O blog 2112 foi formado com intenção de divulgar as bandas clássicas de rock, prog, hard, jazz, punk, pop, heavy, reggae, eletrônico, country, folk, funk, blues, alternativo, ou seja o rock verdadeiro que embalou e ainda embala toda uma geração de aficcionados. Vários sons... uma só tribo!



domingo, 12 de novembro de 2023

Entrevista 40 Anos SP Metal: Nico Bloise & Zé "Heavy" Luiz (Final)

Na primeira parte conversei com Calanca, o idealizador Projeto SP Metal, na segunda com integrantes das bandas e agora para finalizar é a vez da parte técnica com Nico Bloise e Zé "Heavy" Luiz.

2112. SP Metal I está prestes a completar quarenta anos de lançado. Qual a visão de vocês do álbum após todos esses anos?

Nico. Humildemente somos ícones do Metal em São Paulo. Gravamos todos os dois discos e outros como Golpe de Estado, Patrulha do Espaço, Chave do Sol, Harppia, Centúrias etc. O SP Metal é a porta de entrada das bandas com estilos e sons diferenciados de garotos com maior tesão em gravar suas primeiras faixas, ouço com maior orgulho.

Zé. Foi uma grande porta de entrada para a música pesada. Existia uma certa repulsa do mercado quanto aos ditos “barulhentos" e o SP Metal mostrou que havia muito mais atrás dessa máscara.

2112. Apesar do Stress e do Karisma serem os pioneiros com seus álbuns... a meu ver foi os dois volumes do SP Metal quem escancarou as portas para toda uma geração de headbangers, não é?

Nico. Sim como acabei de falar várias outras bandas tiveram oportunidade depois desse grande evento.

Zé. Stress e Karisma tem meu respeito, mas naquela época e num país de dimensões continentais, o núcleo artístico ficava entre Rio e São Paulo literalmente. A cena metal paulista começava a ficar mais forte. Claro que haviam grandes bandas fora deste circuito. Sepultura é um bom exemplo.

2112. ... de repente havia bandas, estúdios, shows, bares, festivais, zines, revistas, lojas de discos, roupas e instrumentos para tudo quanto era lado. Foi um momento de grande efervescência, não?

Nico. Imaginem esses garotos que tocavam em suas garagens e ensaios terem a oportunidade de gravar em um estúdio de grande porte como era o estúdio Vice Versa e serem lançados pela selo Baratos Afins com toda a estrutura que o Luiz Calanca lhes dava.

Zé. Acompanhar o crescimento da cena, ver as bandas tocando juntas e se ajudando foi muito bacana. Lembrando que ainda não havia acontecido o Rock in Rio.

2112. Não esquecendo que o interesse dos gringos pelos dois álbuns garantiu grande credibilidade ao projeto. Isso surpreendeu vocês?

Nico. Modéstia à parte o Luiz Calanca já era o cara que sabia mexer e com seu conhecimento entre pessoas de divilgação fez o melhor trabalho nessas etapa.

2112. Nico, o que o Calanca conversou com você sobre o projeto SP Metal?

Nico. O Luiz Calanca sempre foi muito exigente como produtor por isso está mas eu, ele e o Zé fizemos o melhor trabalho de equipe que já vi, um monstro.

2112. ... quais são as suas memórias das gravações?

Nico. Cara os garotos, suas ansiedades, suas ideias e seus tesões em estar gravando num estúdio sem nunca ter entrado em um, chegavam com seus instrumentos e nos ouviam com a maior atenção e eu só queria mais era ser o quinto integrante da banda, dando dicas e procurando aquilo de melhor em cada um deles, era um estado de êxtase.

2112. A cabine de gravação deveria ser a maior festa, não? ... quais são as memórias das gravações que mais te marcou?

Nico. As passagens de som, você ria muito com tanta besteira que se falava e as amizades que construímos durante essas gravações.

2112. Zé, derrepente você é transportado do seu quarto para dentro de um estúdio para auxiliar na gravação de um dos maiores álbuns de heavy metal de todos os tempos. O que isso mudou na sua vida?

Zé. Eu era assistente de estúdio e sempre que eu podia, colocava um disco pra me fazer companhia durante as montagens e períodos de limpeza do estúdio. Éramos uma grande equipe. Dar suporte ao Nico e às bandas, ver o sonho deles se realizando... foi mágico!!

2112. O que isso serviu de aprendizado para você?

Zé. Como assistente, eu assimilava informações sobre como gravar, que microfone usar e de que maneira e aplicava em gravações de discos independentes. Foi a nossa escola. Havia pouca informação e acabávamos aprendendo com os mais velhos. Existia a maneira acadêmica de se fazer e também a da Tentativa e erro, onde eu procurava novas sonoridades e adaptava algumas técnicas de gravação ao meu modo

2112. ... corredor cheio de músicos entusiasmados, pouco tempo para gravar, arrumação e afinação de instrumentos, o entra e sai de bandas no estúdio etc. Como foi colocar ordem no recinto? A adrenalina chegou a 100%?

Nico. Tentamos fazer dos momentos o mínimo de estresse, o Luiz Calanca deixava-nos muito à vontade pois sabia que eram garotos com a adrenalina lá em cima querendo gravar seu primeiro disco impecável.

2112. Além do entusiasmo os músicos deveriam estar bastantes anciosos e nervosos. Era como perder a virgindade, não é?

Nico. Olha alguns sim mas outros muito seguros do que estavam fazendo.

2112. Com o tempo cronometrado como foi gravar/mixar num espaço de tempo tão curto? Quais foram os maiores desafios técnicos enfrentados durante as gravações?

Nico. Bom primeiro que era uma máquina MCI de oito Canais tínhamos as vezes que gravar as bases reduzir para poder gravar solos e vozes fora prestar atenção em afinação e qualidade das tomadas de som, com o tempo íamos administrando com o Luiz Calanca ao lado e o seu ok.

2112. Com apenas dois dias para gravar e mixar todo o material vocês com certeza trabalharam duro para fechar o trabalho. Ao ouvir as fitas com o material pronto o que acharam do resultado final?

Nico. Simplesmente trabalhamos e fizemos o melhor que daria nesse tempo. O resultado para mim e acho que para as bandas dentro do possível foi satisfatório e com o Luiz Calanca finalizando.

2112. E qual foi a reação do Calanca e das bandas?

Nico. Nós curtimos muito e aprendemos muito uns com os outros era muito satisfatório ver as audições e as caras do músicos e do Calanca.

