O blog 2112 foi formado com intenção de divulgar as bandas clássicas de rock, prog, hard, jazz, punk, pop, heavy, reggae, eletrônico, country, folk, funk, blues, alternativo, ou seja o rock verdadeiro que embalou e ainda embala toda uma geração de aficcionados. Vários sons... uma só tribo!



sexta-feira, 24 de maio de 2024

Entrevista Sansão Blues Rocker

2112. Você tem um currículo passagem por diversas bandas. Fale do início de sua carreira e quando você sentiu o desejo de se tornar músico?

Sansão. Sempre tive incômodos que me levavam a filosofar e a escrever; era um ímpeto de mostrar minha forma diferente de ver o mundo e mais que isso, propor algo novo ou pelo menos diferente. Mas na faculdade de Letras, percebi que eu não era apenas letrista, e sim, poeta. Minhas origens oitentistas do rock brasileiro de protesto contra aquela fase amarga da censura também me influenciaram a essas polêmicas. E só escrever me dava a sensação de que eu ficaria lá guardado na gaveta ou na estante de alguém... Eu achei melhor condensar o pensamento, a crítica, a proposta, ou até mesmo a piada ou o carinho por alguém, em forma poética de letra e musicar.

2112. Que bandas ou músicos te chamaram atenção e que ainda hoje são referências na sua música?

Sansão. Na execução, Rush. No vocal, Cazuza. Na poesia, Angela Ro Ro. Na crítica, Lobão. Na atitude, Plebe Rude. Na espiritualidade, Bono. Na postura, Sting. Na intelectualidade, Humberto Gessinger. No humor, Léo Jaime. Na simplicidade, Legião Urbana. E por aí, vai...

2112. Sempre tive a mente aberta para ouvir vários tipos de música sem qualquer tipo de preconceito mas é no blues que eu me encontro complemente, e você?

Sansão. Eu gosto do blues, de todos os tipos, e gosto muito do blues como linguagem musical, não apenas estilo. Essa linguagem está ampla: no soul, no funk original, no rock, nas várias vertentes de MPB e por vai.  

2112.  Sabemos que bandas covers não são bem vistas no universo da cena autoral. Por ter participado de alguns projetos isso te incomoda?

Sansão. De forma alguma. Cantar covers faz com o que o público te compare e te respeite se você for bom ou autêntico. E tudo isso é vivência, experiência, palco, convivência com outros músicos profissionais... às vezes, até cachê!!! 

2112. ... vejo que muitas das vezes um músico recorre as covers para pagar suas contas, não é?

Sansão. Exatamente. É uma escola à parte quase obrigatória para quem quer viver a música e viver da música.

2112. ... o público tem a sua parcela de culpa por não valorizar como deveria a sua própria cultura ou contrário de muitos gringos que a reverenciam. Qual a sua opinião sobre isso?

Sansão. Tudo no universo está em movimento. Corpos mais densos atraem os menos densos... Analogamente é a poder de sedução de um artefato artístico cuja proposta seja forte em Eros. Quem souber como ganhar as pessoas de um determinado nicho cultural, tem grandes chances de conseguir mas pra isso, precisa encontrar à sua disposição, na hora certa e no lugar certo, todos os elementos necessários à concretização de um sucesso.

2112. Mas saindo desse âmbito vamos falar de suas composições. O que mais o influencia na hora de compor uma música ou escrever uma letra?

Sansão. Muita coisa nasce de um mote. Esse mote às vezes é sentido espiritualmente, como se fosse uma fagulha divina colocada em meu peito... às vezes, até me emociono com a sensação boa, começo a chorar e a escrever. Então, isso não tem assunto, pode ser qualquer coisa. Mas também tenho motes racionais, que partem de alguma crítica social que pretendo propor como "olhar de fora da casinha". Já escrevi sobre a Era de Aquário numa letra chamada "Distâncias (I látex you), por exemplo; nela, não falo nada sobre a Era, mas falo de tudo o que fazemos no dia a dia que nos isola uns dos outros parecendo nos unir, como a web cam, o satélite, as salas virtuais, a vídeo pornografia e até o preservativo na relação. Já escrevi letra intitulada "Cemitério Blues", que fala que a letra, em si, é o cemitério da emoção que você sublima ao escrever a letra da música é o local em que você enterra essa emoção, seja boa ou ruim. E o mote veio do fato de a palavra cemitério, em grego, significar sala de espera... logo, me veio a imagem de covas como cinzeiros, e nós lá dentro nos consumindo como cigarros...

