2112. Já se passou um tempo desde a sua saída do Salário Mínimo e existe uma expectativa muito grande por parte dos seus fãs em relação a um álbum solo. O que você tem a dizer sobre o assunto?
China Lee. Eu não pretendo lançar nada novo no momento. A minha luta maior hoje é pra tentar arrumar um time pra voltar aos palcos o que já seria uma grande vitória. O músico hoje de autoral está numa escassez tremenda. Então por isso que eu não voltei aos palcos, então seria essa a primeira coisa. Ter um time pra voltar aos palcos e depois pensar em algo novo. Tenho bastante coisas para lançar, parcerias lançadas, mas primeiro gostaria de voltar aos palcos.
2112. Existe a possibilidade de criar uma novo banda ou mesmo
um projeto solo?
China. Como eu falei a prevenção de voltar aos poucos era desde o primeiro ano
parado, né? O ano foi legal parado, daí pra frente só tentando arrumar músicos
e os músicos de hoje não estão interessados no autoral, todo mundo tem covers.
Aí você põe os caras bons que tem no mercado que tocam covers o cara te deixa
na mão. Então esse está sendo o grande problema. Mas desde desde 2021 o meu
foco era voltar pros palcos, carreira solo... mas infelizmente decepcionante o
que está acontecendo com a música autoral.
2112. Você tem um público avido por novidades. E no meu ponto
de vista um single não resolveria essa lacuna. Você sente essa pressão?
China. Sim, sinto essa pressão. Sempre fui cobrado e sempre a resposta foi a
mesma. Já no Salário era muito cobrado mas tudo que foi lançado o Salário está
aí continua. Mesmo que tudo que for lançado as pessoas vão querer ouvir o Beijo
Fatal. É muito complicado eu sempre me comparo ao RPM. Eles estouraram todas as
músicas. Na proporção do metal nós somos iguais. O Beijo Fatal foi uma coisa
tão grandiosa na escolha do repertório que inclusive foi eu que escolhi e essas
músicas marcaram demais. Então a gente já teve dificuldades de colocar o
Simplesmente Rock algumas músicas e a banda agora continuando também vai ter
esse mesmo problema. Então esse é o que desanima a gente um pouco de lançar
algo novo e as pessoas querer ouvir as mesmas músicas velhas.
2112. É imprenscionante a quantidade de fãs devotos que você tem. E isso sem lançar nada ou fazer um único show. Isso é um privilégio para poucos, não é?
China. Você sabe que é uma das coisas que me mantém vivo, né? Realmente o respeito e o número de fãs que eu tenho é gigante. E isso é o que causa ciúmes em um monte de caras que nesses anos todos fizeram de tudo pra me prejudicar e muitos que se aproximaram de mim achando que vão tomar esse público acabam quebrando a cara. Realmente a minha marca, a minha carreira é sem dúvida nenhuma o meu público. Também eu trato o meu público de uma forma muito especial, né?
2112. O que me chama mais atenção nesse caso é a honestidade que existe entre ambos os lados. Você é parado e tira muitas selfs nas ruas?
China. Sim, sou muito reconhecido. A minha filha às vezes está comigo e ela fica até meio assustada. É bem legal esse reconhecimento. Ás vezes a gente sai, vai no shopping ou no McDonald's em vários lugares e é bem bacana. O que mais me surpreende geralmente é quando a garotada entre dezesseis, vinte e poucos anos... eu fico bem surpreso quando isso acontece comigo. Sim, sou muito reconhecido nas ruas graças a Deus.
2112. Qual a importância dos fãs no seu cotidiano?
China. A importância do fã desde que eu me conheço por artista sempre foi de maior carinho possível, né? Porque sem eles você não é nada. Tem muito artista que maltrata o fã. Eu sempre fui um cara muito fácil. Você acredita que muitos artistas do meu porte, um pouco maior não vou citar nomes, até a gravadora, o empresário falaram que eu tinha que ser mais difícil, né? Assim mais nariz empinado que as pessoas parece que as pessoas gostam disso. Num certo ponto elas têm razão porque você se torna fácil e aí parece que o cara perde aquela magia, né? Mas eu não consigo ser assim, então, eu sempre fui muito amigo e a importância dos fãs no meu cotidiano é assim. Eu já acordo com uma média de duzentos e cinquenta a média. Há momentos que que passam de setecentas mensagens e que eu respondo a todos. Muito cansativo, mas muito prazeroso.
2112. Outra fato que chama atenção é que ambos os álbuns gravados pela banda são frequentemente citados por fãs e músicos. Como você explica todo esse culto?
