O blog 2112 foi formado com intenção de divulgar as bandas clássicas de rock, prog, hard, jazz, punk, pop, heavy, reggae, eletrônico, country, folk, funk, blues, alternativo, ou seja o rock verdadeiro que embalou e ainda embala toda uma geração de aficcionados. Vários sons... uma só tribo!



terça-feira, 8 de setembro de 2026

Entrevista Aya Maki (Harppia)

2112. Aya, você cresceu num ambiente profundamente musical. Que estilos de músicas rolava na vitrola e que mais a influenciou?

Aya Maki. Minha família, era uma mistura de dois mundos apesar de pertecerem a mesma origem, a Japonesa. Por parte da minha mãe, meu avô apreciava e cantava canções folclórica japonesas como Min-yô. Crescemos ouvindo canções infantis japonesas tradicionais, primeiro para não esquecermos nossas origens e segundo, o idioma. Minha mãe e minhas tias ouviam canções populares da década de 50 e 60, canções pop e enka (é algo como sertanejo sofrencia japones kkk) que os jovens da época curtiam. Como meu avô tinha um comércio de produtos importados para abastecer a comunidade japonesa no Largo da Batata, em Pinheiros, São Paulo, elas tinham acesso a esse material. Ele frequentemente importava LPs, compactos, livros e revistas da "terrinha". Assim, minha mãe e meus tios ficavam antenados nos Hits. Junto com essa leva, vinham livros e revistas com partitura que eles levavam para as bandas da colônia tocarem nos concursos (lembrando, que na época não tinha nem fita k7). Minha mãe passava o dia inteiro cantando músicas de Yuzo Kayama (Algo como Elvis Presley do Japão e responsável por levar The Ventures ao país), Misora Hibari, Tiemi Eri, Maquina Itsuwa (assemelha a Carole King do Japão). Minhas primas mais velhas gostavam de cantar músicas pop dos anos 80 japonesas. Mas meu contato com o mundo pop fora da bolha japonesa acontecia pelo rádio e programas de TV. Em casa não entrava discos de rock e pop porque meu pai nunca gostou de ouvir pessoas cantando. É bizarro mas apesar disso, ele tinha um gosto musical muito apurado para instrumental. Todas as melhores versões instrumentais de trilhas sonoras e músicas internacionais, rolava solto na vitrola de casa. O irmão do meu pai era audiófilo, isto é, qualidade dos equipamentos importava e tínhamos uma coleção interessante de vinil e fitas k7 nesse perfil. Então, aprendi a lidar com vitrola, desde muito pequena.

2112. A meu ver, ouvir diferentes sons ajuda no crescimento do músico dando a ele uma visão mais ampla, não é?

Aya. Exatamente. Vou usar um termo que está muito associado aos espiritualistas mas cabe no nosso mundo. Expansão de Consciência Musical. Ou usar um termo mais puxado para neurociência: aumento da plasticidade neural para a música. Por isso que música é uma atividade recomendada para agregar na educação. Mas como todas as matérias, tem que ter método e esclarecimentos. A importância de se ouvir de tudo, mesmo que não toque de tudo, nos torna mais criativos e flexíveis. Encontramos saídas mais fáceis para alguns problemas em arranjos e composições.

2112. Percebo ótimos músicos com técnicas apuradas mas musicalmente limitados. Santana por exemplo é o típico músico com uma bagagem variadíssima de estilos que o tornou o monstro sagrado que ele é hoje. O que você ouve além de metal?

Aya. De tudo, menos metal... hahaha. Isso é coisa minha. É como eu funciono. Pode ser que para fulano e ciclano seja diferente, mas eu não sei viver só dentro de um gênero musical, porque estou falando de algo muito maior que rótulos e aparências. Alguém conseguiria viver a vida inteira só comendo churrasco do mesmo jeito? Ou só carne? Não. Precisamos variar o tempero, a forma de preparo e até não comer carne... varia para carne branca, peixe, ou até vive um tempo vegetariano. Ninguém vive só de doce ou só de água. São fases. Mas minha essência verdadeira vai além do Metal. É Rock'n'Roll. Ele engloba tudo, e metal está dentro dele. Funk norte americano, blues, soul, country, erudito, jazz, folclórico, devocional... E é o que gosto de ouvir. Gosto de música de todos os tipos e gênero.  Desde que ressoe com minha alma, eu escuto. Gosto de músicas devocionais indianas, tibetanas, asiáticas, celtas, oriente médio, que trazem um colorido diferente na forma musical. Músicas folclóricas e xamãnicas onde os cantores reproduzem sons da natureza e dos animais são incríveis. Gosto de instrumentos exóticos. Isso expande muito e é divertido.

2112. Além de seu pai e seus tios, sua mãe e sua tia eram conhecidas cantoras da comunidade japonesa e ambas chegaram a conquistar vários títulos em competições de karaokê. Você chegou a participar também ou só as assistia?

Aya. Participei de alguns concursos e até mesmo com orquestra... mas foi um fiasco kkkk. Pelo menos na época, eu não tinha muita disciplina, nem tinha a noção de interpretação e técnica de canto. Na maioria das vezes só acompanhava... mas sinceramente? Eu detestava. Imagina... um concurso que começa às 9 horas da manhã e durava até as 19hs, com mais de 50 cantores divididos em categorias entre iniciantes e avançando? E claro que o maior número de inscritos é dos iniciantes... então imagina... tinha de tudo, cantor desafinado, sem noção e músicas repetidas (uma atrás da outra). Nossa era uma tortura! Se o pessoal da colônia ler isso vai é me deserdar hahaah.