2112. Entre 2011/2013 você participou da banda Rosa dos Ventos. Fale um pouco sobre a banda e quem participava dela?

Sansão. A banda Rosa dos Ventos de Maringá foi composta por mim no baixo, Edison Fisher no vocal, Jeff Gomes na bateria e tivemos ao todo 3 guitarristas. O primeiro, Luiggi Fiorucci, que saiu logo após a gravação do nosso único CD. O 2° foi Rafael de Leon, que fez muitos shows pelo Paraná conosco. E na fase final, Lipe Fonseca o substituiu.

2112. A banda chegou a gravar material? 

Sansão. Na época, além de um CD todo autoral com Cláudio Lucas, saudoso, chegamos a gravar 2 DVDs. Um foi num reveillón de Jandaia do Sul e outro depois foi no Empório Santa Maria de Toledo, também no Paraná.

2112. O que o levou a sair da banda? Ela ainda existe? 

Sansão. Na época, a banda encerrou porque queríamos muito sair do escopo regional e não estávamos conseguindo atender as demandas. As baladas de rock nas cidades como Bauru, Prudente, Assis, Tupã, Jaú, Botucatu...eram nas noites de sexta feira; todos tínhamos nossos empregos em Maringá... ficava impossível passar som montado às 19h horas em qualquer cidade, pois a mais próxima na divisa fica a 2h30min. Vimos que nosso desejo não se realizaria. 

2112. Em 2023 o sucesso do rock'n'roll "Whiskey Sem Caneca" em parceria com o artista plástico Byzwka Rock a levou ser incluída na coletânea  Volume 33 da Rock Soldiers. A música teve uma boa execução nas rádios?

Sansão. Sim, muito, e fico lisonjeado pelo sucesso que faz porque é um som legal, a letra é bem rock and roll, o som também, não tem polêmica social nem crítica, só uns palavrões bem colocados kkkkk...

2112. O mesmo aconteceu com "The Headache Blues" que participará do Volume 34 que terá distribuição nos EUA. O que isso significa para você?

Sansão. Essa foi minha primeira letra em inglês e foi inspirada na minha primeira namoradinha, quando eu tinha 14 ... ela me emprestou vários métodos de inglês para uma prova que eu faria, e eu acabei escrevendo também essa letra. Ser uma música agora alcançando projeção entre os gringos me dá uma sensação boa de "também sei fazer"... rssss

2112. Você está em estúdio finalizando um single acústico com mais de quinze músicas. Você poderia falar um pouco sobre essas gravações? 

Sansão. São músicas compostas por mim, algumas com parceiros e há uma cover do Léo Jaime; fiz uma versão blues acústica para "Conquistador Barato". Uma das composições também é versão acústica da minha "Whiskey Sem Caneca", gravada em 2011 em parceria com Byzwka Rock, que também contribuiu com a letra inédita "Bluesamor", gravada neste novo single acústico. Meu single terá um reggae intitulado "Some Love"; nele contei com o guitarrista José Pasquini, morador da Florida nos EUA, que estava de passagem por aqui e não perdi a oportunidade de convidá-lo; também gravou os teclados. Na instrumental "Arcobaleno", contei com Juliano Bitencourt para executar o bandolim; está como introdução da canção "Balão Onírico", de Jorge Henrique Lopes e Giuliano Maragno, na qual Bitencourt também executou o bandolim. Cal Galvão, in memoriam, baixista original da banda Uns e Outros, gravou o solo de baixo da canção "Nunca Vivi", de Vini Roque, na qual também participo com backing-vocals e um poema meu declamado durante um dos interlúdios; para a bateria desta, contei com André Contardi. Para os blues que gravei, contei com os guitarristas Diogo Lima, Paulo Garrido, o próprio produtor Pedro Vilk e Luciano Blues nas harmônicas, que também participou no meu pop rock autoral "Labirinto-abrigo". No meu single, contei com Patrícia Shaki cantando "Friendfire" e Viviane Foss cantando "Le Ballet de L'Évitement", ambas composições minhas em que também canto junto. A "Olhando pra Você" é uma canção rock psicodélica composta por mim em 1988 em parceria com meu amigo de adolescência, o conterrâneo Renildo Brito (ex-guitarrista da banda "Farsantes?"). E ainda haverá surpresas quanto à minha parceria em uma das canções com meu padrinho musical Luciano Bahia.

