O blog 2112 foi formado com intenção de divulgar as bandas clássicas de rock, prog, hard, jazz, punk, pop, heavy, reggae, eletrônico, country, folk, funk, blues, alternativo, ou seja o rock verdadeiro que embalou e ainda embala toda uma geração de aficcionados. Vários sons... uma só tribo!



quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Entrevista Reginaldo Silva (Kamikaze)

Este ano o primeiro álbum da banda faz exatos quarenta anos de lançado. Acredito que muitos já cantaram Machado de Guerra, seja nos lendários shows, debaixo do chuveiro, tomando uma cerveja com os amigos ou no carro.  A entrevista tinha mais perguntas que não foram respondidas por decisão do próprio músico. Quem sabe um dia não posto a entrevista inteira... Espero que curtam essa primeira parte.   

2112. O Kamikaze surgiu em plena efervescência da cena oitentista mineira que revelou ao mundo Sepultura, Overdose, Chakal, Sarcófago, Multilator, Attomica... e também vocês. Como era a cena naquela época? 

Reginaldo. Obrigado por me convidar pra esta entrevista. Eu frequentava o estúdio chamado Tribo de Solos do Hélcio Drummond na Rua Rio de Janeiro que não era comercial e funcionava todos os dias de 18 às 22 hs ou mais. Vários guitarristas, alguns baixistas e bateristas frequentavam e fazíamos  o chamado free que era começar a tocar sem combinar nada. Nem harmonia nem música cover... às vezes sentados em frente a porta de entrada da sala com caixas de ovo como isolamento acústico. Entrávamos pra fazer o free aí víamos que neste dia só tinha guitarrista (todos querem ser... rs). Aí um tinha que pegar a batera e outro baixo e etc... Acabamos aprendendo a tocar apenas praticando. Conheci Guilherme Bizzotto no Marconi e ouvi ele cantar no recreio. Chamei pra ir na Tribo e ai conhecemos João Guimarães que era dono de um dos estúdios de BH que gravou Sepultura, Overdose etc. Gustavo Duarte e João Guimarães tinham uma banda instrumental com Augusto Rennó chamada “Manga Rosa”. Nesta época tínhamos pra gravar os estúdios JG, Bemol o do Marcus Vianna. Hoje se grava em casa se quiser. Assim nasceu o Kamikaze por volta de 1984. A Rádio Terra tinha um programa Top Line que na época muitos ouviam no carro com grande audiência. Get Crazy (Adriano Falabella) que tocava Machado de Guerra apresentava o programa e ficávamos em primeiro lugar na votação dos ouvintes quase todos os dias.  

2112. Muitos reclamam da falta de união entre as bandas mas naquela época era diferente? O que melhorou e o que piorou com o passar dos anos em sua opinião?

Reginaldo. Na verdade nos anos oitenta as bandas de metal tinham pouco espaço nas mídias. Tanto que só tocávamos na Rádio Terra que era no mesmo local da 98FM que bombava na audiência. Tanto que quem cantava em inglês (exemplo Sepultura) fez sucesso fora do Brasil pra depois ser reconhecido aqui dentro. Comecei a dar aulas e entre meus alunos tive o prazer de dar aulas pro Paulo Xisto e pra namorada dele que tinha uma banda chamada Placenta. Detalhe, todos frequentavam estúdio de ensaio do Guilherme Corrêa da Rock News no Prado. Acho que melhorou a aceitação da guitarra distorcida e hoje tem mais adeptos do Heavy Metal e estilos mais pesados. Mas na minha opinião ainda há disputa pra espaço entre bandas. Voltando um pouco mais atrás em 1974 no Maestro Villa Lobos onde eu estudava no primário sentado na carteira e a professora rodando a sala pra ver o que escrevíamos viu que eu tinha desenhado uma caveira no caderno e na mesmo hora ela disse: já já pra secretaria!!!Chamaram meus pais na escola pra reunir com a diretora. Hoje qualquer criança anda com blusa de caveira. Sai um pouco do assunto mas acho que tem a ver.


2112. Que mudanças deveriam ser tomadas no setor de entretenimento além das famosas políticas culturais?

Reginaldo. Dar mais espaço pros que tem talento e mostrar menos bundas e peitos pra atingir a mídia. Além de ser mal exemplo pras crianças cadê a censura? Veja a Sandy que não é de usar roupas decotadas canta muito e faz sucesso sem apelativos. Claro que é bonita. Fora do Brasil Taylor Swift que é linda tem muito talento e músicas que considero uma obra de arte como “Today is a Fairytale” mas também aparece coberta etc. Agora, o quer fazer? Pra mim cada um na sua desde que mostrem a verdade. O que é bom? 