China. Sim, os álbuns são sempre citados por músicos de peso,
por grande parte do público, da imprensa, né? O Beijo Fatal foi muito maior que
o Simplesmente Rock e aí eu coloco a coletânea SP Metal que foi de uma
importância muito grande, né? O SP Metal vamos falar do SP Metal. O SP Metal
foi um marco, né? Assim junto com o Stress foi o primeiro disco de heavy metal
do Brasil onde tinha toda essa dificuldade de se gravar, né? Ele se tornou uma
obra prima, influenciou muito gente, muita garotada que toca aí. ... de vez
quando vou a algumas casas noturnas, muitos músicos falam: "porra bicho,
eu toquei muita música do Salário." Então a gente sabe que influenciou
muita gente, então é um disco que marcou como marcou a minha época o Casa das
Máquinas, né? O Made In Brazil, alguns álbuns deles me marcaram e isso é o que
acontece essa safra de trinta, quarenta anos estão no palco tocando, então a
gente influenciou grande parte dessa geração de músicos que estão por aí. E os
fãs? Os fãs é engraçado e o mais legal é que muita gente nova vai procurar o
Beijo Fatal. Isso é o mais interessante sabe? E o Simplesmente Rock está
esgotado e como eu não sou mais da banda até falei com o pessoal da gravadora
pra tentar suprir essa necessidade. Mas volto a te dizer, não sou mais da banda
e mesmo eu tendo os contatos foram todos eu que fiz, né? Tanto o Beijo Fatal
com o SP Metal simplesmente eu passei tudo pra banda e vai estar nas mãos deles
2112. Vejo que Beijo Fatal é mais cultuado do que o Simplesmente Rock. Qual a sua visão sobre isso?
China. Então, volto a dizer aqui a importância do Beijo Fatal é muito maior. Beijo Fatal é um dos maiores clássicos do Heavy Metal nacional e até em alguns países da língua portuguesa como Portugal que tem a gravadora que lançou, né? É muito bem vendido nos Estados Unidos. O americano tem a mente aberta, não tem preconceito. O Beijo Fatal é um clássico, não tem o que acrescentar e o Simplesmente Rock eu gosto muito mais que o Beijo Fatal. Simplesmente Rock pra mim foi a maior trabalho da minha carreira como cantor, né? Ele foi difícil de se entender. Quando as pessoas começaram a entender deu no que deu... está esgotado, não tem lugar nenhum para comprar. Então foi um disco que ele veio pegando, engraçado que de uns anos pra cá ele está sendo entendido, as pessoas começaram a amadurecer, né? Então essa é a explicação. Beijo Fatal é um clássico do metal nacional, não tem o que dizer.
2112. Falando em Simplesmente Rock ele traz uma versão
pesadíssima de Delírio Estelar com dois bumbos e ainda assim os fãs como você
disse certa vez num podcast preferem a versão tosca do SP Metal. Como você
enxerga isso?
China. Cara, isso é uma coisa que a gente conversa entre a gente, entre alguns
músicos. Existe algumas pessoas que se apegou aquela sonoridade tosca. Você vê
que tem bandas que estão lançando discos e eles vão buscar exatamente aquela
sonoridade que é fiel à época, entendeu? Então é um pessoal que não abriu a
cabeça, eu vejo só dessa forma, eles estão ligados naquela sonoridade precária
dos anos oitenta e quatro e três no início dos anos oitenta. Você vê que a
molecada lança o disco e algumas bandas tocam ao vivo com aquela sonoridade.
Uma coisa que eu sinceramente... a gente conversa para entender o porquê disso.
O Brasil é engraçado em algumas coisas, né? O Brasil é difícil de se explicar
até pra te dizer.
2112. E como surgiu o projeto Extravaganza?
China. O Extravaganza foi no final de oitenta e nove. Eu estava querendo trazer o Micka pro Salário. Sempre quis o Mika no Salário e o Micka sempre me quis no Santuário. O Santuário tinha acabado e eu acabei ligando pra ele e fiz um convite para ele vim para o Salário e ele estava pensando em me convidar pro Naja que era o novo projeto dele, tinha passado um vocalista que deixou ele na mão e acabei topando. Aí eu fui para Santos, fizemos alguns ensaios e acabei gostando do Naja e aí foi um momento legal porque o Naja estava estourado em todo o litoral, né? Tocando nas rádios era uma banda bem bacana, um hard rock bem arena assim, sabe? E foi um momento bom porque a gente estava no finzinho do Salário e aquele restinho daquele boom que a gente deu em oitenta e sete, isso era oitenta e nove houve aquele declínio, né? Mas ainda assim mesmo a gente estava fazendo muito show no interior. Então fazia dois finais de semana com o Salário e dois finais de semana com o Naja. Minha agenda estava sempre cheia, foi um momento bem bacana. Aí eu cheguei o Micka começou a mostrar várias composições e eu comecei a colocar algumas idéias também. E aí eu falei, cara nós temos que dar uma mudada no estilo. Eh, mais atualizado, né? Para a cara que já estava vindo, a cara dos anos noventa no caso. E aí eu falei pro Micka: Bicho, nós temos que subir pra São Paulo porque é lá que acontece as coisas. E aí a gente veio para São Paulo arrumei um empresário e aí nasceu o Extravaganza. Começamos a compor, mudamos o nome. Praticamente nada do Naja foi aproveitado. E aí surgiu o Extravaganza que foi bem bacana também.
