O blog 2112 foi formado com intenção de divulgar as bandas clássicas de rock, prog, hard, jazz, punk, pop, heavy, reggae, eletrônico, country, folk, funk, blues, alternativo, ou seja o rock verdadeiro que embalou e ainda embala toda uma geração de aficcionados. Vários sons... uma só tribo!



quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Entrevista Luiz Simas

 

2112. Não Fale com Paredes completou cinquenta e quatro anos e ainda hoje ele é objeto de colecionadores mundo afora. Como você explica todo esse culto em torno do álbum?

Luiz Simas. A música do Módulo 1000 era diferente de tudo que se fazia na época. Essa é a melhor explicação...

2112. Ouvindo hoje o álbum qual a sua opinião? Você regravaria alguma coisa ou deixaria tudo como está?

Luiz. Acho que aquele álbum é perfeito para o que pretendia ser. Não haveria razão para se modificar nada.

2112. Na época havia projetos de gravar novas músicas?

Luiz. Não me lembro.

2112. ... mas vocês chegaram a gravar alguma coisa e não deram continuidade?

Luiz. Eu sei que nós gravamos outras músicas, mas não me lembro se todas foram antes ou depois do álbum “Não Fale Com Paredes”. Nós gravamos duas músicas de outros compositores (Sergio Fayne e Vitor Martins), que não eram bem do nosso estilo, para uma apresentação no Festival da Canção no Rio. E mais uma ou outra música que não me lembro mais.

2112. Antes da Módulo 1000 que outras bandas você participou?

Luiz. Antes do Módulo 1000 eu participei de um grupo vocal e instrumental de bossa nova, o “Agora-4”. Fizemos alguns shows no Rio e fomos contratados pela Philips, onde gravamos duas músicas que fizeram parte do LP “Música Nossa”.

2112. A banda surgiu num período bem conturbado com o fim da Jovem Guarda, o surgimento do Tropicalismo, as tensões militares que resultou nas prisões de Gil e Caetano, shows cancelados, instrumentos confiscados, letras censuaradas etc. Como foi criar a banda nesse ambiente de total tensão?

Luiz. Nosso foco era a música, mas é claro que lidávamos com o clima tenso e perigoso do momento. De um modo ou de outro isso influenciou a nossa música.

2112. Vocês chegaram a ter problemas com a censura? Em que momento?

Luiz. Que eu me lembre, o Módulo 1000 não chegou a ter problemas diretos com a censura, mas eu tive alguns anos depois, quando o grupo já tinha acabado. Eu ia lançar um compacto simples pela Ariola, e a música teve que ir para Brasília para obter autorização da censura. Era uma música que não tinha nada, absolutamente nada para ser censurada, mas o processo levou três meses e atrapalhou muito o lançamento do compacto.

2112. Luiz, na época você já conhecia o Eduardo, o Daniel e o Candinho?

Luiz. Eu não os conhecia quando fui chamado para integrar o Módulo 1000, que então viria a ser um sexteto com outros dois integrantes (Zé Bola, vibrafonista - na época o líder do grupo - e Mirna, cantora irmã do Daniel). Eles tinham conseguido um contrato de uma boate em São Paulo, mas o contrato exigia que o grupo tivesse um organista. Eu tinha um pequeno órgão elétrico (um “Eletrocord", e aceitei o convite deles). Foi um chance para eu sair da faculdade de Arquitetura e sair da casa dos meus pais, indo morar com o grupo em São Paulo.

2112. Antes do batismo como Módulo 1000 circulou outros nomes?

Luiz. Antes de eu entrar o grupo se chamava Código 20, mas quando eu entrei já começou a se chamar Módulo 1000.

2112. Qual é a sua formação? Você é autodidata?

Luiz. Comecei a ter aula de piano aos quatro anos de idade, e tive aula particular até os 14 anos. Fiz minha primeira composição aos seis anos. Depois disso fui autodidata, muito influenciado pela música que eu ouvia no rádio. Na minha adolescência me apaixonei pela bossa nova.

2112. Ouvindo o álbum tenho a impressão que o material é fruto de muitas experiências. Como era o processo de criação de vocês?

Luiz. Variava, mas normalmente eu ou o Daniel começávamos um tema e a banda toda desenvolvia.

2112. Em 1970 é lançado o compacto com Big Mama e Isto Não Quer Dizer Nada. Como surgiu o contrato com a gravadora?

Luiz. Se não me engano, essa foi uma gravação que fizemos na Odeon. Big Mama era uma música de Sérgio Fayne e Vitor Martins. Acredito que foi por meio deles que conseguimos o contrato. Já o album “Não Fale Com Paredes" foi gravado pela Top Tape, e o contrato veio por intermédio do diskjóquei Ademir, e do nosso empresário Marinaldo Guimarães, duas figuras muito importantes no apoio da contra-cultura naquela época.

2112. Em estúdio vocês tinham liberdade para criar ou a gravadora pressionava vocês a criarem um som mais comercial que pudesse tocar nas rádios? Qual era o acordo entre vocês?

