O blog 2112 foi formado com intenção de divulgar as bandas clássicas de rock, prog, hard, jazz, punk, pop, heavy, reggae, eletrônico, country, folk, funk, blues, alternativo, ou seja o rock verdadeiro que embalou e ainda embala toda uma geração de aficcionados. Vários sons... uma só tribo!



sábado, 21 de abril de 2018

Entrevista VersOver


 
Mais uma entrevista de peso e desta vez é com a banda VersOver que tem mais de vinte anos de estrada, muitas lutas vencidas, muitas histórias para contar e muitos riffs para incendiar a sua mente. Nesta exclusiva os integrantes da banda contam um pouco da sua história e os novos projetos que estão por vir...            

2112. Vocês estão na estrada desde 1997... portanto já são 21 anos de batalhas num cenário cada vez mais competitivo. Na sua opinião o cenário do metal melhorou desde o surgimento da banda?    

Gustavo Carmo. Em alguns aspectos, entendo que sim. Hoje é muito mais fácil compor e gravar do que há anos atrás. As tecnologias permitem isso e nosso novo disco, Hell’s Inc. é prova. Em outros aspectos também tem mais lixo sendo produzido, já que a barreira de entrada é grana para comprar tecnologia, mas não se compra talento.

2112. Luto muito para que as pessoas deem mais valor às nossas bandas. O que mais me irrita neste mecanismo todo é ver o próprio banger brasileiro tratar o produto interno como inferior ao produzido pelos gringos. Isso é uma falsa realidade e uma total falta de respeito para com nossas bandas...  

Rodrigo Carmo. A grama do vizinho é sempre mais verde… Isso vem desde Sepultura e Angra, que foram aclamados no exterior antes de o serem no Brasil. No nosso caso sempre tivemos mais respostas de qualidade do que quantidade, o que nos permitiu ter a banda apenas como hobby e não como sustento. Tirando alguns muito poucos exemplos, viver de heavy metal no Brasil é virtualmente impossível.

2112. A prova de que temos grandes bandas foi o “ataque de pelanca” do Cronos/Venom que diante do massacre sonoro das meninas do Nervosa mandou encerrar o show antes da hora. Quer algo mais real do que isso?

Leandro Moreira. Até o Manowar já fez esse tipo de sacanagem no passado, quando bandas novas “ameaçam” as bandas mais estabelecidas. Isso é uma pena, pois demonstra um mindset rígido, enquanto hoje temos uma abundância de oportunidades… Estou certo de que o pessoal da banda Nervosa vai acabar se beneficiando no final das contas, pela exposição que esse tipo de treta dá.

2112. A VersOver surgiu num período em que o grunge dominava as paradas de sucessos e dividia espaço com o heavy metal na questão de música pesada. Foi difícil demarcar território?

Mauricio Magaldi. Nosso estilo sempre foi muito “de nicho”, então talvez nunca tenhamos precisado “marcar território”. Todos nós crescemos ouvindo diversos estilos, e ser contemporâneo do grunge acabou também influenciando como escrevemos as letras.

