O blog 2112 foi formado com intenção de divulgar as bandas clássicas de rock, prog, hard, jazz, punk, pop, heavy, reggae, eletrônico, country, folk, funk, blues, alternativo, ou seja o rock verdadeiro que embalou e ainda embala toda uma geração de aficcionados. Vários sons... uma só tribo!



segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Entrevista Tiago Araripe

 

Compositor e músico cearense que ao se aventurar em São Paulo lançou dois singles, participou da banda Papa Poluição e lançou um dos álbuns mais cultuados dos últimos tempos: Cabelos de Sansão. Essas e muitas outras histórias bacanas Tiago nos conta no decorrer dessa entrevista. 

2112. Por que você levou tanto tempo para lançar o sucessor de Cabelos de Sansão? O que você fez nesse hiato de trinta e um anos que separa os dois álbuns?

Tiago. Entrei na publicidade, pra dar melhores condições de vida à minha família, que havia crescido. Publicidade é uma atividade muito dinâmica e me absorveu muito. Claro, eu continuava compondo e escrevendo, mas fiquei afastado de palcos e discos, salvo pequenos shows aqui e ali, principalmente após o relançamento de Cabelos de Sansão. Fiz muitos jingles publicitários nesse período, e quando entrava em estúdio era pra acompanhar a produção dos jingles. Assim conheci alguns artistas e músicos, o que foi muito bom.

2112. Zeca Baleiro foi peça fundamental na sua volta aos estúdios, não é? Como foi o encontro entre vocês? Como surgiu a ideia da gravação do álbum?

Tiago. Ao resgatar Cabelos de Sansão e relançar o bolachão de vinil em formato CD, Zeca Baleiro criou um movimento de revalorização do meu trabalho. Isso reacendeu em mim aquela chama que motivou minha entrada no mundo da música. Nós nos conhecemos em Fortaleza. Zeca havia perguntado por mim a uns amigos jornalistas, que me deram a notícia. Poucos dias depois, recebi uma chamada telefônica dele. Estava de férias com a esposa, percorrendo o litoral cearense. Tivemos um encontro onde, tendo como elo de ligação o LP do Cabelos, descobrimos muitas afinidades. Nos tornamos amigos e parceiros. Anos depois, já morando outra vez no Recife (vivera na cidade quando estudante), tive o projeto do meu segundo álbum, Baião de Nós, aprovado por um edital de cultura do Governo de Pernambuco. Naturalmente, pensei em Zeca pra produzir o CD comigo. Ele veio com Fernando Nunes, baixista da sua banda, e fizemos parte das gravações no Recife, com profissionais locais, e parte em São Paulo, onde outros de seus músicos participaram. E onde minha filha Clarissa Araripe e uma amiga gravaram os vocais.

2112. Assim como o Baleiro, existe toda uma nova geração que está redescobrindo artistas como você.  Isso te surpreende?

Tiago. Considero isso um processo decorrente das novas formas de distribuir e consumir música. Discos como Cabelos de Sansão, ao serem distribuídos por streaming, chegam não só a pessoas de outras gerações, mas de outros países. Ou seja, as possibilidades são as mais inesperadas, e o inesperado é sempre uma boa surpresa.

2112. Baião de Nós dá continuidade as idéias desenvolvidas em Cabelos de Sansão ou você resolveu experimentar outras texturas musicais?

Tiago. Tive a felicidade de contar com o Lira Paulistana no suporte à realização de Cabelos de Sansão. Quando mostrei, no papel, o projeto do disco ao produtor musical e um dos sócios do Lira, Wilson Souto Júnior, estávamos sentados num banco da praça Benedito Calixto, onde se localizavam o teatro de porão e o prédio administrativo do Lira Paulistana. Era véspera do meu aniversário, e, depois de um longo namoro e noivado com o Lira, aquilo era como um pedido de casamento. Itamar Assumpção já anunciara que, depois do seu famoso Beleléu, o próximo LP do Lira teria que ser “o de Tiago Araripe”. Eu estava ali pra fazer cumprir a profecia (risos). Wilson leu tudo com atenção, depois me encarou e disse: “Não vai ser fácil.” Não foi. A ideia era que cada música tivesse uma identidade própria, de acordo com proposta da respectiva letra. Pra chegar a esse objetivo, arregimentamos um total de 36 músicos, incluindo artistas convidados como Itamar Assumpção, Tetê Espíndola e Vânia Bastos. Foram mais de 300 horas de estúdio, com muita experimentação sonora. O Lira investiu muito no disco, que foi masterizado em Nova York, algo até então inédito para os padrões alternativos. Já no caso de Baião de Nós, até pela limitação de orçamento, tivemos uma equipe mais compacta. O que se manteve do espírito do primeiro álbum, e essa é uma característica minha, é a liberdade de trabalhar com diversos gêneros musicais, de não ter pudor de misturá-los, tendo sempre a ideia da composição como eixo primordial. Além disso, passados tantos anos depois de Cabelos, a tecnologia era outra e, claro, isso contribuiu pra definir uma sonoridade e uma estética diferentes. 

