Uma voz, um violão, a mensagem... assim se traduz em 90% o
músico, compositor e produtor Duck Strada. Conhecido por suas apresentações
intimistas é um dos pontos centrais da atual resistência artística em tempos sombrios
como os que estamos vivendo.
2112. Podemos começar com você contando
como surgiu o nosso Duck Strada?
Duck. É uma história interessante e
verdadeira. Meu sobrenome é Duck e muitos amigos desde a época do colégio já me
chamava assim. Sempre gostei de viajar, acampar, estar em contato com a
natureza. Lá com meus 20 e poucos anos comecei a fazer artesanatos e sempre
estava na estrada rodando para trabalhar. Isso durou uns 15 anos. Na época, um amigo
meu, Marcos Cordeiro (o atual guitarrista que me acompanha) ia constantemente
me procurar na minha casa e eu nunca estava. Minha mãe sempre dizia à ele que
eu estava viajando. Tempos depois, ao encontrar o Marcos na porta de um pub ele
me disse: - Caramba Duck, eu te procurei várias vezes e você nunca estava em
casa... sempre viajando, você é o Duck Strada ! E foi nessa tacada de mestre do
Marcos, que eu ganhei meu nome artístico.
2112. Você começou muito cedo na cena?
Duck. Sim, aos 14 anos já ensaiava com
banda. Eu era baterista. Aos 15 fiz meu primeiro show na escola onde eu
estudava.
2112. Praticamente são quase quarenta anos
de apresentações pelos palcos do nosso país. Que resumo você faz da sua
trajetória?
Duck. Se eu pudesse sintetizar esses quase
40 anos segurando essa bandeira da música, eu embrulharia num pacote com 2
etiquetas: Resistência e Luta. Nunca gostei de modismos, sempre fui rocker e
sempre segui fazendo parte da contracultura, principalmente nesses meus anos
como compositor, que foi a época mais hippie da minha vida.
2112. Mas a sua carreira de compositor
começou a deslanchar no início dos anos 90, não é?
Duck. Isso. Tudo começou quando eu ganhei
de uma namoradinha, uma revista BIZZ de letras traduzidas do Pink Floyd em
1990. Na verdade, Roger Waters foi o primeiro grande letrista que despertou
verdadeiramente meu estilo de escrever letras e poemas. Costumo dizer que não
precisei estudar Drummond, Oswald e Vinicius; estudei Waters! Até nisso fiquei fora
do modismo; pois é natural e essencial tais leituras quando se quer ser poeta ou
letrista. Mas eu sentia atração pelo rock progressivo e suas narrativas.
Jethro, Yes, Floyd, Genesis tinham ótimas letras, dignas de fazer escola.
Robert Plant também escrevia muito no Led. Anos depois ainda na década de 90,
uma amiga minha, a Mônica Savioli (in memoriam), numa de nossas viagens me
presenteou com 2 fitas cassetes, contendo músicas do pessoal de Minas e do
Clube da Esquina, e de MPB em geral. Eu fiquei maluco com aquelas músicas, e Lô
e Márcio Borges foram os que mais afetaram meu coração. Fiquei encantado com a
voz do Lô cantando os versos do irmão, numa ode à amizade, à natureza e à
beleza da vida. A partir desse período, floresceu meu lado MPB. Aquelas
harmonias e letras bem elaboradas me inspiraram profundamente e me
impulsionaram a compor compulsivamente, e a partir dessa década até hoje eu
consegui juntar algumas dezenas de composições... se bem, que virando meus
arquivos eu tenho coisas escritas desde 1984. Mas era apenas o embrião, nada
demais.
2112. Antes de 1990 você fazia apenas
releituras ou já incluía algumas composições suas no meio...
Duck. Antes de 1990 eu era baterista de
bandas autorais e incluíamos sempre alguns covers. A única composição minha na
época, era um tema chamado TREM FANTASMA onde eu fazia meu solo de bateria.