2112. Vocês devem ter muito o que contar... Poderia falar um pouco da história da banda?  

Mauricio. Começamos nossas atividades em 1997, Gustavo, Rodrigo, eu e um outro baixista, o Parmito. Logo gravamos uma primeira demo-tape, Endurance. Empolgados com os diversos shows no ano seguinte, e com um novo baixista, Fernando Borges, compusemos e gravamos o nosso primeiro full length, Love, Hate & everything in Between. Esse play foi o primeiro CD lançado pela Die Hard Records, e nos colocou no radar da cena de metal brasileira. Ainda com a Die Hard fizemos parte da coletânea Hamlet e do álbum em homenagem à banda portuguesa Tarântula, e continuamos a tocar em diversos lugares, entre festivais e shows próprios. Eu saí em 2001, logo depois da nossa aparição no “Programa do Jô”, e junto com o novo batera, Daniel Roviriego, foi gravado o álbum House of Bones, com letras do Adriano Villa, baseado em seu livro de terror, “A Casa de Ossos”, também lançado pela Die Hard, em 2003. Rolaram shows com Angra, Edguy e Blaze Bayley nessa época, o que foi uma ótima experiência. Após o lançamento do EP Built Perspective, a banda encerrou as atividades em 2005. Num espasmo durante 2008, gravamos um show de reunião que acabou virando o CD/DVD ao vivo Live Perspectives, com o Mauricio na batera e Fernando Borges no baixo, parando novamente logo após esse lançamento. Gustavo e Rodrigo se juntaram com Leandro Moreira na banda House of Bones e lançaram um EP com três músicas em 2012. Quem tocou bateria nesse EP e em alguns shows no Brasil e nos EUA foi o Aquiles Priester. A banda retomou atividades com a formação atual (Gustavo, Rodrigo, Mauricio e Leandro) no final de 2014, quando começamos a escrever o que viria a se tornar o disco Hell’s Inc., lançado de maneira independente em Outubro de 2017.

2112. O heavy metal sempre foi um movimento rico na questão de variedade de bandas e de estilos: metal clássico, death, hard, speed, thrash... Enfim, quais são as influências de vocês?   

Gustavo. As mais óbvias são Megadeth e Rush, mas cada um de nós tem influências diferentes. Mauricio é o progueiro, bebe das fontes de Dream Theater, Fates Warning, Rush, e outros medalhões do estilo. Rodrigo é metal na veia, com influências de Ozzy, Bruce Dickinson, e Rob Halford. Leandro vai de Black Sabbath a Project46, e tudo no meio. Eu vou desde Andrew York, violonista clássico, a Greg Howe e Tony MacAlpine, John Petrucci e Joe Satriani.

2112. Vocês já tem três trabalhos gravados sendo o último Hell’s Inc. Todos na banda compõem?   

Rodrigo. O Gustavo é que leva essa bandeira, abrindo espaço para sugestões e contribuições, especialmente nos arranjos. Nas letras, o Maurício escreve e costuma dar o direcionamento temático, mas no caso de Hell’s Inc. as contribuições foram muitas e bastante intensas. Foi o disco mais colaborativo entre todos os que fizemos até hoje.

2112. Vamos falar um pouco sobre o Hell’s Inc. que foi gravado em três estúdio diferentes, composto à distância e mixado por Jesse Vainio no Mofo Music da Finlândia. Conte um pouco dessa maratona metálica...      

Mauricio. Temos alguns vídeos no Facebook que mostram um pouco disso, acho que são bem interessantes e até engraçados de ver. Como o Gustavo mora nos EUA, eu em São Paulo, Rodrigo e Leandro em Bebedouro, coordenar o processo foi um desafio muito grande. Depois de fazermos a pré-produção de modo digital e remoto, gravar precisou de bastante coordenação. As bateras foram gravadas no nosso estúdio em Bebedouro, o AR-15, durante os feriados de Natal e Ano Novo de 2015. Os baixos foram gravados em 2016, no estúdio do Bruno Ladislau. Depois disso o Gustavo precisou dar um tempo para filmar o DVD com o Aquiles, com as músicas do projeto instrumental deles. Só então o Gustavo conseguiu dar foco e gravar as guitas no estúdio dele em Seattle, o AK-47. Como queríamos lançar o disco ainda em 2017, o Gustavo produziu os vocais remotamente desde Seattle, com o Rodrigo gravando no estúdio em Bebedouro.
Uma vez que a produção foi concluída pudemos mandar o material para o Jesse, que já tinha trabalhado com o Aquiles no disco do Hangar, e com o Gustavo no DVD. É um cara extremamente positivo, e sabe muito bem como dar o som que casa com o estilo de música. Foi uma parceria muito legal trabalhar com ele. Gustavo e Rodrigo acompanharam in loco o processo com o Jesse, e temos uma série de posts no Facebook da banda contando essa história.

2112. A produção, orquestração e arranjos de teclados ficou a cargo de Miro que já trabalhou com as bandas Angra, Rhapsody, After Forever e Epica. Como foi trabalhar com ele?