2112. Se no primeiro você auxiliou, no segundo pilotou a mesa de gravação. Porque Nico Bloise não produziu o segundo álbum? O que aconteceu entre a gravação de um álbum para o outro?

Zé. Tá aí uma pergunta que não quer calar... Foi por opção do Calanca. Talvez ele tenha visto algo diferente neste moleque atrevido. Pra mim foi uma honra e uma ótima oportunidade de colocar em prática tudo que eu assimilei dos meus mestres.

2112. Quem te auxiliou nas gravações?

Zé. No SP Metal 2 eu trabalhei quase que sozinho... o estúdio tinha uma demanda muito alta de projetos de jingles e trilhas para comerciais que tomava o tempo dos técnicos. Lembrando que eu era assistente de estúdio durante o dia e gravava nas noites. Era insano!!!

2112. Na sua opinião... que erros cometidos na gravação do primeiro álbum serviu de experiência no segundo?

Zé. Não vejo erros, mas inexperiência seguida de uma vontade louca de fazer acontecer. Não tínhamos a tecnologia, o processo de gravar em 8 canais é complicado por que se grava quase tudo ao vivo. A mixagem do SP 2 eu fiz no estúdio de 16 canais, na calada da noite e sem contar pra ninguém, pra não gerar custo.

2112. Calanca mencionou um fato bem interessante: "... apagamos por descuido o finalzinho da gravação do Santuário e gastamos um tempo enorme para colar um ruído de arena de um show do Kiss para mascarar a falha, mas acabou ficando bom." O que você lembra desse episódio?

Zé. Eu me lembro dessa situação de outra maneira (memória curta). Eu sempre penso nisso como o povo ovacionando o rei Spartacus. Funcionou!!

2112. ...outra lembrança foi sobre o guitarrista do Centúrias que já fora da banda não queria abrir mão de registrar a sua participação. Como foi resolvida a questão?

Zé. ... disso eu realmente não me lembro!

2112. Que lembranças ou histórias pitorescas você guarda das sessões de gravações dos dois álbuns? ... devia ser a maior farra, não?

Zé. Era um mundo novo, o clima era leve mesmo com o tempo corrido. Fiz grandes amigos que mantenho até hoje. Ainda faço parte da equipe do Korzus e mixei o álbum duplo do Santuário.

2112. Ouvindo os álbuns hoje o que você manteria, o que mudaria ou deixaria tudo como está para preservar a magia da época?

Zé. Fizemos o melhor que poderíamos fazer. Hoje em dia tudo mudou, ficou mais fácil gravar. Naquela época a gente fazia piada de um futuro estúdio que coubesse na palma da mão. Virou realidade. É parte da história e sinto orgulho do resultado.

2112. China mencionou que muitos preferem a gravação original de Delírio Estelar a regravação incluída no segundo álbum da banda: "Aliás Delírio nós regravamos no Simplesmente Rock com dois bumbos, guitarras mais pesadas (...). Só que você acredita que mesmo com toda a estrutura existe pessoas que gostam daquela forma como foi concebido no SP Metal (...)." Ambos os álbuns se tornaram atemporais, verdadeiros ícones do estilo. O interessante é que mesmo após todos esses anos eles não perderam o seu poder de fogo, não é?

Zé. A arte tem dessas coisas: uma vez lançada, se eterniza.

2112. ... uma pena que o projeto não seguiu adiante com outros volume. Seria bem interessante, não?

Zé. O projeto evoluiu para os EPs em 45RPM. Atualmente Eu acho que a mágica acontece bem debaixo dos nossos narizes com a facilidade de conhecer bandas novas nas plataformas de streaming.

2112. Você além de produtor, também é músico... como você divide o seu tempo?

Zé. Eu continuo mixando alguns trabalhos escolhidos a dedo e eu deixei os grandes estúdios para viver na estrada mixando shows. Já fui baterista... aposentei faz algum tempo.

2112. Muito obrigado pela entrevista... o microfone é de vocês!

Nico. Quarenta anos se passaram e com muito orgulho temos esses registros, agradeço a Baratos Afins por me dar a oportunidade de ter gravado esses e vários disco por eles, deixo aqui meu profundo respeito ao Luiz Calanca e ao José Heavy Luiz o maior engenheiro de rock do Brasil e se quer do mundo. Deixo aqui minhas homenagens. Obrigado!

Zé. Tanto tempo passou e a chama ainda está acesa. Viva o Metal Nacional e todos que fazem parte desta história. Obrigado pelo espaço. Nos vemos pela estrada.

terça-feira, 31 de outubro de 2023

Entrevista Marcos Cordeiro

2112. Há trinta anos você está "live on the road" com passagem por diversas bandas. Como você resumiria esse tempo de aprendizado na sua vida?

Marcos. Eu diria que foi um período muito gratificante, o sonho de ser músico, tocar guitarra e fazer parte de bandas é uma das melhores experiências que se pode ter, apesar das dificuldades em se fazer música no Brasil. Toquei em grupos de blues, rock, rockabilly, bandas covers e trabalhos autorais, eu diria que nas bandas covers eu aprendi, me diverti, e nos trabalhos autorais eu me desenvolvi, criar é realmente a experiência mais prazerosa. 

2112. ... o interessante é que ao tocar em diferentes segmentos musicais você amplia seus horizontes como músico, não é?

Marcos. Sim, sem dúvida, cada novo trabalho é um desafio e um aprendizado. Eu trabalhei com vários amigos compositores, caras da minha geração como meu amigo Fabio Ribeiro. Eu gosto dos trabalhos autorais porque você tem liberdade de criar, é como uma página em branco esperando pra ser preenchida. Gostava muito de fazer arranjos de guitarra e solos para essas novas composições, e esses amigos sempre reconheceram meu trabalho por isso.

2112. Eu tenho o blues como referência... mas adoro explorar sonoridades étnicas além do jazz, soul, hard, psicodelismo, prog, música experimental etc. E você?

Marcos. Acho que também sou assim, gosto de ouvir música em geral, música boa, como quando você vai ao cinema e é surpreendido com uma música linda, de alguém que você nunca ouviu falar. Agora minhas influências como músico já não são tão abrangentes, rock anos 60 e 70 principalmente, blues, rockabilly e um pouco de jazz, gosto também da turma mineira, do pessoal do Clube Da Esquina.  Minha formação como guitarrista vem por esse caminho.

