O blog 2112 foi formado com intenção de divulgar as bandas clássicas de rock, prog, hard, jazz, punk, pop, heavy, reggae, eletrônico, country, folk, funk, blues, alternativo, ou seja o rock verdadeiro que embalou e ainda embala toda uma geração de aficcionados. Vários sons... uma só tribo!



quinta-feira, 22 de março de 2018

Entrevista Kim Kehl


O rock brasileiro é formado por um naipe de bandas maravilhosas... mas que precisam fazer um milagre por dia para se manterem vivas já que a mídia e uma grande parcela da população estão preocupados apenas com a mediocridade musical. Mas Kim Kehl e sua banda Kurandeiros lutam para manter vivo o espírito do verdadeiro rock’n’roll. Os quatro álbuns e um EP gravados pela banda é a garantia dessa verdade!!                  

2112. Podemos começar falando um pouco sobre a Lírio de Vidro sua primeira banda?

Kim Kehl. O "Lírio de Vidro" não foi minha primeira banda, teve um longo caminho até lá. Nasci em 1958, passei a infância ao som da Beatlemania, Festivais da Record e música clássica, então sempre foi um lance muito forte a música. Tamborilei piano, percussão e violão até uns 12 anos, até surgir um interesse mais sério. Daí foram as aulas de música, bandas de garagem e festivais de escola até chegar a guitarrista base na banda "Pecado Mortal", com o amigo de colégio Cassio Poletto, hoje consagrado guitarrista, violinista e produtor musical, e ainda um grande amigo.
Em 1976, conheci o baterista Ricardo 'índio´Cardoso em uma jam e depois de tocar um monte juntos, durante alguns meses, decidimos começar uma banda. Nossa junção era explosiva, estridente & barulhenta, e com a chegada do baixo de Luiz 'frajola' Marcello e a guitarra de Raul 'zica' Mueller, no ano seguinte, virou uma verdadeira massa sonora. Ensaiávamos na garagem da casa da minha avó paterna, e logo começamos à atrair a atenção da pessoas, já que podia se ouvir a banda tocando à 2 quarteirões de distância.  rsrs
O 'Lírio de Vidro' fez algumas apresentações privadas e aos poucos fomos indo pra rua, até começar a abrir shows para a 'Patrulha do Espaço' e a participar do festival intinerante 'Rock & Jeans', produzido pelos rockers Oswaldo Vecchionne, da 'Made in Brazil' e Luiz Carlini, da 'Tutti Frutti'.
Em 1978 tivemos uma mudança na formação com a entrada no baixo de Orlando 'netão' Neto e do guitarrista Paulo 'pirata' de morais. Seguimos tocando até o ano seguinte, e essa era a cena que existia na época, um tanto precária e amadora, mas com um público muito fiel e presente, entusiasmado.

2112. Ouvi Mar Metálico e posso afirmar que vocês faziam um som bem pesado para a época...  

Kim Kehl. Como te disse, nossa mistura era explosiva, criávamos uma quantidade enorme de energia apenas com uma guitarra e a bateria, e quando juntamos o baixo e uma 2a guitarra, virou um paredão sonoro. A 1a fase é o período clássico, quando ensaiávamos bastante e compusemos a maior parte das músicas. Com a 2a formação, passamos a maior parte do tempo na estrada.

2112. O que você ouvia?

Kim Kehl. Como te disse, minha formação era Beatles, Stones num segundo momento e à partir do início dos anos 70, tudo o que hoje chamamos de 'Classic Rock', já que não existia o termo 'Heavy Metal'. É lógico que sempre temos algumas bandas preferidas, mas nessa época, ouvia se tudo que havia para ouvir sob o nome 'Rock': Blues Rock, Hard Rock, Prog Rock, Jazz Rock, aí por diante... tudo mesmo. Foi a era de ouro da música!

