O blog 2112 foi formado com intenção de divulgar as bandas clássicas de rock, prog, hard, jazz, punk, pop, heavy, reggae, eletrônico, country, folk, funk, blues, alternativo, ou seja o rock verdadeiro que embalou e ainda embala toda uma geração de aficcionados. Vários sons... uma só tribo!



quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Entrevista StringBreaker & The StuffBreakers


Essa entrevista é uma espécie de diário de bordo sobre a tour que a banda fez recentemente pelos EUA tocando em várias cidades, a parceria com o selo Silent Brew Records e também sobre o lançamento do álbum Live In The USA, Travel To The Northern Lands (quem já ouviu nas plataformas digitais sabe que ficou duka!).        
2112. Parabéns por vocês demarcarem com a bandeira do rock brazuca o território americano. Me diga uma coisa: Qual foi o saldo positivo da tour?
Sérgio. Acreditamos que temos vários saldos positivos, desde fazer nossa primeira excursão que, além de fora do país, foi de maior duração (1 mês viajando e tocando) até ver que a aceitação com a nossa música foi muito constante em todos os lugares por onde a gente passou, o que é muito gratificante!
2112. E como surgiu a oportunidade de fazer essa turnê?
Sérgio. Foi um trabalho de organização de mais de um ano, e contou com uma ajuda imensa do nosso grande amigo local, o Mike Lemke. Nós e ele fizemos contato com os bares e casas de show durante muitos meses para fechar uma quantidade mínima de gigs que tornasse a viagem viável, e o Mike nos ajudou muito com a hospedagem e com a logística toda por lá. Além disso, o trecho NY (gravação e shows) foi organizado com a ajuda do pessoal da Silent Brew Records.
2112. Passado o primeiro momento qual é a emoção/sensação de ter tocado em terras americanas?
Dilson. É emocionante, e até meio engraçado, pois é tudo como nos filmes de Hollywood. Os lugares, os carros, o modo como as pessoas se comportam, tudo isso invariavelmente nos remetia a filmes e seriados que assistimos por aqui, ou mesmo a livros. Tivemos contatos com várias gerações de músicos e apreciadores da música lá, e era muito divertido quando algum dos novos amigos que fizemos sentava conosco, pegava um violão e tocava, por exemplo, Beatles, Pink Floyd, Neil Young, ou mesmo algumas coisas um tanto mais específicas como Traffic, e contavam histórias de quando eram mais jovens e acompanhavam essas bandas de perto. Tocar a música "deles", pra eles, com um tempero nosso, de quem apenas acompanhou de longe até nos deixou meio apreensivos no começo, mas já no primeiro show todos foram muito receptivos. Foi uma troca de experiências sensacional. E o contrário também aconteceu! Nos falavam de choro, de Tom Jobim... sem dúvidas, todas essas conversas e trocas que tivemos ao longo do mês nos enriqueceram demais, e esperamos que a eles também.
Sérgio. Tudo aconteceu de maneira tão rápida e tão frenética que as vezes parece que a gente sonhou que isso aconteceu (risos). Foi muito gratificante, ficamos muito felizes de ter conseguido realizar mais esta etapa com a banda. O que as pessoas não imaginam é a quantidade de trabalho que tivemos durante a tour toda, desde montagem e desmontagem sem roadie, tocar várias datas seguidas, as viagens, o trabalho in-house com as gravações, ensaios e composições. Tem que ter muita disposição e coragem pra peitar uma empreitada dessas, e pra nós o sentimento é de vitória!

2112. Vocês já mencionaram nas redes sociais o desejo de voltar para uma nova tour. Há projeto de visitarem a Europa também?
Guilherme. Certamente pretendemos voltar, a experiência nos EUA foi incrível, tanto na percepção a respeito de como eles vêem o nosso trabalho quanto para crescimento pessoal. Ter contato com outras culturas, realidades, pessoas e etc é muito engrandecedor. A Europa nos encanta e certamente, após o sucesso dessa primeira tour, estamos empolgados pra visitar o “velho mundo” também!


