O blog 2112 foi formado com intenção de divulgar as bandas clássicas de rock, prog, hard, jazz, punk, pop, heavy, reggae, eletrônico, country, folk, funk, blues, alternativo, ou seja o rock verdadeiro que embalou e ainda embala toda uma geração de aficcionados. Vários sons... uma só tribo!



quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Entrevista Wilson Ricoy

 

2112. O que mais o influenciou na decisão de ser músico?

Wilson Ricoy. Minha família sempre gostou muito de música e ela sempre esteve presente em casa. Meu pai amava Tango e as Big Bands do Jazz, como Glenn Miller, Duke Ellington e Tommy Dorsey. Meu irmão adorava a "Santíssima Trindade" do Hard Rock, Deep Purple, Black Sabbath e Led Zeppelin. Minha irmã me mostrou The Beatles, Rolling Stones, The Hollies e por ai vai. Mas o que me deu aquele "empurrão" para ser músico foram mesmo os filmes do Elvis Presley e o seriado The Monkees, que eram exibidos da TV quando eu era criança.

2112. Em 1980 você inicia seus estudos sob influências de Eric Clapton, B.B. King, Stevie Ray Vaughan e bandas como Deep Purple, Led Zeppelin e Rolling Stones. O que você procurava além do desejo de ser tornar músico profissional?

Wilson. Comecei a estudar a sério mesmo em 1988. Pra falar a verdade, eu só queria tocar como esses caras e me divertir no processo... rs. Mas conforme fui estudando e entendendo o que esses caras faziam, o desejo de ser músico profissional foi aflorando cada vez mais e esse desejo foi fundamental para que eu me aprofundasse ainda mais nos estudos.

2112. Hendrix por exemplo era autodidata e influenciou e ainda influencia diversos guitarristas. A técnica é realmente necessária ou o feeling sempre fala mais alto?

Wilson. Como também dou aulas, eu sempre vou defender que o conhecimento é necessário, bem como manter a técnica em dia, para que você possa executar aquilo que seu coração manda. Se você depende apenas do feeling, você vai ficar refém de estar bem naquele dia ou não. George Lynch, guitarrista da banda Dokken disse em uma entrevista que tinha uma certa inveja de guitarristas que possuíam conhecimento formal, pois ele se sentia muito dependente de estar ou não com inspiração para tocar. Quando estava sem inspiração, não saia nada. Eu continuo buscando a mistura perfeita entre feeling e técnica para que eu possa me expressar devidamente no instrumento. Acho que esse é o Santo Graal de cada guitarrista. 

2112. Wilson é muito difícil achar uma linguagem própria de tocar?

Wilson. O sonho do guitarrista é encontrar a sua "impressão digital", quando você ouve duas ou três notas e já identifica quem está tocando. BB King e David Gilmour são ótimos exemplos. Miles Davis também. Como nós sempre nos espelhamos em alguém quando começamos a tocar, é um caminho árduo encontrar um estilo próprio. Eu sigo tentando. Nunca gostei muito, por exemplo, de tirar solos nota por nota. Prefiro entender o raciocínio do solo e eu criar os meus caminhos. Já existe um Stevie Ray Vaughan. Já existe um Eric Clapton. Eles já trilharam os caminhos deles e eu acho que tenho que criar o meu, para que eu possa seguir desenvolvendo meu estilo e linguagem.

2112. ... com o advento dos home studios cada vez mais sofisticados gravar um disco em casa é uma realidade que facilita bastante a vida do músico. Como produtor qual a sua visão sobre essa nova realidade?

Wilson. Acho que isso democratizou a possibilidade de que nossa música alcance lugares antes inimagináveis e sem a necessidade de fazer parte de um elenco de gravadora. Você sobe sua música hoje em qualquer plataforma e logo tem comenários do pessoal da China, da Croácia, da Argentina... isso é muito louco! Sou muito a favor da utilização dos home studios, seja para a gravação de demos ou mesmo de álbuns inteiros. Conheço vários casos de álbuns bons e que foram gravados em um quarto. Temos que aproveitar a tecnologia a nosso favor, sem purismos, na minha opinião.

2112. Que conselhos daria aos músicos que pensam em gravar mas que não tem experiência com estúdio? O que é mais necessário eles saberem antes de gravarem?