2112. O que o público que o acompanha pode esperar desse material. É apenas blues ou tem outros estilos musicais? O material é todo autoral?

Sansão. Como demonstrei na resposta anterior, haverá muitos blues, sendo uns mais animados para curtir e outros mais contemplativos para viajar na letra. Haverá outros estilos também, como rock, pop rock, canções, música instrumental, um reggae, um jazzy-blues em francês... mas, para todas as faixas, é notório que há grande influência do blues como linguagem pro meu jeito de cantar, pras melodias que faço, além do estilo propriamente dito noutras que são blues de fato.

2112. Uma curiosidade: esse material foi testado nos shows?

Sansão. O blues "Soberba, ... Eu?" e a versão acústica de "Whiskey Sem Caneca", sim, já as cantei nos shows sozinho e com banda. São algumas das que canto com violão em entrevistas de TV e rádio... As demais, ainda serão novas experiências.

2112. Whiskey Sem Caneca e The Headache Blues serão incluídas nesse projeto? Elas foram regravadas ou você manteve as gravações originais lançadas nas coletâneas?

Sansão. A "Whiskey Sem Caneca" no meu clipe da música tem uma versão reduzida, pois tinha um solo muito bacana mas um pouco extenso para a introdução da versão original; essa reduzida é a que também está na coletânea Rock Soldiers Volume 33. No meu novo single acústico, gravei uma versão acústica da mesma. Já a "The Headache Blues", é a mesma original que entrou para o Volume 34 da coletânea, mas não está repetida no meu novo single acústico. 

2112. Você poderia falar um pouco sobre as gravações e quem está participando?

Sansão.  Tem uma variedade de estilos que será aproximada pelos timbres dos instrumentos utilizados; tem rock, tem blues, tem canção, tem pop rock, tem muita poesia, uma cover do Léo Jaime... Vou te falar de uma diferente das demais, que é composição minha. Mas é assim: a letra do "Samba do Sevirol" é minha e do meu pai, gravada por Juliano Bittencourt e seu saudoso pai, Geraldinho do Cavaco, na voz de Olavo Bebezão daqui de Maringá; são os bambas daqui. Essa música está num álbum do Geraldinho do Cavaco. Mas eu também a passei pra um jazzy-blues em francês para mostrá-la a uma famosa amiga do Rio, Angela Ro Ro, que a amou mas não a gravou. Essa música ficou com o título "Le Ballet de L'Èvitement", na voz de Viviane Foss, talentosa cantora de blues e MPB também daqui de Maringá. E pra gravar o típico acordeon francês, com timbre musette, chamei ninguém mais, ninguém menos, que Adriano Java, que fez seu nome pelo Brasil acompanhando a cantora sertaneja Nayara Azevedo. (Havendo pedido e tempo, falo mais de outras faixas).     

2112. Que músicas não podem faltar nos shows senão o povo fica pedindo?

Sansão. "Moto Na Estrada" e "Whiskey Sem Caneca" são as mais pedidas.  A primeira, trata-se de outra parceria com o Byzwka, que é uma versão dele, em português, da clássica "Born To Be Wild". às vezes me pedem a "Cemitério Blues" e eu amo isso, mas creio que seja muito parada e triste para shows de agito; talvez caia melhor em show de teatro.

2112. Voltando as gravações... o projeto será lançado apenas nas redes sociais ou você pretende lançar lançar também em cd/vinil?

Sansão. Eu sempre gosto de ter o CD físico para presentear as pessoas mais próximas. Soube que tá difícil hoje quem tenha o aparelho para a leitura, então na capa eu vou pôr o QR Code para o acessarem pela web também.