2112. Você também canta ou apenas solta a voz no chuveiro a qual chamo de "Chuveiro Sessions."

Aya. Canto e estou soltando mais a voz para fazer os backing para o Harppia. Mas tenho consciência dos meus limites. 

2112. Aos cinco anos você começou a ter aulas de piano. Como foi a experiência?

Aya. Tem dois lados. O lado ruim é que o maestro Yamakawa era igual ao professor de piano do Eddie Van Halen, "adorava" dar umas reguadas quando eu me distraia. O lado bom é que aprendi as 5 primeiras notas no piano e a ler a clave de Sol. Depois de dois meses, meus pais perceberam que eu era muito rebelde para os padrões da colônia e parei com as aulas. Mas com as 5 notas, desenvolvi sozinha a leitura de partitura e passava horas improvisando no teclado Portatone da Yamaha em casa. Tirava música de ouvido, feliz porque meu xilofone de brinquedo não tinha as notas ("sustenido/bemol) das músicas que eu gostava.

2112. Outra experiência interessante foi a sua participação e direção de uma banda de fanfarra na escola. Que instrumento propriamente você tocava e como surgiu a oportunidade de se tornar uma maestrina?

Aya. Aos 7 anos, depois que me formei na pré-escola e fui para o ensino fundamental, meus pais decidiram que eu deveria ter uma alfabetização bilíngue. Mas em Diadema, cidade onde nós morávamos, não tinha. Então de manhã estudava normalmente e a tarde eu frequentava uma escola de japonês, que na sua grade tinha também música e era essa banda de fanfarra. Ela era diferente dos padrões brasileiros. Os japoneses ensinavam flauta doce, pífano (fife), pianica (escaleta), lira e glokenspiel, e tinha os naipes de percussão tradicional com bumbo, tons e caixa. As músicas eram do repertório que vinham diretamente do arranjandor japonês e eram temas clássicos de Marching Band Universal que os Marines Americanos executam mas simplificado para banda infanto-juvenil. Eu tocava um tecladinho da Cassio pois na época não tínhamos acesso a escaletas como temos hoje. Aprendi um pouco de pífano (fife), mas como faltava gente na escaleta fiquei por lá até que meus parentes me deram de presente uma pianica (escaleta) da Yamaha. Sai em 1989 e voltei em 2000 a convite da Emiko Imai Sensei, com a qual tínhamos sempre uma relação muito próxima. A filha dela tinha voltado para o Japão, para terminar os estudos e ela estava precisando de uma pessoa para ensinar e reger a banda de fanfarra da escola e eu me prontifiquei pois eles não podiam parar. E nessa mesma época eu passei a integrar a banda de Metais (Brass Band) da Igreja Tenrikyo que englobava todos os ex-integrantes e regentes das bandas de fanfarra infanto-juvenil. Ali, eu passei a tocar flauta transversal. Em 2002 fui para o Japão fazer uma temporada de estudos de música, regência e iniciação no Tenrikyo.

2112. Minha primeira experiência com o rock'n'roll foi através de um single dos Rolling Stones do meu tio e depois o Led Zeppelin II de um primo. E você?

Aya. Ah... depois que tive acesso ao bom e velho rock’n’roll foi The Beatles,  Queen, Led Zeppelin. Este último me levou a outro nível de rock'n'roll.  Aquelas guitarras e a música com movimentos orgânicos entre os músicos da banda arrebatou. Acho Moby Dick muito legal. Mas quando ouvi o Black Dog, fiquei passada. Depois vieram Black Sabbath e Deep Purple. E eu estava totalmente deslocada no tempo em relação a minha geração. Enquanto meus colegas ouviam e cantaram Bon Jovi e Extreme, eu cantava Beatles, Pink Floyd, Led Zeppelin e Queen e todos tiraram sarro da minha cara. Hoje, virou moda.

2112. Que músicos ou bandas mais te influênciou na sua formação musical?

Aya. Tenho muitas camadas complexas. É difícil responder. Eu tive muita influência de maestros e arranjadores populares como Percy Faith, Bart Baccharah e Filarmônica de Londres. Isaac Hayes e Barry White. The Beatles, King Crimson, Brian May, Black Sabbath, Led Zeppelin, Rory Gallagher, Tommy Bolin, Deep Purple, Iron Maiden, Judas Priest, Black Foot, Leslie West e Mountain, Vanilla Fudges, mulheres que me influenciaram,  Lita Ford, Miki Igarashi (Show-Ya) , Bonnie Raitt, Michelle Meldrum, April Lawton, Joni Mitchell.

2112. Você poderia listar dez álbuns que mudaram a sua vida?

Aya. 1. Abbey Road The Beatles, 2. Dancing On The Edge (Lita Ford), 3. Outterlimits (Show-Ya), 4. Phantom Blue (Phantom Blue), 5. Come Taste the Band (Deep Purple), 6. Burning The Japan (Glenn Hughes), 7. Vênus Isle (Eric Johnson), 8. Led Zeppelin IV, 9. Black Sabbath e 10. Machine head (Deep Purple)

2112. Antes de entrar para o Harppia você participou de outras bandas? Existe gravações desse período?

Aya. Eu tive várias bandas mas nenhuma eram de heavy metal de fato. Acompanhei cantores sertanejos e fiz uma temporada com o Barra da Saia em 2005. Em 2001, Eu gravei um EP com uma banda de fusion eletrônico (live PA) e uma de suas faixas foi selecionada para participar de algumas coletâneas de música eletrônica orgânica entre elas a Comp 01_02 da Muquifo Records com a banda Baikebab. Toquei num Vixen Cover chamado Hard 16. O último trabalho antes de entrar com de cabeça e coração no Harppia foi a banda Bando da Floresta que acompanhava a cantora Regiane Toledo em seu espetáculo infantil. Durante o Harppia, ainda fiz parte do Wonder Maidens, tributo ao Iron Maiden, mas por questões de prioridade de projeto, preferi seguir só com o Harppia, onde não toco apenas, mas tenho muitas responsabilidades burocráticas e de curadoria de suas obras e composições e codireção artística e musical junto com o Tibério.