2112. ... dos grupos que participou existe registros disponíveis nas plataformas digitais?

Marcos. Há um trabalho antigo, do final da década de 90 do grupo Aerosilva. Participamos de muitos programas de TV nessa época, tivemos contato com gente da mídia, porém o grupo acabou não atingindo o grande público. No Aerosilva fiz parte do segundo álbum da banda. Esse trabalho foi produzido por Mauricio Nunes e Alexandre Fontanetti. Agora recentemente foi lançado o EP do amigo Duck Strada, participo na guitarra em duas faixas. Entre esses trabalhos houveram outras gravações porém nada disso está disponível na rede.

2112. Nessas idas e vindas entre uma banda e outra como surgiu a idealização do álbum "De Minas A Bangkok"? Você já tinha esse material pronto?

Marcos. Aconteceu de uma forma bem curiosa, a princípio não planejada.

Ao longo do tempo eu sempre colecionei algumas composições, normalmente temas instrumentais, de vez em quando surgiam essas ideias, eu desenvolvia e deixava guardado, não ligava muito pra essas músicas.  Um dia ao encontrar um amigo, Edson Machado, ele me disse que estava há pouco tempo com um equipamento de gravação em seu apartamento, e me convidou pra fazer uns testes, umas experiências, ele me disse que queria aprender a gravar. Marcamos um dia e apareci por lá, sem expectativas. Nessa primeira sessão gravei uma música que tinha composto há pouco tempo, chamada Cry Baby, fiz duas guitarras base, alguns arranjos e um tema solo seguido de um improviso. Foi rápido mas fiz tudo direitinho, como se faz uma gravação oficial pra um disco. Ao ouvir a faixa ficamos impressionados com o resultado, mesmo sem baixo e batera a música parecia pronta, talvez porque fiz várias camadas de guitarra, parecia que não precisava de mais nada, nesse momento pensei: “uau, a música é boa!” Daí marcamos uma segunda sessão, empolgado com a experiência de ouvir minha música gravada compus um segundo tema no período entre o primeiro e o segundo encontro. Fizemos esse novo tema na segunda gravação, novamente fiz todas as camadas de guitarra, caprichei nos timbres, e ao ouvir o resultado no fim da sessão quase cai de costas, essa segunda música tinha ficado ainda melhor que a primeira, foi aí que eu vi que realmente eu compunha coisas interessantes, eu precisei ouvir gravado para ter essa percepção... Daí resolvemos gravar esse álbum, produzimos juntos, e as músicas das duas primeiras sessões de gravação estão no disco, uma delas é o tema de abertura, chama-se “A Dança dos Pássaros”.

2112. As composições são todas suas ou você divide parceria com amigos ou membros da banda?

Marcos. As músicas são minhas, exceto a faixa “A Bicicleta e o Catavento”, que compus junto a cantora Marcela Maia.

2112. Você poderia falar um pouco sobre as gravações do De Minas A Bangkok?

Marcos.
A primeira parte da gravação do disco foi toda no apartamento do Edson, ele tem vizinhos muito pacientes, tivemos tardes de trabalho muito agradáveis e divertidas, sou muito grato ao Edson por isso. Gravamos assim todas as guitarras, baixos também. Na segunda etapa do projeto fui para bons estúdios para fazer a bateria e mixar, acabei refazendo algumas guitarras também, sou muito perfeccionista, como bom virginiano.

2112.. ...além de você, do Nilson e do Felipe houve a participação de outros músicos em estúdio?

Marcos. Primeiramente eu preciso agradecer a participação de Nilson Santos na bateria e Felipe Goulart no baixo, são músicos incríveis, sem eles dificilmente esse álbum teria a mesma consistência.  Fora isso contei com a participação de Cassiano Nogara no baixo, na faixa “Guitarras Tropicais.”

2112. Gosto muito do formato trio o que me lembrou de bandas lendárias como o Cream, Emerson, Lake & Palmer, Beck, Borgert & Appice, Motörhead, Triunvirat, ZZ Top, Rush etc. Mas você já pensou em incluir um tecladista na formação?

Marcos. Sim. Tenho essa ideia faz algum tempo, de contar com um tecladista, acho que ao vivo completaria bem a sonoridade que almejo. Agora o trio é legal né, além de simplificar a logística, ensaios e tudo mais, no trio todos tem que ser intensos o tempo todo, se entregar por completo, talvez por isso que esses trios que você citou se destacaram tanto, fora o “Experience”, do Hendrix, que transcendeu tudo que já havia sido feito na época, pra mim ele é o maior de todos.

2112. Vocês ainda estão em processo de divulgação do álbum ou já estão trabalhando material novo?

Marcos. O trabalho de divulgação do álbum ainda está muito no início, embora no show entram composições novas que provavelmente entrarão no segundo álbum, ainda não pensamos em gravar de novo.

2112. Nos shows vocês incluem apenas material autoral?

Marcos. Sim, só material autoral, embora tenho pensado em incluir uma música de Jeff Beck, outro cara totalmente anormal, fora da curva.

2112. Muito interessante vocês usarem elementos da música etérea do Cocteal Twins em "De Minas A Bangkok" Que outras curiosidades o ouvinte pode esperar? 

Marcos.  Eu gosto de ouvir a música e descobrir a que imagens mentais que ela me conduz; estradas, lugares, paisagens, De Minas A Bangkok me remete a essas imagens. A primeira vez que ouvi Cocteau Twins achei incrível aqueles climas viajantes das canções, pra mim aquilo era como uma viagem da alma, como que flutuando, há sensações que são difíceis de descrever.  No entanto não é uma banda que fez parte de minha formação musical, até porque conheci a banda um pouco depois, porém as coisas que você ouve e lhe causam um impacto acabam ficando em você de alguma forma, e isso passa a influenciar o que você faz daí pra frente, mesmo que essa influência não seja perceptível para o público em geral.

2112. ... e como está a aceitação do álbum? Além do formato CD ele também já está disponível nas plataformas?

Marcos. O álbum foi lançado pela distribuidora Cd Baby, ele está nas principais plataformas digitais. Já em relação à repercussão confesso que ainda estamos um pouco carentes de shows para sentir mais a reação do público. Trabalhar com música independente no Brasil é um desafio. 

2112. O mercado da música instrumental apesar de pouco divulgado em comparação a outros segmentos possui um público fiel que sempre consome os lançamentos/relançamentos e na maioria das vezes lota os shows, não é?

