O blog 2112 foi formado com intenção de divulgar as bandas clássicas de rock, prog, hard, jazz, punk, pop, heavy, reggae, eletrônico, country, folk, funk, blues, alternativo, ou seja o rock verdadeiro que embalou e ainda embala toda uma geração de aficcionados. Vários sons... uma só tribo!



sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Entrevista Prognoise Pvh

2112. Ano passado vocês lançaram o single Vazio mas nós fãs estamos na expectativa de um novo álbum. O que você têm a dizer sobre isso? 

Alessandro Amorim. De fato, "Vazio" é um single de um projeto que visa trazer para nós e para todo mundo o novo álbum da Prognoise. Além de "Vazio”, nós também lançamos o outro single que é “Todo Sangue”, no final de 2024 e estamos em estúdio gravando o que vai ser, de fato, o novo trabalho da Prognoise. Já temos outras músicas gravadas, estamos finalizando outras... o conteúdo do álbum já está definido e a gente pretende lançar ainda em 2026.  Tem um monte de gente ligado ao progressivo, fãs da banda, pessoal ligado à imprensa, pessoal fora do país que tem nos cobrado isso. Nós também nos cobramos isso. A ideia era ter lançado, de fato, no ano passado, mas por razões diversas, inclusive razões que quem trabalha com música independente progressiva no Brasil entende e sabe da dificuldade. A gente não conseguiu fazer esse álbum para 2025. Então, o plano é lançar esse material no segundo semestre de 2026."

Luciano Duarte. Cara, pode acreditar: ninguém tá mais ansioso pra colocar esse álbum pra rodar do que a própria banda kkkk. A gente tá trabalhando nisso com muito cuidado, experimentando bastante coisa e tentando fazer um álbum que realmente represente o momento da banda hoje. Tá sendo um processo desafiador, mas muito gratificante também. E assim que esse trabalho estiver pronto, a ideia é cair na estrada e tocar essas músicas ao vivo o máximo possível.

2112. O que eu acho interessante no prog é a fidelidade dos fãs seja na compra dos álbuns, na frequência dos shows, na criação de fãs clubes, nas postagens sobre bandas ou álbuns, programas de rádios ou podcast dedicados ao estilo etc. Como você explica todo esse culto em torno do prog nos dias atuais? 

Zeno Germano. Em parte me parece que o fato do estilo vinculado ao metal estar mais divulgado do que antes. Cada vez há mais bandas de prog metal. Outro aspecto deve ser porque muita gente ainda precisa de música de mais qualidade.

Luciano Duarte. Eu acho que o fã de prog costuma ser um público muito atento aos detalhes, mas ao mesmo tempo muito aberto a novas experiências sonoras. E acho isso fascinante, porque permite que o estilo continue evoluindo sem perder a essência. O prog sempre teve muito essa coisa de explorar atmosferas, misturar influências e testar caminhos diferentes. Então acaba criando uma conexão muito forte entre as bandas e o público. O fã realmente mergulha no universo da banda, acompanha álbuns, shows, podcasts, debates… vira quase um estilo de vida mesmo kkkk. E acho muito massa como existe esse respeito pelas raízes do prog, mas ao mesmo tempo uma abertura enorme pra novas ideias e sonoridades.

2112. O Prognoise é oriundo de Porto Velho. Como é a cena rocker em especial o prog por aí? Tem muitas bandas? 

Zeno Germano. Existem muitas bandas em Porto Velho. Uma cena de metal muito forte por exemplo. Mas como em várias outras cidades, falta espaço pra tocar. Que eu saiba não tem no momento outra banda prog.

Luciano Duarte. Dentro da cena musical daqui existem bandas muito boas e com propostas bem diferentes entre si. No prog especificamente ainda não existe uma cena totalmente consolidada por aqui, mas ao mesmo tempo isso acaba aproximando muito as bandas de diferentes vertentes. Então rola bastante parceria, troca de ideia, apoio nos eventos e incentivo entre a galera. Acho que isso ajuda muito a manter a cena musical viva e em movimento, mesmo cada banda tendo sua própria identidade sonora.

2112. Muito legal essa conexão. Que bandas você destacaria com um trabalho interessante? Não precisa ser exatamente prog.  

Zeno Germano. Atualmente Angine De Poetrine serve? rsrsrs Gosto do som e das fantasias deles. Ademais… tenho prestado bastante atenção nas novas bandas de prog italiano. Tem muita coisa boa.

Marco Tulio. The Rival Sons, King Gizzard and Lizard Wizard e a brasileira Black pantera.

Luciano Duarte. Ultimamente minha playlist tá bem prog mesmo haha… Tenho escutado bastante Thank You Scientist, Animals as Leaders, Children of Nova e Intronaut. O que eu mais curto neles é justamente como cada um consegue expandir a ideia de música prog de formas completamente diferentes. 