Wilson. Momento polêmica... rs. O primeiro passo é saber que, se você vai participar de uma sessão de estúdio, seja ensaio ou gravação, chegue com a sua parte pronta. Isso mostra respeito com os integrantes da banda. A sua parte você deve resolver em casa e chegar pronto no estúdio, onde serão discutidos detalhes do arranjo e entrosamento entre os instrumentos. Não importa se é um estúdio profissional ou um home studio, como já falamos. A regra número 1 é essa. Outro ponto é você tocar relaxado e com foco. A tensão e a distração te levam ao erro. Relaxe e seja você mesmo durante a gravação. Por isso a preparação prévia é essencial. Se você chega preparado, nada vai te abalar e você pode ficar calmo e confiante.

2112. Neil Young por exemplo comentou que ele e o Crazy Horse gravam tudo ao vivo muitas vezes num único take para preservar um clima mais próximo possível de suas apresentações. O que você acha disso?

Wilson. Sou super a favor. Mas é muito importante que a banda esteja muito entrosada e se conheça muito bem, para que o processo seja realmente produtivo, eficiente e eficaz. Sempre defendi também que o álbum deve sempre refletir aquilo que a banda vai fazer no palco. Não faz sentido, na minha opinião, você colocar no disco um quarteto de cordas e um naipe de metais, por exemplo, se, ao vivo, você toca em trio...rs.

2112. Você estudou no Instituto de Guitarra e Tecnologia (IG&T) com o lendário Wander Taffo e acabou mantendo contato com vários nomes da guitarra. Isso de uma certa maneira te influenciou?

Wilson. Minha vida como músico e estudante de guitarra se divide entre antes e depois do IG&T. Sem dúvida alguma foi um marco na minha vida. Além do conteúdo excelente ministrado pela escola, ter aulas e contato direto com monstros como Márcio Okayama, Wanderson Bersani, Edu Ardanuy, Mozart Mello, além do próprio Wander Taffo, estar no IG&T elevou meu nível de tocar e minha vontade de me aprofundar nos estudos. Nessa época, tinha aulas aos sábados pela manhã, mas passava o dia todo na escola, usufruindo de toda estrutura que a escola oferecia, além de pegar dicas com esses grandes nomes da guitarra em cafés e papos informais. Nessa mesma época, através dos workshops organizados pelo IG&T, tive contato direto e pude conversar com outros grandes expoentes do instrumento como John Petrucci (Dream Theater), Paul Gilbert (Mr. Big), Steve Morse, Roberto Frejat, Herbert Vianna, entre outros. Foi uma época de ouro, que fez com que eu me apaixonasse ainda mais pelo instrumento.

2112. Acredito que o interessante do estudo é o contato direto com outros ritmos que vai além dos que estamos acostumados a ouvir por negligência ou preconceito. O que você ouve hoje que não ouvia antes? 

Wilson. Excelente observação. Quando você começa a entender melhor o instrumento, você deixa um pouco seu gosto pessoal de lado e começa a abrir os olhos quando percebe um trabalho musical (não apenas de guitarra) bem feito. Hoje em dia ouço um pouco de tudo, sem preconceito, desde que seja música de verdade e bem tocada. Isso me fez prestar atenção em excelentes guitarristas que, até então, não estavam no meu radar, como Ricardo Silveira (João Bosco), João Castilho (Djavan), Claudio Venturini (14 Bis) e Toninho Horta (Milton Nascimento). Atualmente estou estudando com o grande André Christovam que, apesar de ser uma das minhas maiores referências e influências no Blues nacional, tem um conhecimento de MÚSICA (em letras maiúsculas mesmo) absurdo. Na discografia recomendada por ele durante nossas aulas, tomei contato com nomes como Kenny Burrell, John Scofield, Albert Lee, Bill Frisell, Robben Ford, Pat Metheny, além de outros instrumentistas, como Stanley Turrentine (saxofonista), Miles Davis (trumpete) e John Coltrane (saxofonista), só pra citar alguns.

2112. Essa diversificação musical ajuda na hora de criar o próprio estilo?

Wilson. Sem dúvida alguma! A audição e estudo da linguagem (e do "sotaque") além do universo do Blues e do Rock, contribui para aumentar a minha versatilidade e colabora muito com o desenvolvimento da minha própria linguagem, juntando todos esses "ingredientes" para que eu possa fazer a minha própria "receita"... rs.

2112. Você tem algum álbum de cabeceira?

Wilson. Pergunta cruel...rs. Tenho vários. Vou citar alguns que ouço com muita frequência: Burn e Made In Japan (Deep Purple), Mandinga (André Christovam), Som na Guitarra e Marginal Blues (Celso Blues Boy...outra grande influência), Sinatra At The Sands (Frank Sinatra), Completely Well (BB King), Images & Words (Dream Theater), Just One Night (Eric Clapton com Albert Lee) e Stone Crazy (Buddy Guy).