2112. Vocês tocaram em clubes, áreas abertas... e qual foi a aceitação reação das pessoas?
Sérgio. O tipo de local não mudou muito a percepção das pessoas. Percebemos durante os shows e em conversas com os diferentes públicos após as apresentações que as pessoas faziam um link com os grandes nomes que influenciam a banda, e as vezes até umas conexões que nem a gente imaginava, mas que está no mesmo mote de rock dos anos 70. Estes papos foram muito bacanas para vermos como as pessoas percebem a nossa música, e no fim nos ajuda a entender e consolidar a identidade da banda para nós mesmos!
2112. A turnê rendeu o álbum Travel To The Northern Lands, Live In The USA. O material foi extraído de um único show ou tem trechos de várias apresentações?
Guilherme. Gravamos todos os shows que fizemos durante a tour e escolhemos as versões que acreditamos ser as mais inspiradas e interessantes para montar o tracklist do álbum.
2112. Vocês gravaram toda a tour? Há registros também em vídeos?
Guilherme. Sim, gravamos toda a tour, o Sérgio levou a sua GoPro, o Mike, uma câmera 360. Tem alguns vídeos disponíveis no nosso canal do Youtube. Vale dar uma conferida lá, tem muita coisa legal!
2112. Live In The USA já está disponível nas plataformas digitais e em breve sairá em cd. O material sofreu overdubs de estúdio ou está em seu estado original?
Guilherme. Live In The USA é o registro real do que aconteceu nos EUA, os áudios originais desse disco são um LR pré mixado de uma mesa de 12 canais onde liguei todos os microfones, usei os equalizadores, distribui o pan e nivelei os volumes o melhor q pude. A saída stereo da mesa ia pra uma placa de 2 canais e gravava no meu notebook. A pós produção desse material foi mais no aproach de masterizar o áudio pronto. Dessa maneira, não existe a menor possibilidade de adicionar coisas ou editar detalhes de um determinado instrumento especificamente. Em Live In The USA você ouve como é o StringBreaker & the StuffBreakers tocando de verdade.
2112. Vocês fizeram muitos contatos por lá?
Guilherme. Tentamos aproveitar ao máximo o tempo que passamos lá, conhecemos pessoas, casas, muita gente envolvida com música, apreciadores e etc... Acreditamos que o saldo foi positivo.
2112. Apesar das datas dos shows deu para "turistar" um pouco? Deu para visitar o famoso Electric Ladyland Studios em Nova York?
Dilson. Com certeza! Tivemos uma tarde livre antes de uma das gigs e pudemos ver algumas coisas. O problema é que em Nova York, especialmente em Manhattan, tem TANTA coisa que o máximo que conseguíamos fazer em muitos desses lugares, pra tentar ver o máximo possível, era passar na frente. Sobre o Electric Lady, chegamos a estacionar e tocar a campainha, mas quem nos atendeu disse que não poderíamos entrar sem horário marcado pra gravações, nem mesmo pra tirar fotos, e a gente até entende... imagina quantas pessoas não fazem isso todos os dias. Mas vimos muitos lugares interessantes, como a Times Square, o Memorial do 11 de Setembro, a Quinta Avenida, o Empire State, o Physical Grafitti (sim, o do Led Zeppelin), o Central Park, o Edifício Dakota, que foi onde o John Lennon foi assassinado, e vários outros.
2112. Nova York a noite deve ser insana... Vocês assistiram algum show?
Guilherme. Infelizmente não tivemos tempo pra isso, mas acabamos assistindo a todos os shows que rolaram antes do nosso no Rockwood. Músicos extremamente competentes com sonoridades das mais variadas, passeando pelas vertentes do Jazz, pop e r’n’b. Foi bem legal! 
2112. Apesar do pouco tempo deu para vocês avaliarem como funciona a cena americana? Ela difere muito da nossa?
Dilson. Talvez, seja justo dizer que a principal diferença é que o público dos EUA, de maneira geral, é mais aberto à novidades. Chegávamos nos bares e as pessoas estavam assistindo algum esporte na TV, nem pareciam perceber nossa existência enquanto montávamos o equipamento, mas quando começávamos a tocar, elas se aproximavam e prestavam atenção. Uns vibravam, dançavam, gritavam, outros não, mas no geral, estavam todos sempre atentos. Dá pra comprar com uma ida ao cinema, que você senta lá apenas com uma ideia do que vai ver, mas assiste até o fim. Algumas casas, inclusive, são bem voltadas ao som autoral, chegando até mesmo a vetar cover. Aconteceu algumas vezes de vir alguém da plateia e dizer pra gente que veio assistir ao show porque recebeu um e-mail da newsletter da casa dizendo que era uma banda de rock instrumental do Brasil, ou que viu a notícia em algum outro veículo de mídia, até mesmo na rádio. Essa resposta do público com certeza acaba refletindo na cena e em como a rotatividade e oportunidade de lugares pra tocar acontece.