2112. Vocês souberam usar com sabedoria o levante punk "faça você mesmo". Como foi avançar trincheiras usando as próprias armas?

Reginaldo. O Kamikaze não me deu sustentação financeira até hoje. Toquei com vários artistas entre eles Marina Machado (2000-02) que tinha no projeto Milton Nascimento, Seu Jorge, Lô Borges, Max de Castro... Também em 2007 pra 2008 quando Flávio Venturini veio do Rio de Janeiro pra  morar em BH depois de uma cirurgia de alto risco tive a oportunidade de fazer a guitarra nos seus shows Brasil a fora. 50 Shows num ano em média. E há 39 anos dou aulas de guitarra particulares e em algumas escolas como a Pro-Music. Mas ainda há uma luz no fim do túnel. Vejo que em São Paulo e alguns lugares muitos respeitam e conhecem a Banda Kamikaze. Talvez falte administração e planejamento que realmente não é minha área. Talvez se alguém interessar...

2111. ... passados mais de vinte anos de estrada o que vocês não repetiriam a dose?

Reginaldo. Participei no show do Guilherme Bizzotto no “Camping Rock” e estamos pensando em reativar a banda. 2022 regravamos o Blues de Ninguém. O batera Alessandro Bagni que gravou e tocou infelizmente faleceu recentemente mas vamos continuar na estrada.  

2112. O split-album com Sepultura e Overdose deixou claro que havia rock de qualidade fora do eixo Rio-São Paulo e que a música mineira ia muito além do cultuado Clube da Esquina, não é? 

Reginaldo. Sim e gravado no JG produzido pela Cogumelo. 

2112. O Kamikaze se impôs com seu poderoso hard metal cantado em português o que é raro em se tratando do estilo quando a maioria compõem em inglês visando o mercado exterior. O que levou vocês optarem por este caminho?

Reginaldo. Eu fazia as músicas e o Guilherme as letras. Dizem que ele cantava meio stenis fronis gronis. Tipo um naglês rs, rs... Muita gente não entendia o que ele dizia.

2112. Reginaldo, como surgiu a banda?

Reginaldo. Como eu disse antes conheci o Guilherme no colégio Marconi na primeira pergunta... falei demais.

2112. Na época a banda fazia parte do Projeto Tribo de Solos. Como funcionava este projeto e como surgiu o contato entre vocês e a Cogumelo Records?  

Reginaldo. De novo respondi na primeira mas completando... Conhecemos o João da Cogumelo por que ele produziu o disco que você citou do Overdose de um lado e Sepultura do outro. No caso EP que era um compacto grande pelo fato dos compactos terem se tornado obsoletos. Antes você entrava no supermercado e tinha prateleiras de compactos. O Estúdio era JG que era nosso batera e não pagamos pela gravação mas nas edições seguintes o João fez uma proposta de fazer mais tiragens.

2112. Kamikaze foi lançado em 86 e logo se tornou um clássico do estilo projetando o nome da banda por todo o território nacional puxado pelo clássico Machado de Guerra. Vocês esperavam por um retorno tão rápido assim? 

Reginaldo. Na verdade eu queria fazer sucesso no Brasil e ir no Chacrinha. Me enganei.

2112. Machado... deve ter sido coverizado por diversas bandas anônimas e outras que nem seguer saíram das garagens de ensaios. Isso é muito gratificante, não? 

Reginaldo. Sim. Outro dia vi uma versão de uma banda “Dynasty” e achei muito bom. 

2112. Você sabe informar quantas cópias o álbum vendeu? 

Reginaldo. 1.000 nas primeiras e depois 3.000 foram acertadas mas acho que tem mais por aí sem acusar ninguém.

2112. Quatro longos anos se passou para que Kamikaze II viesse a tona para alegria dos fãs. O que aconteceu nesse hiato de tempo entre um álbum e outro?