2112. Você poderia falar um pouco sobre as gravações? Quem produziu e fez os arranjos?

Tiago. Como falei, a produção de Baião de Nós foi assinada por Zeca Baleiro e por mim. Entrei na ficha como produtor a pedido dele, porque a ideia original era que ele produzisse sozinho. Mas ele insistiu em me incluir, por alguns movimentos prévios que eu já havia sido feito. Quanto aos arranjos, ficaram distribuídos entre Fernando Nunes e Tuco Marconi, da banda de Zeca, e Juliano Holanda. Há também um arranjo do cearense Ítalo Almeida, arranjos coletivos e arranjos de metais escritos por Ivan do Espírito Santo.

2112. A sua história começou no final dos anos 60 com você estudando Arquitetura. Você chegou a concluir o curso ou largou tudo pela música?

Tiago. Larguei Arquitetura na metade do curso. Descobri que não tinha habilidade pra desenho, o que, juntamente com a luta para acompanhar as aulas de Cálculo Estrutural, me dificultava consideravelmente a vida universitária. Além disso, queria mudar pra São Paulo e estudar numa escola de música que Tom Zé mantinha lá. Fiz a mudança, mas soube que a escola já não existia. No entanto, me aproximei de Tom Zé e cheguei a fazer diversos shows com ele em São Paulo, durante cerca de um ano. Gravamos, inclusive, um single em vinil, em 1974, com as faixas Conto de Fraldas (Tom Zé) e Teu Coração Bate, o Meu Apanha (Tiago Araripe-Décio Pignatari). Aliás, essas duas músicas são exemplares do fenômeno de revitalização gerado pelas plataformas de streaming. Desde que foram disponibilizadas online, os números de plays não param de crescer - e incluem ouvintes de diversas partes do mundo. Quem fez o arranjo das duas faixas foi o Guilherme Arantes, então um músico apenas conhecido no circuito dos estúdios de São Paulo. 

2112. Em 1972 você montou Nuvem 33, grupo que unia músicos, artistas performáticos e atores no show Armação com composições de sua autoria. Como eram realizados esses espetáculos? Qual era a reação das plateias?

Tiago. Na realidade, Armação foi uma peça de teatro para a qual compus 12 canções. Durante a temporada de estreia no Teatro do Parque, em Recife, tínhamos uma banda formada especificamente para aquilo e executávamos as músicas ao vivo, entre um esquete e outro da peça. Animados com o resultado, fizemos em seguida, com aquele núcleo musical inicial, o Nuvem 33 - um coletivo que além de música incluía teatro e artes visuais. Nossa primeira apresentação foi com o show Retreta Eletrônica, no mesmo Teatro do Parque, que ficou lotadíssimo. Robertinho do Recife, recém-chegado dos Estados Unidos, tocou dois números - em um deles, pôs todo o público a dançar numa imensa roda de ciranda que circundou as laterais das cadeiras do teatro. Do Nuvem 33 fizeram parte nomes como Otávio Bzzz, o guitarrista Carneirinho, um baixista chamado João de Deus e o baterista Israel, que depois viria a colaborar com o Ave Sangria e com Alceu Valença, quando então adotou o nome de Israel Cabeça de Semente. Mas também tivemos outras formações, inclusive acústica. Outro personagem marcante do grupo é o Lula Wanderley, um dos atores de Armação e grande artista plástico – era quem fazia os cartazes do grupo. Hoje ele mora no Rio, onde é psiquiatra (trabalhou com Nise da Silveira) e faz vídeos conceituais, como o de uma partida de futebol em que retirou a bola - o que lhe valeu até prêmio. Ele também conviveu com Lígia Clark e foi curador de uma exposição dela numa das bienais de arte de São Paulo. Mais um momento de destaque do Nuvem 33 foi a nossa participação na I Feira Experimental de Música de Nova Jerusalém, onde anualmente se encenava (antes da pandemia, diga-se) o espetáculo da Paixão de Cristo. O palco do evento, espécie de Woodstock tupiniquim, foi o palácio de Pôncio Pilatos.

2112. Já em 1974 você lançou dois compactos (hoje conhecidos por singles). O primeiro em parceria com Tom Zé que trazia a sua música “Teu coração bate, o meu apanha"; e o segundo já solo com "Sodoma e Gomorra"; e "Os 3 Monges". Esses dois projetos tiveram boa aceitação nas rádios?

Tiago. Já falei um pouco do compacto com Tom Zé. A música Conto de Fraldas tocou nas rádios. Lembro de uma visita que fizemos a uma rádio de Santos, onde ele foi confundido com Raul Seixas por algumas fãs que vieram lhe pedir autógrafo. Viajei dias seguidos pelo interior de São Paulo com um divulgador da Odeon, percorrendo emissoras de rádio e participando de shows, por ocasião do lançamento de Sodoma e Gomorra. Em algumas cidades, a música tocou bem. Mas não o suficiente pra dar sustentação ao meu trabalho fonográfico.

2112. Você e Tom Zé eram amigos e parceiros?

Tiago. Sim, criamos uma relação de amizade. Mas, curiosamente, não chegamos a compor juntos. Ele gravou uma das canções de Baião de Nós (A Quantas Anda Você?) no CD Viralata na Via Láctea. Fiquei honrado com isso, pois Tom Zé tem um trabalho autoral notável e não costuma gravar outros compositores.