2112. E como surgiu a oportunidade de entrar para o Harppia?

Aya. O Tiberio estava procurando uma guitarrista mulher para fazer dueto com a Neila Abraão. Ele tinha proposto trazer uma inovação no Metal, trazendo duas guitarristas mulheres à frente da banda. Nós já nos conhecíamos mas ele não sabia que eu era guitarrista. Ele só descobriu depois de uma conversa longa em sua oficina em 2009. Mas depois eu sumi e a gente se voltou a falar pelo Orkut. Nesse meio tempo, um amigo em comum, o Aldo, mostrou um vídeo de minha banda Hard 16 em um festival em Presidente Epitácio e Tibério se interessou. Até então, ele não relacionou a guitarrista a minha pessoa. Em junho de 2010, ele me convida para conversar pessoalmente na sua oficina e me convidou para fazer o teste. 

2112. Você ocupa um posto relevante dentro de uma banda super conhecida como a Harppia que geralmente é ocupado por homens. Como é estar um passo à frente?

Aya. MUITA Honra e responsabilidade. Não tive tempo nesses 16 anos, para "curtir" esse posto como muitos fazem, pois trabalho e estudo muito nos bastidores. Isso é bom porque deixo a vaidade no palco e publicações das redes sociais. Fora dos palcos, sou uma pessoa normal e gosto dessa surpresa. Ninguém dá nada quando me veem na rua ou na loja. Eu não tenho essa necessidade de parecer rock star quando não estou tocando ou produzindo conteúdos.

2112. ... infelizmente o maldito do preconceito existe. Isso te incomoda?

Aya. Não.  O preconceito diz mais sobre a pessoa que o tem do que a mim mesma. Eu Sou o que sou seja como artista como ser humano. E vamos falar a real? Preconceito tem em todos níveis e camadas. Já tive esse ponto de vista inseguro. E isso atrapalhou a mim mesma. Preconceito sempre vai existir de uma forma ou de outra porque as pessoas são diversificadas e projetam o tempo todo o que há de melhor e pior de dentro delas. Nós somos apenas espelhos daquilo que elas abominam ou apreciam. Tudo depende da bagagem de traumas de cada um. E da disposição de melhorar como humano.

2112. Sempre gostei de mulheres na música como Janis Joplin, Runnaways, Joan Jett, Vixen, Lita Ford, Heart, Pretenders, Joni Michell, Grace Slike etc. Acho esse limite pré-estabelecido de que mulher não pode tocar ou liderar uma banda totalmente retrógrada. Você acha que no fundo eles ficam inseguros ou tem medo da concorrência?

Aya. Tudo que é novo, assusta, como diz um ditado. É algo complexo e cultural. As pessoas associam o mundo artístico ao abuso de toda espécie desde drogas a comportamentos "estranhos" e que só os homens podem fazer o que quiserem porque lugar de mulher é em casa cuidando da família. Eles associam a força "antropológica" e tribal dos homens a capacidade de enfrentar qualquer tipo de "perigo físico" e a resistencia aos "abusos" maiores do que as mulheres. Mas a história da humanidade tá ai para provar que não é bem assim. Os homens muito moldados no modo "antigo" de pensamento "ocidental civilizado": Entram em conflito e a necessidade de diminuir as mulheres para mantê-las no seu "papel clássico" de donas de casa. Mas para vocês verem como isso não é verdade, a baixista de estúdio que mais trabalhou no mercado musical é a Carol Kaye, que usou seu talento para levar "comida" para casa para seus filhos, quantas mulheres musicistas e compositores tiveram que fazer esse trabalho de dois turnos para cuidarem de sua família? Outras tiveram que realmente se unirem em forma de bandas femininas para atravessar esse desafio, pois tocar um instrumento e fazer música ainda pertencia a "elite masculina". Exemplo: Birtha e Fanny 

2112. Que conselhos você daria para as mulheres que estão começando a trilhar seu caminho na música?

Aya. Seja você mesma. Isso te blinda de "tribalismo". Cada tribo cria um estatuto. Conheça a ti mesma. E não estou falando só de homens. As próprias mulheres tem preconceito com elas mesmas... jogo de intriga e picuinhas. Ouça as músicas com corpo, mente e alma. Isso é um dom muito natural para nós. Use as flutuações hormonais para entrar dentro da música e extrair força disso. Eu ouço de tudo e sinto o que contribui e o que não contribui para mim nessa hora. Respeito meu sexto sentido mesmo que as vezes tenha que bater os pés e virar meme. Confie na sua intuição musical. Você não é homem. Aceite-se ser complicada. É o que somo e pronto.

