O blog 2112 foi formado com intenção de divulgar as bandas clássicas de rock, prog, hard, jazz, punk, pop, heavy, reggae, eletrônico, country, folk, funk, blues, alternativo, ou seja o rock verdadeiro que embalou e ainda embala toda uma geração de aficcionados. Vários sons... uma só tribo!



quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Entrevista Luiz Teddy

2112. Como exatamente surgiu o projeto do livro Eddy Teddy - O Som, a Vida e o Legado!?

Luiz.  Nunca me passou pela cabeça escrever um livro sobre meu pai — na verdade, nunca pensei em escrever um livro sobre nada. Sempre gostei de colocar no papel as coisas que vinham à minha cabeça: textos em blogs, posts em redes sociais e até algumas matérias que acabaram saindo em jornais e revistas. Mas eram textos soltos, sem a intenção de preservar ou organizar aquela história.

Há algumas décadas eu vinha tentando produzir um documentário em video sobre ele. A ideia era entrevistar pessoas que conviveram com meu pai e reunir o grande volume de material que eu tinha guardado em casa. Mas sempre que eu começava esbarrava nos mesmos problemas: dependia de vários amigos e de uma equipe para "decupar" todo aquele material, além de precisar de tempo, dinheiro e correr o risco de não recuperar o investimento.

Ao mesmo tempo em que eu percebia uma falta quase total de interesse da maioria das pessoas ligadas ao rock’n’roll no Brasil em preservar essa história, também recebia cobranças constantes. Muitos amigos, pessoas que viveram aquela época e até alguns “gringos” demonstravam curiosidade em saber mais sobre a nossa cena, sobre como tudo começou.

Desde que meu pai faleceu, também fui o único da família que manteve guardadas as anotações dele: diversas pastas com recortes, cartazes, flyers, jornais, fotos e várias gravações, tanto em vídeo quanto em fitas cassete. Sem contar que meu pai escrevia até diários com as datas dos acontecimentos e reflexões.

Com o passar do tempo começou a surgir uma outra preocupação. Estou ficando mais velho, meus filhos, pelo menos por enquanto, não demonstram essa paixão louca por rock n roll ou por essa parte da historia que eles não viveram e comecei a pensar que, se algo acontecesse comigo, parte dessa história poderia simplesmente acabar no lixo.

E não era apenas a história do Eddy Teddy. Era também a minha história e a história de muitas outras pessoas que estavam ali no nascimento de algo que continua vivo até hoje e contagiando outras pessoas.

Foi então que recebi em casa um casal de amigos: Cris Escudeiro (Que já tinha participado dos shows do Coke Luxe, quando eu estava nos vocais) e seu namorado, Carlos Galego. Eu já sabia que ele era escritor e que havia lançado alguns livros de outros autores, como Ruídos Urbanos, do meu amigo Ricardo Martins, o “Rick n’ Roll”, além da HQ A Lenda da Família da Colina, escrita por Hulk "Fraile", vocalista da banda Kães Vadius.

Em uma noite de pizza e algumas cervejas, ele começou a falar sobre sua produtora, a Cuca Insana, que já havia publicado diversos autores. No meio da conversa, ele me lançou um desafio: transformar toda aquela história em um livro.

Confesso que a ideia me assustou. Não me achei capaz e disse que precisava pensar.

Mas, no dia seguinte, quando comecei a olhar novamente para todo aquele material guardado, tive apenas uma certeza: meu pai tinha me deixado mais esse presente. Talvez só estivesse faltando chegar o momento certo.

2112. O livro já está em sua terceira edição. Toda essa receptividade de alguma maneira te surpreendeu?

Luiz. O livro começou me surpreendendo. Por meio de uma plataforma de financiamento coletivo, as pessoas que apoiaram financeiramente conseguiram viabilizar o projeto. Ao mesmo tempo, muita gente que eu nem conhecia e que nem faz parte da cena começou a compartilhar, divulgar e comentar sobre o livro. 

Isso me motivou muito, porque senti que tinha um compromisso com minha família e com todas essas pessoas. Por outro lado, também percebi que muita gente da própria cena e alguns até mais próximos parecia torcer contra. É triste perceber isso, porque não acontece só com um livro, acontece com qualquer iniciativa de quem resolve tomar a frente de algo.

Parece que grande parte das pessoas que vivem isso ama a parada, mas não quer ver nada dando certo de verdade. Não sei explicar exatamente o que acontece, mas o reflexo disso é que poucas coisas acabam acontecendo nunca cidade gigante como São Paulo e que o Rock no geral envelhece a cada dia.

Eu também sentia a pressão de fazer algo legal: um trabalho honesto, caprichado e respeitoso. E quando vi pessoas como a minha mãe se emocionando, e amigos que eram muito próximos do Eddy, que viveram o comecinho de tudo também se emocionando, percebi que, mesmo que o livro nunca chegasse a uma terceira edição, para mim ele já era um sucesso.

No início, imaginávamos uma tiragem pequena. Esse número aumentou antes de sair a primeira edição, dobrou na segunda edição e agora estamos para receber a terceira, já com metade dos livros vendidos.

Pode parecer muito, mas quando você tem muitos amigos e muita gente te acompanhando nas redes, esse número de vendas ainda não chega nem perto da metade das pessoas que eu conheço. Ao mesmo tempo, existe um universo enorme de outras pessoas para quem eu ainda preciso fazer essa história chegar.

2112. ... isso mostra o interesse das pessoas em adquirir livros. O problema está na questão de valores pois quem recebe salário mínimo não tem como custear cultura, não é?