Alessandro Amorim.  Olha, Angine de Poitrine é, sem dúvida, a sensação do momento, principalmente em razão de trazer de volta (embora para muita gente isso seja algo novo) a questão microtonal.  Não tem como isso passar despercebido.  Ainda mais atrelado ao figurino, como bem fala o Zeno.   Gostar ou não é outra coisa…  Particularmente, tenho percebido um frenesi que eu acho quase demais… Será que só eu considero o trabalho deles, independentemente dessa questão microtonal, que é sensacional, meio repetitivo? Deixando a ranzinzice de lado, eu tenho dado mais atenção ao rock clássico antigo.

2112. Tenho reparado ao longo dos anos que boa parte da nova geração curte músicas mais imediatistas. Manter uma banda que não esteja integrada a esse circuito é bem difícil, né? 

Zeno Germano. Mesmo nos anos 1970 já havia muita música imediatista, música pop simples de 3 minutos certo? Claro que atualmente isso é muito maior por tudo que compreende a nossa cultura na contemporaneidade. E para quem gosta de prog fica mais difícil manter um trabalho, viver apenas disso etc. Mas como já citamos, tem muita gente curtindo prog, só que o investimento de música mais elaborada no Brasil é um dilema desde sempre. É diferente na Europa e nos EUA também.

Luciano Duarte. Com certeza é um desafio maior hoje em dia, porque muita coisa acaba sendo consumida de forma muito rápida e imediata. Mas ao mesmo tempo eu acho que isso faz com que o público que realmente se conecta com o som da banda seja muito mais fiel. O prog e outras vertentes mais experimentais nunca foram exatamente música de consumo rápido. É um tipo de som que pede mais atenção, mais imersão e tempo pra absorver os detalhes. Então manter uma banda fora desse circuito mais imediatista exige bastante persistência, mas ao mesmo tempo é muito gratificante ver que ainda existe uma galera procurando algo mais profundo e verdadeiro musicalmente.

2112. Particularmente não curto "cover bands", mas entendo que muitos músicos o fazem como uma forma de sobrevivência, não é? 

Marco Tulio. E não somente em cover bands ou tributos, muitos músicos oriundos do rock trabalham com estilos totalmente diversos, justamente pelo lado comercial mesmo, e de certa forma contribuem significativamente para boa qualidade instrumental, lembremos que o “viver de música” leva a caminhos diferentes mas não menos interessantes daquilo que alguns inicialmente almejavam.

Luciano Duarte. Eu entendo perfeitamente quem faz isso como fonte de renda. Eu mesmo já toquei cover pra tirar um extra, então sei que muitas vezes é um caminho necessário, ainda mais no Brasil, onde viver de música autoral não é nada fácil. Hoje eu vejo projetos de cover muito mais como diversão e troca com o público. Tocar músicas de bandas que fizeram parte da nossa formação musical acaba sendo muito legal também. Mas pessoalmente eu ainda prefiro mil vezes o processo de composição, criar algo novo e construir uma identidade própria. Pra mim é aí que está a parte mais gratificante da música.

2112. Ainda vale a pena lançar material autoral? 

Alessandro Amorim. Se pensamos em música independente e retorno financeiro, definitivamente, não! Agora, a criação musical, como qualquer manifestação artística honesta, não vem da sanha por dinheiro.  Lançar um material autoral vem do desejo e necessidade de nos expressarmos... de mostrar o que sentimos, o que gostamos, e do desejo de compartilhar isso com todos. E a coisa se realiza quando temos feedback positivo.  Todo artista tem seu grau de vaidade.   Perceber que as pessoas gostam do que fazemos é extremamente envaidecedor e gratificante.  Isso é o que nos move.

Luciano Duarte. Eu acho que vale muito a pena, mesmo sendo um caminho mais difícil hoje em dia. Pra mim, o trabalho autoral é justamente onde o músico consegue colocar pra fora sentimentos, experiências e construir uma identidade de verdade. E quando a música carrega emoção real, as pessoas percebem isso. Acaba criando uma conexão muito mais forte com quem escuta. Claro que exige persistência, porque normalmente é um caminho mais independente e cheio de desafios kkkk. Mas ao mesmo tempo é muito gratificante ver algo que nasceu de uma ideia sua, conseguindo tocar outras pessoas. E no prog especificamente eu ainda sinto que existe um público muito fiel e aberto a mergulhar nessas experiências sonoras mais profundas e atmosféricas.

2112. Em sua opinião as plataformas digitais estão ajudando ou estão acabando com o comércio de mídias físicas? 

Zeno Germano. Estão dificultando muito, sem dúvida. Os Cds estão desaparecendo. Os Vinis estão de volta mas ainda são caros no Brasil.