2112. Seja estudando, no palco ou no estúdio você é muito perfeccionista? Você se cobra muito?

Aya. Extremamente perfeccionista. Não ao nível de um Eric Johnson e muitos músicos que conheço de grande talento mas procrastinam projetos por acharem que não são bons suficiente. Meu sarrafo sempre foi muito alto, talvez pela criação familiar (e da própria origem asiática) e muita crítica que ouvia quando criança. Mas só desmanchei isso quando relaxei. Passei a não ligar mais para opinião dos outros, mas isso é um processo. Exige muito autoconhecimento e aceitação.  Não é de uma hora para outra que a gente se solta. Mas temos que agir e se jogar na vida para superar qualquer limitação. Aprender com todo tipo de crítica. Mesmo que dia muito, ainda sim é um aprendizado.

2112. Ouvindo gravações prontas você já pensou: Caramba, poderia ter ficado melhor? Você é muito crítica de si mesma?

Aya. Por incrível que pareça, vou falar do último álbum do Harppia, Caixa de Pandora. Isso não aconteceu porque eu fiz tudo que quis e tive participações especiais incríveis dividindo os solos comigo. Mas no 3.6.9 H.a.a.r.p. (2017) senti isso. Ele serve de ilustração a questão anterior do perfeccionismo. Eu estava me exigindo muito para compor e arranjar as músicas. E Tibério vinha com as ideias e ele fazia os ajustes das letras e dos arranjos. Ambos somos extremamente perfeccionistas.  Mas sabendo o que queremos. Era meu primeiro álbum com uma banda de grande relevância no metal brasileiro e tinha a autoconfiança de me igualar aos antecessores. E eu sou daquelas que travam. É tanto perfeccionismo que trava. Tive ajuda do Flávio Gutok que me orientou deu segurança nas gravações da segunda parte do disco. A primeira parte já estava gravada e fechada. Ele sugeriu improvisações. Mas na época eu tinha as músicas já toda mapeada e ensaiadas do jeito que deveria ser e não me dei essa oportunidade. Mesmo sabendo de todo meu potencial, tem outra parte que eu tinha que trabalhar e enfrentar. Mas deu tudo certo e o Tibério aprovando, então, está ótimo. Caixa de Pandora (2023) já tinha outra energia e estava mais relaxada, mesmo com as mesmas cobranças. É maturidade emocional e artística. Enfrentamos muitos desafios com idas e vindas de músicos como no 3.6.9. H.A.A.R.P. Não é só criação... É o estresse de relacionamento dentro da banda e a falta de comprometimento dos músicos. Mas superamos tudo isso e fizemos um grande álbum do qual nos orgulhamos muito.

2112. Entre os solos gravados nos álbuns do Harppia tem algum que você destacaria como seu preferido?

Aya. Gosto muito do solo da "Na calada da noite" e “Magia Negra” pelo Flávio Gutok, ambos do álbum Sete. A parte dele realmente é impecável. Do Caixa de Pandora, fica difícil dizer qual é o preferido pois todos foram feitos com tanta garra e paixão que fica difícil de dizer só um. Talvez a do “Prisioneiro do Tempo” quando o solo do guitarrista convidado Ev Martel (ex-Manowar) se confunde com o meu. Adoro isso e "O inferno Foi Libertado". Ambos eu faço o segundo solo. 

2112. Como funciona o seu processo de criação seja nos riffs ou nas composições?

Aya. Eu escuto muita música no carro com o Tibério quando estamos indo e voltando para o trabalho. A gente fica no trânsito de 2 a 3 horas. Da tempo de ouvir muita coisa. Ficamos analisando estrutura, timbres, dinâmica. Diria que é um treino e sensibilização que fazemos, não por obrigação,  mas por puro prazer audiófilo. Então tem dias que estamos ouvindo Soul e Funk (você sabe do que estou falando, não dessas porcarias que virou moda) tem dias que estamos ouvindo "brega", samba e MPB pois é uma lição de métrica. Outro dia estamos ouvindo nosso favoritos rock dos anos 70. Observamos os timbres, a produção, os efeitos tanto usados na guitarra como em toda a gravação. Como lidamos com bateria o dia inteiro, ficamos observando até o timbre dos kits de bateria e pratos. Por que insisto tanto na métrica? Porque ela é que torna a mensagem audível, assimilável e fácil de cantar. Exatamente é esse o exercício para compor em português sem parecer "infantil". Assim ouvimos vários grandes compositores e letristas como Cazuza, Gonzaguinha, Guilherme Lamounier e bandas como O Peso e Som Nosso de Cada Dia para aproximar do nosso universo heavy metal. Essa é a primeira coisa. Escuta ativa. A segunda parte, que é relativamente mais fácil para mim é criar riffs. Eles simplesmente surgem. Não tem uma sequência lógica. Eu digo que faço um download do "além" e passo para a guitarra. Eu gosto de brincar muito com improvisações e gosto muito de tirar músicas nota por nota como base de estudo. Experimento muito. Sem preconceito ou pretensões. Apenas um único foco: heavy metal e suas vertentes com qualidade marcante. A base, melodia e a letra é mais importante de tudo. Harmonia + melodia+ andamento. Depois tem a terceira parte que é a apresentação do riffs e letras para a banda ou só o riffs e a estrutura básica da música que será trabalhada durante o ensaio. Depois a quarta parte é a definição das dinâmicas e convenções que são a marca registradas do Harppia e isso já é mais trabalho bateria e baixo. E assim vamos dando a forma Harppia na música. Aí, vou moldando a ideia principal de acordo com essa convenções pois o ponto de vista do guitarrista nem sempre é o mesmo do baterista e baixista. Isso pode soar absurdo para muitos ou falta de personalidade, mas para mim é oportunidade para melhorar o que idealizei. Meu perfeccionismo deu lugar a uma postura mais aberta e colaborativa. Mas eu sempre estou observando e percebendo se faz sentido ou não para a música, determinadas mudanças. Não precisamos brigar para manter uma ideia fixa... isso a gente só aprende com o tempo e novamente, a tal maturidade. No meio de todo esse processo vamos moldando a letra e a melodia de forma que ela também ganhe destaque na música. E o trabalho de lapidar a métrica. O Solo é a cereja do bolo. Eu trabalho por último depois que todo o contexto e a "história" estiver definida. Não existe um protocolo rígido. Eu entendo que devemos deixar a própria música escolher seu caminho e a gente vai administrando isso até chegarmos no que consideramos "perfeitos" para nós.