Rodrigo. O Miro é amigo das antigas. Quando estávamos conversando sobre participar do projeto Hamlet com a Die Hard, o Gustavo foi se apresentar em um um festival de violão clássico na Alemanha e, depois de alguns emails e telefonemas do Mauricio - que estava aqui no Brasil -, conseguiu dar um pulo em Wolfsburg na casa/estúdio do Sascha Paeth, guitarrista da banda alemã Heaven’s Gate, com quem o Miro trabalha. Desse encontro saiu a participação deles como engenheiros de mixagem do projeto Hamlet, além de uma parceria conosco que dura até hoje.

2112. Ele deu muitas dicas?

Leandro. Ele e o Gustavo trabalham como que por música HAHAHAHAHA são bem afinados no método de colaboração, então rola uma parceria bem redonda entre eles.

2112. As letras abordam temas como a morte, a injustiça, os conflitos interiores, e a cultura do estupro entre outros temas ligados a nossa dura realidade. O que levou vocês abordarem esses temas?     

Rodrigo. Essas letras nasceram de temas levantados por diversos de nós, refletindo nossas realidades particulares e opiniões e ideologias. No final das contas foi quase que uma canalização dos nossos incômodos principais com as questões desse mundo contemporâneo e quase que distópico que estamos vivendo. Tem muito pouca ficção nos sentimentos que exprimimos nessas letras.

2112. Quais os destaques deste trabalho?    

Gustavo. Entre nós não há muito consenso, mas entre os fãs o feedback mais forte veio para Enemy, Howl In Pain e curiosamente para Lady Death. Mas no geral foi bem variado. Todas as músicas clicaram com alguém e o feedback foi bem equilibrado.

2112. A capa trouxe a assinatura do mestre Hugh Syme que tem em seu currículo trabalhos com o Rush, Iron Maiden, Whitesnake, Aerosmith, Megadeth, Dream Theater entre outros. Ele aceitou de imediato o trabalho?   

Mauricio. Não. Quando entramos em contato com ele, a ideia era fazermos a capa com ele e o resto do material com outro artista, por conta dos custos. A resposta dele foi bastante “de negócios”, sem muito “calor”. Ele pediu para escutar as mixes e ler as letras antes de decidir. Quando ele respondeu a coisa mudou bastante. Ele praticamente fez uma resenha completa do disco! A gente chorou igual criança grande… Seguramente foi um dos momentos mais recompensadores da nossa carreira musical, especialmente porque o nome da banda, VersOver, o Gustavo “achou” no encarte do Rush Counterparts, que o Hugh fez. Além disso ele quis fazer a arte toda, o que acabou culminando em um encarte super rico, cheio de significado, e que suporta cada uma das músicas e letras nesse álbum.

2112. Hell’s Inc. teve uma produção melhor que os anteriores... Existe possibilidades dele ser lançado no exterior? Vocês já receberam proposta de algum selo?

Leandro. Nesse momento ainda não podemos divulgar, mas estamos trabalhando com algumas propostas.

2112. Quais são os projetos para este ano? Existe a possibilidade de vocês fazerem alguns shows no exterior?

Gustavo. Estamos recebendo um bom feedback do disco e também do novo clipe que fizemos para a música Enemy. Esse clipe é o nosso primeiro em 20 anos de banda, e foi produzido pela Foggy Filmes, do Juninho Carelli, tecladista da Noturnall, e pode ser visto em https://youtu.be/niIMgQXFt4U. Nossos planos para o ano incluem alguns shows e, talvez, um clipe para alguma outra música de Hell’s Inc.

2112. O microfone é de vocês...

Leandro. Obrigado Carlos, pela oportunidade de falar aos teus leitores; agradecemos também nossos parceiros de sempre, André e Fausto, da Die Hard Records, nossos fãs de longa data, e a todos que for da sua família.