Marcos. Há uns tempos atrás a música instrumental em nosso país ficava muito restrita à praia do Jazz e da música brasileira, há grandes instrumentistas nessa área, agora de uns anos pra cá começaram a surgir alguns grupos de rock fazendo música instrumental, como o grupo “Macaco Bong”, por exemplo, acho isso bacana, abre novas possibilidades, o público  de rock, blues e jazz é aberto a esse tipo de som, o problema é você conseguir chegar nos espaços para que esse público te conheça, o som instrumental é algo bem segmentado, o nicho do nicho, para chegar ao público primeiro você tem que chamar a atenção dos produtores culturais, é necessário que os produtores de show olhem um pouco pra fora da sua bolha, abrir oportunidade pra quem ainda não teve muita projeção, sem isso não surge o novo.

2112. ... sem contar os inúmeros festivais espalhados por todo o país. Isso contradiz os que dizem que não existe público para esse segmento musical, não é?

Marcos. Esses festivais acontecem em muitas cidades diferentes, me refiro aos festivais de música independente tá, não mainstream, acho que é muito legal, é importante para a criação de novas cenas musicais e tenho admiração pelas pessoas que tem a iniciativa de criar esses festivais. No entanto reitero a necessidade desses curadores olharem para o lançamento de novos artistas. Há grupos independentes que participam desses festivais que já tem décadas de carreira, e não tem problema, são artisticamente relevantes e importantes para atrair o público, porém não podemos deixar de pensar na renovação, às vezes o cara tem que se arriscar um pouco e trazer um grupo novo, ainda com pouca história.

2112. Exatamente. Mas qual é a sua visão de mercado hoje? O que melhorou e o que piorou nos últimos anos?

Marcos. Mudou totalmente com o avanço da tecnologia. Um lado bom é que a internet democratizou de certa forma, pois todos podem utilizá-la para divulgar seus trabalhos. No entanto aconteceu um fato curioso, quando começamos a curtir som, vou falar por mim, lá na década de 80, conhecíamos as bandas através do rádio, as vezes da tv e nos discos, através de amigos que às vezes te gravavam uma fitinha, ou seja você conhecia primeiro o som, a música, só depois você vinha a conhecer o artista. Hoje em dia é ao contrário... Com a massificação da internet e dos smartphones a imagem se tornou mais importante, a pessoa tem acesso a imagem do artista muitas vezes antes da música.

2112. ... uma coisa que mudou muito é como se ouve música nos dias atuais. Por onde os fãs de material físico?

Marcos. Hoje há mais formas de ouvir música e isso é bom, quanto mais se facilita o acesso a informação melhor. Já quanto aos fãs do material físico, como eu, eles sempre vão existir, hoje em menor quantidade, devido à facilidade de se ouvir música na internet, porém isso não destrói o nicho dos cds e vinis, é só você ir na Galeria do Rock em São Paulo e ver, tá todo mundo lá, porque ter as coisas que você gosta é um grande barato, eu particularmente sou fã do vinil, é o melhor som que há.

2112. Existe projetos para shows no exterior?

Marcos. Já pensei nessa possibilidade, porém estamos no início de um trabalho, ainda temos muito a fazer por aqui, no futuro quem sabe.

2112. Qual e-mail/telefone para contratar vocês e adquirir o cd?

Marcos. marcoscordeiro222@yahoo.com.br, fone : 11986314174 gostaria de passar meu canal do YouTube: @marcoscordeiro9698

2112. Obrigado pela entrevista... o microfone é seu!

Marcos. Eu que agradeço pela oportunidade. Gostaria de parabenizá-lo pelo trabalho que você tem feito divulgando a cena rock nacional e a música independente de forma geral. Vivemos uma época muito complexa no mundo, muitas divisões e conflitos, precisamos cada vez mais da música e da arte de uma forma geral, acho que a arte genuína não está na grande mídia, no mainstream, não nos dias atuais. Quem tem os meios de ação na área cultural e nas mídias independentes tem a oportunidade de agir de forma a facilitar a chegada de gente nova e talentosa, como o que você faz através do blog 2112, muito obrigado!

Obs.: Todas as fotos são do arquivo pessoal do entrevistado.

quarta-feira, 25 de outubro de 2023

Entrevista Gabe O'Meare (O Peso)

2112. Primeiramente, o que te trouxe ao Brasil em plena ditadura militar?

Gabe. Eu estava viajando como músico com vários grupos musicais de apoio incluindo uma estadia de seis meses em Las Vegas com Tom Jones.  Meu último show foi com Wayne Cochran, um cantor de soul branco. Viajamos durante seis meses. Teve vez que nem sabia em que cidade eu estava. Depois de alguns anos decidi que precisava de um período de férias. Meu pai morava no Brasil e então decidi fazer uma visita e ficar por alguns meses. A Gal Costa precisava de um guitarrista porque Pepeu Gomez saiu após o grupo dele Os Novos Baianos lançaram um LP. Fui pego novamente tocando para cantores e de novo na estrada. Tentei fazer jornalismo escrevendo artigos musicais para a revista Rolling Stone. Também tive aulas com Luis Claudio Ramos, um guitarrista incrivelmente talentoso (arranjador do Chico Buarque), que me acolheu como amigo e me orientou na música brasileira. Devo imensamente a ele.

2112. Como foi o seu começo na música?

Gabe. Provavelmente é uma boa ideia começar esta resposta informando que tenho 76 anos, minha influência musical foi principalmente meu pai, que era um ávido fã e músico de Jazz e Blues. Lembro-me de ouvir sua coleção de velhos discos que tinha cantores como Bill Big Bill Broonzy, Robert Johnson, Muddy Waters e Charlie Patton e no lado do jazz Louis Armstrong, Kid Ory e uma série de pianistas como Tampa Red e Jelly Roll Morton. Nos mudamos para a Venezuela no início dos anos 50, onde fui exposto a música latina como La Sonora Matancera com Celia Cruz e os boleros do Trio Los Panchos e Lucho Gatica. Também por volta de 1955 fui exposto a Elvis Presley Bill Haley e seus Cometas, Little Richard e Gene Vincent. Atendia uma escola para americanos e a nova onda do rock and roll estava na moda. Em 1965, me liguei na soul music. Fiquei hipnotizado com os sons vindos de Memphis Tennesse e Muscle Shoals Alabama. Cantores como Wilson Pickett, Otis Redding, Johnnie Taylor, Aretha Franklin, Rufus Thomas entre outros. Mais tarde, também ouvia Yardbirds e Jeff Beck, Eric Clapton, Led Zeppelin, Allman Brothers e Rod Stewart. No início dos anos 70 eu tocava semi-profissionalmente em grupos de bailes e bandas de cover. Fui contratado por um empresário que me colocou entre outros músicos para fazer backing de cantores em Las Vegas, entre eles, o Tom Jones e os Righteous Brothers. Eu não fazia gravação profissional na época, mas com certeza toquei muitas dos Top Forties (as 40 musicas mais tocadas) nos cassinos e em clubes da cidade. Foi uma verdadeira experiência de aprendizado pois conheci todos os tipos de pessoas e músicos num ambiente de trabalho difícil onde tínhamos que aprender musicas que faziam sucesso quase que na hora de tocar.