Marco Tulio. A acessibilidade em detrimento de uma boa qualidade sonora ou mesmo a experiência proporcionada pela mídia física infelizmente conta mais alto, existe um mercado no que tange a isso grande em alguns países como o Japão, porém no Brasil o valor elevado, de equipamentos e discos, espanta e fica restrito a um nicho específico.

Luciano Duarte. Mesmo sendo um cara bem saudosista, eu também curto muito tecnologia. Então acho que as plataformas digitais ajudaram demais a democratizar o acesso à música e facilitaram muito a vida de bandas independentes. Claro que isso acabou afetando bastante o mercado de mídia física, isso é inevitável. Mas sinceramente eu não acho que ela vá acabar totalmente, principalmente dentro do rock e do prog, onde ainda existe muito apego ao álbum físico, ao encarte e à experiência de ouvir um disco com calma. Eu mesmo ainda gosto muito dessa experiência mais “palpável” com a música. 

Alessandro Amorim.  Considero que as plataformas digitais ajudaram muito ao artista em geral, pela democratização da produção e distribuição da música. No entanto, hoje em dia, os artistas independentes, principalmente os independentes, estão ficando presos às plataformas, com rendimentos muito pequenos, se compararmos ao que essas plataformas lucram. 

2112. Voltando ao single ele tem um instrumental incrível e bem ambicioso que nos leva de volta aos seminais anos 70. Essa era a intenção? 

Zeno Germano. “Vazio” foi composta, como as outras também, totalmente influenciada pelos sons dos anos 1970. Fica meio natural a gente ir criando e colocando um instrumental mais complexo. Isso rola até de forma inconsciente devido às nossas influências.

Luciano Duarte. Acho que “Vazio” nasceu muito da ideia de transmitir algo mais interno e emocional mesmo. Desde o começo a intenção era fazer uma música que respirasse junto com a melodia, crescendo aos poucos e criando essa atmosfera mais intensa e imersiva. E talvez essa conexão com os anos 70 possa vir daí. Muitas bandas daquela época tinham muito essa preocupação de deixar a música “falar”, criar dinâmica e emoção sem tanta pressa. Então não foi algo pensado tipo “vamos soar anos 70”, mas essas influências acabam aparecendo naturalmente na forma como a gente compõe e constrói as músicas.

2112. Confesso que não gosto de 80% das bandas de neoprog pois algumas trazem um certo acento pop apesar dos grandes músicos e cantores envolvidos. Qual a sua opinião sobre esse assunto? 

P. Marco Tulio. O chamado neoprog que tem sua origem nos anos 1980 com bandas britânicas Marillion, IQ, Arena e outras, trouxe uma renovação e um sopro de vitalidade ao progressivo com ótimos trabalhos, claro que as influências do então momento musical oitentista foram bem acentuadas, o que acabou se tornando parte indelével dessa ramificação. Não vejo como algo depreciativo, e sim mais uma forma de expressão com a linguagem progressista, e por que não dizer tornando acessível a muitos que ainda estranham a música mais rebuscada, e que não perca sua essência roqueira. 

Luciano Duarte. Eu não sou um profundo conhecedor de neoprog, mas sempre enxerguei esse movimento como uma tentativa de equilibrar a complexidade do prog clássico com uma abordagem mais melódica e acessível pra época. Entendo totalmente quando algumas pessoas sentem esse “acento pop” em certas bandas, mas ao mesmo tempo acho que isso fez parte da evolução natural do estilo e ajudou o prog a continuar se transformando. E pra mim isso acabou abrindo caminho pró pós-prog e bandas que realmente me conectaram com o gênero, tipo Porcupine Tree, Transatlantic e Opeth. O que mais me pega nesses artistas é justamente a capacidade de criar atmosferas e emoções muito fortes sem depender só de virtuosismo técnico o tempo todo.

2112. O que você tem escutado de interessante no prog nacional? Alguma banda em especial? 

P. Marco Tulio. Sim, temos ótimas bandas no cenário progressista brasileiro, destaco Ultranova (Belém), Caravela Escarlate e Quaterna Réquiem (RJ).

Zeno Germano. Ultranova!

Luciano Duarte. Caravela Escarlate e Cartoon, e são duas bandas que realmente têm me impressionado muito pela qualidade e pela expressividade. O Caravela Escarlate me chama muita atenção pela forma como consegue trazer aquele feeling clássico do prog setentista, mas com uma sonoridade muito viva e atual. Já o Cartoon eu acho foda pela capacidade de equilibrar complexidade, dinâmica e melodias muito marcantes sem perder o peso do rock’n’roll. Acho muito massa ver bandas nacionais mantendo o prog tão criativo e vivo hoje em dia.