Luiz. Eu acredito que já respondia na questão anterior. Em relação ao valor no Catarse quando foi lançado podia ser aparcelado em 12 vezes, o que era possível além do desconto da compra antecipada. Ao mesmo tempo não sou hipócrita para saber o custo do salário mínimo do Brasil e quando tanta gente faz para sobreviver por aqui onde certamente um livro será uma das últimas opções de uma família.

Mas não recebi nenhuma mensagem de alguém questionando o preço ou pedindo desconto, pela quantidade de páginas, informações e arquivos eu acredito que o valor está super honesto. Quem não adquiriu ainda ou é porque não teve conhecimento, ou realmente não tem interesse ou é da turma do torcer contra mesmo (rs)

2112. O que me chamou a atenção é ver o quanto Eddy era amado por fãs e amigos. Afinal, "Conhecê-lo era amá-lo", não é?

Luiz. Cara, meu pai faleceu muito cedo e foi um cara que a vida toda se dedicou a amigos e familiares, era um cara bom, BOM DE VERDADE. Ele já falava em vida que o dia que morresse era para doar todas as partes do seu corpo e as cinzas poderia plantar uma árvore, e foi o que fizemos, inclusive quando sua presença física já não estava mais por aqui.

No dia que estávamos esperando o hospital ligar para liberarem o corpo, afinal todo esse procedimento de doador é demorando, ficamos escutando o especial que o Kid Vinil fez na rádio em homenagem ao Eddy, especial que ele chamou de "Conhecê-lo era ama-lo", certamente não tinha frase melhor.

Depois da sua morte, por onde eu passei, quem eu encontrei no caminho, independente de ideologia, posição política, estilo musical ou qualquer coisa que fosse, todos sem exceção  falavam bem dele e me recebiam sempre muito bem. Não era porque foi cantou, fez isso ou aqui era porque era um cara BOM! Prova disso é que já faz quase 30 anos que ele se foi e até hoje é lembrando com muito carinho, inclusive por quem nem teve a oportunidade de conhecê-lo.

2112. Depois de ler o livro vi o quanto Eddy era dedicado não só quanto a sua carreira mas arquivando tudo que saia a seu respeito. Parece que ele até estava advinhando este momento, não é?

Luiz. Ele sempre foi muito preocupado com a memória e com os registros para as novas gerações. Costumava dizer que, enquanto existisse um jovem curtindo Rock’n’Roll, isso significava pelo menos mais dez anos de vida para aquela cultura. Para ele, era quase uma obrigação passar conhecimento adiante, receber bem os mais jovem que no futuro daria continuidade, compartilhar descobertas e dividir qualquer coisa ligada a esse universo.

Tenho certeza de que, se estivesse vivo hoje, com a quantidade de informações disponíveis, muitas delas de graça, ficaria muito incomodado ao ver tanta gente ainda repetindo erros, escrevendo coisas sem fundamento ou tentando apagar partes da história para recontá-la com as próprias palavras, muitas vezes sem sequer ter vivido aquela época.

2112. No meu tempo esse papel de arquivar itens dos artistas cabia aos fãs que exibiam os seus acervos orgulhosamente em convenções ou nos lendários fã-clubes onde acontecia não somente o intercâmbio entre os fãs mas a troca de materiais, não é?

Luiz. Meu pai não arquivava apenas a própria história, mas também tudo o que estava acontecendo na música e ao seu redor. Ele sentia tristeza por ter poucos registros da própria infância e começo da adolescência; talvez por isso fizesse tanta questão de guardar tudo o que pudesse. Para se ter uma ideia, ele assinava todos os jornais, comprava diversas revistas e ainda recebia materiais enviados pelo correio por amigos que viviam em outros países numa época completamente diferente de hoje. Muitas matérias publicadas por aqui ele chegava a comprar em duas edições, apenas para garantir que teria uma cópia guardada.

E foi além: registrou, escrevendo e guardando materiais sobre as minhas andas e sobre os meus projetos. Ou seja, como ele não teve esse tipo de registro da própria vida, fez questão de deixar prontas as lembranças e as histórias dos filhos.

2112. Rita Lee ao escrever a sua auto biografia por exemplo pediu ajuda a um dos seus maiores fãs que colecionava tudo sobre a cantora. Você também precisou recorrer a fontes externas?

Luiz. Como eu já tinha um blog onde escrevia algumas lembranças e percepções e também havia iniciado, há quase 20 anos, um documentário em vídeo entrevistando músicos e pessoas que conviveram com ele, o processo de escrita acabou sendo mais fácil. Eu já tinha muito material reunido e também muitas histórias guardadas na memória.

Precisei revisitar todos estes materiais, além dos diários e focar em um livro que agradasse quem estivesse lendo.

Além disso, a vida ou sei lá o que, me deu de presente a oportunidade de viver experiências que eram muito particulares dele. Cheguei a cantar em algumas de suas bandas, como Satisfaction, Rockterapia e Coke Luxe, conviver com seus amigos e até trabalhar na mesma empresa onde ele trabalhou, ao lado de pessoas que conheceram um outro lado do Eddy Teddy, o Eduardo Moreira — empresa na qual estou até hoje.

Também compartilho muitos dos seus gostos pessoais: continuo vivendo a cena Rockabilly no Brasil e acompanhando todas as suas mudanças, além de ter paixões muito parecidas com as dele, como colecionar discos, entre tantas outras coisas.

2112. Quando idealizou o livro você já tinha uma idéia formulada na cabeça ou ele foi criando vida enquanto ia organizando os materiais?