2112. Ao longo dos anos você participou de diversos projetos autorais. O que essas experiências te acrescentou ou mudou a sua concepção musical?

Wilson. O autoral permite que você possa colocar sua história e seus sentimentos para fora. Acho sensacional a maneira como André Christovam faz isso com maestria e ele é sempre uma grande inspiração para mim. A grande vantagem do autoral é justamente a liberdade criativa, onde você pode utilizar todo o seu background e criar algo novo, como se fosse um artista a pintar uma tela em branco. É uma experiência muito prazeirosa quando você executa a sua própria música ao vivo e vê a plateia interagindo e cantando. Isso não tem preço!

2112. Você sempre trabalhou como músico contratado ou já teve as suas próprias bandas?

Wilson. As duas coisas. Porém são experiências totalmente distintas. Quando você é um sideman (músico contratado), você precisa entender muito bem o seu papel e entender que você não é o artista principal e deve ficar restrito a executar aquilo para o qual te contrataram, a não ser que o próprio contratante te peça algo diferente. Nas minhas próprias bandas, a liberdade de ideias e expressão são bem maiores, além da responsabilidade de ser o responsável por tudo: fazer o papel de empresário, motorista, roadie... tudo ao mesmo tempo agora... rs. Em ambas as situações, saber conversar (pessoal e musicalmente) com os demais músicos é essencial. Nem sempre o holofote está sobre você e entender seu papel, seja contartado ou em banda prórpia, é essencial para ser bem sucedido.

2112. Existe registros dessas bandas?

Wilson. Infelizmente são bem raros, mas tenho alguma coisa, sim. Além do meu próprio canal do YouTube (https://www.youtube.com/@wilsonricoy), tenho algumas coisas registradas nos canais da Blended Blues Trio (https://www.youtube.com/@blendedbluestrio) e da Night Shakers (www.youtube.com/@bandanightshakers7274). Além disso, você pode encontrar o primeiro som autoral da Blended Blues Trio no Spotify, "Ressaca", que tem a participação do nosso grande irmão Ivan Márcio na gaita (harmônica). Também nas plataforma de streaming é possível encontrar o álbum "Questões Temporais", da cantora Laura Passoni, onde toquei guitarra, violão bandolim, ukulele e baixo, além de também ter produzido e arranjado o álbum em parceria com meu amigo Daniel Santina.


2112. Atualmente você faz parte da Blended Blues Trio e Night Shakers que se dedicam a tocar blues, rock, jazz e soul. Vocês tocam apenas clássicos dos gêneros ou também incluem material autoral?

Wilson. Apesar de grande parte do nosso repertório nas duas bandas ser composta de versões de grandes clássicos desses estilos, sempre procuramos incluir alguns sons autorais nossos ou de amigos queridos. A música "Bebendo Meu Whisky" de autoria do nosso saudoso amigo Tarcísio "Capitão Caverna" Duarte, por exemplo, está sempre presente nos nossos shows.

2112. Falando em material autoral, está cada vez mais difícil achar lugares que abram portas para esse estilo de música. Isso tem levado muitos músicos a desistirem de tocar material alheio, não? 

Wilson. Concordo 100%. São pouquíssimas casa que abrem espaço não somente para o som autoral, mas também para o Blues e Jazz em geral. Acho isso triste. Se vem algum músico de Blues ou Jazz consagrado, a casa fica sempre cheia. Ou seja, o público para o estilo, existe. Precisamos vencer essa barreira e fazer com que esse público abrace também as bandas nacionais que estão em busca de um lugar ao sol.

2112. Ao tocar material alheio vocês incluem algo além do que está nos arranjos originais?

Wilson. Quase sempre...rs. Como falei anteriormente, nunca gostei muito de copiar as músicas nota a nota. Então, tanto na Blended como na Night Shakers, nós pegamos a estrutura original da canção e trabalhamos em versões que tenham a nossa cara. Além disso, os solos são quase sempre improvisados ali na hora, o que faz com que cada apresentação nossa seja quase única.

2112. Além de músico você ministra aulas. Os alunos são muitos ansiosos para aprender? Eles mencionam projetos de formarem suas próprias bandas? Como você lida com essas situações?