2112. Que músicos mais o influenciou no seu jeito de tocar?

Gabe. Minhas primeiras influências foram os guitarristas acústicos de country blues, como big Bill Broonzy e Robert Johnson. Mais tarde passei a ouvir Chuck Berry, Scotty Moore que tocou com Elvis Presley, James Burton e Ricky Nelson. Meu pai me ensinou algumas progressões de acordes e ao me tornar músico de estúdio e guitarrista de apoio, fui altamente influenciado por guitarristas como Steve Cropper, Chips Moman, Reggie Young, Jimmy Johnson, Eddie Hinton, Cornell Dupree e outros. Certamente BB King e, eventualmente, Eric Clapton, têm influência na minha maneira de tocar blues.

2112. Já em solo brasileiro você toca com Gal Costa, fica amigo de Tim Maia, fez shows com Zé Ramalho. Em algum momento você pensou em criar uma banda?

Gabe. Toda a experiência brasileira como tocar com a Gal Costa, Tim Maia e outros músicos foi uma surpresa muito grande para mim. Eu nunca planejei ficar no Brasil, nunca pensei em montar uma banda porque nunca tinha feito isso nos Estados Unidos. Sempre toquei em bandas, mas nunca montei uma. Na verdade, eu acho que no colégio eu tinha um grupo de muito sucesso chamado TC And The Boys que tocavam uma mistura do som inglês dos Beatles e um pouco de pop americano.

2112. E como você conheceu o Luiz Carlos? O Peso já existia como banda?

Gabe. A banda O Peso não existia, era uma dupla formada por Luis Carlos Porto e um pianista chamado “Gordo”. Eles fizeram uma apresentação no Festival FIC com uma musica chamada O Pente. As referencias a droga era o tema principal da música.  Mas a letra foi tão bem escrita que a censura não pegou. Nessa época a Polygram se interessou muito pelo Luis Carlos Porto. O Guti foi o produtor que por sinal nunca teve reconhecimento suficiente por produzir nosso LP. Na época eu era um guitarrista de rock and roll bastante requisitado tocando com Raul Seixas, Leno e qualquer gravação de rock and rol. O Guti me pediu para montar um grupo para apoiar o Luis Carlos Porto. Não era para fazer um grupo, mas apenas uma banda de apoio para o cantor. O Luis Carlos não queria ser só um cantor, queria ser integrante de uma banda de rock pesado. Ele realmente era uma super-estrela, um cantor de muito talento. Olhando em retrospecto, acho que ele poderia ter se tornado uma estrela mundial de renome se as coisas não tivessem saído fora dos eixos.

2112. Você participou da gravação de Pente?

Gabe. Não participei da gravação. Não tenho certeza quem participou mas acho que pode ter sido algum dos músicos do Azimuth.

2112. E qual foi a reação do público e dos jurados quando vocês a tocaram no IV Festival Internacional da Canção?

Gabe. Não toquei no 4º Festival Internacional.

2112. Me responde uma coisa... como foi que "A Volta do Ponteiro" creditado a Beto Scala foi parar no lado b do compacto? Foi sugestão da gravadora?

Gabe. Me desculpe, mas não estou ciente dessa música creditada à Betto Scala. Deve ter acontecido antes de eu fazer parte do projeto O Peso.

2112. Lúcifer foi gravada numa época em que pouco ou nada se falava sobre ocultismo. Vocês tiveram problemas com a censura ou líderes religiosos?

Gabe. A música Lúcifer foi sugerida para nós porque Ozzy Osbourne e o Black Sabbath estavam no auge de seu sucesso. Nós realmente não gostávamos de nada disso e, francamente, escrevemos a música sem muita inspiração, tanto que juntei algumas tiradas tipo Led Zeppelin e juntamos algumas palavras. O solo era mais menos um "place holder" que eu iria refazer mais tarde. Nós apenas deixamos como estava. Nunca tivemos problema com o pessoal da censura. A única vez que tive problema com a igreja foi que gravei uma música chamada Saco Cheio com o cantor Almir Guineto. O chefe da igreja no Rio era o Ivo Loksheider, um religioso muito conservador, e ele fez a música sair da rádio, porém eu conhecia o chefe da censura, o Coronel Sá. Fui ao escritório dele com um gravador e enquanto eu tocava a música ele chamou outros caras que conheciam a música de cor e começaram a cantá-la juntos. Ali mesmo ele disse para o inferno com isso deixa tocar eu vou cuidar disso é fim de papo.

2112. Você e o Luis Carlos eram os principais compositores da banda. Como funcionava essa parceria?

Gabe. Luis Carlos Porto além de ser um excelente cantor, também era um ótimo letrista, meu português não era exatamente bom mas minhas idéias eram boas para as músicas. Eu dava a ele a idéia e ele trabalhava febrilmente para dar corpo a música. No final nós acabávamos a música e assinamavos a parceria. Trabalhamos muito bem um com o outro e temos algumas músicas que nunca foram gravadas. Algumas delas tinham um sabor muito nordestino, pena que nunca conseguimos lançar um segundo álbum. Não tenho registro dessas músicas. Acredito que elas se perderam no tempo.

2112. Quais eram as influencias da banda?

Gabe.  A banda foi altamente influenciada por Led Zeppelin, Rod Stewart com Jeff Beck e os Allman Brothers.

2112. Muitas foram as bandas nos anos 70 que não tiveram a chance de registrar sua obra por falta de apoio das gravadoras. Como foi que vocês conseguiram esse feito sendo uma banda de som tão pesado?