2112. O modo de ouvir música hoje mudou bastante... Na minha época a gente colecionava revistas, pôsteres, álbuns/compactos, sonhava ir nos shows etc. E quando saia um disco todos se reuniam para ouvir, ler os encartes, trocar idéias e gravar k7s para quem não tinha condições de comprar. Você pegou esse tempo? 

Sansão. Muito. Eu amava comprar K7s, vinis... eu ia da Lapa no Rio ao Vale do Anhangabaú buscar na Woodstock meus pedidos importados kkkkk porque eu gostava das coisas "diferentes" para a época... Como Focus, Yes, Renaissance, ... não era tão fácil de se achar. Já aproveitava para rever amigos da Sampa na Galeria.

2112. Hoje a idéia de "ouvintes" de música se resume aos streamings da vida. Triste realidade você não acha?

Sansão. Eu temo não só pela música mas também pela poesia, pois a impaciência especulativa dos mais jovens parece não lhes permitir tocar a profundidade em quase nada. Mas ela está lá. E de que forma sabe-se lá isso irá eclodir??? A arte nos permite viagens e sublimações cartárticas, que aliviam as tensões e nos renovam, nos dão resiliência, novos prismas, ... e na música, idem. Mas esse apreço superficial de 5 segundos de tudo, essa coisa de bater sempre nos mesmos hits, limita as faculdades mentais a poucas formas de apreço... Você vai ter um balanço pro corpo, uma gospel pro espírito, uma romântica pra saudade da amada... mas e onde fica o apreço artístico? Dos potenciais de execução? Das estéticas diferentes da convencional? São muitas opções sem oportunidade de apreço... É como você chegar em bares e pedir a vida toda somente chopp sem nunca ter se dado a oportunidade de apreciar um bom vinho, um bom champagne, um bom licor...

2112. O single já tem data certa para ser lançado?

Sansão. Lançamento não porque ainda estamos em finalização das gravações. Depois vem o período de edição e tem que ser cuidadoso pois são mais de 15 faixas... O lançamento deverá ficar para meados de 2025.

2112. Você encabeçou o projeto “No Meio do Caminho”, que juntou poetas, compositores, músicos, atores, fotógrafos, pintores e artistas plásticos da região. Como surgiu esse projeto? Ele continua na ativa?

Sansão. Eu diria que quem o encabeçou de fato foi o poeta e Professor Doutor Marciano Lopes, saudoso, do Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá. Mas eu era um de seus maiores amigos, também poeta, e sempre o auxiliava em várias produções. Fiquei bem nessa por ter elaborado o projeto cultural que reunião o talento de todo esse pessoal num livro em forma de agenda. Éramos amantes da boêmia cultural e organizávamos saraus, shows, palestras, mostras, cursos com filmes nacionais, curtas etc. Publicávamos nossas produções em periódicos dos acadêmicos, em revistas dos congressos; fazíamos esquetes teatrais, poéticas e musicais em aulas magnas... Usávamos o programa Outras Palavras na Rádio UEM para nossas poesias serem declamadas por atores, nossas músicas também. Foi uma fase ótima. O movimento se dissipou após a morte do Marciano pois era o que mais vivia essa vida mista de boêmia e academia de Letras.

2112. Fale um pouco sobre o livro que é uma espécie de agenda poética escolar permanente distribuído nas bibliotecas do município de Maringá? As pessoas de outros estados podem adquiri-lo?

Sansão. Esse livro foi publicado em forma de agenda justamente para que sua utilidade fosse o motivo para que as pessoas "colorissem" com mais arte e poesia suas rotinas. Para cada início de mês, uma imagem, fosse de uma escultura, ou de um quadro, ou uma foto urbana captada com olhar artístico, ... Todos que produziram são de Maringá e região. Não fora vendida pois fazia parte de um projeto, com número de impressos limitado à destinação prescrita no projeto, que eram as bibliotecas do município de Maringá e todas as escolas de sua rede pública.   

2112. Hoje você é diretor da Cobra Motoradio, da Associação Cultural Rock do Paraná, participa da fanpage Banidos do Rock, tem parceria com a Edna Zafalon, na Abridor de Arte Produções (no Paraná), e da promoter Nanda Rev (em São Paulo) na divulgação de seus trabalhos musicais. Como você arranja tempo para compor ou se mesmo se divertir? 