Algumas bandas legais que participei na década de 90 e que vale citar são: O
Expresso do Além, Sunflower e O Mágico de Nós. Todas oriundas da Zona Leste.
2112. A pandemia ano passado deu uma
freada brusca nos shows, nas gravações e em todo tipo de manifestações
culturais. O que você tem feito nesse período de reclusão?
Duck. Em março de 2020 comecei a
instalação do meu novo Home Studio, assim que terminei comecei a produzir. A
pandemia e o isolamento inicial, me fizeram acelerar o processo de gravação dos
últimos Singles que lancei, juntamente com a criação dos clipes. De lá pra cá,
fiz algumas letras novas, compus 2 ou 3 músicas. Fiz mais 2 clipes novos que serão
lançados sequencialmente nesse semestre como Singles. Também houve uma nova e primeira
parceria num Blues-Protesto com Dito Branco, bem no início da pandemia.
2112. ... fez alguma live?
Duck. Optei em não fazer LIVES, por não
ter tempo de estudar e montar um set de captação que ofereça uma qualidade
satisfatória. Mas, penso em fazer um primeiro teste esse ano, talvez uma Live
supresa, pra quem estiver on line na hora (coisa de maluco).
2112. Você já tem alguns singles lançados:
Bicho Solto, A Busca, Deixar Fluir, Psicodália, o Festival Paz e Amor; Fúria
& Rock’n’Roll, Via Leste etc. Já pensou em juntar todo esse material com o
acréscimo de algumas inéditas e lançar um álbum?
Duck. Com certeza farei um álbum. Acho os
EP’s válidos, mas sou da época do vinil e prezo por um repertório que tenha
começo, meio e fim. Não necessariamente um álbum conceitual, mas um repertório
homogêneo, que converse entre si. Mas, as músicas que já estão selecionadas
para esse futuro álbum não incluirão todos os singles que lancei ou serão lançados.
Já tenho o repertório em mente. Inclui algumas novas e sim, algumas músicas que
você citou. É porque tenho singles que já fizeram sua história na época, seria
massificante para a obra divulgá-las novamente num CD, como foi o caso da Via
Leste e da Psicodália. Prefiro deixá-las na internet como arquivo para quem
ainda não conhece e tiver curiosidade de visitar meu canal do You Tube.
2112. Muitas músicas suas tem sido
gravadas por muitos artistas independentes. A sua gaveta ainda esconde muitos
cadernos com material inédito?
Duck. Tive a alegria de ser gravado não
por muitos, mas por bons amigos que captaram a essência da música que faço. A
primeira canção gravada foi Liberta Também, feita em parceria com a banda
mineira Libertas Tamen. A banda O Mágico de Nós, idealizada por Fábio Ribeiro
gravou a música A Cultura do Avesso II. Depois veio Via Leste (por Felipe
Goulart), Bicho Solto e outra saindo do forno chamada O Livro na Estante (por O
Vento Solar). Tenho uma feita com o Marcos Cordeiro (Se o Tempo Parar), que já gravei
e falta lançar. Outras são composições recentes, com novos parceiros. Tenho uma
música composta com Aurélio Pedro “A La Raul Seixas” chamada Cansado de Comer
Capim, que é uma crítica social bem sarcástica, e serve bem para o atual
momento que passa o Brasil. Além daquele Blues-Protesto (Políticos Hipócritas)
com o Dito Branco que citei antes, e um Blues Rock com a Gigi Jardim chamado O
Abraço Fatal. Tenho também uma linda balada composta com Max Madrassi (5
Sentidos). Todas essas serão gravadas no seu devido tempo. Agora, tem um
parceiro que é meu irmão de estrada nos artesanatos, na vida e nas ideias. Ele
é escritor e ufólogo, chama-se Cristiano Gonçalves. Lançarei futuramente um álbum,
só com nossas parcerias compostas nesses anos de encontros e viagens
trabalhando com arte.