2112. Vocês gastaram quanto tempo de estúdio? A aparelhagem utilizada era digital ou vintage?
Guilherme. Passamos cerca de 4 horas lá, a captação começou pelo sistema analógico, batera e amplificadores microfonados, passando por uma mesa vintage do estúdio, alguns racks depois indo para um conversor AD e sendo registrado no Pro Tools.
2112. Como surgiu a idéia do lançamento da fita K7? Como foi realizada a escolha do material?
Dilson. A fita K7 é um dos frutos da nossa parceria com a Silent Brew Records. Eles conhecem muito melhor o mercado estadounidense que nós, pois um dos responsáveis pelo selo mora lá, mais especificamente em Nova York, e ele nos disse que lá, a onda do analógico, vinil, K7 e tudo mais, estava voltando com tudo. Não tínhamos noção disso até chegar lá, e realmente, lojas enormes, com infinitas prateleiras, cheias de discos de vinil e K7. Os CD's ficam numa mesinha, no cantinho. Portanto, o material em K7 é um meio interessante de conseguir entrar no mercado deles. Sobre a escolha do material, quisemos ser o mais abragentes possível, por isso, temos tanto uma coletânea de faixas dos discos de estúdio, que mostra nossas vertentes mais "roqueiras", "funkeiras" e tudo mais, e do outro lado, performances retiradas dos Safe Sessions, nosso show em formato reduzido, com equipamento e volume menores, que nasceu da ideia de estar preparado para qualquer tipo de palco e situação, podendo, assim, levar nossa música a mais lugares.
2112. A fita se divide em dois momentos: o Lado A  traz um álbum de estúdio com seis faixas e o Lado B com material gravado ao vivo. Esse material é um divisor de águas na carreira de vocês ou segue o fluxo natural da sonoridade da banda?
Guilherme. O K7 é uma introdução ao nosso trabalho, um material focado em mostrar ao público nova-iorquino o que é e o que faz o StringBreaker & the StuffBreakers. Por isso temos um lado com as músicas gravadas nos nossos três primeiros álbuns, apresentando a face mais roqueira, forte e visceral da banda e do outro lado temos as gravações do nosso repertório no formato Safe Sessions, onde a banda apresenta releituras explorando as características da dinâmica do som, com arranjos diferenciados e mais espaço para a improvisação e exploração de novos caminhos musicais.
Acredito que seja um divisor de águas por ser o nosso primeiro lançamento focado em um mercado diferente do Brasil. Talvez seja o primeiro passo na internacionalização da banda.
2112. As gravações ao vivo contidas no lado b são jams realizadas no estúdio?
Guilherme. O lado B contém músicas dos nossos discos de estúdio porém em releitura “Safe Sessions”, que dá mais espaço para jams e abertura para novas partes. Como se fosse um viés mais jazzístico do nosso trabalho.
2112. Quem produziu, arranjou e mixou o trabalho?
Sérgio. A produção, mix e master ficou mais uma vez a cargo do Spilack, os arranjos são resultado do trabalho coletivo da banda, o track list foi escolhido em parceria com a Silent Brew Records que tinha o formato do K7 mais pronto e pensado para o mercado norte americano e a arte conta com fotos do Diego Almeida e Designe do Adriano Fonseca.