2112. Aproveitando o momento, como era a cena em Recife nessa época? Havia muitas bandas, festivais...

Tiago. Os principais nomes, como Alceu Valença e Geraldo Azevedo, tinham mudado pro Rio. Na época, pra acontecer na música o artista tinha que estar no eixo Rio-São Paulo. Mas havia na cena recifense artistas interessantes como o saudoso Flaviola, Aristides Guimarães e o Laboratório de Sons Estranhos, e o Tamarineira Village (que depois mudaria o nome pra Ave Sangria). Conheci também Lula Côrtes, quando era casado com Katia Mesel, e então pintava quadros. É o que lembro no momento.

2112. No ano seguinte você participa do "Festival Abertura" da Rede Globo com a música Drácula. Nessa época você já estava morando em São Paulo?

Tiago. Estava em São Paulo, sim. Na realidade, a sequência em que o Festival Abertura se situa é esta: vim do Crato, Ceará, minha cidade natal, morei cinco anos no Recife, de onde saí na segunda metade de 1972 - e onde aconteceram as apresentações musicais na capital pernambucana, no início da década. Depois, vivi 23 anos em São Paulo, onde vieram o trabalho com Tom Zé, a participação no Abertura, o Papa Poluição, Lira Paulistana, Cabelos de Sansão...). Em seguida, vivi 13 anos em Fortaleza, 9 de volta ao Recife e estou em Portugal há três anos. Taí a sequência completa (risos.)

2112. A sua participação gerou o seu primeiro videoclipe apresentado no Fantástico. A repercussão foi boa? Abriu portas para você?

Tiago. O melhor foi, num tempo de vacas muito magras, me render um cachê que tive que batalhar muito pra receber. Mas também foi a partir do Abertura, em que Penna e Paulinho participaram com a canção Muzenza, que decidimos formar o Papa Poluição.

2112. Logo o Papa Poluição é formado com você, Paulinho da Costa, José Luiz Penna, Beto Carrera, Bill Soares e Xico Carlos. Como foi que tudo aconteceu?

Tiago. Eu, Penna, Paulinho e Xico já vínhamos trabalhando juntos com Tom Zé, no período em que dividi palcos com ele. Então somamos o Beto Carrera e Bill Soares (anos depois substituído por Cid Campos) e pronto. Estava formado o Papa Poluição.

2112. A banda como muitas na época se apresentava no circuito universitário e palcos da cidade. Vocês viviam apenas dos shows ou tinham trabalhos alternativos?

Tiago. Penna e eu vivíamos para a banda, batalhando shows, programas de rádio e TV, dialogando com gravadoras, abrindo caminho. Os outros tinham trabalhos alternativos. Paulinho, por exemplo, fazia jingles publicitários. Aliás, o maior cachê do grupo não veio de shows ou discos: veio de um jingle que fizemos para lançar o gravador Aiko, da Evadin. O jingle, composto e interpretado pelo Papa Poluição, fez muito sucesso e possibilitou a compra de uma kombi, que batizamos de Sofia e com a qual carregávamos equipamentos, ideias e sonhos. A música dizia (risos): “Ah, deixe o pensamento voar | Ligue o coração e deixe a vida correr | Gravador Aiko | Aiko | Vai gravando os bons momentos | Pra você | Aiko | Sempre se descobre uma maneira nova de usar | Gravador Aiko!” A gente dava um duro danado pra tentar furar o cerco das rádios e, quando entrava nas emissoras, o que estava tocando mesmo era aquele jingle (risos.)

2112. Uma curiosidade: a banda foi formada em São Paulo, mas os músicos eram todos nordestinos sendo dois baianos (Paulinho e Zé Luís) e três cearenses (você, Bill e Chico). Vocês já se conheciam?

Tiago. Penna, Paulinho, Chico e eu já nos conhecíamos há muito anos, desde quando os dois primeiros passaram uma temporada no Crato integrando um grupo de teatro. A gente se definia com uma banda transnordestina. Bill Soares é pernambucano e artista plástico (foi quem fez o desenho que ilustra o compacto duplo do Papa Poluição lançado pela Chantecler), mas Beto e Cid Campos são paulistas. E Penna, apesar de crescer em Salvador, nasceu no Rio Grande do Norte...

2112. Como você classifica o estilo musical da banda?

Tiago. Nós fazíamos fusões de rock com ritmos nordestino, em performances movimentadas e divertidas no palco, aproveitando a experiência de José Luiz Penna como ator (ele participou, durante muito tempo, da formação original do musical Hair. Quando a peça foi encenada em Recife, no Teatro do Parque - olha o teatro aí de novo - eu morava no vizinho Hotel do Parque e ia assistir o espetáculo todas as noites. Depois, nas conversas com Penna num barzinho em frente, ele me incentivava muito a mudar pra São Paulo). 

2112. O cenário 60/70 ficou marcado pelas ótimas bandas e também pela intervenção do regime militar que proibia vários tipos de letras, interrompia shows e ensaios, prendia músicos, atores etc. Vocês chegaram a ter algum tipo de problemas com eles?

Tiago. Tivemos alguns incidentes, sim, mas sem maior expressão. O mais constrangedor era submeter as letras das músicas à censura. Houve situações em que tivemos que mudar algumas letras por exigência dos censores.

2112. A banda produziu a trilha sonora do filme Mulher do Cangaço. Como surgiu o convite?

Tiago. Zé Luiz e Hermano Penna, o diretor - também do Crato - são primos. Hermano acompanhava e gostava do trabalho do Papa Poluição. Depois desse belo documentário, ele nos convidou pra fazer a música do seu premiado longa-metragem Sargento Getúlio, com Lima Duarte no papel-título. Gosto muito do resultado da trilha do Sargento, já com Cid Campos no baixo e arranjos de cobertura escritos pelo maestro Mauro Giorgetti.