2112. Você mesmo se auto produz e ainda
toca todos os instrumentos nas gravações. Acredito de que deva ser muito
complicado para um um artista ver uma pessoa de fora dando palpites em sua
criação, não é?
Duck. Hoje sou um cara mais aberto às
sugestões. Novidades de arranjos são sempre bem vindas, mas no geral, até pelo
fato da pandemia, costumo fechar o máximo de informação que a música precisa
aqui no meu estúdio, aí posteriormente eu sentarei com os músicos recrutados
para gravações mais definitivas e sim, de acordo com as boas ideias que possam surgir,
serão adicionadas às canções.
2112. Em 2000 junto a alguns amigos você
criou o Sarau do Brás. Como funciona esse projeto?
Duck. O Sarau do Brás (ou carinhosamente
chamado Sarau da Amizade) foi um movimento cultural espontâneo, que surgiu
entre um grupo de amigos que frequentavam o Bar do Zé, que por sinal foi quem
idealizou o projeto. Músicos, poetas, trovadores, pessoal do teatro, artesões,
velhos boêmios do Brás, todos juntos faziam o sarau acontecer em cada nova edição
quinzenal por cerca de 5 anos. Entre apresentações musicais, leituras de
poesias e trechos de livros, performances; a liberdade de expressão era a nossa
principal bandeira. Ao término das atividades no Bar do Zé, fundamos com um
pequeno grupo remanescente do Sarau do Brás, um novo sarau funcionando na
COMGÁS, levando o mesmo nome e no mesmo formato alternativo, porém um pouco
mais organizado. Isso seguiu-se por uns 2 anos e extinguiu-se de vez. Após o
encerramento do sarau, não encontrei mais parte desses artistas do underground.
Apenas o pessoal do O Vento Solar que eu convivo frequentemente.
2112. Os outros integrantes são
provenientes de outras bandas ou tocam apenas nesse projeto?
Duck. Eu na atualidade sigo carreira solo,
mas eventualmente conto com a participação do Marcos Cordeiro na guitarra, que
também é compositor, mas de música instrumental. Ele prepara o trabalho dele e
atua também como colaborador no meu trabalho nos arranjos, gravações e shows em
duo.
2112. A set list deve ser bem variada. Que
estilo de música vocês tocam?
Duck. Nosso repertório vem sendo
apresentado com músicas autorais e algumas releituras de nossos heróis do rock
nacional 70´s e MPB. Mas, o foco é o autoral. O estilo é mais um Folk Rock. Pra
2022 existe a ideia de formar um quarteto, somando baixo e bateria ao duo.
2112. A música Psicodália acabou entrando
na trilha sonora do documentário “Consciência em Transe” que registrou o
festival do mesmo nome. O acontecido me fez lembrar da música Woodstock de Joni
Mitchell...
Duck. Interessante essa analogia. Com
certeza a Joni Mitchell pirou no festival feito eu aqui. Foi mágico como
aconteceu tudo! Os primeiros versos da letra surgiram no meio da apresentação
do Arnaldo Baptista, durante o Festival Psicodália de 2015. Ao fim do show, corri
pra achar papel e caneta, mas simplesmente não existia em lugar nenhum, pois
era tudo digital naquele lugar. Com muito custo consegui um pedaço de papelão
no caixa, e uma caneta tirada de uma mochila qualquer e fiz a letra de
primeira. Aí, depois de paquerar por horas a mina que fotografava os shows e o
pessoal circulante, fiz amizade com ela e de quebra descobri que ela estava
cobrindo o festival para produzir o documentário, e assim minha música foi selecionada
entre tantas outras que foram enviadas à produtora. Não virou um hino como foi
com a Mitchell; eu sinceramente esperava mais por parte dos organizadores do
festival ... esperava que aproveitassem melhor a música como “propaganda” a
eles mesmos, por levar o nome do festival e retratar na letra o astral daquilo tudo.
Mas parece que eles não assistiram o documentário (risos).