Luiz. É complicado escrever sobre isso, mas sempre tive uma conexão muito forte com meu pai e também com a espiritualidade. De alguma forma que nem sei explicar, toda a concepção do livro apareceu de uma vez. Quando aceitei a proposta e comecei a escrever, eu já tinha clareza da capa, do começo, do formato e de tudo que viria a acontecer. Fiquei tão focado que, em seis meses, o livro já estava pronto. Acho que até assustei o pessoal da produtora de livros.

A parte mais difícil foi trabalhar com as fotos, porque isso realmente me arremessou de volta ao passado. Foram noites mal dormidas, muito choro e um turbilhão de sentimentos. Ao mesmo tempo, existia também uma sensação de missão cumprida, por tudo o que ele representa para mim até hoje.

2112. Como foi escrever a história do seu pai passo a passo sendo você um coadjuvante de toda essa história? Foi difícil separar o profissional do emocional?

Luiz. Quando pensei em fazer o documentário em vídeo, acabei percebendo que, naquele momento, seria impossível dar continuidade ao projeto exatamente por conta dessas questões, e precisei interromper a ideia. Já no caso do livro foi diferente: a proposta de contar a história dele a partir do conceito de legado, conectando isso com a própria história do Rock and Roll, afinal, meu pai nasceu em 1950 e também com a minha trajetória, acabou tornando tudo mais natural. De certa forma, a história dele inevitavelmente se cruza com tudo isso.

O mais complicado foi equilibrar essas diferentes dimensões: o pai, o Eduardo Moreira e o Eddy Teddy dentro de uma mesma narrativa, e encontrar um caminho para conduzir essa história sem deixar ninguém importante de fora, especialmente as pessoas mais próximas que fizeram parte dessa trajetória.

Tudo o que está ali — na capa, na contracapa e nas passagens do livro — tem um sentido e um motivo para estar presente. Tenho certeza de que, se ele estivesse aqui, ficaria orgulhoso.

2112. Outro fato interessante é que o livro não citou apenas a carreira do Eddy, mas comentou toda a cena, indicou discos, zines/livros, filmes, falou das feiras de vendas de vinis/cds, dos encontros na sua casa, dos shows que era o universo que circulou o mundo do seu pai. Você ainda mantém isso vivo?

Luiz. Eu não poderia escrever apenas sobre o Eddy Teddy, o vocalista do Coke Luxe que criou o primeiro clube de Rockabilly no Brasil. Existe toda uma história antes disso acontecer. Nada começou simplesmente em uma manhã em que meu pai acordou com vontade de fazer aquilo há todo um caminho e uma geração que levou até lá.

E se ele deixou alguma informação anotada na contracapa de um disco, nos diários ou até mesmo em uma simples lista de discos, é porque aquilo tinha um significado.

Como eu sempre estive ao lado do meu pai em grande parte dessa historia, seja nas reuniões em casa, nas festas, nos shows, nas feiras de discos ou passeios em família esse habito dele se tornou meu também. Mesmo que muitos amigos, dele e meus, que compartilhavam desse mesmo gosto, já não estejam mais aqui. No fim das contas, é algo que faz parte de mim. Eu realmente não sei fazer outra coisa e isso de alguma forma ainda me conecta com ele e ao meu passado.

2112. Como foi escolher o material do cd incluído junto a primeira edição do livro contendo vinte e sete faixas divididas entre a Coke Luxe e o Rockterapia. Futuramente essa relíquia poderá ser relançada?

Luiz. Essa parte foi complicada, porque ainda tenho muito material que converti de milhares de fitas para MP3, e no CD simplesmente não caberia quase nada.

Tenho muita vontade de lançar um disco com gravações, mas isso envolve várias outras questões, principalmente a participação de uma gravadora. 
Além disso, como eu gostaria que fosse em mídia física, e será que ainda temos tanto público que consome isso? Realmente o processo acaba se tornando ainda mais complexo. Se tiver alguma produtora musical é só me procurar.

De qualquer forma, se esse lançamento não acontecer dessa forma, penso ao menos em disponibilizar parte desse material no Spotify, para que as pessoas possam ter acesso e conhecer essas gravações.

2112. ... sobrou alguma coisa para futuros lançamentos?

Luiz. Essa missão ou parte dela está cumprida, mas ainda tenho vontade de realizar outras coisas, como montar uma exposição ou, quem sabe, lançar um disco novo dele. E é claro tenho meus projetos também como lançar um LP do Run Devil Run banda que sou vocalista.

Também fiz uma promessa a mim mesmo: enquanto eu estiver respirando, vou continuar preservando a sua memória — cantando as músicas que eram dele e, quem sabe, transmitindo essa mesma paixão pelo rock’n’roll para as próximas gerações.

2112. Outro ponto relevante foi o relançamento em cd com todas as gravações realizadas pela Coke Luxe na Baratos Afins que incluiu mais onze faixas de bônus. Você participou desse projeto?

Luiz. Eu participei apenas em parte. O Luiz Calanca me pediu algumas gravações e, depois, me mostrou o material quase pronto.

Eu era mais novo e ainda não fazia muito tempo que tinha perdido meu pai, então fiquei muito feliz com essa iniciativa da Baratos Afins, principalmente porque o CD era a midia da atualidade e que era uma forma de mais pessoas conhecerem o trabalho dos caras. Naquele momento, porém, eu não me via como parte da banda ou daquele capítulo da história. O Coke Luxe ainda tinha outros integrantes vivos e, de certa forma, aquilo fazia muito mais parte da trajetória deles do que da minha.