Wilson. Diferente da época que eu cresci, aquela pessoa que chega com o sonho de aprender a tocar para montar a sua própria banda é cada vez mais raro. No meu estúdio, onde dou aulas na minha cidade, cheguei a ter algumas turmas de prática de bandas, onde eu atuava como se fosse um coach, preparando e orientando os músicos para poderem se apresentar de uma maneira apropriada. Com o tempo, abandonei esse projeto por falta de interesse das pessoas. Hoje em dia, meus alunos são, em sua maioria, pessoas que já tem outra profissão, digamos, formal e não querem ser os próximos Jimi Hendrix ou Eddie Van Halen, mas sim que querem tocar bem o instrumento apenas como hobby ou formar bandas amadores com amigos, apenas por diversão.

2112. Ser profissional de música no país é como matar não um dragão por dia. Falta apoio do público, locais adequados, cachês dignos, abrir mão de tocar material autoral por covers etc. Mas as pessoas tendem a glamourizar muito a profissão de vocês, não é?

Wilson. Aqui a frase "todo mundo vê as pingas que eu tomo, mas não vê os tombos que eu levo" é uma analogia perfeita para a profissão de músico. O que as pessoas veem no palco, é o produto final. Mas ninguém vê os bastidores que você mencionou. Não sabem de quanto tempo e quanto você investiu para estudar e se preparar muito para estar no palco. O quanto você investiu para ter um equipamento bom, para que a plateia tenha um som de qualidade. A remuneração quase nunca é adequada. Preciso ter outras fontes de renda, além de ser músico, para poder equilibrar meu custo de vida. That's life, como já dizia Frank Sinatra... rs.

2112. Como entrar em contato para estudar com você? As aulas são presenciais ou on line?

Wilson. As pessoas podem entrar em contato comigo diretamente pelo WhatsApp (12) 98155-0164. Dou aulas presenciais aqui no meu estúdio ou online para qualquer lugar do planeta... rs. Tenho método próprio chamado "Guitarra Sem Stress", com aulas e cronograma de estudo 100% personalizado para o aluno, de acordo com seu nível de conhecimento e disponibilidade de tempo para estudar. Esse método foi desenvolvido com base em todo o conhecimento que adquiri não apenas no IG&T, mas também fazendo aulas particulares com nomes como Marcos Ottaviano, Amleto Barboni, Lancaster Ferreira e Daril Parisi (Platina), além do próprio André Christovam. Meu estudos sobre fisiologia e psicologia também foram aplicados nesse método, para que ele seja o mais eficiente e prazeiroso possível para o aluno.

2112. Muito obrigado por ceder um pouco do seu tempo para me conceder essa entrevista. O microfone é seu...

Wilson: Carlos, te agradeço demais pelo espaço para falar um pouco mais sobre esse instrumento que eu amo tanto e poder compartilhar minhas experiências com seu público. Ficarei feliz se minhas palavras puderem ajudar alguém a iniciar, continuar ou mesmo retomar seus estudos. Meu conselho, o mesmo que minha mãe me deu há muito tempo atrás, é continue tocando! Não subestime o poder de cura que a música tem. Música faz bem para a alma! E, caso eu possa ajudar nesse processo, contem comigo! Grande abraço, pessoal...e keep playing!

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Entrevista Luiz Teddy

2112. Como exatamente surgiu o projeto do livro Eddy Teddy - O Som, a Vida e o Legado!?

Luiz.  Nunca me passou pela cabeça escrever um livro sobre meu pai — na verdade, nunca pensei em escrever um livro sobre nada. Sempre gostei de colocar no papel as coisas que vinham à minha cabeça: textos em blogs, posts em redes sociais e até algumas matérias que acabaram saindo em jornais e revistas. Mas eram textos soltos, sem a intenção de preservar ou organizar aquela história.

Há algumas décadas eu vinha tentando produzir um documentário em video sobre ele. A ideia era entrevistar pessoas que conviveram com meu pai e reunir o grande volume de material que eu tinha guardado em casa. Mas sempre que eu começava esbarrava nos mesmos problemas: dependia de vários amigos e de uma equipe para "decupar" todo aquele material, além de precisar de tempo, dinheiro e correr o risco de não recuperar o investimento.

Ao mesmo tempo em que eu percebia uma falta quase total de interesse da maioria das pessoas ligadas ao rock’n’roll no Brasil em preservar essa história, também recebia cobranças constantes. Muitos amigos, pessoas que viveram aquela época e até alguns “gringos” demonstravam curiosidade em saber mais sobre a nossa cena, sobre como tudo começou.