2112. Vocês gravaram apenas dois singles, mas deixaram o nome da banda registrado para sempre na história do rock brasileiro. Quais suas melhores lembranças desse período?

Tiago. A garra com que fazíamos tudo: ensaios exaustivos, batalha pra abrir espaço, montagem de shows autorais todos os anos, as muitas parcerias com José Luiz Penna, as performances no palco, as situações engraçadas e/ou bizarras que aconteciam nos bastidores das apresentações ou nos contatos com radialistas, produtores de discos e executivos de gravadoras. Mas destaco, entre os momentos mais marcantes, a realização da trilha do Sargento Getúlio em tempo recorde e a excursão que fizemos ao Nordeste em 1978, com apresentações em Salvador, Fortaleza, interior do Ceará (Crato, Juazeiro do Norte, Barbalha) e Aracaju. Estávamos, então, muito afiados. Houve também uma série de show que abrimos para Belchior no circuito Sesc de São Paulo, sempre lotados. Foi muito legal a convivência com Bel, que resultou na parceria dele com Penna na música “Conversação a Respeito de John”, que fez muito sucesso. A música, aliás, já existia e era um dos hits do Papa Poluição. Belchior gostou, substituiu dois versos, adequando a letra aos tempos atuais, e fez a canção acontecer.

2112. É interessante que ainda hoje as pessoas procuram pelos discos de vocês, postam fotos, falam sobre a banda... Isso de uma certa maneira envaidece você?

Tiago. Pra ser sincero, não. Apesar de, aos 70 anos, ter mais passado que futuro, tenho procurado olhar mais pra frente do que pra trás, compondo novas canções e pensando em novos projetos. Mas é sempre bom saber que algo que fizemos em algum lugar no passado tem o reconhecimento do público.

2112. Vocês ainda mantêm contato entre si? Já houve alguma tentativa em retornar com a banda ou mesmo relançar o material da banda?

Tiago. Alguns meses antes da pandemia, tivemos a triste notícia do falecimento do Paulinho, que assinava com o nome de Paulo Costta um trabalho de qualidade, tendo como ponto de partida a reverência ao legado de João Gilberto e da Bossa Nova. Curiosamente, depois que o Papa Poluição se dissolveu, passei a compor com ele, quando então morava em Toulousse, na França. Em Baião de Nós, há três parcerias nossas. Temos outras canções inéditas, das quais gosto muito e espero um dia gravar. Falo de vez em quando com Penna em ligações pelo zap (esta semana ele me ligou) e tenho contatos eventuais com Bill, Chico, Beto e Cid. Chegamos a fazer um show do Papa Poluição no Sesc Pompeia depois que a banda havia sido desfeita. Tivemos também o convite de Belchior para fazer um álbum na CBS, mas, depois de cinco anos de tanta luta, nenhum de nós se animou com a ideia de refazer o grupo por causa disso. Tenho muita vontade de que as músicas do grupo sejam disponibilizadas nas plataformas digitais. Pra isso, precisamos de um herói que possa contatar as gravadoras e editoras pra obter as autorizações e fazer a distribuição.

2112. Com o fim da banda você lança o hoje cultuado Cabelos de Sansão. O material gravado foi composto especialmente para o álbum ou ainda são composições do tempo do Papa Poluição que não deu para ser usado na banda?

Tiago. Tem composições da época do Papa Poluição e também de depois. Existia muito material acumulado, de onde selecionei as canções que viriam a compor o disco.

2112. O selo Lira Paulistana foi quem lançou o álbum. Tiago, me diz uma coisa: você teve total autonomia na criação e gravação como escolha do produtor, dos músicos de estúdio, do arranjador etc. Enfim, você sempre a frente do projeto como um todo?

Tiago. Sim, tive total autonomia. E a alegria de ter grandes colaboradores, como Wilson Souto Júnior na produção musical e Felipe Vagner na realização de alguns arranjos de cordas e metais, bem como na arregimentação dos músicos. Sou muito criterioso na escolha das pessoas que trabalham comigo e costumo dar espaço para que contribuam criativamente do processo, de acordo com certas diretrizes conceituais, digamos assim.

2112. Como foram as gravações?

Tiago. Movimentadíssimas. Foram um profundo mergulho em apneia. As sessões de gravação se estendiam pela madrugada e eu dormia pouquíssimo, pois tinha que acordar cedo para trabalhar como revisor de textos no parque gráfico da Editora Abril, na Marginal Tietê. Assim, ao chegar o momento de gravar a voz, estava fora de combate. Tivemos que paralisar as gravações durante um mês, pra que eu me recuperasse. Mas valeu cada instante.

2112. Ninguém entendeu o porquê do seu sumiço após o lançamento de um álbum maravilhoso como Cabelos de Sansão. A repercussão não foi o que você ou o selo Lira Paulistana esperava? O que de fato aconteceu?

Tiago. Aconteceu a soma de alguns fatores. Uma havia montado uma banda ótima, participamos de algumas apresentações com artistas do Lira Paulistana para grande públicos, mas chegou um momento em que não foi possível manter aqueles músicos, que eram muito requisitavam e tocavam com outros artistas. Eu vivia também um momento pessoal difícil, de grandes reformulações internas. Em suma, circunstâncias da vida. Nem sempre o que nos ocorre é como queremos, e sim como têm que ser. O protagonismo de nossa própria vida é uma conquista que, muitas vezes, vem no devido tempo. 