Alessandro Amorim.  Casa das Máquinas, O Terço… 

2112. Que conselhos você daria a quem tem projetos de montar uma banda? Quais os primeiros passos fundamentais a serem dados? 

Luciano Duarte. Acho que o mais importante no começo é entender qual é a identidade e o propósito da banda. Antes de qualquer coisa, vale pensar no que vocês querem transmitir e quais pessoas realmente estão conectadas com essa ideia. E outra coisa: não esperar tudo ficar perfeito pra começar kkkk. Muita coisa amadurece no caminho, nos ensaios, nos shows e nas experiências. No fim, acho que montar uma banda exige muito mais sintonia, paciência e persistência do que só técnica. Quando existe verdade no projeto, as coisas vão criando forma naturalmente.

2112. ... pergunto isso levando em conta que tem muitas bandas que pensam apenas em tocar, mas sequer tem um release para oferecer. Sei que ajuda profissional sai muito caro para quem está começando, mas precisamos nos profissionalizar também, não é? 

Luciano Duarte. Com certeza. Eu entendo que pra quem está começando tudo é muito caro e a prioridade normalmente acaba sendo equipamento, gravação e essas coisas. Mas acho importante a banda começar a desenvolver essa mentalidade profissional desde cedo, mesmo aos poucos. Porque no fim das contas, tocar bem sozinho não sustenta um projeto por muito tempo. Organização, identidade, comprometimento e a forma como a banda se apresenta também fazem muita diferença. Acho que as bandas que conseguem durar entendem que existe toda uma construção em volta da música, não só o som em si.

2112. Você acha necessário para uma banda recém formada gravar um single ou mesmo um álbum ou isso ajuda muito na divulgação? 

Zeno Germano. Se a banda é autoral imagino que o caminho esperado é o registro de suas músicas, seja single, seja álbum. Tem que aproveitar as facilidades de hoje.

Luciano Duarte. Eu acho muito importante a banda ter algum material lançado hoje em dia, nem que seja um single. Acaba sendo a porta de entrada pra galera entender a identidade e a proposta sonora da banda. Às vezes a banda toca muito bem ao vivo, mas sem nenhum registro fica mais difícil das pessoas criarem conexão com o trabalho ou até compartilharem aquilo. Então acho que ajuda muito na divulgação e também no amadurecimento da própria banda.

2112. Outro ponto controverso é a falta de apoio às bandas brazucas, seja por parte do público, das grandes mídias e pela escassez de patrocínio. Qual o seu ponto de vista sobre essas questões e qual seria a solução para diminuir esses problemas? 

Luciano Duarte. Eu acho que esse é um problema muito real dentro da música autoral brasileira, principalmente no rock e prog. Muitas bandas incríveis acabam esbarrando mais na falta de estrutura, divulgação e incentivo do que propriamente na qualidade do trabalho. Ao mesmo tempo, acho que as plataformas digitais ajudaram bastante a diminuir essa barreira, porque hoje bandas independentes conseguem divulgar o próprio som sem depender tanto das grandes estruturas de antigamente. Mas ainda acredito que profissionalização, união entre as bandas e fortalecimento da cena independente são fundamentais pra mudar isso aos poucos.

2112. Os álbuns lançados pela banda sempre são elogiados. Vocês já pensaram em lançar um registro ao vivo? 

Zeno Germano. Gosto da ideia de álbum ao vivo. Temos “Crimsoniana” ao vivo como faixa extra no “Solar” em 2018. Eu já pensei nisso algumas vezes, mas creio que nunca deixei claro para a banda se poderia ser bom fazer um álbum ao vivo... Segue na lista de desejos pro futuro. 

Luciano Duarte. Acho que no prog existe muito essa conexão forte com a experiência ao vivo, porque muitas músicas acabam ganhando uma energia e uma atmosfera diferente no palco. Então é algo que com certeza é uma ideia que em algum momento passou pela cabeça de todos. Talvez mais pra frente, no momento certo e com a estrutura ideal, seria muito legal registrar essa energia ao vivo da banda.

2112. ... o microfone é seu.

Alessandro Amorim. Primeiramente, queremos agradecer pela oportunidade de nos comunicarmos com o público em geral por meio do 2112, definitivamente, é uma vitrine para o rock progressivo no país.  Sempre faço questão de dizer que, sem esse tipo de veículo, a arte independente, especialmente aqui, a música, não teria espaço e a divulgação seria ainda mais difícil.  Queremos deixar uma saudação especial aos que acompanham a banda, alguns desde o início, quando lançamos o Esquizoide, e um convite ao público que ainda não nos conhece para visitar as plataformas. Reiteramos a informação de que o novo trabalho da Prognoise está partindo para a fase final e que queremos e devemos mesmo lançar em 2026.   Acompanhem nosso trabalho nas redes, mandem seus feedbacks e não desistam do Rock Progressivo.   Aliás, antes de ser Progressivo, ele é Rock.  E sabemos que o rock nunca vai morrer!!!!! Grande abraço a todos e até breve, com nosso novo trabalho que está chegando.