2112. Aya, você já pensou na possibilidade de gravar um álbum solo com material que não se encaixa no Harppia?

Aya. Sim. Muitas vezes. Gostaria de trazer algumas músicas que me moldaram como musicista desde criança com releitura guitarrisca e alguns outros instrumentos que toco. Além de material próprio. Mantendo minha essência mais rock progressivo

2112. Nos shows da banda quais músicas não pode faltar na set list?

Aya. Salém, Naufrago, Na calada da noite, Voz da Consciência, Sete, A Ferro e Fogo são clássicos absolutos 

2112. Qual estilo de guitarra são as suas preferidas? Tem alguma em particular?

Aya. Apesar de ter 4 flying V... que é muito óbvia... adoro eu tenho uma Kelly. Gosto de formatos mais agressivos porém sem perder elegância. Não gosto de agressividade "barata". São design muito fortes e ao mesmo tempo com movimento visual e que empodera. Fora que tem um baita timbre. Gosto muita das minhas Washburn Vindicator branca pois ela tem história e o braço foi afinado baseado na minha guitarra Yamaha RGX 124, que é muito confortável. 

2112. O primeiro ep da banda marcou toda uma geração de fãs e músicos do estilo e elevando-o a categoria de um dos maiores clássicos do estilo. Além dele que outro álbum você destacaria na discografia do Harppia?

Aya. Sete e Caixa de Pandora. O Harppia lançou pouquíssimos álbuns presando pela qualidade das composições tanto como letra, melodia, e arranjos. Fazer uma metal em português com métrica perfeita é extremamente difícil, mas o desafio todo compensa. Mesmo com toda a resistência de muitos fãs de metal gringo. É porque eles nunca ouviram Harppia em nenhuma época.

2112. Foi um prazer imenso entrevistar você. O microfone é seu...

Aya. Gratidão pelo espaço e oportunidade de apresentar um pouco do meu trabalho além dos palcos. Meu desejo é que valorizem mais nosso trabalho como musico pois o palco, que é só a ponta do Iceberg. Trabalhamos muito nos bastidores em todos os sentidos. Saiba que valorizo muito seu trabalho e que são pessoas de mídia independente que fomenta a música independente e não deixa a memória morrer. É difícil. Mas ser livre e feliz com nosso trabalho é o que nos mantém na estrada e não há fama ou dinheiro que pague isso.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Entrevista Prognoise Pvh

2112. Ano passado vocês lançaram o single Vazio mas nós fãs estamos na expectativa de um novo álbum. O que você têm a dizer sobre isso? 

Alessandro Amorim. De fato, "Vazio" é um single de um projeto que visa trazer para nós e para todo mundo o novo álbum da Prognoise. Além de "Vazio”, nós também lançamos o outro single que é “Todo Sangue”, no final de 2024 e estamos em estúdio gravando o que vai ser, de fato, o novo trabalho da Prognoise. Já temos outras músicas gravadas, estamos finalizando outras... o conteúdo do álbum já está definido e a gente pretende lançar ainda em 2026.  Tem um monte de gente ligado ao progressivo, fãs da banda, pessoal ligado à imprensa, pessoal fora do país que tem nos cobrado isso. Nós também nos cobramos isso. A ideia era ter lançado, de fato, no ano passado, mas por razões diversas, inclusive razões que quem trabalha com música independente progressiva no Brasil entende e sabe da dificuldade. A gente não conseguiu fazer esse álbum para 2025. Então, o plano é lançar esse material no segundo semestre de 2026."

Luciano Duarte. Cara, pode acreditar: ninguém tá mais ansioso pra colocar esse álbum pra rodar do que a própria banda kkkk. A gente tá trabalhando nisso com muito cuidado, experimentando bastante coisa e tentando fazer um álbum que realmente represente o momento da banda hoje. Tá sendo um processo desafiador, mas muito gratificante também. E assim que esse trabalho estiver pronto, a ideia é cair na estrada e tocar essas músicas ao vivo o máximo possível.

2112. O que eu acho interessante no prog é a fidelidade dos fãs seja na compra dos álbuns, na frequência dos shows, na criação de fãs clubes, nas postagens sobre bandas ou álbuns, programas de rádios ou podcast dedicados ao estilo etc. Como você explica todo esse culto em torno do prog nos dias atuais? 

Zeno Germano. Em parte me parece que o fato do estilo vinculado ao metal estar mais divulgado do que antes. Cada vez há mais bandas de prog metal. Outro aspecto deve ser porque muita gente ainda precisa de música de mais qualidade.