2112. ...aí você resolveu voltar para o Ceará? Mas você continuou trabalhando ainda como músico?

Tiago. Permaneci em São Paulo muitos anos, com diversas atividades profissionais. Houve um momento em que eu trabalhava em três lugares diferentes, de manhã, de tarde e de noite. Só mudei pra Fortaleza em 1995.

2112. Bendito seja o Zeca Baleiro que nos trouxe você de volta com sua música e poesia. Seja bem-vindo aos palcos e as gravações. Sucesso, meu camarada!

Tiago. Sim, tenho muita gratidão a Zeca Baleiro. Tanto que o novo álbum que lancei no final de junho, Terramarear, abre com uma parceria que fizemos recentemente: Você é um Oásis. Foi gravada à distância, devido ao isolamento sanitário, da mesma forma que diversas outras faixas do disco. Zeca gravou a voz dele em São Paulo e eu na vila onde moro em Portugal. A produção musical foi feita em Fortaleza, bem como toda a parte instrumental, mixagem e masterização. O disco tem 14 faixas e a participação de 37 músicos e artistas, inclusive Vânia Bastos, que canta comigo a canção Lugar ao Sol.

2112. Uma última pergunta... você acha que Cabelos de Sansão tem chances de vir a ser relançado?

Tiago. Espero que sim. Em 2022, Cabelos chegará aos 40 anos. Tenho algumas idéias pra marcar essa sua história de quatro décadas. Torço pra que haja condições de realizá-las.

2112. Qual o telefone/e-mail para a contratação de shows e aquisições de cds?

Tiago. Quem quiser adquirir Terramarear em mp3, com alta qualidade, é só entrar em contato comigo pelo e-mail tiagoararipe.pro@gmail.com . O disco vem acompanhado de um encarte em PDF com duas opções de visualização. A venda é muito simples, pode ser feita por meio de PIX ou transferência bancária e a entrega é imediata.

2112. ... o microfone é seu!

Tiago. Agradeço pelo bate-papo e pelo espaço, Carlos Antonio. E convido quem estiver acompanhando a gente a conhecer o meu trabalho nas plataformas de música. Os três álbuns de que falamos aqui estão todos online. E você pode escolher onde escutar clicando aqui: https://manylink.co/@TiagoAraripe. Saúde e um forte e musical abraço.

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

ARQUIVO2112: SONIA ABREU


Dois anos se passou desde a morte da primeira DJ mulher do Brasil: Sonia Abreu decorrente de uma esclerose amiotrófica. Seu apelido era “Soniaplasta” uma junção do seu nome com a sua profissão. Mas ela foi bem além: trabalhou na programação do Rádio Excelsior, tocou em diversas casas noturnas, na gravadora Som Livre, rádios (89FM, Brasil 2000, USP e Globo) e nos anos 80 montou uma rádio pirata batizada de Ondas Tropicais (que virou livro!) em vários formatos: Kombi, Fusca, Barco, Trio Elétrico, ônibus etc. Fica aqui a minha homenagem a esta grande guerreira que abriu muitas portas.       

Obs.: As fotos utilizadas nessa homenagem foram todas retiradas do Facebook da DJ.  Infelizmente só deu para identificar a sigla MSQRD. Quem tiver informação sobre o nome dos fotógrafos favor enviar para o meu e-mail: furia2112@gmail.com que eu faço as devidas correções.

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Entrevista Fredera

Os anos setenta no Brasil foram férteis em toda a sua extensão territorial... de todos os cantos do país surgiam bandas incríveis que se tornaram com o tempo referências para as novas gerações. E entre essas bandas estava o Som Imaginário que lançou três álbuns impecáveis e depois implodiu. Mas foi uma honra entrevistar o seu lendário guitarrista Fredera.                

2112. Sua carreira começou em 1968 período que conheceu e ficou amigo do Milton "Bituca" Nascimento, Wagner Tiso e Marilton Borges. Como foi que aconteceu esse encontro histórico?

Fredera. Ingressei na vida profissional em 12/05/1968 a convite de José Roberto Bertrami (anos depois fundador do Azimuth), que era músico da noite e tocava no Canecão, Rio. Conhecemo-nos no apto do pianista Leonardo Luz, de Juiz de Fora, e que morava, como o Zé Roberto, no Solar da Fossa, e tentava se colocar também na noite. Como eu também tocava contrabaixo, não só guitarra, e o Cláudio, irmão do Zé, voltou para São Paulo, sobrou essa vaga no Canecão, e eu assumi, sem jamais ter tocado um contrabaixo de pau. O trio então ficou: Zé Roberto, Robertinho Silva na bateria e eu no contrabaixo. Milton, Wagner e Marilton vieram um ano depois.

2112. Uma coisa que me chama a atenção em Minas é esse senso de unidade, de família onde todos se curtem e se ajudam mutuamente. Isso é um tanto incomum nos dias de hoje, não?