2112. Você e o Micka vinham de duas bandas que marcaram profundamente o cenário do metal brasileiro. A ideia era lançar apenas um único álbum?
China. Sim, eu e o Micka estávamos fazendo uma parceria bem legal, funcionou bastante, foi muito bacana. O Extravaganza tocou muito, nada parecido com o Salário. O Extravaganza funcionou muito no interior de São Paulo e por incrível que pareça no sul do país. Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina... mas o forte era o interior de São Paulo. Mas a gente estava na contra mão do momento porque a gente era um hard bonitinho, limpinho, bem feito e estava todo mundo no grunge. E nós tivemos bastante dificuldades por isso. Ah, o segundo disco do Extravaganza seria o grande disco, mas eu estava passando um momento muito complicado de um vício em drogas e eu acabei prejudicando o lançamento do segundo disco. A banda não suportou, né? E acabou quebrando... Teve uma também do presidente da gravadora que já tinha contratado o Extravaganza pra lançar esse segundo disco que era espetacular e aí teve essa mudança do presidente, né? Entrou um novo presidente e a gente era peixe do outro então tudo isso veio e afetou muito a banda que acabou em noventa e seis.
2112. O álbum trazia um ótimo repertório com faixas pesadíssimas. Vocês fizeram muitos shows de divulgação?
China. Sim, o Extravaganza ele tinha um empresário muito forte que inclusive faleceu há pouco tempo que era o José Vicente Zima. Ele era muito ligado ao sertanejo, ao pagode mas gostava demais do Extravaganza. Então nós tivemos uma estrutura muito maior que a do Salário. O Extravaganza teve um investimento muito grande, nós fizemos um videoclipe que passava muito na MTV que proporcionou a gente fazer vários shows. Foi bem bacana, vários programas de televisão e jornal. Foi muito polêmico o vídeo, né? Mas não vingava volto a te dizer que aquilo que a gente estava na contramão. Não era o momento certo.
2112. Existe gravação de algum show?
China. Sim, tem um na praia se eu não me engano está disponibilizado no YouTube e tem muita coisa em VHS ainda que a gente acabou não digitalizando. Estava tudo com esse empresário e quando você tem um contrato fica difícil muitas coisas. Como há um investimento de terceiros eles ficam com o monopólio dessas coisas liberando pra gente mesmo passando por anos, né? Se a gente lançou o cd do Extravaganza tiveram que pedir autorização senão a gente não conseguiria, entendeu? Ainda bem que liberaram tudo, né? Bem complicado, mas temos um que está no YouTube como já disse. O resto está em posse dessa turma que investiu, né?
2112. A bela capa foi solenemente proibida. Essa atitude te frustrou?
China. Repeteco se deu o Carlos porque a capa do Beijo Fatal talvez muita gente não saiba disso mas aquilo eram duas pessoas nuas. A menina em cima do rapaz que no caso era até o Artur o nosso guitarrista. Aí ele foi pra Brasília naquela época aí ela foi proibida e a gente escaneou e virou um grande sucesso. O Extravaganza acabou sendo um grande gancho porque o jornal do SBT com a Leila e o Eleaquim Araújo ou da Manchete se não me engano e o Amauri Jr., o Goulart de Andrade... todos esses caras quando a capa foi proibida eles pegaram e aí nós fizemos logo em seguida o clipe. Então foi o gancho não me frustrou porque acabou sendo um grande momento. Pareceu muito forte por causa disso as pessoas convidavam a gente. Aí tinha a vaidade, fizemos uns dois programas mas a capa foi um grande gancho.
2112. Porque que o projeto durou tão pouco?
China. Não durou tão pouco porque foram o início que eu canto
com o Naja aí virou Extravaganza, né? De oitenta e nove e finzinho até noventa
e seis. A gente estava na contramão do movimento que era muito forte o grunge e
a gente estava limpinho, né? Principalmente no Brasil porque existia bandas
parecidas com a gente, né? O Guns N´ Roses, Skid Row, Extreme... só que o
grunge pegou muito forte no Brasil. Todo mundo tocando um som sujo. Você vê que
até os Titãs ficou meio grunge com Titonomaquia. Porque realmente não tinha
espaço ou você ficava meio daquele jeito Chico Science é o que estava virando
no Brasil. Aí quando a gente faz um puta repertório para o segundo disco e a
gente foi contratado pela Sony Music houve a troca de presidente. E eu também
no momento bem delicado do vício, né? E acabou sendo o final um junção de
coisas. Mas foram seis anos bem bacanas.