2112. Segundo informação do encarte o material inspirado nos concertos de rock dos anos 70. Como foi tirar os timbres daquela época para os dias de hoje?
Guilherme. Na verdade, procuramos essa verve dos 70s desde o começo do StringBreaker e somos muito preocupados em soar oldschooll sem soar datado. Nas mix trabalho exclusivamente com o som captado e busco manter tudo o mais orgânico possível. É uma mix mais preocupada em fazer todo mundo aparecer e ter um som forte e coeso do que necessariamente inventar sons em busca de volume, pressão e definição exacerbada usando sound replacement e coisa do tipo. Não precisamos necessariamente gravar com equipamentos vintage pra ter esse som mais orgânico. É claro que a estrutura colabora, mas o som está muito mais na cabeça do mixer do que no equipamento. 
2112. Esse material foi lançado apenas em cassete. Vocês pretendem lançar as músicas nas plataformas digitais ou mesmo lançar em cd ou vinil?
Sérgio. Este material do K7 é uma coletânea de faixas já existentes, nos discos e nas playlists do nosso canal do Youtube, ou seja, está presente online por aí. Temos planos para um lançamento em Vinyl que ainda está em fase de projeto. Quanto à CD, fizemos gravações em todas as apresentações da tour, e compilamos um "Live in USA" que já está disponível nas plataformas digitais e chega em formato físico até o final do ano.
2112. Como fã da banda estou orgulhoso dessa nova empreitada da StringBreaker. Parabéns não só para vocês mas para todas as bandas que ao invés de ficar reclamando vão a luta.
Banda. Agradecemos demais a consideração e o apoio ao nosso trabalho! Isso é de grande importância! Ver essa relação com o nosso som nos dá mais energia pra continuar trabalhando em busca de crescimento e fortalecimento da cena e da banda.
2112. Qual o telefone/e-mail para contratar vocês?
Banda. 11 9 9313 8692 e o e-mail é o info@stringbreakerrock.com.
2112. ... o microfone é de vocês!
Banda. Primeiramente gostaríamos de agradecer ao pessoal do 2112 mais uma vez pelo espaço e pelo constante apoio ao nosso trabalho. São essas coisas que nos dão força para ir mais longe e encarar novos desafios como foi essa tour para nós. Ainda na parte de agradecimentos, novamente é importante citar o Mike Lemke, nosso grande amigo de Ohio que começou essa idéia e foi um dos grandes responsáveis por torná-la possível! Mike, você é fera! Além dele agradecemos também ao Rodney e ao Adriano da Silent Brew Records pela confiança no nosso trabalho e pela parceria. Agradecemos também aos nossos amigos daqui que nos acompanharam diariamente através do Facebook e Instagram, interagindo conosco, mandando mensagens, curtindo nossas lives e nossas presepadas. Mesmo de longe o sentimento foi que nós levamos muito amigos juntos nessa viagem, e isso foi sensacional! Por fim agradecemos aos amigos e a todo o público americano em geral, que nos recebeu muito bem, se dispôs a conhecer uma tal banda de rock brasileira que apareceu por lá do nada e curtiu com a gente essa viagem sonora show após show. Foi uma experiência incrível!
Fotos: Arquivo pessoal da banda (Facebook & Instagran)