Reginaldo. O que eu aprendi tocando com Flávio Venturini que é de um nível extremamente profissional é que a banda ou artista solo tem que ter agenda pra existir e ter retorno. Na estrada já ouvi falar que tem muita  briga inclusive com o Mick Jagger e Keith Richards mas um aguenta o outro. Imagina sem dinheiro... Quando o Germano entrou na banda no lugar do Guilherme fizemos dois shows por mês o que nunca tinha acontecido. O Germano além de cantar bem tem o lado empresarial e muitos contatos. Como eu digo: tem gente que vende merda em pó no supermercado com uma linda embalagem e nós temos ouro engavetado.

2112. Em 1994 vocês registram Kamikaze III com produção de Chico Neves, mixado por Tchad Blake, produtor do Pearl Jam e masterizado por Bob Ludwig. Como foi reunir todo esse time?

Reginaldo. Quando chegaram no Studio Real World pra mixar, o Peter Gabriel estava dentro da piscina de terno com guarda chuva e a imprensa em volta. Marcus Vianna apareceu por lá também. Depois deste disco o João Guimarães e Guilherme se desentenderam e a banda acabou justamente após este investimento. Nesta época eu comecei a tocar com Flávio Venturini. Uma das maiores influências de guitarra pra mim foram de Cláudio Venturini depois Jimmy Page e Ritchie Blackmore. Aí Van Halen apareceu.

2112. Tchad Blake e Bob Ludwig apenas fizeram o trabalho de casa ou deram pitacos na produção e nos arranjos? Como funcionou a parceria?

Reginaldo. Eu não estava presente mas o Chico Neves e João sim. Não deram pitaco por que foi gravado aqui no JG e lá só mixagem e masterização.

2112. O álbum contou ainda com as parcerias de Chico Amaral (Skank), Affonsinho (ex-Hanói-Hanói), Paulo Leminski e Délcio Vieira Salomon entre outros da cena mineira. Como surgiu essas parcerias? 

Reginaldo. Chico Amaral que me chamou pra tocar com Marina Machado sempre fizemos músicas juntos por estarmos presente na cena de BH inclusive dei aula de guitarra pro filho dele. Somos amigos! Affonsinho era da turma do João Guimarães e Gustavo Duarte e me passou as letras. Paulo Leminski, eu sempre li o livro “Venceremos dista´dos”Distra´dos Vencerems” a Alce Ruiz autorizou já que Leminski já não estava entre nós. Délcio Vieira era pai de Tânia Salomón que é mãe de minhas sobrinhas. Praticamente da minha família. Almoçávamos juntos no domingo.

 

Machado de Guerra

Crianças perdidas em tentação
Vícios, alienação
O tempo vai e você não vê
O que irá acontecer

Uma grande mutação
Uma nova revolução

Bem aqui agora, nossa geração
Última esperança, desejo do mundo
Machado de guerra em nossas mãos

Oh...

Uma nova mutação
Uma grande revolução

Ah...

Crianças perdidas em tentação
Vícios, alienação
O tempo vai e você não vê
O que irá acontecer

Hey, ho...

 Obs.: As fotos utilizadas nessa postagem foram todas retiradas do facebook do Reginaldo. Mas deixo meu endereço para que os autores das fotos se manifestem pelo meu e-mail furia2112@gmail.com que darei os devidos créditos.  

domingo, 3 de dezembro de 2023

Entrevista Júnior Muzilli (Salário Mínimo)

 

2112. Treze anos é o tempo que separa Simplesmente Rock do novo álbum que a banda está gravando. Porque esse espaço de tempo tão longo?

Júnior. Eu voltei à banda em maio de 2009. Após lançar o Simplesmente Rock fizemos muitas apresentações calcadas no novo álbum, Em 2012 comecei a escrever algumas idéias para o próximo trabalho. Apresentei ao grupo e começamos a lapidar a parte melódica. Achávamos que daria para lançar por volta de 2015 ou 16. Nesse meio tempo, trocamos o baterista, saiu o Marcelo Koruja e entrou o Marcelo Campos e apareceram oportunidades de gravar singles: Fatos Reais/ Transas da Noite/ Vale o que tem/ Tempo. Em 2020 tivemos a saída do China, daí veio a pandemia para complicar. Tivemos que reformular o time, além do que para uma banda com longa estrada não é fácil juntar 5 cabeças para uma empreitada dessas. O nível de exigência sempre é muito alto internamente e de cada 10 esboços, as vezes só se aprova uns 2 ou 3. É muito trabalho e em algum momento nem todos estavam com o mesmo objetivo.