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2112. Ficou algum material gravado e que não foi aproveitado?
China. Sim, ficou muita coisa de fora que era esse segundo disco. Só que eu tive uma grande sacada e como o Micka era muito meu parceiro na volta do Salário e no Simplesmente Rock eu peguei muita coisa por exemplo desse segundo do disco do Extravaganza como Faz Assim, certo? Faz Assim, Eu não quero querer mais que entrou no Simplesmente Rock e Faz Assim entrou no bônus do Beijo Fatal. E Simplesmente Rock é um disco maravilhoso. Não tanto para os headbangers. Ele era um disco de hard, bem hard com muita balada inclusive Anjo. Esqueci de Anjo que também estava no Simplesmente Rock.
2112. Voltando ao início não podemos de mencionar a importância da participação do Salário Mínimo na coletânea SP Metal. Como era os shows nessa época?
China. É outra época, cara. Eram shows lotados se fazia shows com quatrocentos, quinhentas pessoas, o heavy metal estava no auge, né? E aquela invasão de bandas brasileiras cantando em português com uma sonoridade muito próxima uma das outras e todas muito amigas e irmãs pra caramba era uma coisa inacreditável bicho. Teve uma vez no Mambembe, teatro ali no Paraíso a gente chegou cara e estava sold out... seiscentas pessoas dentro do teatro. Aí o dono do teatro chegou falando: Vocês querem fazer mais uma apresentação? Tem mais trezentas pessoas lá fora. Fizemos duas apresentações numa noite de terça-feira, velho. Os shows eram lotados. A média de público era quinhentas, seissentas pessoas. Show grande quando juntava duas, três, quatro bandas era para lá de mil, né? Outra época, totalmente diferente, o movimento era forte, né? As bandas cantando em português. Era muita banda. Em cada esquina tinha uma banda, foi um movimento inacreditável.
2112. Passados todos esses anos cantando, compondo e fazendo shows como você enxerga a atual cena metálica?
China. Uma resposta difícil de dar porque a gente sempre mexe com algum brilho de algumas pessoas. Eu vejo o heavy metal no fim, no finalzinho, né? O que heavy metal que a gente gosta, o tradicional, ele vai ser substituído por essas coisas mais modernas que tem aí de uma nova galera. Mas vamos falar em termos de Brasil é só você ver o público de shows internacionais. A maioria é tudo de cabelinho branco já, né? Existe a renovação quando é o pai que leva. E aí você tem esse grande esse grande boom de covers com preguiça de gravar, batalhar a sua própria música que é o que revoluciona o movimento. É um monte de bandas fazendo a sua música e todo mundo querendo tocar. É isso que dá a virada no movimento. Então hoje a gente não está vendo isso e tem o grande problema hoje que está havendo que é a IA que a gente não sabe o que vai acontecer, sabe? Tô vendo uma molecada aí só compondo para a inteligência artificial então é um momento bem delicado principalmente para quem está começando. Quem tem nome como eu, Korzus, né? Quem já plantou ainda respira agora o cara para iniciar está bem complicado.
2112. Na sua opinião o que está faltando para termos uma cena
mais unida?
China. Eu vivi uma certa união nos anos oitenta, noventa... os músicos se
ajudavam. Hoje o músico ele toca se tiver lá a sua turminha vinte, trinta
pessoas. Ele pede para o músico dele ir embora. Eu vejo essa união cada dia
mais distante. O que pode unir são alguns movimentos tipo do Fabrico Ravelli
que tem uma associação dele e a gente tem uma Associação do Rock. De outra
forma eu não vejo essa união mais, né? Cada vez mais distante dessa união no
meu parecer, tá?
2112. Agradeço a sua contribuição para as comemorações dos dez anos do blog. O microfone é seu.
China. Agradeço sempre o seu apoio Carlão magnífico que você dá, seu trabalho é brilhante, muito importante para a nossa cena. Tenho assim uma admiração muito grande pelo seu trabalho e pelo blog. Parabéns e que venha mais anos. Não desista. Faça com menas intensidade mas não pare, a gente não consegue parar com essas coisas. Fica aqui o meu obrigado a você, ao blog e toda essa parceria que a gente fez nesses anos todos. Muito obrigado, viu?