Desde que meu pai faleceu, também fui o único da família que manteve guardadas as anotações dele: diversas pastas com recortes, cartazes, flyers, jornais, fotos e várias gravações, tanto em vídeo quanto em fitas cassete. Sem contar que meu pai escrevia até diários com as datas dos acontecimentos e reflexões.

Com o passar do tempo começou a surgir uma outra preocupação. Estou ficando mais velho, meus filhos, pelo menos por enquanto, não demonstram essa paixão louca por rock n roll ou por essa parte da historia que eles não viveram e comecei a pensar que, se algo acontecesse comigo, parte dessa história poderia simplesmente acabar no lixo.

E não era apenas a história do Eddy Teddy. Era também a minha história e a história de muitas outras pessoas que estavam ali no nascimento de algo que continua vivo até hoje e contagiando outras pessoas.

Foi então que recebi em casa um casal de amigos: Cris Escudeiro (Que já tinha participado dos shows do Coke Luxe, quando eu estava nos vocais) e seu namorado, Carlos Galego. Eu já sabia que ele era escritor e que havia lançado alguns livros de outros autores, como Ruídos Urbanos, do meu amigo Ricardo Martins, o “Rick n’ Roll”, além da HQ A Lenda da Família da Colina, escrita por Hulk "Fraile", vocalista da banda Kães Vadius.

Em uma noite de pizza e algumas cervejas, ele começou a falar sobre sua produtora, a Cuca Insana, que já havia publicado diversos autores. No meio da conversa, ele me lançou um desafio: transformar toda aquela história em um livro.

Confesso que a ideia me assustou. Não me achei capaz e disse que precisava pensar.

Mas, no dia seguinte, quando comecei a olhar novamente para todo aquele material guardado, tive apenas uma certeza: meu pai tinha me deixado mais esse presente. Talvez só estivesse faltando chegar o momento certo.

2112. O livro já está em sua terceira edição. Toda essa receptividade de alguma maneira te surpreendeu?

Luiz. O livro começou me surpreendendo. Por meio de uma plataforma de financiamento coletivo, as pessoas que apoiaram financeiramente conseguiram viabilizar o projeto. Ao mesmo tempo, muita gente que eu nem conhecia e que nem faz parte da cena começou a compartilhar, divulgar e comentar sobre o livro. 

Isso me motivou muito, porque senti que tinha um compromisso com minha família e com todas essas pessoas. Por outro lado, também percebi que muita gente da própria cena e alguns até mais próximos parecia torcer contra. É triste perceber isso, porque não acontece só com um livro, acontece com qualquer iniciativa de quem resolve tomar a frente de algo.

Parece que grande parte das pessoas que vivem isso ama a parada, mas não quer ver nada dando certo de verdade. Não sei explicar exatamente o que acontece, mas o reflexo disso é que poucas coisas acabam acontecendo nunca cidade gigante como São Paulo e que o Rock no geral envelhece a cada dia.

Eu também sentia a pressão de fazer algo legal: um trabalho honesto, caprichado e respeitoso. E quando vi pessoas como a minha mãe se emocionando, e amigos que eram muito próximos do Eddy, que viveram o comecinho de tudo também se emocionando, percebi que, mesmo que o livro nunca chegasse a uma terceira edição, para mim ele já era um sucesso.

No início, imaginávamos uma tiragem pequena. Esse número aumentou antes de sair a primeira edição, dobrou na segunda edição e agora estamos para receber a terceira, já com metade dos livros vendidos.

Pode parecer muito, mas quando você tem muitos amigos e muita gente te acompanhando nas redes, esse número de vendas ainda não chega nem perto da metade das pessoas que eu conheço. Ao mesmo tempo, existe um universo enorme de outras pessoas para quem eu ainda preciso fazer essa história chegar.

2112. ... isso mostra o interesse das pessoas em adquirir livros. O problema está na questão de valores pois quem recebe salário mínimo não tem como custear cultura, não é?

Luiz. Eu acredito que já respondia na questão anterior. Em relação ao valor no Catarse quando foi lançado podia ser aparcelado em 12 vezes, o que era possível além do desconto da compra antecipada. Ao mesmo tempo não sou hipócrita para saber o custo do salário mínimo do Brasil e quando tanta gente faz para sobreviver por aqui onde certamente um livro será uma das últimas opções de uma família.