Gabe. Quando Luis Carlos apresentou a música Pente, esse tipo de swing estava na moda, meio que Raul Seixas apoiado por Renato e seus Blue Caps. Era isso que a gravadora estava procurando, porém conforme nossos ensaios progrediram, descobrimos que a maioria de nós estava ouvindo Led Zeppelin e o álbum Jeff Beck Truth, e esse é o som que emulamos. No final foi nosso grande erro, a gravadora estava realmente procurando esse som e não foi o que eles conseguiram com O Peso.

2112. O que você poderia contar sobre os bastidores das gravações do Em Busca do Tempo Perdido?

Gabe. A maior parte ou todo o disco foi ensaiado minuciosamente no Studio do Constant Papineannu, em Laranjeiras. Fomos para o estúdio com tudo arranjado e não houve muitas discussões sobre o que tocar. Para um dos solos... acho que foi Me Chama De Amor, o Lulu Santos me emprestous sua Fender Stratocaster que tinha o som que eu procurava. Queríamos um grande coro então contratamos um grupo chamado Os Meninos de Deus para cantar e também o Tony Bizarro que faleceu recentemente e foi considerado o último soul man depois do Tim Maia. O Zé Roberto Bertrami, do Azimuth tocou um dos primeiros sintetizadores de cordas em Me Chama de Amor. Queríamos uma conga em Lucifer, um dos técnicos do estúdio tinha uma lá e ele tocou, não saiu tão bem quanto queríamos, mas na maioria das gravações americanas a conga sempre foi mal tocada e assim ficou. Eu disse que o estúdio era de oito canais, mas era realmente um estúdio de quatro canais. Nós fizemos milagres com quatro canais, fazendo pingue-pongue indo e voltando. Novamente o Gutii foi um expert nisso e conseguiu o som que queríamos.

2112. ... e como foi feita a escolha do repertório? Qual foi o critério usado por vocês?

Gabe. O repertório foi montado pelo Luis Carlos e por mim. Não havia nenhuma organização ou uma idéia preconcebida do que tínhamos que fazer.

2112. Quem indicou o Guti Carvalho para produtor?

Gabe.  Guti Carvalho era produtor de rock and roll e pop na gravadora. Ele foi fundamental na montagem daquele grupo e foi muito diligente durante a mixagem dessas músicas. Na verdade não haveria O Peso sem a participação do Gucci.

2112. Vocês registraram o álbum em várias sessões ou foi tudo gravado direto ao vivo? Quanto tempo vocês gastaram em estúdio?

Gabe.  Gravamos o álbum em cerca de 3 dias em uma máquina de oito faixas.

2112. Para promover o disco a gravadora lançou o single Sou Louco por Você/Me Chama de Amor. Ele teve uma boa aceitação na programação das rádios?

Gabe. Infelizmente nosso som não era compatível com o rádio, não tínhamos muita penetração no rádio, nem mesmo nas rádios FM, eles gostavam mais de soft rock como Rita Lee e um rock mais pop

2112. Gabe, tudo o que foi gravado está no álbum ou ficou algum registro de fora?

Gabe. Não tivemos muito tempo, tudo o que escrevemos está naquele álbum, não há faixas sobrando que eu saiba.

2112. "Em Busca do Tempo Perdido" ao longo do tempo se tornou um dos álbuns mais cultuados dos anos 70. Qual a sua visão sobre o assunto?

Gabe. ... talvez porque o som fosse único comparado ao que estava sendo gravado na época. Nosso disco se destaca como uma espécie de som icônico do rock and roll. Basicamente tentamos emular o som pesado produzido por Jimmy Page e talvez por isso conseguimos nos destacar do resto da galera do rock and roll que se inclinava mais para um som mais leve ou tropical.

2112. ... você ainda ouve o álbum?

Gabe. Eu o ouço algumas vezes por ano e ainda me pego sorrindo quando o faço, foi uma boa gravação e me traz muitas recordações.

2112. A banda continuou até 1977 quando encerrou carreira e você passa a trabalhar como produtor e músico de estúdio. O que te levou a retornar para os Estados Unidos?

Gabe. Voltei para os Estados Unidos em 1990. Passei 20 anos no Brasil e senti que precisava voltar para o meu país e trazer minha família para cá. Na época que as ruas do Rio ficaram muito violentas e eu não estava feliz com o jeito que as coisas estavam funcionando para mim na indústria fonográfica, eu me tornei um compositor e tive vários sucessos com Tim Maia, Sandra de Sá e outros cantores.  Mas pensei que gostaria de voltar para os Estados Unidos e atualizar meus conhecimentos musicais e técnicas de produção. Na verdade, mudei-me para Memphis, Tennessee, onde tornei-me um músico de estúdio, mas não funcionou tão bem quanto eu queria. Eu falo vários idiomas e decidi abrir uma empresa de tradução que se tornou muito bem-sucedida. Ganhei muito dinheiro e ainda estou nesse negócio.

2112. A banda tentou um comeback em 1984. Você foi contactado para essa reunião?

Gabe. Nunca fui contactado por ninguém para refazer a banda. Pelo o que sei, Luis Carlos gravou alguns discos, um que nunca foi lançado porque ele não deixou. Houve algumas ressurreições do grupo e até alguns músicos alegando que eram o guitarrista original do conjunto. Eu meio que dispenso comentários disso e desejo a todos boa sorte e sucesso.

2112. Após a sua saída da banda você não pensou em formar uma nova banda ou mesmo gravar um álbum solo?

Gabe. Depois de sair da banda tornei-me um produtor de discos de samba bem-sucedido produzindo a música Reunião de Bacana (Se gritar pega Ladrão) e alguns outros sucessos que se tornaram minha paixão depois do rock and rol. Eu não tinha interesse em ser um artista solo o participar de um outro conjunto de rock.

2112. Atualmente você continua atuando como músico, produtor ou se aposentou?

Gabe. Sou semi-aposentado, faço traduções para alguns escritórios de advocacia e também trabalho como locutor geralmente em espanhol porque falo espanhol fluentemente. Também assumi o cargo de síndico do condomínio onde moro entre a aposentadoria, um trabalho burocrático e algumas coisas artísticas que sou capaz de fazer. Sou um velho feliz que anseia por passar os fins de semana com sua filha e os netos. Isso não significa que eu não toque violão, tenho uma bela coleção e realmente toco várias horas por dia, principalmente Bossa Nova e um pouco de Jazz. Eu gostaria de tocar como George Benson... mas talvez na próxima vida eu chegue perto.

