Nem só de floresta, vitória régia, boto cor de rosa etc vive o estado do
Amazonas. O cenário musical é bem diversificado e tem muita coisa bacana para
ser ouvido e divulgado. Uma delas é o trio Fuzzy que faz um rock nervoso de
primeiríssima qualidade. Procure ouvir e leia abaixo um pouco do sua
história.
2112. Como surgiu a Fuzzy?
Roosevelt. Quando eu fazia parte da Sentapua (outra banda do cenário amazonense), os
ensaios já não eram mais constantes, por vezes tivemos que cancelar eventos ou
ensaios. Isso meio que me desmotivou. Então pensei na idéia de fazer um novo
projeto com o Gustavo Kawati, que por um período havia sido guitarrista da
Sentapua. Daí na época, convidei um primeiro baterista que curtia o jeito dele
tocar. Marcamos um ensaio despretensioso, com algumas covers... e assim surgiu
a Fuzzy.
2112. O nome da banda é uma alusão ao
pedal de distorção com o acréscimo da letra Y para dar um toque diferenciado?
Roosevelt. Na verdade, não deixa de levar pra
essa ideia, já que sou muito fã de grunge e eu tinha a pretensão de sempre
usar efeitos moduladores e distorcidos como o Fuzz. O que na verdade quis
trazer é uma "INDEFINIÇÃO" no som da banda, sem rotulações. Pois
temos diversidades de gostos/estilos. As músicas da banda acabam trazendo isso,
uma "indefinição, cheio de modulações". Não à toa, a banda tem
pegadas: hard rock, grunge, heavy e blues, mas sem querer fixar em um. (Não sei
se respondi claramente... rsrs).
2112. Trabalhando com esses vários
seguimentos musicais que bandas ou músicos vocês mais curtem e que são
influências diretas no som de vocês?
Roosevelt. Eu, particularmente, sempre tive influência mais de rock nacional das
clássicas dos anos 80. Titãs, Paralamas, Legião, Ira!, Biquini... nessa linha,
além do som do Oficina G3, Alice in Chains, Nirvana, Metallica. O baterista,
Guto, gosta do alternativo e bandas mais pesadas da década de 90 (ele preferiu não citar nomes de bandas,
pra não haver favoritismo e/ou injustiça... gosto eclético rsrsrs). Já o Kawati
gosta de Blues, Metal, Angra, Shaman, Dr.Sin... e o Japa curte Dr. Sin, Rush, Deep Purple, Angra, AC/DC... e por aí vai!
2112. Essa pluralidade sonora dá mais
liberdade na hora criar as próprias músicas, não é?
Roosevelt. Com certeza!! Na hora de compor, eu até brinco com o Japa (como chamamos
o Gustavo Kawati - guitarrista), que ele é uma mente que não para. Se der
espaço ele encaixa muitos riffs e solos. Então tem que frear. Mas as
influências dão margem pra gente brincar e ter ideias diferenciadas nas
músicas.
2112. Roosevelt, a banda surgiu de um
projeto seu ao convidar amigos de outras bandas para tirarem um som. Quando
você percebeu que a banda já havia se tornado um projeto viável?
Roosevelt. Com a mudança pro segundo baterista (Ciro
Jamil) foi o "estalo" pra que
eu intensificasse a banda. E, infelizmente (e até felizmente), não havia mais
atividade com a banda antiga, a Sentapua. Recentemente, a coisa ficou ainda
mais concreta com a entrada do Augusto Nunes (Guto), que também é
multi-instrumentista e produtor.
2112. A Fuzzy começou tocando
covers em bares e eventos. O que levou vocês a abandonarem o circuito de covers
para criarem o próprio material? Pergunto isso levando em conta que bandas
covers tem mais espaço e apoio que as autorais.
Roosevelt. Na verdade, a gente sempre fez um
misto de covers e autorais. Quando começamos a nos apresentar, já havíamos
ensaiado bastante, covers e quatro músicas próprias. Duas delas são de autoria
do Márcio Denis e Sandro Nine, que, assim como eu, faziam parte da Nicotines
(outra história). Nessa época da Nico, estas músicas (Medo de Altura e Dias
Felizes) foram "terminadas" em ensaios mas nunca foram gravadas por
esse projeto. Daí, quando resolvi fazer a Fuzzy, conversei com o Márcio e o
Sandro, pra que me permitissem grava-las e executá-las. Então, os primeiros
shows, já haviam três músicas autorais e algumas covers. Desde o início a gente
vem garimpando espaços, até porque eu também sou um "tal produtor
cultural" procurando promover eventos com bandas autorais, tentando criar
espaços pra essas bandas, até pra mim mesmo poder me inserir quando tivesse
oportunidade. E foi o que aconteceu: fazia eventos pra tocar com a Sentapua...
e em seguida, com a Fuzzy. (desculpa, é longa a história). Já fiz eventos
covers, autorais...os dois juntos. Mas, sempre buscando mais a valorização
autoral.