Sansão. Rsssss... na verdade, é tudo junto e misturado kkkkk dormindo, sonho; sonhando, componho; compondo, toco e canto; cantando, amo e sou amado; e é tudo uma grande diversão apesar das mazelas da vida. 

2112. Para manter esse ritmo tem que ter muita força de vontade. Os cabelos ainda continuam grandes?

Sansão. Rssss Justamente para dar conta de tudo, os cabelos deixaram de ser grandes, davam muito trabalho rsssss... Mas a vontade política é grande, no sentido de coletividade, de falar com gente, ainda que via chat, ou mesmo ao vivo, num palco ou num tablado como professor e palestrante. Continuo com muita garra, sempre compartilhando minhas visões e  leituras de mundo.

2112. Como você ganhou esse apelido?

Sansão. Meu nome artístico é pra delimitar um pouco a minha pluralidade, porque, na verdade, componho de tudo: samba, metal, progressivo, sertanejo. Meu trabalho como vocalista é delimitado ao rock e ao blues... e mais uma vez digo "blues" como linguagem também, não só como estilo. 

2112. ... o microfone é seu!

Sansão. Meus agradecimentos a Deus, em primeiro lugar, acima de tudo, a Edna Zafalon, da Abridor de Arte Produções, à promoter e divulgadora Nanda Rev, à minha digníssima Doutora Merly Nascimento por me aturar de maneira tão liberal, me permitindo pôr a cara na janela da internet e dos palcos sem qualquer ciúme ou restrição, à minha sogra também , Dona Fátima Vargas, por apoiar nosso projeto de vida, ao compositor Rubens de Freitas, que é meu pai, por ter me sido exemplo em casa com seus talentos,  ao meu frater, amigo e padrinho musical, Luciano Bahia, que sempre me apoiou e me incentiva diariamente opinando com visão de quem já viveu a explosão do sucesso nos tempos do Globo de Ouro, Show da Xuxa, Programa da Angélica, Cassino do Chacrinha etc. e a todo mundo que me apoia, me segue, me curte, me compartilha,  me critica, me elogia, me abraça, me beija e me dá bom dia nas redes sociais rsssss. Valeu!!!


 Obs.: Todas as fotos foram retiradas do Facebook do cantor e compositor.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

Entrevista Projeto Tânia Maria

2112. Lael, como surgiu o Projeto Tânia Maria?

Lael. Bom, a primeira música que ouvi de Tânia Maria, há mais de 20 anos, foi Yatra Ta. Claro que, de imediato, já me chamou a atenção pela dificuldade técnica da melodia, andamento acelerado e, obviamente, uma maneira de tocar muito particular e com extremo suingue brasileiro. Desse momento em diante, comecei a gostar cada vez mais, o que me motivou a conhecer e pesquisar sua obra mais a fundo. E, sem nenhum motivo específico, em 2017 reiniciei minhas audições e de repente pensei: "O som da Tânia é daqueles poucos que com certeza agrada aos músicos e também ao público leigo, mesmo sendo praticamente desconhecida no Brasil... sendo assim, por que não então fazer uma homenagem a ela?''. E foi assim que tudo começou.

2112. O projeto é muito interessante pois além de divulgar o nome da cantora/pianista eterniza a sua obra para toda uma nova geração, não é?

Lael. Exatamente. A importância musical de Tânia Maria é gigantesca e, infelizmente, ela e sua obra são muito pouco conhecidas em seu próprio país, apesar de reconhecida e renomada no mundo inteiro. E este é nosso principal objetivo: fazer com que o máximo de pessoas, principalmente no Brasil, a conheçam e entendam sua relevância incontestável na música mundial.

2112. Acredito que nome do grupo deve despertar a curiosidade de muitas pessoas, não?

Lael. Sem dúvida. Algumas vezes chegaram inclusive a confundir, achando que nosso show seria o show da própria Tânia. Até porque seu nome está presente no título do trabalho. Mas, a meu ver, não haveria outra maneira de divulgá-la mais enfaticamente se seu nome não estivesse presente na apresentação. Até nosso 1o. álbum gravado e lançado através do Selo Sesc em 2021 contém também o nome dela: "Parabéns, Tânia!"