Luciano Duarte. Eu acho que o fã de prog costuma ser um público muito atento aos detalhes, mas ao mesmo tempo muito aberto a novas experiências sonoras. E acho isso fascinante, porque permite que o estilo continue evoluindo sem perder a essência. O prog sempre teve muito essa coisa de explorar atmosferas, misturar influências e testar caminhos diferentes. Então acaba criando uma conexão muito forte entre as bandas e o público. O fã realmente mergulha no universo da banda, acompanha álbuns, shows, podcasts, debates… vira quase um estilo de vida mesmo kkkk. E acho muito massa como existe esse respeito pelas raízes do prog, mas ao mesmo tempo uma abertura enorme pra novas ideias e sonoridades.

2112. O Prognoise é oriundo de Porto Velho. Como é a cena rocker em especial o prog por aí? Tem muitas bandas? 

Zeno Germano. Existem muitas bandas em Porto Velho. Uma cena de metal muito forte por exemplo. Mas como em várias outras cidades, falta espaço pra tocar. Que eu saiba não tem no momento outra banda prog.

Luciano Duarte. Dentro da cena musical daqui existem bandas muito boas e com propostas bem diferentes entre si. No prog especificamente ainda não existe uma cena totalmente consolidada por aqui, mas ao mesmo tempo isso acaba aproximando muito as bandas de diferentes vertentes. Então rola bastante parceria, troca de ideia, apoio nos eventos e incentivo entre a galera. Acho que isso ajuda muito a manter a cena musical viva e em movimento, mesmo cada banda tendo sua própria identidade sonora.

2112. Muito legal essa conexão. Que bandas você destacaria com um trabalho interessante? Não precisa ser exatamente prog.  

Zeno Germano. Atualmente Angine De Poetrine serve? rsrsrs Gosto do som e das fantasias deles. Ademais… tenho prestado bastante atenção nas novas bandas de prog italiano. Tem muita coisa boa.

Marco Tulio. The Rival Sons, King Gizzard and Lizard Wizard e a brasileira Black pantera.

Luciano Duarte. Ultimamente minha playlist tá bem prog mesmo haha… Tenho escutado bastante Thank You Scientist, Animals as Leaders, Children of Nova e Intronaut. O que eu mais curto neles é justamente como cada um consegue expandir a ideia de música prog de formas completamente diferentes. 

Alessandro Amorim.  Olha, Angine de Poitrine é, sem dúvida, a sensação do momento, principalmente em razão de trazer de volta (embora para muita gente isso seja algo novo) a questão microtonal.  Não tem como isso passar despercebido.  Ainda mais atrelado ao figurino, como bem fala o Zeno.   Gostar ou não é outra coisa…  Particularmente, tenho percebido um frenesi que eu acho quase demais… Será que só eu considero o trabalho deles, independentemente dessa questão microtonal, que é sensacional, meio repetitivo? Deixando a ranzinzice de lado, eu tenho dado mais atenção ao rock clássico antigo.

2112. Tenho reparado ao longo dos anos que boa parte da nova geração curte músicas mais imediatistas. Manter uma banda que não esteja integrada a esse circuito é bem difícil, né? 

Zeno Germano. Mesmo nos anos 1970 já havia muita música imediatista, música pop simples de 3 minutos certo? Claro que atualmente isso é muito maior por tudo que compreende a nossa cultura na contemporaneidade. E para quem gosta de prog fica mais difícil manter um trabalho, viver apenas disso etc. Mas como já citamos, tem muita gente curtindo prog, só que o investimento de música mais elaborada no Brasil é um dilema desde sempre. É diferente na Europa e nos EUA também.

Luciano Duarte. Com certeza é um desafio maior hoje em dia, porque muita coisa acaba sendo consumida de forma muito rápida e imediata. Mas ao mesmo tempo eu acho que isso faz com que o público que realmente se conecta com o som da banda seja muito mais fiel. O prog e outras vertentes mais experimentais nunca foram exatamente música de consumo rápido. É um tipo de som que pede mais atenção, mais imersão e tempo pra absorver os detalhes. Então manter uma banda fora desse circuito mais imediatista exige bastante persistência, mas ao mesmo tempo é muito gratificante ver que ainda existe uma galera procurando algo mais profundo e verdadeiro musicalmente.

2112. Particularmente não curto "cover bands", mas entendo que muitos músicos o fazem como uma forma de sobrevivência, não é? 

Marco Tulio. E não somente em cover bands ou tributos, muitos músicos oriundos do rock trabalham com estilos totalmente diversos, justamente pelo lado comercial mesmo, e de certa forma contribuem significativamente para boa qualidade instrumental, lembremos que o “viver de música” leva a caminhos diferentes mas não menos interessantes daquilo que alguns inicialmente almejavam.

Luciano Duarte. Eu entendo perfeitamente quem faz isso como fonte de renda. Eu mesmo já toquei cover pra tirar um extra, então sei que muitas vezes é um caminho necessário, ainda mais no Brasil, onde viver de música autoral não é nada fácil. Hoje eu vejo projetos de cover muito mais como diversão e troca com o público. Tocar músicas de bandas que fizeram parte da nossa formação musical acaba sendo muito legal também. Mas pessoalmente eu ainda prefiro mil vezes o processo de composição, criar algo novo e construir uma identidade própria. Pra mim é aí que está a parte mais gratificante da música.

2112. Ainda vale a pena lançar material autoral? 

Alessandro Amorim. Se pensamos em música independente e retorno financeiro, definitivamente, não! Agora, a criação musical, como qualquer manifestação artística honesta, não vem da sanha por dinheiro.  Lançar um material autoral vem do desejo e necessidade de nos expressarmos... de mostrar o que sentimos, o que gostamos, e do desejo de compartilhar isso com todos. E a coisa se realiza quando temos feedback positivo.  Todo artista tem seu grau de vaidade.   Perceber que as pessoas gostam do que fazemos é extremamente envaidecedor e gratificante.  Isso é o que nos move.