 

 

 

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Entrevista China Lee

2112. Já se passou um tempo desde a sua saída do Salário Mínimo e existe uma expectativa muito grande por parte dos seus fãs em relação a um álbum solo. O que você tem a dizer sobre o assunto? 

China Lee. Eu não pretendo lançar nada novo no momento. A minha luta maior hoje é pra tentar arrumar um time pra voltar aos palcos o que já seria uma grande vitória. O músico hoje de autoral está numa escassez tremenda. Então por isso que eu não voltei aos palcos, então seria essa a primeira coisa. Ter um time pra voltar aos palcos e depois pensar em algo novo. Tenho bastante coisas para lançar, parcerias lançadas, mas primeiro gostaria de voltar aos palcos.

2112. Existe a possibilidade de criar uma novo banda ou mesmo um projeto solo? 

China. Como eu falei a prevenção de voltar aos poucos era desde o primeiro ano parado, né? O ano foi legal parado, daí pra frente só tentando arrumar músicos e os músicos de hoje não estão interessados no autoral, todo mundo tem covers. Aí você põe os caras bons que tem no mercado que tocam covers o cara te deixa na mão. Então esse está sendo o grande problema. Mas desde desde 2021 o meu foco era voltar pros palcos, carreira solo... mas infelizmente decepcionante o que está acontecendo com a música autoral.

2112. Você tem um público avido por novidades. E no meu ponto de vista um single não resolveria essa lacuna. Você sente essa pressão? 

China. Sim, sinto essa pressão. Sempre fui cobrado e sempre a resposta foi a mesma. Já no Salário era muito cobrado mas tudo que foi lançado o Salário está aí continua. Mesmo que tudo que for lançado as pessoas vão querer ouvir o Beijo Fatal. É muito complicado eu sempre me comparo ao RPM. Eles estouraram todas as músicas. Na proporção do metal nós somos iguais. O Beijo Fatal foi uma coisa tão grandiosa na escolha do repertório que inclusive foi eu que escolhi e essas músicas marcaram demais. Então a gente já teve dificuldades de colocar o Simplesmente Rock algumas músicas e a banda agora continuando também vai ter esse mesmo problema. Então esse é o que desanima a gente um pouco de lançar algo novo e as pessoas querer ouvir as mesmas músicas velhas.

2112. É imprenscionante a quantidade de fãs devotos que você tem. E isso sem lançar nada ou fazer um único show. Isso é um privilégio para poucos, não é?

China. Você sabe que é uma das coisas que me mantém vivo, né? Realmente o respeito e o número de fãs que eu tenho é gigante. E isso é o que causa ciúmes em um monte de caras que nesses anos todos fizeram de tudo pra me prejudicar e muitos que se aproximaram de mim achando que vão tomar esse público acabam quebrando a cara. Realmente a minha marca, a minha carreira é sem dúvida nenhuma o meu público. Também eu trato o meu público de uma forma muito especial, né?

2112. O que me chama mais atenção nesse caso é a honestidade que existe entre ambos os lados. Você é parado e tira muitas selfs nas ruas? 

China. Sim, sou muito reconhecido. A minha filha às vezes está comigo e ela fica até meio assustada. É bem legal esse reconhecimento. Ás vezes a gente sai, vai no shopping ou no McDonald's em vários lugares e é bem bacana. O que mais me surpreende geralmente é quando a garotada entre dezesseis, vinte e poucos anos... eu fico bem surpreso quando isso acontece comigo. Sim, sou muito reconhecido nas ruas graças a Deus.

2112. Qual a importância dos fãs no seu cotidiano? 

China. A importância do fã desde que eu me conheço por artista sempre foi de maior carinho possível, né? Porque sem eles você não é nada. Tem muito artista que maltrata o fã. Eu sempre fui um cara muito fácil. Você acredita que muitos artistas do meu porte, um pouco maior não vou citar nomes, até a gravadora, o empresário falaram que eu tinha que ser mais difícil, né? Assim mais nariz empinado que as pessoas parece que as pessoas gostam disso. Num certo ponto elas têm razão porque você se torna fácil e aí parece que o cara perde aquela magia, né? Mas eu não consigo ser assim, então, eu sempre fui muito amigo e a importância dos fãs no meu cotidiano é assim. Eu já acordo com uma média de duzentos e cinquenta a média. Há momentos que que passam de setecentas mensagens e que eu respondo a todos. Muito cansativo, mas muito prazeroso.