2112. Em função da sua postura voz e violão
no palco muitos o devem ver como um cantor/compositor folk. Você concorda ou a
sua visão musical vai muito além dessa vertente musical?
Duck. Nosso amigo Luiz Domingues,
identificou esse lance do folk singer em mim, num show que fiz abrindo para Os
Kurandeiros, e eu me reconheci nesse perfil musical. Mas, muito do violão vem
de acampamentos, rodas de fogueiras, da estrada mesmo; o violão como companhia.
Anos depois virou meio de expressão das minhas letras ... mas meu universo musical
e minhas inspirações vão um pouco mais adiante. Não gosto da ideia de me
limitar à um gênero. Na minha concepção de arranjos, tem espaço para cítara e
tablas indianas, orquestrações e distorções, todas convivendo em harmonia!
Gosto muito de Classic Rock, Progressivo, Blues e Jazz, então isso pra mim soa
natural de se produzir. Depende muito do que a música está pedindo. Mas,
voltando a questão do voz e violão, isso vem muito da praticidade para se
apresentar. Adquiri esse feeling no sarau e nas muitas viagens que fiz, tocando
sozinho nos palcos dos litorais, cidades e nas montanhas do Rio e Minas.

2112. Em shows você também faz releituras
de clássicos do rock?
Duck. Quando estou solo sim, faço
releituras nacionais e internacionais do rock e da MPB.
2112. Como você trabalha a questão da
releitura? Pergunto isso pois vejo muitos músicos tocando e cantando a risca as
versões originais. Você acha isso correto ou você muda alguma coisa?
Duck. Acho legal respeitar o andamento da
música que estou fazendo minha interpretação, em respeito à criação do autor e
seu sentimento incorporado à composição da canção. Então prefiro trabalhar mais
nos arranjos para dar a minha cara, ou da banda que estiver me acompanhando.
Não curto muito alterar a estrutura da música e correr o risco de descaracterizá-la.
Pra mim, Wish You Were Here sempre será uma balada, entende?
2112. Quais são os seus projetos
pós-pandemia?
Duck. Para 2022 quero gravar o CD com 10
faixas e montar um quarteto para levar aos palcos o repertório autoral. Quero
continuar produzindo minhas gravações e clipes o máximo que puder, lançando
sempre como Singles. Junto à minha manager Cátia Rock, voltar a produzir
edições do Festival Bolívia Rock e apoiá-la na linha de frente em sua
produtora. Também, continuar escrevendo minha autobiografia que vive uma pausa
no momento. Está chegando a hora de jogar todas as fichas... perdemos 2 anos
com tristezas e opressão governamental, e quero fazer parte da reconstrução de
uma cultura melhor pra esse país.
2112. Qual o seu e-mail/telefone para
contratar seus shows?
Duck. Quem quiser me contratar pode mandar
e-mail para: duckstrada@gmail.com ou boliviacatia.rock@hotmail.com e pelo
Whatsapp 1199350-4202 (Duck) / 1194194-7712 (Cátia Rock)
2112. ... o microfone é seu!
Duck Quero agradecer a oportunidade dessa
entrevista e dizer que: precisamos de mais entusiastas e experts feito você
Carlos Retamero! É urgente para a saúde musical desse país, recrutar
jornalistas, radialistas, DJ’s, youtubers e blogueiros que, saibam valorizar
artistas e bandas independentes com maestria, inteligência e perseverança,
assim como você o faz. Dizer também que
seguirei firme para deixar minha contribuição às futuras gerações, buscando
sempre a alma e a poesia que a boa música merece ter por excelência. Serei Resistência
Sempre !!! Um forte abraço do Duck.
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Obs.:
As fotos utilizadas são de autoria de Bolívia & Catia Rock, Billy Albuquerque, Clarisse Lambert e Sebah de Assis... mas se tiver alguém que não citei por favor envie informações para meu e-mail: furia2112@gmail.com para que eu possa fazer as devidas correções.