Sempre fui muito grato por toda família Baratos Afins, que inclusive não só lançaram o Coke Luxe, mas que também lançaram o Krents, que era a minha banda e que inclusive foi a última participação do meu pai.

2112. Essas onze faixas são demos ou são gravações profissionais de estúdio para um possível segundo álbum da banda?

Luiz. Na gravação do CD do Coke Luxe pela Baratos Afins além do Compacto e do LP eles incluiram gravações de shows, dos primeiros ensaios e também do último ensaio do Coke Luxe.

No Cd que lancei com o livro para acompanhar as primeiros 300 edições eu inclui mais algumas músicas do Coke Luxe de ensaios e de shows nunca gravadas e materiais do Rockterapia que eram demos de estudio, ensaio e shows.

2112. As gravações do álbum que veio incluso no livro e no cd da Baratos Afins passaram por algum tipo de restauração em estúdio ou foram incluídas em suas gravações originais?

Luiz. No caso do lançamento da Baratos Afins, acredito que apenas o Calanca possa responder com mais precisão, já que são restaurações de fitas cassete nas quais ele trabalhou diretamente.

Já o CD que montei como presente para os apoiadores do projeto foi diferente: eu mesmo fiz a seleção das músicas, realizei alguns ajustes com software de áudio em casa e também cuidei de toda a parte de design.

2112. Já pensou em criar um documentário com as imagens do Eddy junto a depoimentos de amigos e fãs ... ou talvez uma exposição contendo os vários itens da carreira dele? 

Luiz. Eu já comentei sobre isso em outras respostas. Ainda tenho essa vontade, mas ao mesmo tempo bate um certo desânimo de me envolver profundamente em novos projetos e perceber que, muitas vezes, o público não demonstra tanto interesse. São iniciativas mais complexas, que exigem mais trabalho e também um custo maior. Talvez uma lei de incentivo à cultura facilitasse bastante a realização de algo assim. Ou esse livro seja a ponte para tudo isso.

Quem sabe eu não deixo isso como uma espécie de lição de casa para quem estiver lendo e alguém acabe se animando a ajudar.

2112. Muito obrigado pela entrevista. O microfone é seu...

Luiz. Carlos, eu que agradeço pelo apoio desde o começo e por abrir este espaço para que eu possa contar um pouco sobre o Rock’n’Roll, sobre a vida do meu pai e também sobre a minha trajetória.

Ainda existem muitas pessoas dedicadas a dar continuidade e a preservar essa história. Tenho sempre a esperança de que novas gerações surjam em busca de informação e de conhecer tudo isso e nós estamos fazendo a nossa parte para que esse legado continue vivo.

Agradeço também a cada apoio que tive desde o começo do projeto, sem vocês nada seria possível.

Quem tiver interesse no livro, ou simplesmente quiser conversar sobre música, pode entrar em contato comigo pelo e-mail krents@uol.com.br ou pelas redes sociais: Facebook @luixteddy e Instagram @luiz_teddy.

Rock’n’Roll will never die!

 

 

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Entrevista Aya Maki (Harppia)

2112. Aya, você cresceu num ambiente profundamente musical. Que estilos de músicas rolava na vitrola e que mais a influenciou?

Aya Maki. Minha família, era uma mistura de dois mundos apesar de pertecerem a mesma origem, a Japonesa. Por parte da minha mãe, meu avô apreciava e cantava canções folclórica japonesas como Min-yô. Crescemos ouvindo canções infantis japonesas tradicionais, primeiro para não esquecermos nossas origens e segundo, o idioma. Minha mãe e minhas tias ouviam canções populares da década de 50 e 60, canções pop e enka (é algo como sertanejo sofrencia japones kkk) que os jovens da época curtiam. Como meu avô tinha um comércio de produtos importados para abastecer a comunidade japonesa no Largo da Batata, em Pinheiros, São Paulo, elas tinham acesso a esse material. Ele frequentemente importava LPs, compactos, livros e revistas da "terrinha". Assim, minha mãe e meus tios ficavam antenados nos Hits. Junto com essa leva, vinham livros e revistas com partitura que eles levavam para as bandas da colônia tocarem nos concursos (lembrando, que na época não tinha nem fita k7). Minha mãe passava o dia inteiro cantando músicas de Yuzo Kayama (Algo como Elvis Presley do Japão e responsável por levar The Ventures ao país), Misora Hibari, Tiemi Eri, Maquina Itsuwa (assemelha a Carole King do Japão). Minhas primas mais velhas gostavam de cantar músicas pop dos anos 80 japonesas. Mas meu contato com o mundo pop fora da bolha japonesa acontecia pelo rádio e programas de TV. Em casa não entrava discos de rock e pop porque meu pai nunca gostou de ouvir pessoas cantando. É bizarro mas apesar disso, ele tinha um gosto musical muito apurado para instrumental. Todas as melhores versões instrumentais de trilhas sonoras e músicas internacionais, rolava solto na vitrola de casa. O irmão do meu pai era audiófilo, isto é, qualidade dos equipamentos importava e tínhamos uma coleção interessante de vinil e fitas k7 nesse perfil. Então, aprendi a lidar com vitrola, desde muito pequena.

2112. A meu ver, ouvir diferentes sons ajuda no crescimento do músico dando a ele uma visão mais ampla, não é?

Aya. Exatamente. Vou usar um termo que está muito associado aos espiritualistas mas cabe no nosso mundo. Expansão de Consciência Musical. Ou usar um termo mais puxado para neurociência: aumento da plasticidade neural para a música. Por isso que música é uma atividade recomendada para agregar na educação. Mas como todas as matérias, tem que ter método e esclarecimentos. A importância de se ouvir de tudo, mesmo que não toque de tudo, nos torna mais criativos e flexíveis. Encontramos saídas mais fáceis para alguns problemas em arranjos e composições.