Luiz. Não havia nenhuma pressão da gravadora, porque eles não entendiam que a gente estava fazendo, e de qualquer jeito nós não aceitaríamos pressão alguma.

2112. O que vocês ouviam na época que influenciou o som da banda?

Luiz. Nós ouvíamos Jimi Hendrix, Steppenwolf, Janis Joplin, Black Sabbath, e outros, mas também principalmente da minha parte: Milton Nascimento, Gilberto Gil, Mutantes.

2112. Em 72 é lançado o clássico Não Fale com Paredes. Que lembranças você guarda do período das gravações?

Luiz. Gravamos num estúdio na Lapa, em condições bem precárias. Eu tinha construido, por exemplo, uma caixa Leslie para o órgão, com alto-falantes rotativos, mas a minha não tinha motor: ficava no banheiro do estúdio e os alto-falantes eram girados manualmente por um de nossos roadies....

2112. Entre as músicas gravadas qual foi mais complicada para chegar ao que vocês queriam?

Luiz. Não me lembro...

2112. Quanto tempo vocês levaram para gravar as nove faixas que compõem o álbum?

Luiz. Não me lembro...

2112. Muitas pessoas classificam o som da banda como psicodélico. Você concorda com isso ou a banda no seu ponto de vista ia muito mais além dessa vertente musical?

Luiz. Na época nós não chamávamos o estilo da banda de rock psicodélico, nem mesmo de rock. Talvez como música experimental, ou alternativa, não sei. Na verdade, a gente não se preocupava em caracterizar o estilo da banda.

2112. O que levou vocês a gravarem o compacto The Cancer Stick / Waiting For Tomorrow sob o pseudônimo de Love Machine?

Luiz. Se não me engano, isso foi uma iniciativa do Daniel. Não sei porquê...

2112. ... era uma tentativa de chegar ao mercado externo?

Luiz. Talvez...

2112. Em 2013 é lançado o single contendo Maybe / Bewitched. Porque vocês não deram continuidade com as gravações e novos shows?

Luiz. ??? Nunca ouvi falar desse compacto. Onde você teve essa informação?  Ou está errado, ou isso foi uma coisa do Danielque se não me engano tinha feito uma ressurreição da banda com outros músicos.  

2112. Na Wikipédia. Mas o que levou vocês a encerrarem as atividades?

Luiz. Falta de perspectivas, falta de lugares para tocar, falta de grana....

2112. Após o fim da banda você se juntou a Lulu Santos, Ritchie, Lobão e Fernando Gamma para formar o Vímana. Como surgiu a ideia de criar a banda?

Luiz. Eu, Fernando Gamma e Candinho (baterista) começamos a formar um trio, e o Fernando teve a idéia de chamar o Lulu, que era amigo dele. Na primeira fase do Vimana éramos um quarteto, e chegamos a nos apresentar assim num grande show com várias bandas no Teatro João Caetano. Mais tarde convidamos o Ritchie (cantor e flautista) e o Lobão (baterista e numa ocasião tocando violão também) para entrarem no grupo (Candinho tinha saído).

2112. Qual era a idéia inicial do projeto?

Luiz. Não tinha idéia especial. A gente queria tocar, fazer músicas e arranjos da melhor qualidade.

2112. O grupo lançou apenas um compacto contendo Zebra / Masquerade que hoje é uma verdadeira raridade. Para muitos o som da banda é uma mistura de progressivo com influência de funk. Era essa a idéia inicial?

Luiz. Progressivo sim. O que chamávamos funk naquela época (não confundir como o funk de hoje) foi uma das influências, mas não a maior.

2112. Existe um bootleg com várias gravações e participações da banda no disco de outros artistas. Você conhece esse álbum?

Luiz. Acho que já vi ou ouvi, sim, mas não me lembro bem.

2112. Vocês nunca pensaram em oficializar esse lançamento?

Luiz. Voce está falando deste bootleg? Não, nunca pensamos nisso.

2112. Porque você saiu da banda?

Luiz. A banda acabou com a saída do Lulu, e ao começar o projeto com o Patrick Moraz, que também acabou não indo à frente depois de 8 meses de ensaio.

2112. Já pensou em gravar um álbum solo?

Luiz. Como assim??? Já gravei vários álbuns solo, você não conhece? New Chorinhos from Brazil, Recipe for Rhythm, Impromptu, Cafuné, Transparências... e outros mais.

2112. Infelizmente não os conheço por falta de informação na mídia. ... vocês nunca pensaram em reunir o Módulo Mil ou o Vímana para alguns shows ou mesmo registrar material novo?

Luiz. Eu só consideraria isso para registrar material novo, mas isso não depende de mim. Duvido muito que todos os outros topariam.

2112. ... o microfone é seu.

Luiz. Ainda curto muito o nosso trabalho nos grupos de que participei, mas meu foco é principalmente no presente, no tempo atual. Convido todos a irem ao meu canal de Youtube (Luiz Simas Music) e ver e ouvir o que estou fazendo agora, especialmente o video para minha música “Canção dos Povos Originários”. E também meus instrumentais “Out of the Blue" e “Out of the Red”, este último uma mistura de Progrock e samba.