VersOver:

Gustavo Carmo - guitarra
Rodrigo - vocais
Leandro Moreira - baixo
Maurício Magaldi - bateria

www.Facebook.com/VersOver

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Entrevista Claudio Dantas


Quando se fala em rock progressivo brasileiro um dos primeiros nomes que vem à mente é o do Quaterna Réquiem, justamente por ser uma das colunas sagradas do movimento. O grupo lançou apenas quatro álbuns e um quinto que está sendo projetado em 32 anos de carreira... E quem nos conta toda essa história e mais algumas novidades é o seu incrível baterista Claudio Dantas. Acomode-se, pois vamos começar a nossa viagem rumo ao planeta prog!


2112. A primeira vez que ouvi falar do Quaterna Réquiem foi em 1990 quando vocês lançaram o vinil de Velha Gravura. Fui surpreendido com o som que muitos diziam estar morte desde o surgimento do punk rock. Velha Gravura é um belo disco, uma verdadeira obra de arte...  


Claudio Dantas. Obrigado Carlos. Gravamos o Velha Gravura após aproximadamente um ano de ensaios e alguns shows. Temos muito orgulho deste álbum, pois consideramos quem foi um dos que reabriu as portas do Rock Progressivo no mundo. Na época pouquíssimas banda ainda se enveredavam pelo estilo.  



2112. Mas o punk de uma certa maneira deu uma balançada no cenário musical prog visto que bandas como Yes, Pink Floyd, Emerson, Lale & Palmer, Genesis... deixaram de lado as grandes suítes e experimentações e passaram a produzir músicas com tempos menores. Qual a sua opinião a respeito disso?


Claudio Dantas. É o ciclo da vida, eu acho. O que lamento é se a maioria dos fãs realmente escutassem pelo amor à música, o estilo não seria destruído como foi no final dos anos 70. Mas considero que após 1990 o prog voltou com muito mais força e não parou mais. Nunca tivemos tantas e tão boas bandas e seguidores no mundo, e principalmente no Brasil.     



2112. Álbuns como Drama/90125 (Yes), Love Beach (Emerson, Lake & Palmer), And Then There Were Three (Genesis), A Momentary Lapse Of Reason (Pink Floyd), A (Jethro Tull)... já dava uma visão do que viria pela frente. Sei que mudar é necessário mas era necessário uma virada tão radical?


Claudio Dantas. As grandes bandas foram massacradas pela virada, e tiveram que tentar sobreviver. Claro, consequência também de estarem no auge de vendas e consumo. Como disse acima, acredito que boa parte dos fãs/consumidores estavam na onda pela onda e não por amor ao estilo. A onda virou e foram atrás...   



2112. Pessoalmente não gosto da maioria das bandas de neo prog levando em conta que deixaram de lado o clássico, o erudito, o folclórico, as experimentações  para usarem elementos do pop em sua música o que deixou o movimento mais acessível mas sem os “elementos” que tornaram o movimento grande como foi. Mas o cenário tem se renovado com bandas focadas nos trabalhos desenvolvidos nos anos 70. Quem você indicaria como interessante entre as novas bandas?    


Claudio Dantas. Bom, na verdade é uma contradição juntas os termos renovação e foco nos anos 70, né? Eu respeito todo trabalho autêntico, seja de vanguarda ou influenciado por outras eras. Não adianta ter um trabalho sem conteúdo com um Hammond e um Mini Moog e dizer que é prog. Sempre falo que a cena aqui no Brasil nunca foi tão rica e sólida pois hoje temos bandas com muito mais personalidade do que nos 70’s. Unitri, Tempus Fugit, Arcpélago, Vitral e muitas outras.     


2112. Este ano o Quaterna Réquiem faz 32 anos que surgiu no cenário prog. Nós, fãs da banda podemos esperar por alguma novidade? 


Claudio Dantas. Elisa já está compondo pro próximo trabalho! 



2112. A primeira fornada de Velha Gravura foi através do Selo Faunus, não é? Como surgiu o contato? 


Claudio Dantas. Na época, vários selos nos procuraram pra lançar o Velha Gravura. A Faunus foi a que apresentou a proposta mais viável para nós. 