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Entrevista Ronaldo Rodrigues


Ronaldo Rodrigues é um dos maiores representantes do nosso prog rock estando a frente das bandas Caravela Escarlate e Arcpelago e que agora está lançando o seu primeiro trabalho solo gravado artesanalmente em sua casa.

2112. A idéia de gravar um álbum solo já vinha sendo trabalhado na sua cabeça há um certo tempo e o seu casamento concretizou esse projeto. Como é essa história?  

Ronaldo Rodrigues. Sim, já vinha. É engraçado vermos coisas que a gente projetou assim de forma um tanto despretensiosa se concretizarem ou chegarem próximo disso. Quando gravei meu primeiro disco, entre 2009 e 2010 com a Massahara, tinha colocado pra mim mesmo uma espécie de "objetivo" de ser um músico de estúdio, fazer muitos trabalhos em estúdio...o estúdio realmente era um local onde eu me realizava musicalmente. Também tinha a ideia de nos 10 anos seguintes buscar fazer tudo que eu gostaria em música. Posso dizer que isso tem acontecido, ainda que não de uma forma tão consciente, tão objetiva, tão certeira. Já são mais de uma dezena o número de discos oficiais que foram lançados com alguma participação minha, incluindo os trabalhos próprios das bandas que fiz/faço parte. Em termos de estilos musicais muita coisa que eu gosto foi abarcada, mas nem tudo ainda. Esse meu primeiro álbum solo vem na esteira dessas coisas todas. Soma-se a isso o incentivo vindo da minha noiva, Fernanda Pio, que é uma pessoa muito criativa e vibrante, sempre cheia de ideias e iniciativas, de fazermos algo diferente na preparação do nosso casamento. Em geral, os convidados de um casamento presenteiam os noivos; no nosso caso pedimos que o presente fosse uma colaboração em dinheiro para uma road trip que queremos fazer na Europa em lua de mel. E quem nos presenteasse seria recompensado com pequenas lembranças produzidas por nós mesmos - a Fernanda é designer gráfica e ilustradora e eu, músico. A confecção dessas lembranças me fez conectar as partes. Esses elementos foram os catalisadores do meu primeiro álbum solo.

2112. Fale um pouco sobre o processo de composição das faixas, a pré-produção e a gravações. Foi um processo praticamente artesanal, não é?

Ronaldo. Bastante artesanal e também desafiador, porque eu não sou um cara tão afeito a parte "técnica" de uma gravação, apesar de ter um conhecimento e uma experiência razoável no assunto. Adquiri alguns equipamentos no fim do ano passado para conseguir gravar com boa qualidade e o restante tem sido na base de "tentativa e erro". Nada até o momento foi terceirizado e pretendo que continue assim. Isso ao mesmo tempo é uma tarefa muito árdua mas também uma satisfação particular que apenas um trabalho solo totalmente autoral pode trazer. O primeiro disco da Caravela Escarlate, Rascunho (2016), foi um trabalho feito com pouca maturação e pouco tempo entre a concepção das faixas, os arranjos, os poucos ensaios e a gravação. Já nesse meu trabalho solo a coisa foi ainda mais expressa e não houve pré-produção. Tinha as ideias na cabeça mas as ensaiei muito pouco e já fui gravando direto; então é um trabalho muito espontâneo, realmente um retrato deste meu momento. Das 7 músicas, 4 delas foram feitas totalmente dessa forma - concepção, arranjo e gravação feitas em intervalo de pouquíssimos dias. Outras 3 faixas eu já tinha composto em diferentes ocasiões, mas foram rearranjadas para o disco também com um tempo curto de gestação. As composições vem um pouco no intuito de serem como trilhas sonoras. 

2112. Você gravou o álbum todo sozinho ou teve a participação de algum outro músico?

Ronaldo. Tudo sozinho mesmo. Até cogitei, mas desisti. Não foi por vaidade, mas mais pelos recursos (dinheiro, tempo, estrutura, etc.) que não tive como dispor no momento. 