2112. Outra coisa que achei bacana é que você já trabalhava com material autoral o que era um ponto a favor, não é?  

Kim Kehl. Bem, já contei isso antes, as pessoas acham difícil acreditar, mas não tinha essa de 'tocar cover'. Quando houve o primeiro ensaio, tudo montado, nos olhamos e veio a pergunta: 'o que vamos tocar?' ...aí, é claro, e já tinha alguns 'vamps' e 'riffs' na manga, e comecei compondo 'na hora' o que veio à ser nosso repertório conhecido. Parece uma pretensão incrível, hoje reconheço, mas o que queríamos era ser uma banda autoral de rock brasileiro, como Os Mutantes, O Terço e outros gigantes que habitavam a terra. Depois começamos à acrescentar, aos poucos, algumas músicas de outros artistas.

2112. Você poderia falar um pouco sobre as gravações de Mar Metálico?

Kim Kehl. Gravávamos todos os nossos ensaios, principalmente na 1° fase, com um velho Philips de rolo, em velocidade 7 1/2 e com apenas 2 microfones, um em cada canal. Posicionávamos a banda para mixar o som da sala e ... gravando. Eram horas e horas gravações precárias, só pra que a gente mesmo ouvisse nossa prática, mas algumas ficaram boas, e fui colecionando essas fitas, que ficaram guardadas por décadas.


2112. Porque esse material levou tanto tempo para vir à tona?

Kim Kehl. As fitas ficaram guardadas desde então, até o ano de 2001, quando fui procurado pelo Ray da Medusa Records, uma loja de raridades em vinil e CDs na Galeria do Rock, em SP. De alguma maneira, ele sabia da existência das fitas, e propôs recuperar e lançar o material selecionado em um CD.  Não achava que fosse possível, mas ao reouvir as fitas, depois de tanto tempo, percebi que mesmo com a precariedade da produção, as músicas apresentavam algum mérito. Após uma transferência digital minuciosa, e a criação de um trabalho gráfico baseado na arte de nossos releases originais, o álbum estava pronto. Isso tudo prova a fidelidade do público rockeiro, que mencionei antes. Em minha carreira, foi sempre muito frequente ser indagado sobre a banda 'Lírio de Vidro', que se tornou algo 'cult'. A sobrevivência desse mito sempre me deixou muito surpreso, e grato!

2112. Em Mambo Jambo já com Os Kurandeiros você regravou Vampiro. Você pretende fazer isso novamente?

Kim Kehl. A música 'Vampiro' foi composta tendo como inspiração 'Unchain my Heart', do Ray Charles. É um Blues gótico com pegada latina, se existe tal coisa ... rsrs. Em 1995, apresentei a composição para o Nasi, enquanto escolhíamos o repertório do 2° álbum d'Os 'Irmãos do Blues', 'Os Brutos Também Amam', e ele quis gravá-la. Essa versão, com metais e uma grande banda foi gravada ao vivo no Festival Internacional de Blues Nescafé & Blues. A música que dá o título ao álbum, 'Os Brutos Também Amam', também é uma composição minha, e também foi regravada para o Mambo Jambo, com Os Kurandeiros. O Nasi é um grande cantor e arrasou, é claro, mas eu queria versões atualizadas e mais rockeiras para o 2° album com Os Kurandeiros, de músicas que estavam dispersas em vários trabalhos.

2112. Nessa época você tinha um estúdio de ensaio no fundo da casa de sua vó e reza as lendas que era lá que a Patrulha do Espaço ensaiava e também realizou a pré-produção do seu primeiro álbum. Todo mundo ensaia lá?         

Kim Kehl. Era apenas uma sala de ensaio, e não um estúdio formal, como existem tantos hoje em dia, para alugar. Mas era um bom espaço, e foi bastante útil! Por estarmos próximos na época, ofereci para que a 'Patrulha do Espaço' lá fizesse os primeiros ensaios depois da saída do Arnaldo Baptista, preparando um novo trabalho. Foi memorável! Assisti ali, ao vivo, a criação de vários clássicos da Patrulha, em companhia de amigos queridos, alguns dos quais já nos deixaram na saudade! Os Kurandeiros tem tocado ultimamente, algumas dessas músicas, em sentida homenagem.