2112. Infelizmente moramos num país que pouco valoriza sua própria cultura. Eu por exemplo (e acredito que muitos que estão lendo a entrevista também...) não conhecia o trabalho da Tânia. Qual a sua opinião acerca disso? Isso te frustra com fã e músico?

Lael. Infelizmente nosso país vive essa ignorância cultural desde sempre...e Tânia está inserida neste contexto. Nós músicos estamos acostumados com essa falta de identidade cultural, musical, artística. O Brasil não divulga nem valoriza os seus grandes...e a mídia quase sempre procura aquilo que é "sucesso", de qualidade duvidosa e mais fácil de ser consumido como produto onde a venda do mesmo é o mais importante, visando sempre o lucro instantâneo. Mas acho que nós, artistas de todas as áreas, estamos também aqui nesta vida para isso: para que esta disparidade seja cada vez menor.

2112. Fica a pergunta: Como uma carreira com mais de quarenta anos é tão pouco difundida em seu país (digo mídia!) e tão aclamada fora dele?

Lael. Acredito que na Europa e Estados Unidos, por exemplo, a cultura é mais valorizada. Eles também produzem, claro, a "música de massa"..., porém existe o respeito pelas origens, pelo início de cada caminho. O Jazz americano, berço da música estadunidense, é agraciado com premiações específicas anualmente, e seus artistas são valorizados dentro da categoria. Existe o espaço para todos, um mercado específico que funciona, embora obviamente eles variem sua dimensão. Acho que é isso que falta aqui: a valorização das origens, sejam musicais, sociais ou de raça. O povo brasileiro já consegue há algum tempo lutar pelos seus direitos de classe, pelo fim dos preconceitos sócio raciais...mas a música, como é geralmente entendida como entretenimento e não arte, não é tão valorizada e perde sua importância dentro do que é considerado relevante pela maioria.

2112. Como você descreveria Tânia e sua obra? O que mais te chama atenção e o que ela achou do projeto?

Lael. Tânia Maria é única! É uma energia vigorosa, vibrante, que cativa e engrandece nossa cultura! Musicista de 1a. linha, tecnicamente, ousada e com muito suingue...através de sua música, letras e ritmos, ela mostra o Brasil em sua essência...sem dúvida um dos grandes expoentes da música brasileira jazzística e um ícone para as mulheres! Negra, pianista, intérprete, compositora, mãe, e venerada por sua família. Nos sentimos extremamente realizados e honrados pois Tânia e sua família, desde o início, incentiva e endossa nosso trabalho. Já estivemos com ela, as irmãs ( Vânia, Maria Lilia e Sandra), seu filho Marco Tulio e família, e sempre fomos tratados com muito carinho e respeito. Esta é nossa verdadeira vitória! 

2112. Vocês tocam apenas material gravado por ela em seus discos ou também inclue standards de jazz/mpb e material autoral nas apresentações?

Lael. Em nosso repertório, incluímos os grandes sucessos de Tânia...tanto as canções com letra (como "Funky Tamborim", "Come With Me" e "Don't GO), como as composições mais instrumentais (como "Yatra Ta", "210 West" e "Bronx"). Tocamos também sucessos de outros compositores que fizeram parte do repertório da artista ao longo dos anos e, mais recentemente, estamos trabalhando também o lado autoral do Projeto Tânia Maria". "Parabéns, Tânia!" e "Batuque Feminino" são duas composições de Anette Camargo que representam essa "veia autoral"  

2112. Entre os álbuns gravados por ela qual o seu favorito ou qual você indicaria como porta de entrada para quem ainda não conhece a sua obra? 

Lael. Em minha opinião, se você ainda não conhece Tânia Maria, comece com o álbum "Piquant" de 1981. Este trabalho contém o que costumo chamar de "3 vertentes de Tânia": canções autorais com letra, composições instrumentais próprias e sucessos de outros grandes compositores executados muito peculiarmente, ao seu estilo.