2112. Percebo ótimos músicos com técnicas apuradas mas musicalmente limitados. Santana por exemplo é o típico músico com uma bagagem variadíssima de estilos que o tornou o monstro sagrado que ele é hoje. O que você ouve além de metal?

Aya. De tudo, menos metal... hahaha. Isso é coisa minha. É como eu funciono. Pode ser que para fulano e ciclano seja diferente, mas eu não sei viver só dentro de um gênero musical, porque estou falando de algo muito maior que rótulos e aparências. Alguém conseguiria viver a vida inteira só comendo churrasco do mesmo jeito? Ou só carne? Não. Precisamos variar o tempero, a forma de preparo e até não comer carne... varia para carne branca, peixe, ou até vive um tempo vegetariano. Ninguém vive só de doce ou só de água. São fases. Mas minha essência verdadeira vai além do Metal. É Rock'n'Roll. Ele engloba tudo, e metal está dentro dele. Funk norte americano, blues, soul, country, erudito, jazz, folclórico, devocional... E é o que gosto de ouvir. Gosto de música de todos os tipos e gênero.  Desde que ressoe com minha alma, eu escuto. Gosto de músicas devocionais indianas, tibetanas, asiáticas, celtas, oriente médio, que trazem um colorido diferente na forma musical. Músicas folclóricas e xamãnicas onde os cantores reproduzem sons da natureza e dos animais são incríveis. Gosto de instrumentos exóticos. Isso expande muito e é divertido.

2112. Além de seu pai e seus tios, sua mãe e sua tia eram conhecidas cantoras da comunidade japonesa e ambas chegaram a conquistar vários títulos em competições de karaokê. Você chegou a participar também ou só as assistia?

Aya. Participei de alguns concursos e até mesmo com orquestra... mas foi um fiasco kkkk. Pelo menos na época, eu não tinha muita disciplina, nem tinha a noção de interpretação e técnica de canto. Na maioria das vezes só acompanhava... mas sinceramente? Eu detestava. Imagina... um concurso que começa às 9 horas da manhã e durava até as 19hs, com mais de 50 cantores divididos em categorias entre iniciantes e avançando? E claro que o maior número de inscritos é dos iniciantes... então imagina... tinha de tudo, cantor desafinado, sem noção e músicas repetidas (uma atrás da outra). Nossa era uma tortura! Se o pessoal da colônia ler isso vai é me deserdar hahaah.

2112. Você também canta ou apenas solta a voz no chuveiro a qual chamo de "Chuveiro Sessions."

Aya. Canto e estou soltando mais a voz para fazer os backing para o Harppia. Mas tenho consciência dos meus limites. 

2112. Aos cinco anos você começou a ter aulas de piano. Como foi a experiência?

Aya. Tem dois lados. O lado ruim é que o maestro Yamakawa era igual ao professor de piano do Eddie Van Halen, "adorava" dar umas reguadas quando eu me distraia. O lado bom é que aprendi as 5 primeiras notas no piano e a ler a clave de Sol. Depois de dois meses, meus pais perceberam que eu era muito rebelde para os padrões da colônia e parei com as aulas. Mas com as 5 notas, desenvolvi sozinha a leitura de partitura e passava horas improvisando no teclado Portatone da Yamaha em casa. Tirava música de ouvido, feliz porque meu xilofone de brinquedo não tinha as notas ("sustenido/bemol) das músicas que eu gostava.

2112. Outra experiência interessante foi a sua participação e direção de uma banda de fanfarra na escola. Que instrumento propriamente você tocava e como surgiu a oportunidade de se tornar uma maestrina?

Aya. Aos 7 anos, depois que me formei na pré-escola e fui para o ensino fundamental, meus pais decidiram que eu deveria ter uma alfabetização bilíngue. Mas em Diadema, cidade onde nós morávamos, não tinha. Então de manhã estudava normalmente e a tarde eu frequentava uma escola de japonês, que na sua grade tinha também música e era essa banda de fanfarra. Ela era diferente dos padrões brasileiros. Os japoneses ensinavam flauta doce, pífano (fife), pianica (escaleta), lira e glokenspiel, e tinha os naipes de percussão tradicional com bumbo, tons e caixa. As músicas eram do repertório que vinham diretamente do arranjandor japonês e eram temas clássicos de Marching Band Universal que os Marines Americanos executam mas simplificado para banda infanto-juvenil. Eu tocava um tecladinho da Cassio pois na época não tínhamos acesso a escaletas como temos hoje. Aprendi um pouco de pífano (fife), mas como faltava gente na escaleta fiquei por lá até que meus parentes me deram de presente uma pianica (escaleta) da Yamaha. Sai em 1989 e voltei em 2000 a convite da Emiko Imai Sensei, com a qual tínhamos sempre uma relação muito próxima. A filha dela tinha voltado para o Japão, para terminar os estudos e ela estava precisando de uma pessoa para ensinar e reger a banda de fanfarra da escola e eu me prontifiquei pois eles não podiam parar. E nessa mesma época eu passei a integrar a banda de Metais (Brass Band) da Igreja Tenrikyo que englobava todos os ex-integrantes e regentes das bandas de fanfarra infanto-juvenil. Ali, eu passei a tocar flauta transversal. Em 2002 fui para o Japão fazer uma temporada de estudos de música, regência e iniciação no Tenrikyo.