2112. Acho Toccata, Velha Gravura, Aguartha... verdadeiros clássicos do prog mundial. Você pode contar um pouco como foram as gravações deste álbum?


Claudio Dantas. Obrigado! São composições da Elisa Wiermann que já tocávamos em shows antes de irmos pro estúdio. Gravamos no Estúdio Serapis Bey no Rio. O proprietário, Kao Rossman, era tecladista e o estúdio tinha tudo o que podemos imaginar de equipamentos e instrumentos de ponta, inclusive um Mellotron! A bateria que usei foi uma Gretsh igual a do Phill Collins!



2112. Velha Gravura foi lançado num período em que o rock brasileiro gozava de muita popularidade e vocês ao contrário de bandas como Raimundos, Paralamas do Sucesso, Titãs, Sepultura... vieram com uma proposta contrária ao que estava tocando nas rádios. Foi difícil bater de frente?


Claudio Dantas. Pelo contrário! Após o hiato desde o surgimento do grande Bacamarte, havia uma carência enorme pelo rock progressivo. Fomos muito bem recebidos pelos admiradores do estilo que estavam sedentos de prog... A maioria são nossos amigos e nos prestigiam até hoje.

2112. Vocês o lançaram no exterior? 


Claudio Dantas. Sim. Não havia a divulgação instantânea da internet, mas todos os bons lojistas especializados compraram muito e faziam trocas com lojistas de fora. Recebemos muitas cartas de todos os lugares do mundo. Ainda as possuímos!  



2112. Quasimodo trouxe de volta as velhas suítes que tantas saudades deixaram quando foram abolidas pelas bandas prog no final do anos 70. Acredito que os álbuns Close To The Edge e Tales From Topographic Oceans ambos do Yes tenham sido o ápice deste formato. O que motivou vocês a gravarem a faixa título com quase 40 minutos de duração?  


Claudio Dantas. Quasimodo foi o resultado da paixão da Elisa pelos clássicos da literatura. Foi baseado no romance “Nossa Senhora de Paris”, de Vitor Hugo, um épico. Seria impossível fazê-lo menor...



2112. Como foi a gravação desta música?


Claudio Dantas. Sensacional. Era sempre maravilhoso entrar em estúdio com a abanda inteira e montar as peças aos poucos. Uma interação e uma paixão que se perdeu com a nova - e ótima – tecnologia; hoje cada integrante grava sua parte em casa. Pitoresco foi a entrada do Monge à caráter no estúdio cheio de roqueiros, pra gravação do Canto Gregoriano...  



2112. Em 1999 vocês lançaram Livre gravado ao vivo no Rio Art Rock Festival em 1997 quando abriram para a banda sueca Par Lindh Project. Havia muita cobrança por parte dos fãs para a banda lançar um disco ao vivo?   

Claudio Dantas. Sim. E foi uma boa oportunidade, já que o Leonardo Nahoum - produtor do Rio Art Rock - sempre gravava os shows profissionalmente. O Quaterna sempre teve uma boa reputação ao vivo...  



2112. O seu solo ficou magnífico... 


Claudio Dantas. Muito obrigado! Tentei fazer como uma peça musical, não como uma demonstração de técnica ou coisa parecida...



2112. O Arquiteto foi lançado dezoito anos depois de Quasimodo. Porque levaram tanto tempo para lançar um novo álbum de estúdio e o que aconteceu neste meio tempo? 


Claudio Dantas. Mesmo com todo o apoio e incentivo que temos, ainda é muito difícil se dedicar exclusivamente ao trabalho autoral de rock progressivo. O Quaterna Réquien nunca parou, mas de um tempo para cá a idade e a maturidade nos obriga a fazer menos evento com mais qualidade. Foi o caso do show no Teatro do BNDES em setembro de 2017. Colocamos o trabalho no edital da casa e fomos selecionados em primeiro lugar – no quesito música erudita!



2112. O álbum traz lindos temas como a imponente suíte título, a delicadeza de Mosaico, Fantasia Urbana com o seu belo trabalho de órgão, Preludium com o duelo de guitarra, violino e sintetizadores que tiram o fôlego do ouvinte. Como é o trabalho de composição de vocês?