Luciano Duarte. Eu acho que vale muito a pena, mesmo sendo um caminho mais difícil hoje em dia. Pra mim, o trabalho autoral é justamente onde o músico consegue colocar pra fora sentimentos, experiências e construir uma identidade de verdade. E quando a música carrega emoção real, as pessoas percebem isso. Acaba criando uma conexão muito mais forte com quem escuta. Claro que exige persistência, porque normalmente é um caminho mais independente e cheio de desafios kkkk. Mas ao mesmo tempo é muito gratificante ver algo que nasceu de uma ideia sua, conseguindo tocar outras pessoas. E no prog especificamente eu ainda sinto que existe um público muito fiel e aberto a mergulhar nessas experiências sonoras mais profundas e atmosféricas.

2112. Em sua opinião as plataformas digitais estão ajudando ou estão acabando com o comércio de mídias físicas? 

Zeno Germano. Estão dificultando muito, sem dúvida. Os Cds estão desaparecendo. Os Vinis estão de volta mas ainda são caros no Brasil.

Marco Tulio. A acessibilidade em detrimento de uma boa qualidade sonora ou mesmo a experiência proporcionada pela mídia física infelizmente conta mais alto, existe um mercado no que tange a isso grande em alguns países como o Japão, porém no Brasil o valor elevado, de equipamentos e discos, espanta e fica restrito a um nicho específico.

Luciano Duarte. Mesmo sendo um cara bem saudosista, eu também curto muito tecnologia. Então acho que as plataformas digitais ajudaram demais a democratizar o acesso à música e facilitaram muito a vida de bandas independentes. Claro que isso acabou afetando bastante o mercado de mídia física, isso é inevitável. Mas sinceramente eu não acho que ela vá acabar totalmente, principalmente dentro do rock e do prog, onde ainda existe muito apego ao álbum físico, ao encarte e à experiência de ouvir um disco com calma. Eu mesmo ainda gosto muito dessa experiência mais “palpável” com a música. 

Alessandro Amorim.  Considero que as plataformas digitais ajudaram muito ao artista em geral, pela democratização da produção e distribuição da música. No entanto, hoje em dia, os artistas independentes, principalmente os independentes, estão ficando presos às plataformas, com rendimentos muito pequenos, se compararmos ao que essas plataformas lucram. 

2112. Voltando ao single ele tem um instrumental incrível e bem ambicioso que nos leva de volta aos seminais anos 70. Essa era a intenção? 

Zeno Germano. “Vazio” foi composta, como as outras também, totalmente influenciada pelos sons dos anos 1970. Fica meio natural a gente ir criando e colocando um instrumental mais complexo. Isso rola até de forma inconsciente devido às nossas influências.

Luciano Duarte. Acho que “Vazio” nasceu muito da ideia de transmitir algo mais interno e emocional mesmo. Desde o começo a intenção era fazer uma música que respirasse junto com a melodia, crescendo aos poucos e criando essa atmosfera mais intensa e imersiva. E talvez essa conexão com os anos 70 possa vir daí. Muitas bandas daquela época tinham muito essa preocupação de deixar a música “falar”, criar dinâmica e emoção sem tanta pressa. Então não foi algo pensado tipo “vamos soar anos 70”, mas essas influências acabam aparecendo naturalmente na forma como a gente compõe e constrói as músicas.

2112. Confesso que não gosto de 80% das bandas de neoprog pois algumas trazem um certo acento pop apesar dos grandes músicos e cantores envolvidos. Qual a sua opinião sobre esse assunto? 

P. Marco Tulio. O chamado neoprog que tem sua origem nos anos 1980 com bandas britânicas Marillion, IQ, Arena e outras, trouxe uma renovação e um sopro de vitalidade ao progressivo com ótimos trabalhos, claro que as influências do então momento musical oitentista foram bem acentuadas, o que acabou se tornando parte indelével dessa ramificação. Não vejo como algo depreciativo, e sim mais uma forma de expressão com a linguagem progressista, e por que não dizer tornando acessível a muitos que ainda estranham a música mais rebuscada, e que não perca sua essência roqueira. 

Luciano Duarte. Eu não sou um profundo conhecedor de neoprog, mas sempre enxerguei esse movimento como uma tentativa de equilibrar a complexidade do prog clássico com uma abordagem mais melódica e acessível pra época. Entendo totalmente quando algumas pessoas sentem esse “acento pop” em certas bandas, mas ao mesmo tempo acho que isso fez parte da evolução natural do estilo e ajudou o prog a continuar se transformando. E pra mim isso acabou abrindo caminho pró pós-prog e bandas que realmente me conectaram com o gênero, tipo Porcupine Tree, Transatlantic e Opeth. O que mais me pega nesses artistas é justamente a capacidade de criar atmosferas e emoções muito fortes sem depender só de virtuosismo técnico o tempo todo.

2112. O que você tem escutado de interessante no prog nacional? Alguma banda em especial? 

P. Marco Tulio. Sim, temos ótimas bandas no cenário progressista brasileiro, destaco Ultranova (Belém), Caravela Escarlate e Quaterna Réquiem (RJ).

Zeno Germano. Ultranova!