2112. Minha primeira experiência com o rock'n'roll foi através de um single dos Rolling Stones do meu tio e depois o Led Zeppelin II de um primo. E você?

Aya. Ah... depois que tive acesso ao bom e velho rock’n’roll foi The Beatles,  Queen, Led Zeppelin. Este último me levou a outro nível de rock'n'roll.  Aquelas guitarras e a música com movimentos orgânicos entre os músicos da banda arrebatou. Acho Moby Dick muito legal. Mas quando ouvi o Black Dog, fiquei passada. Depois vieram Black Sabbath e Deep Purple. E eu estava totalmente deslocada no tempo em relação a minha geração. Enquanto meus colegas ouviam e cantaram Bon Jovi e Extreme, eu cantava Beatles, Pink Floyd, Led Zeppelin e Queen e todos tiraram sarro da minha cara. Hoje, virou moda.

2112. Que músicos ou bandas mais te influênciou na sua formação musical?

Aya. Tenho muitas camadas complexas. É difícil responder. Eu tive muita influência de maestros e arranjadores populares como Percy Faith, Bart Baccharah e Filarmônica de Londres. Isaac Hayes e Barry White. The Beatles, King Crimson, Brian May, Black Sabbath, Led Zeppelin, Rory Gallagher, Tommy Bolin, Deep Purple, Iron Maiden, Judas Priest, Black Foot, Leslie West e Mountain, Vanilla Fudges, mulheres que me influenciaram,  Lita Ford, Miki Igarashi (Show-Ya) , Bonnie Raitt, Michelle Meldrum, April Lawton, Joni Mitchell.

2112. Você poderia listar dez álbuns que mudaram a sua vida?

Aya. 1. Abbey Road The Beatles, 2. Dancing On The Edge (Lita Ford), 3. Outterlimits (Show-Ya), 4. Phantom Blue (Phantom Blue), 5. Come Taste the Band (Deep Purple), 6. Burning The Japan (Glenn Hughes), 7. Vênus Isle (Eric Johnson), 8. Led Zeppelin IV, 9. Black Sabbath e 10. Machine head (Deep Purple)

2112. Antes de entrar para o Harppia você participou de outras bandas? Existe gravações desse período?

Aya. Eu tive várias bandas mas nenhuma eram de heavy metal de fato. Acompanhei cantores sertanejos e fiz uma temporada com o Barra da Saia em 2005. Em 2001, Eu gravei um EP com uma banda de fusion eletrônico (live PA) e uma de suas faixas foi selecionada para participar de algumas coletâneas de música eletrônica orgânica entre elas a Comp 01_02 da Muquifo Records com a banda Baikebab. Toquei num Vixen Cover chamado Hard 16. O último trabalho antes de entrar com de cabeça e coração no Harppia foi a banda Bando da Floresta que acompanhava a cantora Regiane Toledo em seu espetáculo infantil. Durante o Harppia, ainda fiz parte do Wonder Maidens, tributo ao Iron Maiden, mas por questões de prioridade de projeto, preferi seguir só com o Harppia, onde não toco apenas, mas tenho muitas responsabilidades burocráticas e de curadoria de suas obras e composições e codireção artística e musical junto com o Tibério.

2112. E como surgiu a oportunidade de entrar para o Harppia?

Aya. O Tiberio estava procurando uma guitarrista mulher para fazer dueto com a Neila Abraão. Ele tinha proposto trazer uma inovação no Metal, trazendo duas guitarristas mulheres à frente da banda. Nós já nos conhecíamos mas ele não sabia que eu era guitarrista. Ele só descobriu depois de uma conversa longa em sua oficina em 2009. Mas depois eu sumi e a gente se voltou a falar pelo Orkut. Nesse meio tempo, um amigo em comum, o Aldo, mostrou um vídeo de minha banda Hard 16 em um festival em Presidente Epitácio e Tibério se interessou. Até então, ele não relacionou a guitarrista a minha pessoa. Em junho de 2010, ele me convida para conversar pessoalmente na sua oficina e me convidou para fazer o teste. 

2112. Você ocupa um posto relevante dentro de uma banda super conhecida como a Harppia que geralmente é ocupado por homens. Como é estar um passo à frente?

Aya. MUITA Honra e responsabilidade. Não tive tempo nesses 16 anos, para "curtir" esse posto como muitos fazem, pois trabalho e estudo muito nos bastidores. Isso é bom porque deixo a vaidade no palco e publicações das redes sociais. Fora dos palcos, sou uma pessoa normal e gosto dessa surpresa. Ninguém dá nada quando me veem na rua ou na loja. Eu não tenho essa necessidade de parecer rock star quando não estou tocando ou produzindo conteúdos.

2112. ... infelizmente o maldito do preconceito existe. Isso te incomoda?

Aya. Não.  O preconceito diz mais sobre a pessoa que o tem do que a mim mesma. Eu Sou o que sou seja como artista como ser humano. E vamos falar a real? Preconceito tem em todos níveis e camadas. Já tive esse ponto de vista inseguro. E isso atrapalhou a mim mesma. Preconceito sempre vai existir de uma forma ou de outra porque as pessoas são diversificadas e projetam o tempo todo o que há de melhor e pior de dentro delas. Nós somos apenas espelhos daquilo que elas abominam ou apreciam. Tudo depende da bagagem de traumas de cada um. E da disposição de melhorar como humano.