Fredera. O que nos unia era a música. Família mesmo era Milton e Wagner, que foram criados juntos no Sul de Minas. E amizade real, à época, tive foi com o Robertinho, com quem, nos tempos duros iniciais, juntava moedas pra dividir u'a média com pão c/ manteiga depois de tocar a noite inteira, no bar em frente ao Solar, onde morávamos e que ficava praticamente a lado do Canecão.

2112. Entre 1968/69 você participou do grupo A Turma da Pilantragem. Como foi que surgiu a banda e que tipo de som vocês faziam?

Fredera. Foi um trabalho puxado pelo Nonato Buzar, ex-goleiro do Fluminense e que partiu pra fazer sucesso na música popular; estourou uma cançãozinha, Vesti Azul, gravada pelo Simonal. Era um trabalho que chamamos de guigue, coisa pra ganhar grana para a subsistência. Quem chamou foi de novo o Zé Roberto, e nessa trabalhamos com grandes nomes da música instrumental moderna brasileira, como Raul de Souza ao trombone, Vítor Manga de bateria, Márcio Montarroyos ao trompete, Yon Muniz no sax. Isso durou uns seis meses e acabou. Gravamos um disco chamado Pilantragem Intrenacional, uma bobagem com finalidade puramente comercial.

2112. Porque a banda acabou? Vocês chegaram a lançar algum trabalho?

Fredera. Essa banda chamada Pila 7 foi extinta porque o trabalho saiu de moda e perdeu o investimento de Shell, Rhodia e tal. A partir disso montei com o Raul de Souza um grupo de baile chamado Impacto 8, para o que fiz os arranjos e ensaiei a turma toda. Durou um tempinho também, uns oito meses, e acabou-se.

2112. Tão logo a banda encerrou atividades você entra para o lendário Som Imaginário. Como surgiu o convite?

Fredera. O Som Imaginário começou em 1970. O baterista Robertinho Silva, que tocou comigo no Impacto 8, foi convidado para o Som Imaginário, que foi reunido para acompanhar o relançamento do Milton pela empresária Maria Mynssen. Quem reuniu a banda foi o irmão dela, José Mynssen, juntando dois músicos que ele ajudava na noite, Tavito e Zé Rodrigues, com o trio Wagner/ Luís Alves/ Robertinho Silva. O Robertinho viu que era preciso um guitarrista que solasse, e indicou meu nome. Estreei com eles ainda em 1970.

2112. O grupo foi criado a início para acompanhar Milton Nascimento no show "Milton Nascimento, ah, e o Som Imaginário”. Como eram esses shows?

Fredera. Eram shows que eletrizavam a galera, que jamais vira tanta inovação musical. Milton cantava com um grupo que potencializava as composições dele com criação musical inédita para o tempo. O trabalho durou porque eu assumi dirigir a parte empresarial, promovendo temporadas em Belo Horizonte e São Paulo. Até que o Milton resolveu cuidar de sua nova perspectiva de carreira, e ficamos a pé. Nessa nova situação, acabou que tive de sumir do Rio para fugir da ação da Inteligência do regime militar, porque andei abrigando gente da esquerda e caí na malha fina da segurança do governo. Fiquei dois anos e tal quieto em BH, quando, em 1973, voltei para o Rio com a situação esfriada e passei a tocar com o Raul Seixas, convidado pelo Wagner pra organizar a banda de rock, um quarteto que acompanhou o lançamento do Maluco Beleza.

2112. Vocês tinham espaço para fazer solos ou jams no palco?

Fredera. Com o Som Imaginário fazíamos loucuras musicais que entortavam as platéias. Era liberdade total. Já tínhamos gravado o primeiro disco do grupo, em que emplaquei os sucessos Sábado e Nepal. Ainda antes de me malocar em BH gravamos o Som Imaginário II, que emplacou outra composição minha, Cenouras.

2112. Naquela época você usava o nome Frederyko... porque você mudou para Fredera?

Fredera. Porque eu só usei o Frederyko para gravar meu disquinho solo de estréia que tinha No Nepal Tudo é Barato. Estava em voga envenenar os nomes pra criar clima de psicodélia, seguindo a linha do Hendrix, que era James Marshall Hendrix de pia batismal. O José Rodrigues virou Zé Rodrix, eu virei Frederyko. Mas acabou o Som, assumi meu apelido no meio musical, Fredera, posto pelo baterista Pascoal Meireles.

2112. Além de guitarrista você também é pintor, escultor e jornalista. O que te levou para a música?

Fredera. Inicialmente eu era professor estadual no Rio. Das salas de aula e da faculdade de Letras migrei para os palcos na noite carioca, ainda viva. A pintura, a escultura e o jornalismo, tanto quanto a tarefa de escritor/historiador só viriam a partir de 1984, quando a tarefa de acompanhar cantores que começara com o Milton e prosseguira com Gal, Raul, Gil, Fafá, Ivan Lins e Gonzaguinha – com este trabalhei os últimos sete anos de minha tarefa de guitarrista acompanhante. Deixei o Rio e me instalei no Sul de Minas a partir de outubro de 1984, e passei a viver de pintura, pesquisar escultura em cimento e começar a escrever profissionalmente no jornal local.