2112. Ouvi dizer que o Oswaldo ao contratar você e o baterista Índio acelerou o fim da Lírio de Vidro. Isso é verdade?   

Kim Kehl. Não é bem assim! Quando veio o convite do Oswaldo para integrar o 'Made in Brazil', a verdade é que o 'Lírio de Vidro' estava em uma sinuca e em evidente esgotamento. Já conhecia o Oswaldo a anos, grande mestre e querido amigo, e o Made estava em uma mudança importante também. Eu e o Índio entramos juntos para integrar a banda de estrada do Made, agora um quarteto, com o Oswaldo assumindo o vocal.  O Índio logo quis sair, e no lugar entrou o Beni, revezando sempre com o Nelson Pavão e o Franklin Paolillo. Foi uma decisão profissional correta, não tinha como, e veio um período muito produtivo de trabalho para todos, muito legal mesmo. O resto é história!

2112. Como foi trabalhar em um grupo com uma estrutura melhor?     

Kim Kehl. A banda estava bem estruturada, com equipamento, equipe, assessorias e gravadora (RCA), agenda... Em 80/81/82 tocamos muito, centenas de shows. Participamos também do timaço de musicos que gravou o LP 'Minha Vida é o Rock and Roll': Oswaldo, Celso, Tony Babalu, Edu Depose, Juba (antes da Blitz), Wander Taffo, Manito, Marinho Testoni e muitos outros. Quer dizer, foi uma grande fase, puro Rock and Roll!  

2112. Em quantos discos do Made você participou?

Kim Kehl. O LP 'Minha Vida é o Rock and Roll' é o ultimo do Made na RCA, depois vem a fase independente. Participo de vários nos anos 80 e 90. Ultimamente, tenho participado da Tour 50 Anos, com DVDs e CDs já lançados, material ao vivo de alta qualidade, muito legal.

2112. O que te levou a sair da banda? 

Kim Kehl. É muito bom ter um bom emprego. rsrs... Mas tem que ter o laboratório onde testamos tudo, é uma necessidade da natureza do artista. Quero tocar, compor, cantar, produzir e gravar, e nem sempre temos espaço no 'trabalho'. E, uma banda não é tão regular como uma repartição pública, existe o desgaste, o risco, a fase ruim de $... Então é um processo natural da vida por aí.

2112. É verdade que você ganhou mais dinheiro trabalhando com uma dupla sertaneja que com o próprio rock?

Kim Kehl. Sim, é verdade! Esse foi o período profissional mais importante pelo qual passei, o auge da minha carreira como musico acompanhante, o sideman. O convite para integrar uma dupla de sucesso popular no auge da carreira é irrecusável, e a experiência que me proporcionou é inestimável. Tive a oportunidade de participar um fenômeno de sucesso de massa em nosso país, com tudo o que isso significa. É uma grande responsabilidade, e encontrei nessa trilha muitos colegas músicos de imenso valor.

2112. O que fez você voltar para o rock’n’roll? 

Kim Kehl. Depois de 10 anos no universo sertanejo, chegou o momento de voltar para casa. Não que tivesse jamais abandonado o rock. Gravei o 1° álbum dos Kurandeiros entre 1999/2002, nas brechas de minha agenda de shows com a dupla, e com as condições financeiras favoráveis que esse trabalho possibilitou. Fiz alguns show de lançamento também. Pra tocar, a gente sempre acha tempo... rsrs

2112. O Mixto Quente surgiu depois que você saiu do Made?

Kim Kehl. Isso... Em 82, junto com o Benny na bateria e o Marcio Milani no baixo, nos reuníamos para ensaiar músicas e sair tocando. De tudo um pouco: material do 'Lírio de Vidro', músicas novas e alguns covers, como sempre.