2112. Sempre gostei de mulheres na música como Janis Joplin, Runnaways, Joan Jett, Vixen, Lita Ford, Heart, Pretenders, Joni Michell, Grace Slike etc. Acho esse limite pré-estabelecido de que mulher não pode tocar ou liderar uma banda totalmente retrógrada. Você acha que no fundo eles ficam inseguros ou tem medo da concorrência?

Aya. Tudo que é novo, assusta, como diz um ditado. É algo complexo e cultural. As pessoas associam o mundo artístico ao abuso de toda espécie desde drogas a comportamentos "estranhos" e que só os homens podem fazer o que quiserem porque lugar de mulher é em casa cuidando da família. Eles associam a força "antropológica" e tribal dos homens a capacidade de enfrentar qualquer tipo de "perigo físico" e a resistencia aos "abusos" maiores do que as mulheres. Mas a história da humanidade tá ai para provar que não é bem assim. Os homens muito moldados no modo "antigo" de pensamento "ocidental civilizado": Entram em conflito e a necessidade de diminuir as mulheres para mantê-las no seu "papel clássico" de donas de casa. Mas para vocês verem como isso não é verdade, a baixista de estúdio que mais trabalhou no mercado musical é a Carol Kaye, que usou seu talento para levar "comida" para casa para seus filhos, quantas mulheres musicistas e compositores tiveram que fazer esse trabalho de dois turnos para cuidarem de sua família? Outras tiveram que realmente se unirem em forma de bandas femininas para atravessar esse desafio, pois tocar um instrumento e fazer música ainda pertencia a "elite masculina". Exemplo: Birtha e Fanny 

2112. Que conselhos você daria para as mulheres que estão começando a trilhar seu caminho na música?

Aya. Seja você mesma. Isso te blinda de "tribalismo". Cada tribo cria um estatuto. Conheça a ti mesma. E não estou falando só de homens. As próprias mulheres tem preconceito com elas mesmas... jogo de intriga e picuinhas. Ouça as músicas com corpo, mente e alma. Isso é um dom muito natural para nós. Use as flutuações hormonais para entrar dentro da música e extrair força disso. Eu ouço de tudo e sinto o que contribui e o que não contribui para mim nessa hora. Respeito meu sexto sentido mesmo que as vezes tenha que bater os pés e virar meme. Confie na sua intuição musical. Você não é homem. Aceite-se ser complicada. É o que somo e pronto.

2112. Seja estudando, no palco ou no estúdio você é muito perfeccionista? Você se cobra muito?

Aya. Extremamente perfeccionista. Não ao nível de um Eric Johnson e muitos músicos que conheço de grande talento mas procrastinam projetos por acharem que não são bons suficiente. Meu sarrafo sempre foi muito alto, talvez pela criação familiar (e da própria origem asiática) e muita crítica que ouvia quando criança. Mas só desmanchei isso quando relaxei. Passei a não ligar mais para opinião dos outros, mas isso é um processo. Exige muito autoconhecimento e aceitação.  Não é de uma hora para outra que a gente se solta. Mas temos que agir e se jogar na vida para superar qualquer limitação. Aprender com todo tipo de crítica. Mesmo que dia muito, ainda sim é um aprendizado.

2112. Ouvindo gravações prontas você já pensou: Caramba, poderia ter ficado melhor? Você é muito crítica de si mesma?

Aya. Por incrível que pareça, vou falar do último álbum do Harppia, Caixa de Pandora. Isso não aconteceu porque eu fiz tudo que quis e tive participações especiais incríveis dividindo os solos comigo. Mas no 3.6.9 H.a.a.r.p. (2017) senti isso. Ele serve de ilustração a questão anterior do perfeccionismo. Eu estava me exigindo muito para compor e arranjar as músicas. E Tibério vinha com as ideias e ele fazia os ajustes das letras e dos arranjos. Ambos somos extremamente perfeccionistas.  Mas sabendo o que queremos. Era meu primeiro álbum com uma banda de grande relevância no metal brasileiro e tinha a autoconfiança de me igualar aos antecessores. E eu sou daquelas que travam. É tanto perfeccionismo que trava. Tive ajuda do Flávio Gutok que me orientou deu segurança nas gravações da segunda parte do disco. A primeira parte já estava gravada e fechada. Ele sugeriu improvisações. Mas na época eu tinha as músicas já toda mapeada e ensaiadas do jeito que deveria ser e não me dei essa oportunidade. Mesmo sabendo de todo meu potencial, tem outra parte que eu tinha que trabalhar e enfrentar. Mas deu tudo certo e o Tibério aprovando, então, está ótimo. Caixa de Pandora (2023) já tinha outra energia e estava mais relaxada, mesmo com as mesmas cobranças. É maturidade emocional e artística. Enfrentamos muitos desafios com idas e vindas de músicos como no 3.6.9. H.A.A.R.P. Não é só criação... É o estresse de relacionamento dentro da banda e a falta de comprometimento dos músicos. Mas superamos tudo isso e fizemos um grande álbum do qual nos orgulhamos muito.

2112. Entre os solos gravados nos álbuns do Harppia tem algum que você destacaria como seu preferido?

Aya. Gosto muito do solo da "Na calada da noite" e “Magia Negra” pelo Flávio Gutok, ambos do álbum Sete. A parte dele realmente é impecável. Do Caixa de Pandora, fica difícil dizer qual é o preferido pois todos foram feitos com tanta garra e paixão que fica difícil de dizer só um. Talvez a do “Prisioneiro do Tempo” quando o solo do guitarrista convidado Ev Martel (ex-Manowar) se confunde com o meu. Adoro isso e "O inferno Foi Libertado". Ambos eu faço o segundo solo. 