2112. Outra fato que chama atenção é que ambos os álbuns gravados pela banda são frequentemente citados por fãs e músicos.  Como você explica todo esse culto?

China. Sim, os álbuns são sempre citados por músicos de peso, por grande parte do público, da imprensa, né? O Beijo Fatal foi muito maior que o Simplesmente Rock e aí eu coloco a coletânea SP Metal que foi de uma importância muito grande, né? O SP Metal vamos falar do SP Metal. O SP Metal foi um marco, né? Assim junto com o Stress foi o primeiro disco de heavy metal do Brasil onde tinha toda essa dificuldade de se gravar, né? Ele se tornou uma obra prima, influenciou muito gente, muita garotada que toca aí. ... de vez quando vou a algumas casas noturnas, muitos músicos falam: "porra bicho, eu toquei muita música do Salário." Então a gente sabe que influenciou muita gente, então é um disco que marcou como marcou a minha época o Casa das Máquinas, né? O Made In Brazil, alguns álbuns deles me marcaram e isso é o que acontece essa safra de trinta, quarenta anos estão no palco tocando, então a gente influenciou grande parte dessa geração de músicos que estão por aí. E os fãs? Os fãs é engraçado e o mais legal é que muita gente nova vai procurar o Beijo Fatal. Isso é o mais interessante sabe? E o Simplesmente Rock está esgotado e como eu não sou mais da banda até falei com o pessoal da gravadora pra tentar suprir essa necessidade. Mas volto a te dizer, não sou mais da banda e mesmo eu tendo os contatos foram todos eu que fiz, né? Tanto o Beijo Fatal com o SP Metal simplesmente eu passei tudo pra banda e vai estar nas mãos deles

2112. Vejo que Beijo Fatal é mais cultuado do que o Simplesmente Rock. Qual a sua visão sobre isso? 

China. Então, volto a dizer aqui a importância do Beijo Fatal é muito maior. Beijo Fatal é um dos maiores clássicos do Heavy Metal nacional e até em alguns países da língua portuguesa como Portugal que tem a gravadora que lançou, né? É muito bem vendido nos Estados Unidos. O americano tem a mente aberta, não tem preconceito. O Beijo Fatal é um clássico, não tem o que acrescentar e o Simplesmente Rock eu gosto muito mais que o Beijo Fatal. Simplesmente Rock pra mim foi a maior trabalho da minha carreira como cantor, né? Ele foi difícil de se entender. Quando as pessoas começaram a entender deu no que deu... está esgotado, não tem lugar nenhum para comprar. Então foi um disco que ele veio pegando, engraçado que de uns anos pra cá ele está sendo entendido, as pessoas começaram a amadurecer, né? Então essa é a explicação. Beijo Fatal é um clássico do metal nacional, não tem o que dizer.

2112. Falando em Simplesmente Rock ele traz uma versão pesadíssima de Delírio Estelar com dois bumbos e ainda assim os fãs como você disse certa vez num podcast preferem a versão tosca do SP Metal. Como você enxerga isso? 

China. Cara, isso é uma coisa que a gente conversa entre a gente, entre alguns músicos. Existe algumas pessoas que se apegou aquela sonoridade tosca. Você vê que tem bandas que estão lançando discos e eles vão buscar exatamente aquela sonoridade que é fiel à época, entendeu? Então é um pessoal que não abriu a cabeça, eu vejo só dessa forma, eles estão ligados naquela sonoridade precária dos anos oitenta e quatro e três no início dos anos oitenta. Você vê que a molecada lança o disco e algumas bandas tocam ao vivo com aquela sonoridade. Uma coisa que eu sinceramente... a gente conversa para entender o porquê disso. O Brasil é engraçado em algumas coisas, né? O Brasil é difícil de se explicar até pra te dizer.

2112. E como surgiu o projeto  Extravaganza? 

China. O Extravaganza foi no final de oitenta e nove. Eu estava querendo trazer o Micka pro Salário. Sempre quis o Mika no Salário e o Micka sempre me quis no Santuário. O Santuário tinha acabado e eu acabei ligando pra ele e fiz um convite para ele vim para o Salário e ele estava pensando em me convidar pro Naja que era o novo projeto dele, tinha passado um vocalista que deixou ele na mão e acabei topando. Aí eu fui para Santos, fizemos alguns ensaios e acabei gostando do Naja e aí foi um momento legal porque o Naja estava estourado em todo o litoral, né? Tocando nas rádios era uma banda bem bacana, um hard rock bem arena assim, sabe? E foi um momento bom porque a gente estava no finzinho do Salário e aquele restinho daquele boom que a gente deu em oitenta e sete, isso era oitenta e nove houve aquele declínio, né? Mas ainda assim mesmo a gente estava fazendo muito show no interior. Então fazia dois finais de semana com o Salário e dois finais de semana com o Naja. Minha agenda estava sempre cheia, foi um momento bem bacana. Aí eu cheguei o Micka começou a mostrar várias composições e eu comecei a colocar algumas idéias também. E aí eu falei, cara nós temos que dar uma mudada no estilo. Eh, mais atualizado, né? Para a cara que já estava vindo, a cara dos anos noventa no caso. E aí eu falei pro Micka: Bicho, nós temos que subir pra São Paulo porque é lá que acontece as coisas. E aí a gente veio para São Paulo arrumei um empresário e aí nasceu o Extravaganza. Começamos a compor, mudamos o nome. Praticamente nada do Naja foi aproveitado. E aí surgiu o Extravaganza que foi bem bacana também.