2112. Que instrumentos você usou nas gravações do álbum?

Ronaldo. 100% teclados, inclusive emulando outros instrumentos (percussão, baixo, sons orquestrais, etc.). Como disse antes eu não sou "produtor", sou apenas um cara que sabe minimamente gravar a si próprio de forma razoável. Eu pensei em incluir algo de violão ou guitarra (são instrumentos que eu tenho um mínimo de conhecimento) ou mesmo canto, mas aí envolveria microfonação, a demanda por um espaço com uma boa acústica e etc. Já tem sido muito desafiador conciliar a preparação do álbum com as demais providências do casamento e tudo mais que não parou pra me "assistir" fazendo essas coisas - trabalhos, bandas, outras gravações, etc. Não teria como de fato colocar energia e tempo com a inserção de outros elementos. Fui no que estava a mão. Mas com certeza eu tenho a vontade de rechear meus trabalhos com outras sonoridades e farei assim em futuros lançamentos (já fui infectado pelo vírus do trabalho solo e outros virão em breve).  

2112. O processo do álbum me fez lembrar do álbum Music for Supermark de Jean-Michel Jarre que teve apenas uma cópia prensada. Posteriormente Jarre regravou algumas das faixas em outros álbuns com novos nomes e novos arranjos. Você também pretende fazer o mesmo futuramente?

Ronaldo. Interessante, eu desconhecia esse trabalho do JMJ. Conheço apenas seus trabalhos mais clássicos. Apesar de super bacana, acho que hoje as pessoas não se sentem mais atraídas por essas "excentricidades" da época em que a indústria fonográfica ainda fervilhava. Vejo essas coisas como algo feito num movimento de tentar diminuir a superexposição de si próprio, conservar o caráter "único" daquilo que se fazia e tal. Hoje a superexposição é uma questão de sobrevivência, o músico praticamente precisa lutar muito para obter algum reconhecimento e fazer uma coisa desse tipo hoje só geraria alguns comentários que cairiam no esquecimento dos feeds e timelines muito rapidamente. Minha intenção inicial é que apenas as pessoas que estejam contribuindo com a elaboração do trabalho o tenham como recordação, mas seria leviano dizer que isso é algo definitivo. Dependendo de como for a resposta e a empolgação destes com o trabalho pode ser que eles próprios considerem justo que o trabalho alcance mais pessoas. 
2112. O que mais te inspira na hora de compor?

Ronaldo. Acho que a vivência mesmo do dia-a-dia é a maior fonte de inspiração. Eu não sou músico 100% do tempo, tenho um trabalho regular em horário comercial. Estar boa parte do meu dia distante da música me dá um ânimo e uma sede enorme de ficar pensando em música, em realizar coisas na música. Há um prazer enorme em ouvir música (rock e os estilos que aprecio), seja a antiga ou a nova...tudo isso é combustível de ideias. Eu sou um cara que se atenta bastante a coisas de pouca relevância do cotidiano - uma conversa engraçada de alguém no ônibus, um outdoor, uma matéria de jornal, uma cena na rua, a paisagem das ruas, essas coisas. Mas também leio bastante (atualmente mais leitura técnica-científica e jornais do que literatura), aprecio pintura, ilustração, vejo alguns filmes...e muita música, obviamente. A inspiração vem disso tudo.  

2112. Além de influências do eletrônico o álbum tem baladas, folk, space rock, faixas apenas com piano. Você ouve todo tipo de música?