2112. ... vocês chegaram a compor material para um terceiro álbum?

Júnior. Na verdade, esse próximo trabalho será nosso terceiro. Por ordem cronológica: Tirando a coletânea SP Metal I (1984), Beijo Fatal (1987) Simplesmente Rock (2010) e agora o novo. Temos bastante material composto conforme falei, desde 2012 e boa parte escrita durante o período de pandemia. Esperamos que seja do agrado de nossa legião de fãs.

2112. Em 2020 China deixa a banda e você retorna após uma breve saída em 1990 e nós fãs ficamos apreensivos sobre o futuro da banda. Em algum momento vocês pensaram em encerrar carreira?

Júnior. Nunca sequer cogitamos essa possibilidade como banda, pelo menos até o momento rsrs. Claro que um dia isso irá ocorrer, afinal todos envelhecemos. O que possivelmente houve é algum membro ter esse pensamento individual de encerrar a própria carreira ou se dedicar a outros projetos.

2112. Ano que vem o SP Metal I completa 40 anos... quais lembranças você tem das gravações?

Júnior. A gente era uma banda de tocar ao vivo, jamais imaginamos gravar um disco. Quando surgiu o convite do Luiz Calanca (Baratos Afins), ficamos muito felizes mas também apreensivos, afinal nunca havíamos pisado num estúdio. Tudo era mágico, até o cheiro do lugar. Pedi uma Gibson Les Paul emprestada e fomos de cabeça num campo totalmente desconhecido. Gravamos a guitarra distorcida ligada em linha, por isso que o som parece um monte de abelhas rsrs. As dificuldades foram superadas pela vontade de registrar 2 das músicas que mais agitavam nos shows.

2112. A coletânea foi um sucesso de vendas alavancando a agenda de shows da banda por todo o país. Por que o Beijo Fatal levou três longos anos para ser lançado?

Júnior. Quando gravamos a coletânea éramos um quarteto (eu na guitarra, China nos vocais, Magoo no baixo e Beá na bateria). Em 1986 tivemos a saída do Beá e do Magoo substituídos pelo Nardis (bateria) e Oswaldo Thomas (baixo). Daí adicionamos mais uma guitarra (Arthur Crom) o que deixou a massa sonora muito mais pesada. Assim, escrevi as músicas pensando em guitarras "gêmeas" e foi muito fácil a integração dos novos parceiros que ajudaram muito com os arranjos. Daí em 87 já tínhamos pronta a nova "bolacha"

2112. A versão em cd trouxe cinco faixas bônus todas compostas por Micka Mickaelis, do Santuário/Extravaganza. Essas gravações são sobras de estúdio ou foram gravadas especialmente para esse lançamento?

Júnior. Eu estava fora da banda nesse período. Aliás ninguém dessa formação atual participou desse projeto.

2112. A banda sempre foi extremamente popular com shows lotados e fãs super fiéis. Nunca houve projetos de lançar um "ao vivo", não?

Júnior. O que temos "ao vivo" é o show no "Brasil Heavy Metal" Um dos maiores festivais com bandas brazucas. A vontade de fazer um "ao vivo" exclusivo sempre existiu, afinal a energia do público em nossos shows sempre foi um diferencial admirável. Infelizmente nunca conseguimos uma captação adequada capaz de gerar um álbum ao vivo. O que existe por aí é muito fã que filma de celular mesmo e coloca na internet. Temos planos, após o novo álbum de trabalhar essa questão sim, para mostrar a energia que rola nos nossos shows.

2112. ... mas existe gravações de qualidade dessa época arquivada?

Júnior. Infelizmente, muita coisa foi perdida.

2112. Beijo Fatal e Simplesmente Rock são clássicos absolutos do metal brazuca. Alguma novidade além do hard metal tradicional da banda?

Júnior. Esse próximo álbum vem muito pesado, com muita energia, mas sempre com o DNA que acompanha a banda nesses longos 43 anos. Vem muito metal clássico, Hard-Heavy e quem sabe uma balada. Vamos ter surpresas! Ah e sempre cantado em português.

2112. Quem integra a banda atualmente? Você é o único membro da formação original?

Júnior. Sim eu sou o único membro original, mas da formação "clássica" da banda mas temos o Marcelo Campos (bateria) e Daniel Beretta (guitarras). Apresentaremos nosso novo vocal numa estratégia de marketing que envolve parceiros, patrocinadores muito em breve. Estamos pensando em lançar uma das músicas até fevereiro.