2112. Você e o Micka vinham de duas bandas que marcaram profundamente o cenário do metal brasileiro. A ideia era lançar apenas um único álbum? 

China. Sim, eu e o Micka estávamos fazendo uma parceria bem legal, funcionou bastante, foi muito bacana. O Extravaganza tocou muito, nada parecido com o Salário. O Extravaganza funcionou muito no interior de São Paulo e por incrível que pareça no sul do país. Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina... mas o forte era o interior de São Paulo. Mas a gente estava na contra mão do momento porque a gente era um hard bonitinho, limpinho, bem feito e estava todo mundo no grunge. E nós tivemos bastante dificuldades por isso. Ah, o segundo disco do Extravaganza seria o grande disco, mas eu estava passando um momento muito complicado de um vício em drogas e eu acabei prejudicando o lançamento do segundo disco. A banda não suportou, né? E acabou quebrando... Teve uma também do presidente da gravadora que já tinha contratado o Extravaganza pra lançar esse segundo disco que era espetacular e aí teve essa mudança do presidente, né? Entrou um novo presidente e a gente era peixe do outro então tudo isso veio e afetou muito a banda que acabou em noventa e seis.

2112. O álbum trazia um ótimo repertório com faixas pesadíssimas. Vocês fizeram muitos shows de divulgação? 

China. Sim, o Extravaganza ele tinha um empresário muito forte que inclusive faleceu há pouco tempo que era o José Vicente Zima. Ele era muito ligado ao sertanejo, ao pagode mas gostava demais do Extravaganza. Então nós tivemos uma estrutura muito maior que a do Salário. O Extravaganza teve um investimento muito grande, nós fizemos um videoclipe que passava muito na MTV que proporcionou a gente fazer vários shows. Foi bem bacana, vários programas de televisão e jornal. Foi muito polêmico o vídeo, né? Mas não vingava volto a te dizer que aquilo que a gente estava na contramão. Não era o momento certo.

2112. Existe gravação de algum show? 

China. Sim, tem um na praia se eu não me engano está disponibilizado no YouTube e tem muita coisa em VHS ainda que a gente acabou não digitalizando. Estava tudo com esse empresário e quando você tem um contrato fica difícil muitas coisas. Como há um investimento de terceiros eles ficam com o monopólio dessas coisas liberando pra gente mesmo passando por anos, né? Se a gente lançou o cd do Extravaganza tiveram que pedir autorização senão a gente não conseguiria, entendeu? Ainda bem que liberaram tudo, né? Bem complicado, mas temos um que está no YouTube como já disse. O resto está em posse dessa turma que investiu, né?

2112. A bela capa foi solenemente proibida. Essa atitude te frustrou?

China. Repeteco se deu o Carlos porque a capa do Beijo Fatal talvez muita gente não saiba disso mas aquilo eram duas pessoas nuas. A menina em cima do rapaz que no caso era até o Artur o nosso guitarrista. Aí ele foi pra Brasília naquela época aí ela foi proibida e a gente escaneou e virou um grande sucesso. O Extravaganza acabou sendo um grande gancho porque o jornal do SBT com a Leila e o Eleaquim Araújo ou da Manchete se não me engano e o Amauri Jr., o Goulart de Andrade... todos esses caras quando a capa foi proibida eles pegaram e aí nós fizemos logo em seguida o clipe. Então foi o gancho não me frustrou porque acabou sendo um grande momento. Pareceu muito forte por causa disso as pessoas convidavam a gente. Aí tinha a vaidade, fizemos uns dois programas mas a capa foi um grande gancho.