2112. Quem mais te influenciou o seu jeito de tocar?

Fredera. Boa pergunta. Ouvi muito jazz, com ênfase no trabalho do guitarrista Barney Kessel. Quando começou a onda pop no Brasil, ouvi muito Hendrix e Jimmy Page, do Zepellin. Mas o que faço começou a partir de 1971 veio de minha própria pesquisa, porque foram acontecendo descobertas através dos pedais que apareciam e que eu assimilava. Minha tarefa pessoal começou já no disco Milton, através de um pedal nacional de marca Sound, do qual parti para minha própria concepção musical/guitarrística. Hoje sou classificado como precursor da guitarra melódica, estilo concretizado a partir do trabalho com o Milton e firmado através do meu disco solo de 1981, Aurora Vermelha, em que mimetizei o violoncelo através da guitarra com pedais, coisa que à época foi uma novidade causando grande impressão.

2112. Você e o Toninho Horta são dois músicos que eu muito admiro justamente por não seguir tendências e sim a própria intuição. O que mais te inspira na hora de compor?

Fredera. Essa pergunta sempre meio que me bota em sinuca. O que ocorre é que todo o meu trabalho composicional é mediúnico, por assim dizer. As composições sempre “descem”, como se eu já as conhecesse de outra dimensão. Isso começou com Sábado, lá nos primórdios.

2112. Uma curiosidade: o disco Milagre dos Peixes Ao Vivo teve acréscimo de overdubs em estúdio ou tudo está como foi gravado?

Fredera. Eu já tinha deixado o Som quando eles gravaram esse disco, que mal ouvi.

2112. Logo vocês lançaram seus próprios álbuns que se tornaram cultuados com o passar dos anos. Isso prova que vocês estava bem a frente do seu tempo, não é?

Fredera. Sem dúvida. Estou hoje com três trabalhos instrumentais gravados, o Aurora, todo gravado em São Paulo em 1981 pelo selo instrumental Som da Gente; o Fredera e Nenê ao Vivo no CCBB/Rio lá prá 1995, e o Balada a um Anjo na Terra/ Iris Blues, todo gravado em Minas - BH e Alfenas -, que comecei a gravar em 1998 e terminei em 2018. O Aurora é referência até no exterior, com menção do maestro do Século, Gil Evans, que me conferiu a qualificação de “Padrão de composição contemporânea brasileira”, estando isso registrado nas librarys das escolas norte-americanas Berkeley, Julyard School e GIT. No Brasil o Aurora ganhou o maior número de prêmios conferidos a um trabalho instrumental. Mas todo esse trabalho permanece em oculto, o que é natural para obras que não se baseiam em padrões mercadológicos.

2112. Vocês faziam uma mistura interessante de rock progressivo, folk e música brasileira ainda que soassem pesados em alguns momentos. Como você definiria o som da banda?

Fredera. Sou classificado como compositor/guitarrista de música contemporânea com incursões no jazz e no erudito. Em relação ao Som Imaginário, fazíamos o que nos dava na telha. Quando me preocupei com dar um som identificável pra banda, a turma não entendeu isso, e a formação de então entrou em colapso. O Zé já tinha saído, já gravava com Sá e Guarabyra o tal de rock rural, que teve coisas muito boas, criações bonitas do Sá e do Guarabyra. O Zé não tinha muita inspiração pra compor, o que era percebido à época.

2112. O que mais te chama a atenção ainda hoje nos álbuns da banda?

Fredera. A liberdade para compor e tocar. É uma lembrança divertida voltar a considerar aquela conjuntura musical em nossas vidas.

2112. Você ouve os discos da banda?

Fredera. Não, não ouço. Apenas mostrei pros meus filhos músicos, mostro pra meus pupilos ou para quem se interessa em conhecer a coisa daqueles tempos, e nessas audições acabo ficando de cara com o que a gente, especialmente eu, aprontava musicalmente.

2112. Sabe dizer se existe sobras de estúdio ou demos dos três álbuns de vocês ou mesmo gravações ao vivo?

Fredera. Sei apenas de uma gravação que foi feita quando produzi a banda ao vivo em concertos patrocinados pelo produtor César Augustus Pereira em 1976. E considero algo pouco ligado à idéia inicial: ali estávamos tocando roque progressivo meio que sem direção, só pra estar no palco e produzir algo interessante.

2112. Pouco tempo depois do lançamento do Matança do Porco a banda decreta o seu fim. O que levou vocês a tomarem essa decisão?

Fredera. Invenção do Wagner, o que se constitui uma transgressão à regra: Está no dicionário: “Matança: massacre de muitas pessoas; morticínio, mortandade; ou ato de abater gado para consumo”. Éramos pessoas muito diferentes, com experiências pessoais muito diversas. Para mim era difícil me entrosar com a turma, porque eles só sabiam fazer música. Eu tinha outros interesses, e isso acabou determinando um divórcio na convivência do grupo.

2112. Com o fim da banda você passou a trabalhar com diversos artistas além de manter carreira solo. Por algum momento você pensou na possibilidade de largar a música?

Fredera. Primeiro, tive de me acoitar em BH pra escapara dos mecanismos de segurança do governo Médici, e acabei por largar mesmo a música profissional em 1984. Sempre sonhei com outras tarefas artísticas e culturais. Mesmo sendo músico, sempre fui um intelectual, cursado em Letras, conhecedor de Arte em geral, interessado em filosofia transcendente e enamorado dos conteúdos esotéricos.

2112. Em 1981 é lançado Aurora Vermelha todo instrumental. As composições são todas inéditas ou também tem material não aproveitado do período do Som Imaginário?