2112. Como funciona o seu processo de criação seja nos riffs ou nas composições?

Aya. Eu escuto muita música no carro com o Tibério quando estamos indo e voltando para o trabalho. A gente fica no trânsito de 2 a 3 horas. Da tempo de ouvir muita coisa. Ficamos analisando estrutura, timbres, dinâmica. Diria que é um treino e sensibilização que fazemos, não por obrigação,  mas por puro prazer audiófilo. Então tem dias que estamos ouvindo Soul e Funk (você sabe do que estou falando, não dessas porcarias que virou moda) tem dias que estamos ouvindo "brega", samba e MPB pois é uma lição de métrica. Outro dia estamos ouvindo nosso favoritos rock dos anos 70. Observamos os timbres, a produção, os efeitos tanto usados na guitarra como em toda a gravação. Como lidamos com bateria o dia inteiro, ficamos observando até o timbre dos kits de bateria e pratos. Por que insisto tanto na métrica? Porque ela é que torna a mensagem audível, assimilável e fácil de cantar. Exatamente é esse o exercício para compor em português sem parecer "infantil". Assim ouvimos vários grandes compositores e letristas como Cazuza, Gonzaguinha, Guilherme Lamounier e bandas como O Peso e Som Nosso de Cada Dia para aproximar do nosso universo heavy metal. Essa é a primeira coisa. Escuta ativa. A segunda parte, que é relativamente mais fácil para mim é criar riffs. Eles simplesmente surgem. Não tem uma sequência lógica. Eu digo que faço um download do "além" e passo para a guitarra. Eu gosto de brincar muito com improvisações e gosto muito de tirar músicas nota por nota como base de estudo. Experimento muito. Sem preconceito ou pretensões. Apenas um único foco: heavy metal e suas vertentes com qualidade marcante. A base, melodia e a letra é mais importante de tudo. Harmonia + melodia+ andamento. Depois tem a terceira parte que é a apresentação do riffs e letras para a banda ou só o riffs e a estrutura básica da música que será trabalhada durante o ensaio. Depois a quarta parte é a definição das dinâmicas e convenções que são a marca registradas do Harppia e isso já é mais trabalho bateria e baixo. E assim vamos dando a forma Harppia na música. Aí, vou moldando a ideia principal de acordo com essa convenções pois o ponto de vista do guitarrista nem sempre é o mesmo do baterista e baixista. Isso pode soar absurdo para muitos ou falta de personalidade, mas para mim é oportunidade para melhorar o que idealizei. Meu perfeccionismo deu lugar a uma postura mais aberta e colaborativa. Mas eu sempre estou observando e percebendo se faz sentido ou não para a música, determinadas mudanças. Não precisamos brigar para manter uma ideia fixa... isso a gente só aprende com o tempo e novamente, a tal maturidade. No meio de todo esse processo vamos moldando a letra e a melodia de forma que ela também ganhe destaque na música. E o trabalho de lapidar a métrica. O Solo é a cereja do bolo. Eu trabalho por último depois que todo o contexto e a "história" estiver definida. Não existe um protocolo rígido. Eu entendo que devemos deixar a própria música escolher seu caminho e a gente vai administrando isso até chegarmos no que consideramos "perfeitos" para nós.

2112. Aya, você já pensou na possibilidade de gravar um álbum solo com material que não se encaixa no Harppia?

Aya. Sim. Muitas vezes. Gostaria de trazer algumas músicas que me moldaram como musicista desde criança com releitura guitarrisca e alguns outros instrumentos que toco. Além de material próprio. Mantendo minha essência mais rock progressivo

2112. Nos shows da banda quais músicas não pode faltar na set list?

Aya. Salém, Naufrago, Na calada da noite, Voz da Consciência, Sete, A Ferro e Fogo são clássicos absolutos 

2112. Qual estilo de guitarra são as suas preferidas? Tem alguma em particular?

Aya. Apesar de ter 4 flying V... que é muito óbvia... adoro eu tenho uma Kelly. Gosto de formatos mais agressivos porém sem perder elegância. Não gosto de agressividade "barata". São design muito fortes e ao mesmo tempo com movimento visual e que empodera. Fora que tem um baita timbre. Gosto muita das minhas Washburn Vindicator branca pois ela tem história e o braço foi afinado baseado na minha guitarra Yamaha RGX 124, que é muito confortável. 

2112. O primeiro ep da banda marcou toda uma geração de fãs e músicos do estilo e elevando-o a categoria de um dos maiores clássicos do estilo. Além dele que outro álbum você destacaria na discografia do Harppia?

Aya. Sete e Caixa de Pandora. O Harppia lançou pouquíssimos álbuns presando pela qualidade das composições tanto como letra, melodia, e arranjos. Fazer uma metal em português com métrica perfeita é extremamente difícil, mas o desafio todo compensa. Mesmo com toda a resistência de muitos fãs de metal gringo. É porque eles nunca ouviram Harppia em nenhuma época.

2112. Foi um prazer imenso entrevistar você. O microfone é seu...

Aya. Gratidão pelo espaço e oportunidade de apresentar um pouco do meu trabalho além dos palcos. Meu desejo é que valorizem mais nosso trabalho como musico pois o palco, que é só a ponta do Iceberg. Trabalhamos muito nos bastidores em todos os sentidos. Saiba que valorizo muito seu trabalho e que são pessoas de mídia independente que fomenta a música independente e não deixa a memória morrer. É difícil. Mas ser livre e feliz com nosso trabalho é o que nos mantém na estrada e não há fama ou dinheiro que pague isso.