2112. As composições do novo álbum são todas inéditas ou tem material não aproveitado do último álbum gravado por vocês?

Júnior. Estamos trabalhando em 8 músicas totalmente inéditas, um clássico da década de 80 nunca antes gravado e uma surpresa.


2112. O que você poderia nos adiantar das gravações? Falta muito para finalizar o trabalho?

Júnior. 4 músicas já gravamos as baterias então penso que as outras 6 baterias finalizamos até final do ano. Daí é colocar as guitarras base, depois gravamos os solos até mais ou menos fevereiro. O baixo e as vozes estão previstos para meados de março. Aí vem a parte mais demorada: edição, mixagem e masterização, assim esperamos o lançamento por volta de Junho 2024.


2112. Quem está produzindo?

Júnior. Estamos sendo produzidos pelo Rodrigo Oliveira (Korzus) e a gravação nos estúdios Dharma


2112. O trabalho já tem título definido?

Júnior. Com certeza será o nome de uma das músicas, mas ainda não definimos. 


2112. O álbum a início será lançado apenas nas plataformas digitais ou saíra também em formato físico?

Júnior. Certamente nas plataformas digitais, com uma capinha legal e tudo. Quanto ao material físico estamos em negociação com algumas empresas interessadas na prensagem e distribuição,

2112. Qual o telefone/e-mail para contratar os shows da banda?

Júnior. Nosso site: bandasalariominimo.com.br e nas mídias sociais: www.youtube.com/user/Bsalariominimo/ www.instagram.com/salariominimo/ www.facebook.com/bandasalariominimo. Telefone para contato de Shows (11) 99976 20 11

2112. Obrigado pela entrevista... o microfone é seu!

Júnior. Eu que agradeço a oportunidade do Blog 2112, e também aos nossos fãs que, assim como nós, estamos ansiosos por esse novo material, além do que sentimos muita saudade dos shows ao vivo, afinal acreditamos que é no palco onde reside nossa maior força. Esperamos que nossa legião de fãs receba nosso novo vocalista de braços abertos, assim como todo novo line-up, afinal o show tem que continuar. Forte abraço!

Obs.: Todas as fotos foram retiradas do Facebook do entrevistado.  

domingo, 12 de novembro de 2023

Entrevista 40 Anos SP Metal: Nico Bloise & Zé "Heavy" Luiz (Final)

Na primeira parte conversei com Calanca, o idealizador Projeto SP Metal, na segunda com integrantes das bandas e agora para finalizar é a vez da parte técnica com Nico Bloise e Zé "Heavy" Luiz.

2112. SP Metal I está prestes a completar quarenta anos de lançado. Qual a visão de vocês do álbum após todos esses anos?

Nico. Humildemente somos ícones do Metal em São Paulo. Gravamos todos os dois discos e outros como Golpe de Estado, Patrulha do Espaço, Chave do Sol, Harppia, Centúrias etc. O SP Metal é a porta de entrada das bandas com estilos e sons diferenciados de garotos com maior tesão em gravar suas primeiras faixas, ouço com maior orgulho.

Zé. Foi uma grande porta de entrada para a música pesada. Existia uma certa repulsa do mercado quanto aos ditos “barulhentos" e o SP Metal mostrou que havia muito mais atrás dessa máscara.

2112. Apesar do Stress e do Karisma serem os pioneiros com seus álbuns... a meu ver foi os dois volumes do SP Metal quem escancarou as portas para toda uma geração de headbangers, não é?

Nico. Sim como acabei de falar várias outras bandas tiveram oportunidade depois desse grande evento.

Zé. Stress e Karisma tem meu respeito, mas naquela época e num país de dimensões continentais, o núcleo artístico ficava entre Rio e São Paulo literalmente. A cena metal paulista começava a ficar mais forte. Claro que haviam grandes bandas fora deste circuito. Sepultura é um bom exemplo.

2112. ... de repente havia bandas, estúdios, shows, bares, festivais, zines, revistas, lojas de discos, roupas e instrumentos para tudo quanto era lado. Foi um momento de grande efervescência, não?

Nico. Imaginem esses garotos que tocavam em suas garagens e ensaios terem a oportunidade de gravar em um estúdio de grande porte como era o estúdio Vice Versa e serem lançados pela selo Baratos Afins com toda a estrutura que o Luiz Calanca lhes dava.