Ronaldo. Na verdade, qualquer coisa que seja feita só com teclados é quase que automaticamente relacionada ao progressivo eletrônico. Eu, apesar de gostar do estilo, não sou nem de longe um especialista no estilo e nem um profundo conhecedor dele. O motivo principal é que eu aprecio muito a sonoridade de outros instrumentos e uma das coisas que mais me emocionam na música é justamente a interação entre os instrumentos, os arranjos e como cada instrumento reage no panorama da composição. Não diria que ouço todo tipo de música, porque isso incluiria a rigor muita música ruim e descartável que tem por aí, isso não ouço. Música que seja meramente dançar, música de elevador ou algo feito só pra chocar/ofender, no qual o que se fala rouba a cena do que é tocado eu desprezo.  Mas ouço muita coisa - quase tudo que tenha um instrumental trabalhado fica no radar do minha atenção. O estilo que mais gosto é o rock dos anos 70 e quem é conhecedor sabe que o rock dessa época é extremamente eclético, variado, muito rico. E eu gosto exatamente de toda essa riqueza e, mesmo sem querer, tudo isso acaba emergindo em qualquer trabalho que eu faça. 
2112. Esse álbum ficará marcado por surgir entre dois momentos especiais da sua vida: sua união e a realização do seu primeiro trabalho solo. Como você está trabalhando isso na sua cabeça?

Ronaldo. Ficará marcado de forma muito especial. Olha, é um misto de muitos sentimentos positivos e um daqueles raros momentos na vida em que sentimos que realizamos uma coisa realmente grande. Como a música é uma parte muito importante da minha vida, acabou que também ela está presente de uma maneira muito legal, inusitada até eu diria, neste momento do meu casamento. A princípio, eu olho para um monte de coisas e é uma avalanche de providências a tomar e penso: não vai dar, não será possível. Mas quando a gente vence a primeira barreira negativa, de achar não ser possível, e começa a fazer a gente lembra que o dia tem 24 h e nessas horas todas dá pra fazer muita coisa. Minha cabeça gostaria de dar uma pausa do excesso de atividades, mas por outro lado tenho em mente que é preciso aproveitar certas ondas de criatividade. Também enxergo que quando ficamos mais velhos a vida vai ficando mais complexa e qualquer objetivo vai tendo que ser encaixado em um quebra-cabeça mais difícil. É assim que me sinto. Felizmente isso me colocou na direção de tentar conciliar tudo.

2112. A produção gráfica está a cargo da Fernanda. Será um trabalho mais artesanal?
Ronaldo. Não tão artesanal assim, porque uma série de outros itens do casamento ela já tem feito a mão (convites, identificação das mesas, a parte gráfica do nosso projeto artístico conjunto que inclui meu álbum solo, e etc.). Elaboramos a arte digitalmente mesmo e estamos imprimindo de forma convencional. Seria bem legal fazer manualmente, item por item, mas não foi possível no momento.

2112. John Lennon e Yoko Ono quando se casaram lançaram Wedding Album que além do próprio disco trazia várias "lembrancinhas" como uma foto de um pedaço do bolo, uma cópia da certidão de casamento, fotos do casal etc. Um projeto interessante como o de vocês...

Ronaldo. Uma honra ser associado com esse ilustre casal! Essa referência não nos ocorreu quando tivemos essa ideia, mas acho que tem tudo a ver mesmo - esse meu álbum solo e as ilustrações da Fernanda serão as "lembrancinhas" pros convidados e pras outras pessoas que adquirirem nosso projeto.  

2112. Os convidados com certeza ficarão felizes ao ter em mãos um produto exclusivo que se tornará item de colecionador. A idéia foi super bacana...

Ronaldo. Obrigado! Queremos que a ocasião fique tão bem marcada na vida das pessoas quanto tudo isso está sendo marcante pra nós; além de toda a comida, a bebida e a farra do momento, nada melhor do que fazer isso com arte também. 
2112. O álbum será lançado no dia do seu casamento com o título de Vol. I. Você pretende fazer uma espécie de pocked show na festa para apresentar oficialmente o álbum?

