lugar no festival aqui em Niterói e eu queria botar mais músicas minhas na banda só a banda não queria cover falavam que autoral não dava certo, que ninguém queria ouvir. Então eu saí da banda e falei que quando arrumasse uma grana eu iria gravar o meu primeiro disco solo.
2112. Que banda ou álbum mudou a sua maneira de enxergar a música de uma maneira mais ampla?
Celso. Cara, as bandas e os discos que me fizeram cair de cara no rock em 1985 com dezenove anos foram duas: o Led Zeppelin IV e o Sgt. Pepper’s dos Beatles. Eu ouvi os dois discos no mesmo dia, num sábado à tarde na casa de um amigo que a gente trabalhava junto e ele ouvia rock e sempre me falando. Fui almoçar na casa dele, a mulher dele preparou um almoço bacana aí tomamos uma cerveja e ele foi me mostrando os discos e contando histórias. Ali na hora eu falei: Caraca, é isso que eu quero. Esse tipo de música que eu quero ouvir pro resto da vida, é o rock'n'roll.
2112. Em 2021 você lança seu primeiro álbum solo. Como foi colocar esse sonho em prática?
Celso. Então, o meu primeiro disco o Dois Olhos Veneno a gente começou a gravar durante a pandemia ou seja eu tinha acabado de me aposentar, tinha recebido uma grana então falei: Porra, agora vou realizar o meu sonho de gravar o meu primeiro disco como eu quiser, com as músicas que eu quiser, né? Eu tinha muita música das duas bandas e coisas que eu fazia sozinho. Então selecionamos o material eu e alguns autores o Antônio Bastos, o Marcelo e a produção eu deixei a cargo do Alex que eu confiava e a gente já tinha gravado o Pátria Amada que era um single, né? Foi o primeiro single que a gente gravou inclusive ela entrou no álbum como faixa bônus. Foi um trabalho difícil porque eu sou de Niterói e ele mora em Ricardo Albuquerque. O estúdio é longe, então durante a pandemia várias vezes tinha que pegar ônibus, pegar trem, ensinar as músicas, botar a voz, marcar com o baixista Antônio Bastos, com o Marcelo que também era parceiro em outras faixas. E eu falando: Ó essa música aqui eu quero um teclado, essa aqui quero isso, quero outro e o disco demorou praticamente um ano pra ficar pronto, né? Entre todo tipo de produção eu acho que valeu a pena.
2112. Você compôs o material todo sozinho?
Celso. Eu compus o disco todo sozinho. Nesse terceiro disco duas músicas eu compus sozinho que eram músicas antigas: Coisas que você nunca diz e Homem Pássaro. As duas foram compostas em dois mil e nove. Eu estava passando por um problema sério... minha mãe estava doente e crise no casamento. Daí eu me tranquei no quarto e comecei a escrever. Peguei o violão aí saiu essas duas músicas quase que simultaneamente. As outras quatro faixas é uma parceria com um grande amigo que faleceu há dois anos atrás com o Bernardo que se chama Abaixo do Radar e a que dá nome ao disco Além da Poeira que é uma parceria antiga com o guitarrista Alex Maldinho que também fez uma participação nela. Vexame é minha, dele junto com o Maldine. Então essas são quatro parcerias e duas são só minhas.
2112. O segundo álbum veio com participações de peso como Guto Goffi e Rodrigo Santos do Barão Vermelho, Mauro Frejat da extinta Aerosex, Sérgio Serra ex Ultraje a Rigor e Da Chama ex Cidade Negra. Como foi reunir essa turma toda?
Celso. O primeiro disco a galera gostou bastante e então eu me animei e aí falei vou fazer o segundo e aí teve todas essas participações. Então era realmente aquela auto-afirmação que você fez no primeiro. A galera fica esperando que o nível é meio parecido e acredito que teve no segundo e o terceiro também. O terceiro eu acredito que um disco mais parecido com o primeiro de que o segundo. O segundo eu coloquei umas coisas um pouco mais diferente para não ficar aquele mesmo padrão: rock, blues e hard, né? A música Tudo por Você é uma baladinha e Achado Imperdível é meio anos setenta. Então eu achei que no segundo eu deixei um pouquinho mais hard. Mas eu gosto muito deste segundo álbum.
2112. O segundo álbum sempre gera uma grande expectativa em relação ao anterior
e para muitos a afirmação do artista. Qual a sua visão sobre o assunto?