Zé. Acompanhar o crescimento da cena, ver as bandas tocando juntas e se ajudando foi muito bacana. Lembrando que ainda não havia acontecido o Rock in Rio.

2112. Não esquecendo que o interesse dos gringos pelos dois álbuns garantiu grande credibilidade ao projeto. Isso surpreendeu vocês?

Nico. Modéstia à parte o Luiz Calanca já era o cara que sabia mexer e com seu conhecimento entre pessoas de divilgação fez o melhor trabalho nessas etapa.

2112. Nico, o que o Calanca conversou com você sobre o projeto SP Metal?

Nico. O Luiz Calanca sempre foi muito exigente como produtor por isso está mas eu, ele e o Zé fizemos o melhor trabalho de equipe que já vi, um monstro.

2112. ... quais são as suas memórias das gravações?

Nico. Cara os garotos, suas ansiedades, suas ideias e seus tesões em estar gravando num estúdio sem nunca ter entrado em um, chegavam com seus instrumentos e nos ouviam com a maior atenção e eu só queria mais era ser o quinto integrante da banda, dando dicas e procurando aquilo de melhor em cada um deles, era um estado de êxtase.

2112. A cabine de gravação deveria ser a maior festa, não? ... quais são as memórias das gravações que mais te marcou?

Nico. As passagens de som, você ria muito com tanta besteira que se falava e as amizades que construímos durante essas gravações.

2112. Zé, derrepente você é transportado do seu quarto para dentro de um estúdio para auxiliar na gravação de um dos maiores álbuns de heavy metal de todos os tempos. O que isso mudou na sua vida?

Zé. Eu era assistente de estúdio e sempre que eu podia, colocava um disco pra me fazer companhia durante as montagens e períodos de limpeza do estúdio. Éramos uma grande equipe. Dar suporte ao Nico e às bandas, ver o sonho deles se realizando... foi mágico!!

2112. O que isso serviu de aprendizado para você?

Zé. Como assistente, eu assimilava informações sobre como gravar, que microfone usar e de que maneira e aplicava em gravações de discos independentes. Foi a nossa escola. Havia pouca informação e acabávamos aprendendo com os mais velhos. Existia a maneira acadêmica de se fazer e também a da Tentativa e erro, onde eu procurava novas sonoridades e adaptava algumas técnicas de gravação ao meu modo

2112. ... corredor cheio de músicos entusiasmados, pouco tempo para gravar, arrumação e afinação de instrumentos, o entra e sai de bandas no estúdio etc. Como foi colocar ordem no recinto? A adrenalina chegou a 100%?

Nico. Tentamos fazer dos momentos o mínimo de estresse, o Luiz Calanca deixava-nos muito à vontade pois sabia que eram garotos com a adrenalina lá em cima querendo gravar seu primeiro disco impecável.

2112. Além do entusiasmo os músicos deveriam estar bastantes anciosos e nervosos. Era como perder a virgindade, não é?

Nico. Olha alguns sim mas outros muito seguros do que estavam fazendo.

2112. Com o tempo cronometrado como foi gravar/mixar num espaço de tempo tão curto? Quais foram os maiores desafios técnicos enfrentados durante as gravações?

Nico. Bom primeiro que era uma máquina MCI de oito Canais tínhamos as vezes que gravar as bases reduzir para poder gravar solos e vozes fora prestar atenção em afinação e qualidade das tomadas de som, com o tempo íamos administrando com o Luiz Calanca ao lado e o seu ok.

2112. Com apenas dois dias para gravar e mixar todo o material vocês com certeza trabalharam duro para fechar o trabalho. Ao ouvir as fitas com o material pronto o que acharam do resultado final?

Nico. Simplesmente trabalhamos e fizemos o melhor que daria nesse tempo. O resultado para mim e acho que para as bandas dentro do possível foi satisfatório e com o Luiz Calanca finalizando.

2112. E qual foi a reação do Calanca e das bandas?

Nico. Nós curtimos muito e aprendemos muito uns com os outros era muito satisfatório ver as audições e as caras do músicos e do Calanca.

2112. Se no primeiro você auxiliou, no segundo pilotou a mesa de gravação. Porque Nico Bloise não produziu o segundo álbum? O que aconteceu entre a gravação de um álbum para o outro?