Ronaldo. Como terá muitos músicos entre os convidados, havia a ideia de nos reunirmos lá e fazermos uma pequena brincadeira musical, tocando músicas que gostamos e nos confraternizando. Só que fazer isso demandaria um conjunto de providências que eu não terei como tomar no dia e pros outros envolvidos também seria inviável cuidar disso. Mas não tocaríamos nada desse material do disco solo, até porque isso demandaria ensaios e uma certa preparação que não teria como ser feita a tempo. Também pelo fato do trabalho ter sido feito todo com teclados teria de rearranjar as músicas para o formato álbum. Seria maravilhoso fazer isso, mas a festa e a curtição do casamento tem absoluta prioridade nesse dia. 

2112. E após o seu retorno da lua de mel você pretende fazer algum show ou esse projeto ficará apenas a nível de trabalho de estúdio?
 
Ronaldo. A pretensão inicial é que o trabalho fique restrito ao estúdio pois até isso seria um diferencial do trabalho. Quase tudo que gravei em álbuns meus ou de outras bandas acabou indo pro palco e foi feito e gravado pensando nisso. Desta vez não tive essa preocupação, o que dá uma certa liberdade de explorar mais recursos dos equipamentos e da própria gravação em si. Há uma dualidade interessante entre palco e estúdio, na qual sempre pendi mais para o segundo porque sempre achei que o estúdio é o local onde se pode oferecer o máximo em termos de experiência musical propriamente dita. No palco há outros fatores envolvidos que não são música, mas a complementam - performance, iluminação, palco, o local onde se toca, a interação com a plateia, etc. Pensando exclusivamente em música, o estúdio é o melhor lugar para ela acontecer em plenitude. E quando vou gravar um material com essa intenção de depois apresentá-la ao vivo, tento fazer de uma maneira que seja possível reproduzir com certa fidelidade o que foi gravado, o que estabelece certos limites.

2112. Mas seria muito interessante apresentar o material para os fãs já que ele difere dos trabalhos desenvolvidos por você no Caravela Escarlate e no Arcpelago, não é?

Ronaldo. Com certeza. As composições desse álbum solo foram pensadas justamente para ser algo que eu imaginei não ser muito apropriado para tocar com minhas bandas, para apresentar outras facetas da minha personalidade musical. Há muita riqueza musical a ser explorada e que eu penso que nem tendo duas bandas eu seja capaz de abraçar tudo (risos)! Possivelmente esse sons ajudarão a me conectar com pessoas fora do universo do rock. 


2112. Vol. I terá edição limitadíssima... Futuramente você pretende lançá-lo nas plataformas digitais ou em formato físico?

Ronaldo. Não pretendo lançar nas plataformas digitais, como disse anteriormente. Não sei como será a resposta das pessoas a este trabalho, mas quero valorizar as pessoas que se interessaram em colaborar com esse projeto artístico que brotou desse belo momento da minha vida particular.  

2112. Obrigado pela entrevista e felicidades para você e a Fernanda. Parabéns.

Ronaldo. Agradeço muito o prestígio do Furia 2112 ao trabalho das minhas bandas e por extensão a esse meu primeiro trabalho solo! Acompanho suas redes sociais, leio e comento eventualmente seu blog e sei bem como é a luta de vencer boicotes de todos os lados para conseguir promover aquilo que se acredita. A gente encontra muitos "não" antes de encontrar um "sim". Esse blog é um exemplo de perseverança e de visão do todo. Parabéns!

2112. ... o microfone é seu!

Ronaldo. Aos que tiverem interesse em conhecer o trabalho, há dois pequenos trechos do trabalho disponibilizados como teasers no youtube (link nos comentários - pode ser?) e para quem quiser ver o projeto todo, o que faremos e como colaborar conosco, o link é: www.catarse.me/projetoeuropa.


Crédito: Todas as fotos utilizadas nesta entrevista pertencem ao arquivo pessoal do Ronaldo.  


Eu do 2112/VISION desejo a você Ronaldo e a Fernanda a mesma felicidade que me mantém feliz a 17 anos com a minha esposa. Que Deus os abençoem e que vocês sejam realmente felizes... e se der guardem um pedaço do bolo para mim. Abração!