2112. Em 2021 é lançado o álbum Parabéns Tânia!. Como foi realizado o processo de gravação e a escolha do material?

Lael. Após a escolha do repertório, fizemos inicialmente uma sequência de ensaios. Logo após, gravamos as 11 faixas em 3 dias. 2 ou 3 takes de cada música para podermos escolher a melhor delas. em seguida, como é de praxe, vem a fase de mixagem e masterização. O processo todo, fora os ensaios ( que foram muitos, rssss ) durou 2 meses. Gravamos através do Selo Sesc, o que nos deixa extremamente felizes pois esta instituição proporciona, hoje em dia, uma das melhores condições em termos de infraestrutura para quem trabalha neste ramo.  

2112. Vocês mesmo produziram o álbum?

Lael. Eu assinei a Direção Musical e escolhi o repertório. Porém todos os músicos colocaram suas "impressões digitais" e ficaram livres para se expressar musicalmente como desejassem, dentro obviamente da linguagem do Universo da música de Tânia Maria. O resultado é mérito de todos!

2112. E quanto aos arranjos... vocês seguiram os originais gravados nos álbuns da Tânia? Como vocês trabalharam essa questão?

Lael. Inicialmente, seguimos à risca os arranjos de Tânia. No decorrer do processo, fomos colocando "nossa cara" em algumas músicas específicas. Atualmente o trabalho se desenvolve mesclando estas duas vertentes

2112. Parabéns Tânia! foi lançado em formato físico ou apenas nas plataformas digitais?

Lael. Apenas digitalmente, nas plataformas.

2112. A cena instrumental brasileira praticamente inexiste na questão da mídia que pouco divulga... no entanto tem um público cativo que sempre vai aos shows e festivais. A aceitação do álbum foi boa?

Lael. Foi ótima! Recebemos várias críticas maravilhosas! Lembrando ainda que, talvez pela diversidade nas composições de Tânia, onde existem as obras com letra, a receptividade tenha sido ainda mais favorável. 

2112. A cantora esteve presente no JazzB (2018), na estréia do quarteto e no lançamento do álbum que aconteceu no Sesc Vila Mariana (2021). Ela apenas asssitiu ou deu uma palhinha?

Lael. Para nossa extrema alegria, ela esteve não apenas nestes dois shows, mas também em nossa última apresentação no Blue Note São Paulo (agosto/2023). Nestes momentos, ela preferiu não tocar nem cantar, mas, é claro, fizemos sempre questão em homenageá-la e agradecê-la por tanto! 

2112. Quais são os projetos de vocês para o próximo ano? Teremos um novo álbum?

Lael. Iniciamos 2024 com dois novos singles: "Batuque Feminino" (composição de Anette Camargo em homenagem a todas as mulheres musicistas) e "Johhny Demais"(composição de Tânia, até então inédita, em homenagem a Johnny Alf). O trabalho se encaminha também para um aumento das composições do grupo e por novos arranjos de outras músicas de Tânia Maria. Ainda este ano, lançaremos também o "Projeto Tânia Maria Instrumental", apenas com composições de Tânia sem letra.

2112. Qual o e-mail/telefone para contratar vocês?

Lael. Contrações através do e-mail laelmedina@hotmail.com ou de meu fone/whats: (11) 99777-4259

2112. Obrigado pela entrevista... o microfone é seu!

Lael. Primeiramente gostaria de agradecer a você Carlos Dinunci pelo interesse no projeto e pela oportunidade de divulgar nosso trabalho e a arte maravilhosa de Tânia Maria. Fiquem ligados nas novidades do Projeto Tânia Maria através de nossas redes sociais (www.instagram.com/projetotaniamaria e www.facebook.com/projetotaniamaria ) e não deixem de ouvir e conhecer cada vez mais a obra desta imensa artista negra maranhense.  Obrigado!

Integrantes:

Anette Camargo: Voz/Piano/Teclado;

Lael Medina: Bateria/Direção Musical;

Líbero Dietrich: Baixo Elétrico;

Danilo Moura: Percussão.

Obs.: As fotos que ilustram a entrevista foram todas retiradas da pagina do Projeto Tânia Maria. Qualquer assunto relacionado sobre os nomes dos fotógrafos e só entrar em contato via e-mail: retamero2112@blogspot.com que faco que faço as devidas correções.