2112. ... o microfone é seu!

Gabe. Obrigado!

 

Interview Gabriel O'Meare (O Peso)

2112. First of all, what brought you to Brazil in the middle of the military dictatorship?

Gabe. I had been traveling as a musician with various backing music groups including a 6 month stay in Las Vegas with Tom Jones. My last concert was with a singer called Wayne Cochran who was a white soul singer. We traveled almost every single day for 6 months. There were times when I didn’t even know which city I was in. After a few years of this routine, I decided I needed a vacation. I didn’t know who I was or where I was. My father lived in Brazil and I decided to pay him a visit and stay for a couple of months. Since Gal Costa needed a guitarist because Pepeu Gomez quit his group when his group Os Novos baianos released the album. I was caught again playing for singers and again on the road. I tried to attend journalism by writing music articles for Rolling Stone magazine. I also took lessons from Luis Claudio Ramos, an incredibly talented guitarist (arranger of Chico Buarque), who took me as a friend and guided me in Brazilian music. I owe him immensely.

2112. What was your start in music like?

Gabe. Probably it is a good idea to start this answer by letting you know that I am 76 years old. My musical influence was from my father who was an avid Jazz and Blues fan and musician. I remember listening to his 78 record collection which had singers like Big Bill broonzy, Robert Johnson, Muddy Waters, Charlie Patton, and on the Jazz side with Louis Armstrong, kid Ory, in a series of piano players like Tampa Red and Jelly Roll Morton. We moved to Venezuela in the early 50s where I was exposed to Latino music La Sonora matancera with Celia Cruz and boleros by Trio Los Panchos and Lucho Gatica. Also around 1955 I was exposed to Elvis Presley Bill Haley and his comets Little Richard and Gene Vincent. I attended to na American School and the new wave of rock and roll was the fashion at the time. I picked up on soul music around 1964, and my guitar Heroes were folks like Steve Cropper, Chips Moman, Reggie Young, BB King and Bobby Womack. I was mesmerized by the sounds coming from Memphis and Muscle Shoals Alabama, singers like Wilson Pickett, Otis Redding, Johnnie Taylor, Aretha Franklin, Rufus Thomas among others. Later I was also listening to the Yardbirds and Jeff Beck, Eric Clapton and Led Zeppelin, Allman Brothers and Rod Stewart by the early 70s I was playing semi-professional in dance bands and cover groups. I was hired by a manager who placed me among with other musicians to back up singers in Las Vegas among them Tom Jones and the Righteous Brothers. I haven’t done any professional recording at the time but I sure played a lot of top 40 Tunes in the casinos and around town. Later, I was contracted by a singer called Wayne Cochran who his guitar player got ill and I had to cover him immediately. We traveled throughout the United States playing what is called the chitlin circuit and in small clubs. It was a real learning experience. I met all kinds of people and musicians. It was a tough work atmosfere where we had to learn some of the top songs to be able to perform them at some of the clubs that requested these songs.

2112. Which musicians have influenced you the most in the way you play?

Gabe. My early influences were country Blues acoustic guitar players such as big Bill Broonzy and Robert Johnson later I started picking up on guitar players like Chuck Berry, Scotty Moore who played for Elvis Presley and James Burton who played for Ricky Nelson. My father taught me some chord progressions. Later as I started developing into a studio musician and backing guitar player I was highly influenced by guitarist like Steve Cropper, Chips Moman, Reggie Young, Jimmy Johnson, Eddie Hinton, Cornell Dupree and others. Certainly BB King and eventually Eric Clapton have some influence in my Blues playing.

2112. Already on Brazilian land you play with Gal Costa, you become Tim Maia's friend, you play with Zé Ramalho. At some point did you think about creating a band?

Gabe. The whole Brazilian experience with Gal Costa and Tim Maia and other musicians was a very big surprise for me. I never really planned on staying in Brazil since I came only as a vacation after 3 years of traveling as an itinerant and backing musician. I have never thought of putting together a band because I had never done that before in the United States. I always played in bands but I never put one together. Actually, I take that back in high school I had a pretty successful group called TC and the boys which played a mixture of the English sound, The Beatles and some American pop.

2112.  And how did you meet Luiz Carlos? Did Peso already exist as a band?

Gabe. The band O Peso didn’t exist, it was a duo formed by Luis Carlos Porto and a piano player called Gordo. They made a presentation in the FIC Festival with a song called O Pente, of course the references to drugs was the main theme of the song but it was so well written that the censorship didn’t catch on to it. At that point PolyGram became very interested in Luis Carlos Porto. Guti was the producer who by the way, has never got enough recognition for producing our record. At the time I was a sought after rock and roll guitarist playing with folks like Raul Sexas, Leno, and any rock and roll recording. Guti asked me to put together a group to back Luis Carlos Porto. it was not supposed to be a group but merely a backing band for the singer. Luis Carlos did not want to be just a singer but an integral part of a heavy rock group. He really was a superstar and a very unique singer. Looking back in retrospect I think he could have become a world-renowned singer if things hadn’t gotten off track.

2112. Did you participate in the recording of Pente?

Gabe. I did not participate in the recording of the song O Pente, I’m really not sure who recorded that I think it might have been some of the musicians from the group Azimuth.

2112. And what was the reaction of the audience and the judges when you played it at the IV International Song Festival?

Gabe. I did not play in the 4th Festival International.

2112. Answer me one thing... how did "The Turn of the Pointer" credited to Beto Scala end up on the b-side of your single? Was it the music record company's suggestion?

Gabe. I’m sorry but I’m not even aware of this song which was credited to betto Scala it must have happened before I became part of the O peso Project.

2112. Lucifer was recorded at a time when little or nothing was said about the occult. Have you had problems with censorship or religious leaders?

Gabe. The song Lucifer was actually suggested to us because Ozzy Osbourne and Black Sabbath were at the peak of their success at the time we really weren’t into any of that and quite frankly we wrote the song without much inspiration so much so that I threw together some Led Zeppelin type riffs and threw some words together. The solo was more less a place holder which I was going to re-do later. We just let it go as it was. We never had a problem with the censorship people and the only time I had a problem with the church was when I recorded a song Saco Cheio, with the singer Almir Guineto. The head of the church in Rio at the time was Ivo Locksheider, a very conservative priest and he had the song pulled out of the radio, however I knew the head of the censorship, Coronel Sá. I went to his office with a tape recorder and while I was playing the song he called other guys who knew the song by heart and started singing it together. Right there he said to hell with that let it play I'll take care of it and that is it!