2112. Vocês ainda tocam alguma coisa
nos shows? O que o público mais pede ou gosta de ouvir?
Roosevelt. Sim. Nada que o público peça, exatamente. Tocamos o que gostamos, e que
sai bem no ensaio. Mas, tem alguns eventos que fazemos pra levantar alguma
grana e até mesmo pra promover a banda em certos bares que não conhecem a gente
(e tem um bocado de gente que não conhece hehehehe). E lá fazemos um set mais
intenso de covers tipo Black Sabbath, Deep Purple, Golpe de Estado, Pink Floyd,
Barão Vermelho, Ira!.... as influências.
2112. Entre um show e outro vocês
aproveitaram para fazer a pré-produção do primeiro trabalho da banda gravado
entre dezembro de 2018 e fevereiro de 2019. Como é trabalhar, ensaiar, fazer
shows e gravar? Como vocês ministram o tempo de vocês?
Roosevelt. A gente
procura manter um dia de ensaio mais fixo pra trabalhar a banda. Mas, no geral,
é correria rsrsrs. Eu, assim como o
Guto, somos funcionários públicos, e dividimos nosso tempo com outras coisas,
além da família. O Japa vive de música quase que 24horas e também tem família
toca em alguns projetos covers, pois é o sustento dele. Então a gente procura administrar
nosso tempo juntos no grupo de WhatsApp acertando eventos, ensaios... E
ultimamente temos feito algumas reuniões pra justamente definir melhor outras
ações. Um novo EP, inclusive, já vem sendo pensado pois tem músicas novas. Mas,
há períodos menos intensos, e outros mais. De qualquer forma, a gente
administra bem.
2112. O material gravado foi testado
primeiramente nos shows e como foi feita a seleção das músicas?
Roosevelt. Exatamente. As músicas autorais foram
testadas primeiramente nos shows, depois fizemos poucos acertos pra gravar. Até
mesmo pra gente perceber nos shows como
seria os "acertos e erros" pra quando fosse pro estúdio. E, de
qualquer forma, já queríamos tocar as músicas. Como eram poucas composições de
um projeto novo de banda, então não houve seleção pra esse primeiro EP. Mas estamos
estudando regravar algumas, e talvez lançar no segundo. (Apenas experimento de
gravação e algumas alterações de andamento, já que a pegada ficou mais intensa).
2112. Muitas bandas fazem isso antes
de gravar. Acredito que esse tipo de atitude deixa a banda mais confortável em
estúdio e na escolha do material a ser gravado, não é?
Roosevelt. Isso mesmo! A gente precisa desse
"felling" pra entender a evolução do show, a percepção do público,
coisas assim. E até mesmo revisar e adaptar os timbres, solos, coisas de
produção mesmo da gravação.
2112. Como foi a recepção de “Uma Dose
de Veneno” entre os fãs da banda e também na mídia? Qual música foi mais
executada?
Roosevelt. No geral, foi bem elogiado. Creio que o
pessoal sempre reage assim: "gostei mais dessa, mais daquela...". Mas
gostaram do peso das músicas. Agora, ao vivo, é muito melhor com certeza.
Porque é o que penso quando assisto, até a percepção da música que até então
você não dá muita bola, ao vivo traz uma
emoção diferente. Não houve muito trabalho de mídia, na verdade... Nem sequer
fizemos um lançamento oficial. Execuções? Só no show mesmo. E algum ou outro
programa de rádio web. Mas, trabalharemos nisso melhor!
2112. Achei o título super interessante
pois ele dá margens para diversas interpretações. A intenção é essa mesmo?
Roosevelt. Sim. Ele
tem suas provocações mesmo kkkk além de ser titulo de uma das faixas não
deixa de ser uma indireta aos que sacaneam um dia, e são sacaneados depois.
2112. Roosevelt, você é ex-integrante
da Nicotines do meu camarada Sandro Nine. Você chegou a participar das
gravações de A Mil por Hora?
Roosevelt. Não. Mas
estive nos ensaios embrionários de uma das músicas: Rosa Junkie. Mas eu já
havia saído da banda.
2112. O que te levou a sair da banda?
Roosevelt. De verdade, não há resposta, nem houve
motivação. Acho que me distanciei e o Sandro convidou outro com uma outra
pegada. Somente.
2112. A cena aí no Amazonas é muito
atuante? Que bandas ou músicos você
indicaria com um trabalho bacana?
Roosevelt. A cena no
Amazonas é oscilante, mas não estável. Mas, muito mais por falta de incentivo
cultural do governo, do público e até mesmo das próprias bandas. Existem muitas
delas fodas em vários estilos. Algumas até nem existem mais, o que é uma pena, bandas
que considero sensacionais, como a Several, Sentapua, Charlie Perfume,
Espantalho... Mas existem bandas formadas por integrantes de algumas destas ou
de uma galera nova que tem talento de
sobra. Pessoal da Pacato Plutão, Tudo Pelos Ares, Evil Syndicate, Brutal Exuberância,
Líbito, Antiga Roll, The Mones, Underflow, Platinados, Escândalo Fônico...
viiiixe uma infinidade.