2112. Porque que o projeto durou tão pouco? 

China. Não durou tão pouco porque foram o início que eu canto com o Naja aí virou Extravaganza, né? De oitenta e nove e finzinho até noventa e seis. A gente estava na contramão do movimento que era muito forte o grunge e a gente estava limpinho, né? Principalmente no Brasil porque existia bandas parecidas com a gente, né? O Guns N´ Roses, Skid Row, Extreme... só que o grunge pegou muito forte no Brasil. Todo mundo tocando um som sujo. Você vê que até os Titãs ficou meio grunge com Titonomaquia. Porque realmente não tinha espaço ou você ficava meio daquele jeito Chico Science é o que estava virando no Brasil. Aí quando a gente faz um puta repertório para o segundo disco e a gente foi contratado pela Sony Music houve a troca de presidente. E eu também no momento bem delicado do vício, né? E acabou sendo o final um junção de coisas. Mas foram seis anos bem bacanas.
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2112. Ficou algum material gravado e que não foi aproveitado? 

China. Sim, ficou muita coisa de fora que era esse segundo disco. Só que eu tive uma grande sacada e como o Micka era muito meu parceiro na volta do Salário e no Simplesmente Rock eu peguei muita coisa por exemplo desse segundo do disco do  Extravaganza como Faz Assim, certo? Faz Assim, Eu não quero querer mais que entrou no Simplesmente Rock e Faz Assim entrou no bônus do Beijo Fatal. E Simplesmente Rock é um disco maravilhoso. Não tanto para os headbangers. Ele era um disco de hard, bem hard com muita balada inclusive Anjo. Esqueci de Anjo que também estava no Simplesmente Rock.

2112. Voltando ao início não podemos de mencionar a importância da participação do Salário Mínimo na coletânea SP Metal. Como era os shows nessa época? 

China. É outra época, cara. Eram shows lotados se fazia shows com quatrocentos, quinhentas pessoas, o heavy metal estava no auge, né? E aquela invasão de bandas brasileiras cantando em português com uma sonoridade muito próxima uma das outras e todas muito amigas e irmãs pra caramba era uma coisa inacreditável bicho. Teve uma vez no Mambembe, teatro ali no Paraíso a gente chegou cara e estava sold out... seiscentas pessoas dentro do teatro. Aí o dono do teatro chegou falando: Vocês querem fazer mais uma apresentação? Tem mais trezentas pessoas lá fora. Fizemos duas apresentações numa noite de terça-feira, velho. Os shows eram lotados. A média de público era quinhentas, seissentas pessoas. Show grande quando juntava duas, três, quatro bandas era para lá de mil, né? Outra época, totalmente diferente, o movimento era forte, né? As bandas cantando em português. Era muita banda. Em cada esquina tinha uma banda, foi um movimento inacreditável.

2112. Passados todos esses anos cantando, compondo e fazendo shows como você enxerga a atual cena metálica? 

China. Uma resposta difícil de dar porque a gente sempre mexe com algum brilho de algumas pessoas. Eu vejo o heavy metal no fim, no finalzinho, né? O que heavy metal que a gente gosta, o tradicional, ele vai ser substituído por essas coisas mais modernas que tem aí de uma nova galera. Mas vamos falar em termos de Brasil é só você ver o público de shows internacionais. A maioria é tudo de cabelinho branco já, né? Existe a renovação quando é o pai que leva. E aí você tem esse grande esse grande boom de covers com preguiça de gravar, batalhar a sua própria música que é o que revoluciona o movimento. É um monte de bandas fazendo a sua música e todo mundo querendo tocar. É isso que dá a virada no movimento. Então hoje a gente não está vendo isso e tem o grande problema hoje que está havendo que é a IA que a gente não sabe o que vai acontecer, sabe? Tô vendo uma molecada aí só compondo para a inteligência artificial então é um momento bem delicado principalmente para quem está começando. Quem tem nome como eu, Korzus, né? Quem já plantou ainda respira agora o cara para iniciar está bem complicado.

2112. Na sua opinião o que está faltando para termos uma cena mais unida? 

China. Eu vivi uma certa união nos anos oitenta, noventa... os músicos se ajudavam. Hoje o músico ele toca se tiver lá a sua turminha vinte, trinta pessoas. Ele pede para o músico dele ir embora. Eu vejo essa união cada dia mais distante. O que pode unir são alguns movimentos tipo do Fabrico Ravelli que tem uma associação dele e a gente tem uma Associação do Rock. De outra forma eu não vejo essa união mais, né? Cada vez mais distante dessa união no meu parecer, tá? 

2112. Agradeço a sua contribuição para as comemorações dos dez anos do blog. O microfone é seu.

China. Agradeço sempre o seu apoio Carlão magnífico que você dá, seu trabalho é brilhante, muito importante para a nossa cena. Tenho assim uma admiração muito grande pelo seu trabalho e pelo blog. Parabéns e que venha mais anos. Não desista. Faça com menas intensidade mas não pare, a gente não consegue parar com essas coisas. Fica aqui o meu obrigado a você, ao blog e toda essa parceria que a gente fez nesses anos todos. Muito obrigado, viu?