Zé. Tá aí uma pergunta que não quer calar... Foi por opção do Calanca. Talvez ele tenha visto algo diferente neste moleque atrevido. Pra mim foi uma honra e uma ótima oportunidade de colocar em prática tudo que eu assimilei dos meus mestres.

2112. Quem te auxiliou nas gravações?

Zé. No SP Metal 2 eu trabalhei quase que sozinho... o estúdio tinha uma demanda muito alta de projetos de jingles e trilhas para comerciais que tomava o tempo dos técnicos. Lembrando que eu era assistente de estúdio durante o dia e gravava nas noites. Era insano!!!

2112. Na sua opinião... que erros cometidos na gravação do primeiro álbum serviu de experiência no segundo?

Zé. Não vejo erros, mas inexperiência seguida de uma vontade louca de fazer acontecer. Não tínhamos a tecnologia, o processo de gravar em 8 canais é complicado por que se grava quase tudo ao vivo. A mixagem do SP 2 eu fiz no estúdio de 16 canais, na calada da noite e sem contar pra ninguém, pra não gerar custo.

2112. Calanca mencionou um fato bem interessante: "... apagamos por descuido o finalzinho da gravação do Santuário e gastamos um tempo enorme para colar um ruído de arena de um show do Kiss para mascarar a falha, mas acabou ficando bom." O que você lembra desse episódio?

Zé. Eu me lembro dessa situação de outra maneira (memória curta). Eu sempre penso nisso como o povo ovacionando o rei Spartacus. Funcionou!!

2112. ...outra lembrança foi sobre o guitarrista do Centúrias que já fora da banda não queria abrir mão de registrar a sua participação. Como foi resolvida a questão?

Zé. ... disso eu realmente não me lembro!

2112. Que lembranças ou histórias pitorescas você guarda das sessões de gravações dos dois álbuns? ... devia ser a maior farra, não?

Zé. Era um mundo novo, o clima era leve mesmo com o tempo corrido. Fiz grandes amigos que mantenho até hoje. Ainda faço parte da equipe do Korzus e mixei o álbum duplo do Santuário.

2112. Ouvindo os álbuns hoje o que você manteria, o que mudaria ou deixaria tudo como está para preservar a magia da época?

Zé. Fizemos o melhor que poderíamos fazer. Hoje em dia tudo mudou, ficou mais fácil gravar. Naquela época a gente fazia piada de um futuro estúdio que coubesse na palma da mão. Virou realidade. É parte da história e sinto orgulho do resultado.

2112. China mencionou que muitos preferem a gravação original de Delírio Estelar a regravação incluída no segundo álbum da banda: "Aliás Delírio nós regravamos no Simplesmente Rock com dois bumbos, guitarras mais pesadas (...). Só que você acredita que mesmo com toda a estrutura existe pessoas que gostam daquela forma como foi concebido no SP Metal (...)." Ambos os álbuns se tornaram atemporais, verdadeiros ícones do estilo. O interessante é que mesmo após todos esses anos eles não perderam o seu poder de fogo, não é?

Zé. A arte tem dessas coisas: uma vez lançada, se eterniza.

2112. ... uma pena que o projeto não seguiu adiante com outros volume. Seria bem interessante, não?

Zé. O projeto evoluiu para os EPs em 45RPM. Atualmente Eu acho que a mágica acontece bem debaixo dos nossos narizes com a facilidade de conhecer bandas novas nas plataformas de streaming.

2112. Você além de produtor, também é músico... como você divide o seu tempo?

Zé. Eu continuo mixando alguns trabalhos escolhidos a dedo e eu deixei os grandes estúdios para viver na estrada mixando shows. Já fui baterista... aposentei faz algum tempo.

2112. Muito obrigado pela entrevista... o microfone é de vocês!

Nico. Quarenta anos se passaram e com muito orgulho temos esses registros, agradeço a Baratos Afins por me dar a oportunidade de ter gravado esses e vários disco por eles, deixo aqui meu profundo respeito ao Luiz Calanca e ao José Heavy Luiz o maior engenheiro de rock do Brasil e se quer do mundo. Deixo aqui minhas homenagens. Obrigado!

Zé. Tanto tempo passou e a chama ainda está acesa. Viva o Metal Nacional e todos que fazem parte desta história. Obrigado pelo espaço. Nos vemos pela estrada.