Celso. O segundo disco ele já teve essa galera aí que participa porque sou fã
do Barão Vermelho desde os anos oitenta e eu acabei fazendo amizade com os
caras, né? Então com o Guto, o Rodrigo Santos e o Cezinha que é irmão do
Peninha que também é percussionista. Aí o meu amigo Lula Zepeliano fez o
convite que também é fã deles. Ele perguntou se eles não queriam dar uma moral
no segundo disco do Madruga. O Mauro eu conhecia desde a banda Aerosex e aí ele
topou. O Sérgio Serra eu tinha mandado o meu primeiro álbum e aí ele adorou e
ficamos amigos. Fizemos até uma parceria chamada Ventania e o Da Gama é amigo
do André Rosa um parceiro musical de Belo Horizonte que escreveu o livro
Saudosos Anos Oitenta. Fizemos algumas parcerias que estão no segundo disco e
aí ele convidou o Da Gama, do Cidade Negra. Então foi tudo na base da amizade.
Foi assim prá lá de especial... foi uma seleção brasileira do rock que eu
consegui reunir nesse segundo disco e eu fiquei muito honrado.
2112. Hoje existe uma escassez cada vez maior de shows para artistas independentes. Como você lida com isso?
Celso. Eu acho que de dez, quinze anos para cá o espaço para nós artistas independentes ficou muito reduzido. As pessoas não querem ouvir novidades. Você vê muito show de bandas covers e não de bandas autorais. Quando eu comecei na noite em dois mil e dois a gente fazia praticamente autoral e colocava uma música do Barão Vermelho, uma dos Titãs, né? No máximo o resto eram músicas autorais e a gente passou a mostrar o nosso trabalho como algumas de outras bandas também. Então as bandas que ainda existem continuam apostando no repertório clássico que elas têm. Os espaços para o rock diminuíram muito aqui em Niterói e no Rio de Janeiro. Eu acho que o meu trabalho será consumido mais pelas plataformas digitais e mesmo pelo cd que eu ainda fiz. Então o show presencial que deu uma caída legal assim como para a música autoral. O negócio é continuar tentando.
2112. Que conselhos você a quem pensa em seguir a carreira de músico atualmente?
Celso. Cara, conselho é uma palavra assim que eu não gosto. Mas uma dica que eu diria é que se você é músico autoral e gosta do que faz, cara corre, corre atrás, grava, faz uma demozinha ou se tiver uma condição melhor faz um albunzinho maneiro. Se você é adepto das plataformas digitais use para divulgar. Se puder faça um clipezinho de apresentação da música que você gosta, coloca pra divulgar e cai dentro. Em primeiro lugar você tem que satisfazer a você, né? Quando eu comecei a gravar o meu primeiro álbum eu falei vou fazer esse disco para mim se alguém mais gostar eu já estou no lucro. Mas em primeiro lugar ele tem que ficar a minha cara como eu ouço, como eu penso, como eu acho que a música deve ser feita.
2112. Uma última pergunta: Você acha essencial para um músico ou banda
iniciante a gravação de singles ou de um álbum? Qual a sua opinião sobre
isso?
Celso. Eu acho que o músico iniciante se ele tem muitas idéias, eu acho uma boa
ele gravar um álbum sim. Mas se ele está começando, está inseguro, pega duas ou três músicas escolhe as que ele
acha mais forte do trabalho, grava um single e solta para ver o feedback. Eu
acho que é meio por aí.
2112. ... o microfone é seu.
Celso. Bom, as minhas considerações finais são que o meu terceiro cd está aí em todas as todas as plataformas digitais desde o dia nove de julho, né? Além da Poeira são seis faixas autorais e é um disco que eu gostei muito da produção do Maldino do resultado final de como as músicas ficaram. Gostei muito das participações dos convidados, né? O Rodrigues que já é meu parceiro, a Sandra Grego que é uma excepcional cantora mineira que vocês tem que procurar conhecer e seguir o trabalho dela; o Leonardo Moraes, um guitarrista que vive na Europa, um grande amigo meu desde a época que a gente tinha banda juntos e o Ricardinho que é uma lenda e já tocou com Cazuza, Léo Jaime, João Penca além de ser um excepcional guitarrista. É uma grande figura humana, cara muito simpático, muito acessível. Então, o disco está aí, sou suspeito pra falar qual música eu gosto mais. Acho que o disco está bem homogêneo, está bem aquilo que é a minha personalidade que é a minha cara que é o rock'n'roll, o hard rock e o blues. Então é isso, abraço em todos, fiquem com Deus e valeu.




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