Mas não recebi nenhuma mensagem de alguém questionando o preço ou pedindo desconto, pela quantidade de páginas, informações e arquivos eu acredito que o valor está super honesto. Quem não adquiriu ainda ou é porque não teve conhecimento, ou realmente não tem interesse ou é da turma do torcer contra mesmo (rs)

2112. O que me chamou a atenção é ver o quanto Eddy era amado por fãs e amigos. Afinal, "Conhecê-lo era amá-lo", não é?

Luiz. Cara, meu pai faleceu muito cedo e foi um cara que a vida toda se dedicou a amigos e familiares, era um cara bom, BOM DE VERDADE. Ele já falava em vida que o dia que morresse era para doar todas as partes do seu corpo e as cinzas poderia plantar uma árvore, e foi o que fizemos, inclusive quando sua presença física já não estava mais por aqui.

No dia que estávamos esperando o hospital ligar para liberarem o corpo, afinal todo esse procedimento de doador é demorando, ficamos escutando o especial que o Kid Vinil fez na rádio em homenagem ao Eddy, especial que ele chamou de "Conhecê-lo era ama-lo", certamente não tinha frase melhor.

Depois da sua morte, por onde eu passei, quem eu encontrei no caminho, independente de ideologia, posição política, estilo musical ou qualquer coisa que fosse, todos sem exceção  falavam bem dele e me recebiam sempre muito bem. Não era porque foi cantou, fez isso ou aqui era porque era um cara BOM! Prova disso é que já faz quase 30 anos que ele se foi e até hoje é lembrando com muito carinho, inclusive por quem nem teve a oportunidade de conhecê-lo.

2112. Depois de ler o livro vi o quanto Eddy era dedicado não só quanto a sua carreira mas arquivando tudo que saia a seu respeito. Parece que ele até estava advinhando este momento, não é?

Luiz. Ele sempre foi muito preocupado com a memória e com os registros para as novas gerações. Costumava dizer que, enquanto existisse um jovem curtindo Rock’n’Roll, isso significava pelo menos mais dez anos de vida para aquela cultura. Para ele, era quase uma obrigação passar conhecimento adiante, receber bem os mais jovem que no futuro daria continuidade, compartilhar descobertas e dividir qualquer coisa ligada a esse universo.

Tenho certeza de que, se estivesse vivo hoje, com a quantidade de informações disponíveis, muitas delas de graça, ficaria muito incomodado ao ver tanta gente ainda repetindo erros, escrevendo coisas sem fundamento ou tentando apagar partes da história para recontá-la com as próprias palavras, muitas vezes sem sequer ter vivido aquela época.

2112. No meu tempo esse papel de arquivar itens dos artistas cabia aos fãs que exibiam os seus acervos orgulhosamente em convenções ou nos lendários fã-clubes onde acontecia não somente o intercâmbio entre os fãs mas a troca de materiais, não é?

Luiz. Meu pai não arquivava apenas a própria história, mas também tudo o que estava acontecendo na música e ao seu redor. Ele sentia tristeza por ter poucos registros da própria infância e começo da adolescência; talvez por isso fizesse tanta questão de guardar tudo o que pudesse. Para se ter uma ideia, ele assinava todos os jornais, comprava diversas revistas e ainda recebia materiais enviados pelo correio por amigos que viviam em outros países numa época completamente diferente de hoje. Muitas matérias publicadas por aqui ele chegava a comprar em duas edições, apenas para garantir que teria uma cópia guardada.

E foi além: registrou, escrevendo e guardando materiais sobre as minhas andas e sobre os meus projetos. Ou seja, como ele não teve esse tipo de registro da própria vida, fez questão de deixar prontas as lembranças e as histórias dos filhos.

2112. Rita Lee ao escrever a sua auto biografia por exemplo pediu ajuda a um dos seus maiores fãs que colecionava tudo sobre a cantora. Você também precisou recorrer a fontes externas?

Luiz. Como eu já tinha um blog onde escrevia algumas lembranças e percepções e também havia iniciado, há quase 20 anos, um documentário em vídeo entrevistando músicos e pessoas que conviveram com ele, o processo de escrita acabou sendo mais fácil. Eu já tinha muito material reunido e também muitas histórias guardadas na memória.

Precisei revisitar todos estes materiais, além dos diários e focar em um livro que agradasse quem estivesse lendo.

Além disso, a vida ou sei lá o que, me deu de presente a oportunidade de viver experiências que eram muito particulares dele. Cheguei a cantar em algumas de suas bandas, como Satisfaction, Rockterapia e Coke Luxe, conviver com seus amigos e até trabalhar na mesma empresa onde ele trabalhou, ao lado de pessoas que conheceram um outro lado do Eddy Teddy, o Eduardo Moreira — empresa na qual estou até hoje.