2112. Fico imaginando o rico folclore
amazônico sendo utilizado pelas bandas de rock. Você conhece alguma que faz uso
dessas influências?
Roosevelt. Sim, por aqui tem bandas com sonoridade que
chamamos "regionais", com influências de musicalidade que o povo
conhece por aqui como "beiradão" (beira de rio, flutuantes). Teve até
banda de rock com influências do folclore do boi bumbá. Uma das bandas que fala
muito de questões ou de folclore da região é a Zona Tribal (uma das bandas
antigas daqui, já tem mais de 20 anos). Muito foda, inclusive!
2112. Durante anos e anos a mídia só
falava das bandas do eixo Rio/São Paulo/Minas o que levou muitas bandas ao
ostracismo. Mas graças a internet que gerou diversos grupos, blogs e sites a
história está sendo devidamente corrigida. Na sua opinião o que ainda falta ser
feito nesse sentido?
Roosevelt. A intensificação do público em divulgar estas
bandas, além delas mesmo também se divulgarem mais, e criar seus próprios
eixos. A conscientização de quem está inserido nas organizações culturais, ou
políticos do país, voltando seus valores pra essa cultura que também alimenta
as cidades e o público que curte o rock. Precisa ter mais interatividade entre
as bandas, até mesmo pra se conhecer a dificuldade que cada uma tem, sua região
e viabilizar idéias que facilitem essa expansividade do cenário rock no Brasil.
2112. Essa atitude por parte dos fãs e
mesmo por parte de algumas bandas/músicos é digna de nota para nós amantes do
rock brasileiro. Quem sabe um dia algum escritor corajoso não resolve contar
tudo isso em um livro. Seria muito interessante, não?
Roosevelt. Olha...
vai dar uma coletânea, porque tem muito o que contar, o que discutir, o que
informar, o que apresentar. Nosso cenário (ainda que apagado) é muito amplo e
consegue se manter por quem ama muito o estilo. Mas, pra haver maior
massificação, é necessário toda essa galera se envolver mesmo, e fazer
acontecer. Não esperemos dos grandes, sejamos nós pequenos, enquanto isolados,
porém grandes quando unidos. Isso faz diferença. Espero que o(s) corajoso(s)
tenha(m) força e coragem (além de apoio), pra colocar tudo isso em muitas
páginas. Seria massa!
2112. Qual o e-mail/telefone para
contratar a banda e adquirir o material de merchandising de vocês?
Roosevelt. Nossos contatos são as redes sociais: @fuzzyband
(face, insta, youtube), além do email: fuzzymanaus@gmail.com / Telefone:
(92) 99142-6630 / 98130-6080 (shows, ep fisico...). Quem quiser ouvir as
músicas, só procurar nas Plataformas Digitais: @fuzzyband (Spotify,
Deezer, iTunes...).
2112. ... o microfone é seu!
Roosevelt. Cara,
primeiramente gratidão por esta entrevista, este contato, esta iniciativa em
querer alavancar, divulgar, continuar falando sobre rock no Brasil, nas suas
regiões, o que não é fácil. Mas que deve ser persistido por pessoas como você,
e por quem gosta também do estilo, pelas bandas. Temos que ser uma constante. A
música não para, não devemos parar. Ela nos conecta com nosso melhor, e afaga a
alma, suaviza os problemas, trabalha o cérebro e eterniza nossa vida. O rock é
atitude, mesmo com suas latitudes e longitudes diversas e é assim que a gente
alcança (ou resgata) quem precisa ouvir nosso rock ‘n' roll. Valeu demais,
Carlos. Grande Abraço. Sucesso sempre para o 2112 e pra todas as bandas.
2112. Eu que agradeço em poder ajudar de alguma maneira.
Roosevelt. Estou procurando articular uma espécie de coletivo de bandas autorais em
Manaus. Assim como outras já fazem seus movimentos, as vezes isoladas mesmo,
mas a intenção é agregar. E, quem sabe, conectar a outros pelo Brasil a fora. Então,
já deixo mais um canal pra galera conhecer aí algumas das bandas e seus
trampos: ENCHENTE S.A. (pode procurar no face, insta: @enchentesa ).
Qualquer coisa, pode também passar pelo meu insta: @therooss. A gente vai
se comunicando!
2112. Com certeza, estamos apenas
começando!!!
Obs.: As fotos utilizadas nessa postagem foram
retiradas do Facebook da própria banda. Não consegui identificar os nomes dos
autores das fotos. Quem tiver alguma informação favor enviar para o meu e-mail:
furia2112@gmail.com
que eu faço as devidas correções.