Fredera. O Som Imaginário foi uma escola para nós todos, e eu fui um dos que mais extraiu visão de progresso através das experiências que fizemos. Mas o Aurora foi todo composto de uma sentada, nasceu de minha fase de estudo de teoria musical, isso desde 1979, quando eu já convivia com os músicos da banda que acompanhava o Gonzaguinha. Minha maturidade musical se realizara, mas confesso que a tarefa com o Som foi uma base bastante sólida para minha libertação musical e para largada no disco solo. Mas o Aurora Vermelha “desceu” todo ali entre 1979 e 1980, não inseri nele nada do passado musical da década passada.

2112. Quem participou das gravações?

Fredera. A turma que acompanhava o Gonzaguinha:  Jota Moraes nos teclados e piano; Paulo Maranhão no baixo; Pascoal Meireles na bateria. Entramos no Nossoestúdio, em São Paulo, sem que eles tivessem idéia do que gravariam. Sai tudo na hora, gravávamos quando passávamos tocando por São Paulo ou nas brechas de temporadas com o Gonzaguinha. Teve ainda a participação do pessoal de São Paulo, o Amilson Godoy ao piano em uma faixa, o Téo da Cuíca em várias. Até o Valter Santos, ícone do tempo da Bossa Nova, conterrâneo do João Gilberto e que fora meu ídolo por ter composto a linda Azul Contente, participou do disco tocando uma cabacinha na faixa Clara, Cheia de Luz.

2112. Em 1984 você se muda para Alfenas onde passa a ministrar aulas, pintar, fazer esculturas e concertos com a Oficina de Guitarra e Baixo. Você ainda tem idéia de lançar novos álbuns ou mesmo criar uma nova banda?

Fredera. Sim. Tratei de começar a viver minha própria vida, dar asas a meus próprios sonhos ao contrário de viver azeitonando empadas alheias. Trabalhei muito por aqui, pintei muito, pesquisei o que pude e escrevi vários livros, sendo o mais importante o O Crime contra Tenório, que relata o martírio do pianista genial assassinado em Buenos Aires, onde foi tocar acompanhando aqueles sambas do Toquinho e Vinícius. Foi baleado na testa, encapuzado e caído na cela depois de nove dias de tortura na Escola Mecânica da Armada. Quanto a meu trabalho musical, preparei muitos instrumentistas, ensinei muita música para a juventude local. Tem ex-aluno meu tocando pra todo lado. Gravei o Balada a um Anjo na Terra com muita participação de minha oficina, são faixas realmente impressionantes as que têm participação dos meus pupilos.

2112. Você é visto por muitos como uma verdadeira lenda viva da guitarra brasileira. O que você pensa a respeito disso?

Fredera. Considero isso natural, porque aconteceu sem que eu buscasse fama e brilho de carreira e coisas assim. Sempre fui avesso a honrarias e salamaleques. Meus trabalhos marcaram várias décadas, e, acredito que por ter feito coisas diferentes do normal, isso porque tenho profunda formação em ópera e erudito, marquei de forma diferente do restante. Sou uma lenda até pra mim mesmo, porque, quando ouço o que fiz no passado, sempre me assusto. Parece que sou um “cavalo” conduzido por meus guias transdimensionais. Fico eu mesmo de cara!

2112. Em 2012 Wagner Tiso reativou o Som Imaginário para vários shows. Ele chegou a contactar você para tratar sobre o retorno do grupo?

Fredera. Não. Ele sabe que estou em outra praia, acho até que não conseguiria retomar nada com Wagner e cia, e ele sabe disso. É, para mim, aquilo dos índios brasileiros: nunca voltar a trilhar um caminha já trilhado. Pelo Som como a grife daquele passado com o Milton, considero que minha participação seria obrigatória; mmas aquilo, aquela religiosidade, já passou. Prefiro mesmo é ficar nestas montanhas fazendo minhas coisas pela evolução, para mim é o que faz sentido hoje e para diante.

2112. Estamos nesse período da pandemia e tudo está parado no momento. Mas quais são os seus projetos para o futuro?

Fredera. O que os meus instrutores invisíveis resolverem fazer através de mim. Estou aberto para a ação deles. O fato de estar tudo parado por causa da sanha de dominação chinesa sobre o mundo não interrompe a evolução. O mundo transdimensional prossegue em vida normal, a evolução ocorre até por causa dessa porcaria que eles nos enviaram no plano do físico material grosseiro.

2112. ... o microfone é seu!

Fredera. Eu é que agradeço. Gostaria de informar que o Balada a um Anjo na Terra - Iris Blues está nas plataformas. Seria muito positivo pra mim que pessoas como vocês ouvissem essa tarefa carregada de amor e sofrimento. Blues significa isso: sofrimento. E do sofrimento vem a evolução. “Somente a dor é positiva”, porque nos faz transcender o conforto paralisante. O prazer é traidor, só faz querer mais e mais, e nisso caímos na teia da aranha fatal. Minha música busca outras esferas, calca no amor e na beleza, é indiferente a resultados comerciais. E meu nome é apenas mais um no catálogo dos que trabalham em busca de melhorar o mundo através do som.

 

Obs.: As fotos utilizadas nessa entrevista foram todas retiradas do Facebook do músico e infelizmente não deu para identificar o nome dos fotógrafos. Quem tiver alguma informação favor enviar para o meu e-mail: furia2112@gmail.com que eu faço as devidas correções.