Também compartilho muitos dos seus gostos pessoais: continuo vivendo a cena Rockabilly no Brasil e acompanhando todas as suas mudanças, além de ter paixões muito parecidas com as dele, como colecionar discos, entre tantas outras coisas.

2112. Quando idealizou o livro você já tinha uma idéia formulada na cabeça ou ele foi criando vida enquanto ia organizando os materiais?

Luiz. É complicado escrever sobre isso, mas sempre tive uma conexão muito forte com meu pai e também com a espiritualidade. De alguma forma que nem sei explicar, toda a concepção do livro apareceu de uma vez. Quando aceitei a proposta e comecei a escrever, eu já tinha clareza da capa, do começo, do formato e de tudo que viria a acontecer. Fiquei tão focado que, em seis meses, o livro já estava pronto. Acho que até assustei o pessoal da produtora de livros.

A parte mais difícil foi trabalhar com as fotos, porque isso realmente me arremessou de volta ao passado. Foram noites mal dormidas, muito choro e um turbilhão de sentimentos. Ao mesmo tempo, existia também uma sensação de missão cumprida, por tudo o que ele representa para mim até hoje.

2112. Como foi escrever a história do seu pai passo a passo sendo você um coadjuvante de toda essa história? Foi difícil separar o profissional do emocional?

Luiz. Quando pensei em fazer o documentário em vídeo, acabei percebendo que, naquele momento, seria impossível dar continuidade ao projeto exatamente por conta dessas questões, e precisei interromper a ideia. Já no caso do livro foi diferente: a proposta de contar a história dele a partir do conceito de legado, conectando isso com a própria história do Rock and Roll, afinal, meu pai nasceu em 1950 e também com a minha trajetória, acabou tornando tudo mais natural. De certa forma, a história dele inevitavelmente se cruza com tudo isso.

O mais complicado foi equilibrar essas diferentes dimensões: o pai, o Eduardo Moreira e o Eddy Teddy dentro de uma mesma narrativa, e encontrar um caminho para conduzir essa história sem deixar ninguém importante de fora, especialmente as pessoas mais próximas que fizeram parte dessa trajetória.

Tudo o que está ali — na capa, na contracapa e nas passagens do livro — tem um sentido e um motivo para estar presente. Tenho certeza de que, se ele estivesse aqui, ficaria orgulhoso.

2112. Outro fato interessante é que o livro não citou apenas a carreira do Eddy, mas comentou toda a cena, indicou discos, zines/livros, filmes, falou das feiras de vendas de vinis/cds, dos encontros na sua casa, dos shows que era o universo que circulou o mundo do seu pai. Você ainda mantém isso vivo?

Luiz. Eu não poderia escrever apenas sobre o Eddy Teddy, o vocalista do Coke Luxe que criou o primeiro clube de Rockabilly no Brasil. Existe toda uma história antes disso acontecer. Nada começou simplesmente em uma manhã em que meu pai acordou com vontade de fazer aquilo há todo um caminho e uma geração que levou até lá.

E se ele deixou alguma informação anotada na contracapa de um disco, nos diários ou até mesmo em uma simples lista de discos, é porque aquilo tinha um significado.

Como eu sempre estive ao lado do meu pai em grande parte dessa historia, seja nas reuniões em casa, nas festas, nos shows, nas feiras de discos ou passeios em família esse habito dele se tornou meu também. Mesmo que muitos amigos, dele e meus, que compartilhavam desse mesmo gosto, já não estejam mais aqui. No fim das contas, é algo que faz parte de mim. Eu realmente não sei fazer outra coisa e isso de alguma forma ainda me conecta com ele e ao meu passado.

2112. Como foi escolher o material do cd incluído junto a primeira edição do livro contendo vinte e sete faixas divididas entre a Coke Luxe e o Rockterapia. Futuramente essa relíquia poderá ser relançada?

Luiz. Essa parte foi complicada, porque ainda tenho muito material que converti de milhares de fitas para MP3, e no CD simplesmente não caberia quase nada.

Tenho muita vontade de lançar um disco com gravações, mas isso envolve várias outras questões, principalmente a participação de uma gravadora. 
Além disso, como eu gostaria que fosse em mídia física, e será que ainda temos tanto público que consome isso? Realmente o processo acaba se tornando ainda mais complexo. Se tiver alguma produtora musical é só me procurar.

De qualquer forma, se esse lançamento não acontecer dessa forma, penso ao menos em disponibilizar parte desse material no Spotify, para que as pessoas possam ter acesso e conhecer essas gravações.