Luciano Duarte. Caravela Escarlate e Cartoon, e são duas bandas que realmente têm me impressionado muito pela qualidade e pela expressividade. O Caravela Escarlate me chama muita atenção pela forma como consegue trazer aquele feeling clássico do prog setentista, mas com uma sonoridade muito viva e atual. Já o Cartoon eu acho foda pela capacidade de equilibrar complexidade, dinâmica e melodias muito marcantes sem perder o peso do rock’n’roll. Acho muito massa ver bandas nacionais mantendo o prog tão criativo e vivo hoje em dia.

Alessandro Amorim.  Casa das Máquinas, O Terço… 

2112. Que conselhos você daria a quem tem projetos de montar uma banda? Quais os primeiros passos fundamentais a serem dados? 

Luciano Duarte. Acho que o mais importante no começo é entender qual é a identidade e o propósito da banda. Antes de qualquer coisa, vale pensar no que vocês querem transmitir e quais pessoas realmente estão conectadas com essa ideia. E outra coisa: não esperar tudo ficar perfeito pra começar kkkk. Muita coisa amadurece no caminho, nos ensaios, nos shows e nas experiências. No fim, acho que montar uma banda exige muito mais sintonia, paciência e persistência do que só técnica. Quando existe verdade no projeto, as coisas vão criando forma naturalmente.

2112. ... pergunto isso levando em conta que tem muitas bandas que pensam apenas em tocar, mas sequer tem um release para oferecer. Sei que ajuda profissional sai muito caro para quem está começando, mas precisamos nos profissionalizar também, não é? 

Luciano Duarte. Com certeza. Eu entendo que pra quem está começando tudo é muito caro e a prioridade normalmente acaba sendo equipamento, gravação e essas coisas. Mas acho importante a banda começar a desenvolver essa mentalidade profissional desde cedo, mesmo aos poucos. Porque no fim das contas, tocar bem sozinho não sustenta um projeto por muito tempo. Organização, identidade, comprometimento e a forma como a banda se apresenta também fazem muita diferença. Acho que as bandas que conseguem durar entendem que existe toda uma construção em volta da música, não só o som em si.

2112. Você acha necessário para uma banda recém formada gravar um single ou mesmo um álbum ou isso ajuda muito na divulgação? 

Zeno Germano. Se a banda é autoral imagino que o caminho esperado é o registro de suas músicas, seja single, seja álbum. Tem que aproveitar as facilidades de hoje.

Luciano Duarte. Eu acho muito importante a banda ter algum material lançado hoje em dia, nem que seja um single. Acaba sendo a porta de entrada pra galera entender a identidade e a proposta sonora da banda. Às vezes a banda toca muito bem ao vivo, mas sem nenhum registro fica mais difícil das pessoas criarem conexão com o trabalho ou até compartilharem aquilo. Então acho que ajuda muito na divulgação e também no amadurecimento da própria banda.

2112. Outro ponto controverso é a falta de apoio às bandas brazucas, seja por parte do público, das grandes mídias e pela escassez de patrocínio. Qual o seu ponto de vista sobre essas questões e qual seria a solução para diminuir esses problemas? 

Luciano Duarte. Eu acho que esse é um problema muito real dentro da música autoral brasileira, principalmente no rock e prog. Muitas bandas incríveis acabam esbarrando mais na falta de estrutura, divulgação e incentivo do que propriamente na qualidade do trabalho. Ao mesmo tempo, acho que as plataformas digitais ajudaram bastante a diminuir essa barreira, porque hoje bandas independentes conseguem divulgar o próprio som sem depender tanto das grandes estruturas de antigamente. Mas ainda acredito que profissionalização, união entre as bandas e fortalecimento da cena independente são fundamentais pra mudar isso aos poucos.

2112. Os álbuns lançados pela banda sempre são elogiados. Vocês já pensaram em lançar um registro ao vivo? 

Zeno Germano. Gosto da ideia de álbum ao vivo. Temos “Crimsoniana” ao vivo como faixa extra no “Solar” em 2018. Eu já pensei nisso algumas vezes, mas creio que nunca deixei claro para a banda se poderia ser bom fazer um álbum ao vivo... Segue na lista de desejos pro futuro. 

Luciano Duarte. Acho que no prog existe muito essa conexão forte com a experiência ao vivo, porque muitas músicas acabam ganhando uma energia e uma atmosfera diferente no palco. Então é algo que com certeza é uma ideia que em algum momento passou pela cabeça de todos. Talvez mais pra frente, no momento certo e com a estrutura ideal, seria muito legal registrar essa energia ao vivo da banda.

2112. ... o microfone é seu.

Alessandro Amorim. Primeiramente, queremos agradecer pela oportunidade de nos comunicarmos com o público em geral por meio do 2112, definitivamente, é uma vitrine para o rock progressivo no país.  Sempre faço questão de dizer que, sem esse tipo de veículo, a arte independente, especialmente aqui, a música, não teria espaço e a divulgação seria ainda mais difícil.  Queremos deixar uma saudação especial aos que acompanham a banda, alguns desde o início, quando lançamos o Esquizoide, e um convite ao público que ainda não nos conhece para visitar as plataformas. Reiteramos a informação de que o novo trabalho da Prognoise está partindo para a fase final e que queremos e devemos mesmo lançar em 2026.   Acompanhem nosso trabalho nas redes, mandem seus feedbacks e não desistam do Rock Progressivo.   Aliás, antes de ser Progressivo, ele é Rock.  E sabemos que o rock nunca vai morrer!!!!! Grande abraço a todos e até breve, com nosso novo trabalho que está chegando.