2112. You and Luis Carlos were the main composers of the band. How did this partnership work?

Gabe. Luis Carlos Porto besides being an excellent singer was also a great lyricist, my portuguese was not exactly good but my ideas were good for the songs I gave him the idea and he worked feverishly to give body to the music, in the end we both finished the mucica and signed the partnership. We work really well with each other and we have some songs that have never been recorded. Some of them had a very northeastern taste, too bad we have never got to release a second album. I have no record of these songs and they have been lost in time.

2112. What were the band's influences?

Gabe. The band was highly influenced by Led Zeppelin, Rod Stewart with Jeff Beck and The Allman Brothers.

2112. Many were the bands in the 70s that did not have the chance to record their work due to lack of support from the record industry. How did you achieve this feat being a band with such a heavy sound?

Gabe. When Luis Carlos presented the song O Pente, that type of Swing was in fashion at the time. It was kind of like Raul Seixas backed up by Renato and his Blue Caps. That what the recording company was looking for however as our rehearsals progressed we found out most of us were listening to Led Zeppelin and the Jeff Beck Truth album and that’s the sound we emulated. In the end I think that was are downfall with the recording company, they were actually looking for that other sound and that not what they got with O Peso.

2112. What could you tell us about the behind-the-scenes footage of Em Busca do Tempo Perdido?

Gabe. Most of all of the album was thoroughly rehearsed at Constant Papineannu's studio in Laranjeiras. We went into the studio with everything arranged and there weren't many discussions about what to play. For one of the solos and I think it was Me Chama De Amor, Lulu Santos lent me his fender Stratocaster that had the sound I was looking for. We wanted a great choir, we hired a group called The Children of God to sing on the song. Also on I don't know anything, Tony Bizarro who passed away recently and he was considered the last Soul Man after Tim Maia, did vocals on that song. Zé Roberto Bertrami of Azimuth played one of the first string synthesizers in the summer Me Chama de Amor. We wanted a conga on Lucifer, one of the studio technicians had one there and he played it, it didn't come out as well as we wanted, but on most American recordings the conga was always badly played, so it stayed. I said before that the studio was an eight-channel studio, but it was really a Four-channel studio We did miracles with four channels, ping-pong going back and forth. Again Gutii was an expert at this and got the sound we wanted.

2112. And how was chosen the repertoire? What was the criterion you used?

Gabe. The repertoire was put together by Luis Carlos and by me there really was no organization or a preconceived idea of what we had to do.

2112. Who nominated Guti Carvalho as a producer?

Gabe. Guti Carvalho was the producer of rock and roll and pop of the recording company, he was actually key in putting that group together and was very diligent during the mixing of these songs, in fact there would not be the Peso without the participation of Gucci.

2112. Did you record the album in multiple sessions or was it all recorded live directly? How much time did you spend in the studio?

Gabe. We recorded the album in about 3 days on an eight-track machine.

2112. To promote the album, the record company released the single Sou Louco por Você/Me Chama de Amor. Was it well received on the radio?

Gabe. Unfortunately our sound was not radio friendly, we did not have a lot of penetration in radio not even on FM radios, they more liked soft rock like Rita Lee and some of the more popish rock and roll which was being recorded at the time.

2112. Gabriel, is everything that was recorded on the album or was there any record left out?

Gabe. Because we haven't had much time, everything we wrote is on that album, there's no tracks left that I know of.

2112. Em Busca do Tempo Perdido" over time became one of the most cult albums of the '70s. What's your take on it?

Gabe. ... maybe because the sound was unique compared to what was being recorded at the time, our record stands out as a kind of iconic rock and roll sound, basically, we tried to emulate the heavy sound produced by Jimmy Page and maybe that's why we were able to stand out from the rest of the rock and roll crowd that leaned more towards a lighter or tropical sound.

2112. ... Do you still listen to the album?

Gabe. I listen to the album a couple times a year and still find myself smiling when I do it was a good recording and it brings back a lot of memories.

2112. The band continued until 1977 when it ended its career and you went on to work as a producer and studio musician. What prompted you to return to the United States?

Gabe. I returned to the United States in 1990, I spent 20 years in Brazil and felt I needed to go back to my country and bring my family here. V at the time when the streets of Rio got very violent and I wasn't happy with the way things were working out for me in the music industry, I became a composer and had several hits with Tim Maia, Sandra de Sá and other singers, but I thought I would like to go back to the United States and update my musical knowledge and production techniques. I actually moved to Memphis, Tennessee, where I became a studio musician, but it didn't work out as well as I wanted. I speak several languages and I decided to open a translation company that became very successful. I made a lot of money and I'm still in that business.

2112. The band attempted to return in 1984. Were you contacted for this meeting?

Gabe. I was never contacted by anyone in 1984 to remake the band as far as I know, Luis Carlos recorded some records, one that was never released because he did not leave. There have been some resurrections from the group and even some musicians claiming they were the original guitarist of the set, I kind of dispense with comments on that and wish everyone good luck and success.

2112. After leaving the band you didn't think about forming a new band or even recording a solo album?

Gabe. After leaving the band I became a very successful samba record producer I produced the song Reuniao de Bacana (Se gritar pega Ladrão) and some other hits that became my passion after rock and roll. l had no interest in being a solo artist or participating in another rock ensemble.

2112. Are you currently still a musician, producer, or have you retired?

Gabe. Although I am semi-retired I do translations for some law firms and I also work as an announcer usually in Spanish because I speak Spanish fluently, I also took the position of trustee of the condominium where I live between retirement, a bureaucratic job and some artistic things that I am able to do. I am a happy old man who longs to spend the weekends with my daughter and grandchildren. That doesn't mean I don't play the guitar, I have a beautiful collection and I actually play several hours a day, mostly Bossa Nova and some jazz. I wish I could play like George Benson, but maybe in the next life I'll get close.

2112. ... o microfone é seu!

Gabe. Thank you!

 

Obs.: Esta entrevista foi realizada após Gabe se recuperar de uma embolia pulmonar que o deixou fora de circulação por um tempo. Ele foi super gentil respondendo em português e inglês. Fica aqui o meu muito obrigado por todo o seu esforço e atenção. 

Aproveito a oportunidade para agradecer a ajuda do amigo/irmão Luiz Carlos Figueiredo na revisão do inglês da qual não entendo nada. Só thank you.