2112. ... sobrou alguma coisa para futuros lançamentos?

Luiz. Essa missão ou parte dela está cumprida, mas ainda tenho vontade de realizar outras coisas, como montar uma exposição ou, quem sabe, lançar um disco novo dele. E é claro tenho meus projetos também como lançar um LP do Run Devil Run banda que sou vocalista.

Também fiz uma promessa a mim mesmo: enquanto eu estiver respirando, vou continuar preservando a sua memória — cantando as músicas que eram dele e, quem sabe, transmitindo essa mesma paixão pelo rock’n’roll para as próximas gerações.

2112. Outro ponto relevante foi o relançamento em cd com todas as gravações realizadas pela Coke Luxe na Baratos Afins que incluiu mais onze faixas de bônus. Você participou desse projeto?

Luiz. Eu participei apenas em parte. O Luiz Calanca me pediu algumas gravações e, depois, me mostrou o material quase pronto.

Eu era mais novo e ainda não fazia muito tempo que tinha perdido meu pai, então fiquei muito feliz com essa iniciativa da Baratos Afins, principalmente porque o CD era a midia da atualidade e que era uma forma de mais pessoas conhecerem o trabalho dos caras. Naquele momento, porém, eu não me via como parte da banda ou daquele capítulo da história. O Coke Luxe ainda tinha outros integrantes vivos e, de certa forma, aquilo fazia muito mais parte da trajetória deles do que da minha.

Sempre fui muito grato por toda família Baratos Afins, que inclusive não só lançaram o Coke Luxe, mas que também lançaram o Krents, que era a minha banda e que inclusive foi a última participação do meu pai.

2112. Essas onze faixas são demos ou são gravações profissionais de estúdio para um possível segundo álbum da banda?

Luiz. Na gravação do CD do Coke Luxe pela Baratos Afins além do Compacto e do LP eles incluiram gravações de shows, dos primeiros ensaios e também do último ensaio do Coke Luxe.

No Cd que lancei com o livro para acompanhar as primeiros 300 edições eu inclui mais algumas músicas do Coke Luxe de ensaios e de shows nunca gravadas e materiais do Rockterapia que eram demos de estudio, ensaio e shows.

2112. As gravações do álbum que veio incluso no livro e no cd da Baratos Afins passaram por algum tipo de restauração em estúdio ou foram incluídas em suas gravações originais?

Luiz. No caso do lançamento da Baratos Afins, acredito que apenas o Calanca possa responder com mais precisão, já que são restaurações de fitas cassete nas quais ele trabalhou diretamente.

Já o CD que montei como presente para os apoiadores do projeto foi diferente: eu mesmo fiz a seleção das músicas, realizei alguns ajustes com software de áudio em casa e também cuidei de toda a parte de design.

2112. Já pensou em criar um documentário com as imagens do Eddy junto a depoimentos de amigos e fãs ... ou talvez uma exposição contendo os vários itens da carreira dele? 

Luiz. Eu já comentei sobre isso em outras respostas. Ainda tenho essa vontade, mas ao mesmo tempo bate um certo desânimo de me envolver profundamente em novos projetos e perceber que, muitas vezes, o público não demonstra tanto interesse. São iniciativas mais complexas, que exigem mais trabalho e também um custo maior. Talvez uma lei de incentivo à cultura facilitasse bastante a realização de algo assim. Ou esse livro seja a ponte para tudo isso.

Quem sabe eu não deixo isso como uma espécie de lição de casa para quem estiver lendo e alguém acabe se animando a ajudar.

2112. Muito obrigado pela entrevista. O microfone é seu...

Luiz. Carlos, eu que agradeço pelo apoio desde o começo e por abrir este espaço para que eu possa contar um pouco sobre o Rock’n’Roll, sobre a vida do meu pai e também sobre a minha trajetória.

Ainda existem muitas pessoas dedicadas a dar continuidade e a preservar essa história. Tenho sempre a esperança de que novas gerações surjam em busca de informação e de conhecer tudo isso e nós estamos fazendo a nossa parte para que esse legado continue vivo.

Agradeço também a cada apoio que tive desde o começo do projeto, sem vocês nada seria possível.

Quem tiver interesse no livro, ou simplesmente quiser conversar sobre música, pode entrar em contato comigo pelo e-mail krents@uol.com.br ou pelas redes sociais: Facebook @luixteddy e Instagram @luiz_teddy.

Rock’n’Roll will never die!