Claudio Dantas. Elisa compõe as partes dos instrumentos com exceção da bateria. Claro que há alguns solos em que cada instrumentista cria.
2112. Quais são as influências da banda?


Claudio Dantas. Elisa é formada em piano pela Escola de Música da UFRJ, assim é inevitável a influência de Música Erudita, principalmente a Barroca. E os grandes mestres do estilo, principalmente ELP.



2112. Qual é a sua formação musical? Você é autodidata?


Claudio Dantas. Tive aulas com um grande baterista nos anos 80, José Thomas, que era especializado em samba e ritmos cubanos. Isso me ampliou muito a gama da bateria pro rock progressivo.



2112. Particularmente gosto de Charlie Watts, Bill Brufford, Neil Peart, Keith Moon, John Bonham, Carl Parlmer, Stewart Copeland, Ginger Baker... E você, qual batera mais o influenciou?


Claudio Dantas. Carl Palmer, sem dúvida. Todo dia faço minha oração pra ele...  



2112. O público de heavy metal assim como o do prog são extremamente fiéis ao som que ouvem... é algo quase espiritual. E você, o que gosta de ouvir além do progressivo?   


Claudio Dantas. Além da música erudita, compositores contemporâneos como Philip Glass e Win Mertens. Vários “offprog” que considero prog como Loreena Mckennitt, Deep Purple, Jon Lord, Uriah Heep, etc...



2112. O prog é um dos braços do rock mais democrático no que diz respeito a absorver diferentes estilos musicais para a criação de algo muito maior. Sempre achei que ouvir diferentes tipos de música dá ao músico uma visão bem mais ampla de sua arte. Você concorda?     


Claudio Dantas. Absolutamente! 


2112. Como músico quero te perguntar uma coisa. Sinto que Allan White do Yes nunca foi um músico reconhecido pelo seu belo trabalho em função da crítica afirmar que a banda perdeu muito com a saída de Bill Brufford. O que você pensa a este respeito?


Claudio Dantas. Normalmente quando me expresso sobre isso visto um colete à prova de balas. Não se trata de ser melhor ou pior, mas considero o Alan White infinitamente mais adequado ao Yes do que o Bill Bruford. O Alan é um baterista sinfônico, enquanto o Bruford é mais jazzista e experimental.



2112. Ginger Baker e posteriormente Stewart Copeland fizeram álbuns solo com elementos africanos. Você já pensou em lançar um trabalho solo com um material diferenciado do que faz com o Quaterna?


Claudio Dantas. Sim, tenho este desejo há algum tempo. Mas tenho que desenvolver muito meu lado lado musical ainda. O trabalho orquestral do Steve Copeland é magnífico!  



2112. Muitas pessoas incluem “A Mão Livre” gravado por Elisa Wiermann e Kléber Vogel na discografia da banda. É correto isso?


Claudio Dantas. Não. Foi um trabalho à parte mesmo. 


2112. O Quaterna é uma banda prog instrumental... Mas em algum momento da carreira vocês já pensaram em lançar um trabalho incluindo um vocal assim como fez o Focus em 1978 quando lançou “Focus con Proby”?


Claudio Dantas. Sempre que a música ‘pedir’, o vocal será mais instrumento, como foi o caso do Canto Gregoriano em Quasimodo.



2112. O microfone é seu...


Claudio Dantas. Quero te agradecer muito por esta oportunidade. Na minha opinião, o triângulo perfeito para um bom trabalho é a banda que tem determinação de continuar produzindo, independente das ondas e mares, mais o público que nos prestigia e apóia incondicionalmente, mais os veículos de divulgação como o seu, que assim, manterão esta chama acesa por muito mais tempo. Muito obrigado, em nome do Quaterna Réquien.             

Discografia:

Quaterna Réquien


1990 - Velha Gravura 
1994 - Quasímodo
2000 - Livre

2012 - O Arquiteto


Elisa Wiermann e Vogel


2003 - À Mão Livre