2112. A banda chegou a gravar um álbum pela Baratos Afins, não é?
Kim Kehl. Sim. A Baratos Afins procurava uma banda de Rock para gravar e propôs que nos juntássemos ao guitarrista e cantor Thomas Beerman, alemão que veio para o Brasil com a banda Bagga’s Guru.

2112. Me diga uma coisa: porque a banda não vingou?

Kim Kehl. Gravamos um ótimo LP, com músicas que eu gosto de tocar até hoje, mas a banda, na época, não conseguiu sair do lugar. Fizemos poucos, mas importantes shows, e alguns programas de TV. Pintou um desgaste semelhante ao do 'Lírio de Vidro', uma fase difícil. Mas foi bom conhecer o Luiz Calanca e a Baratos Afins, até hoje um querido amigo. Foi uma de suas primeiras produções como gravadora independente, a terceira, acho eu.

2112. Foi neste período antes de formar os Kurandeiros que você trabalhou com o Nasi & Os Irmãos do Blues e acompanhou Ciro Pessoa na banda Nu Descendo a Escada?

Kim Kehl. Conheci o Nasi em uma jam-das-segundas-feiras-a-meia-noite-no-Aeroanta, com músicos da cena de SP anos 90, e com o sucesso, logo se tranformou no 'trabalho-solo' do Nasi. Foi uma banda muito produtiva, o Nasi é um grande parceiro para compor, e fizemos boas coisas juntos. Infelizmente, a agenda d'Os Irmãos' era sempre subalterna à agenda do Ira!, o que tornava a banda apenas sazonal. Mas foi uma grande banda.
Quanto ao Ciro, tive a honra de tocar com ele e os atuais Kurandeiros no projeto "Ciro Pessoa & Nu Descendo a Escada'. Há um bom material escrito, em arquivo. Por motivos pessoais do Ciro, tivemos algumas interrupções, e seguimos com Os Kurandeiros, enquanto posteriormente, ele engatou com um novo projeto, a banda 'Flying Chair'

2112. Em que momento surgiu Os Kurandeiros?

Kim Kehl. Eu já tinha algumas músicas dos 2 primeiros álbuns desde o fim dos anos 80's, e estava tentando ganhar impulso para começar uma nova banda, convidando os amigos para participar, da maneira que fosse possível. Kim Kehl & Os Kurandeiros é um nome que surgiu no início dos anos 90. Mas é apenas um novo nome, um nome bacana, para a mesma banda que tenho mantido todos esses anos, para tocar e cantar meu repertório ... para mim é isso. Ultimamente, estamos usando apenas 'Kurandeiros'.

2112. O seu timbre de voz lembra muito as dos bluesmans em particular Johnny Winter... Não estou comparando ou mesmo dizendo que você o copia, entendeu? Mas a similaridade entre vocês dois é incrível e muito mais quando se escuta os álbuns dos Kurandeiros. Ele é uma grande influência sua ou eu me enganei? 

Kim Kehl. É claro que é. Para minha geração, o Johnny Winter é um ícone, só amor para o Johnny. Mas, a minha grande inspiração para cantar, são cantores de rock nacional que eu pude ver em pessoa e que realmente me impressionaram: Cornélius Lúcifer, Percy Weiss, Nasi, Caio Flávio... Esse é o mundo do qual faço parte, quero levar adiante essa tradição.

2112. A sua morte foi uma grande perda tanto para o rock, como para o blues. Ele era realmente fodaço...     

Kim Kehl. Totalmente fodaçççço!

2112. Falando em Johnny, você conhece um bootleg do Jimi Hendrix chamado “Woke Up This Morning and Found Myself Dead” com participação de Winter e do Jim Morrison dos The Doors numa jam gravada no The Scene Club em Nova York?  

Kim Kehl. Não ouvi, acho..

2112. Cara, o bootleg traz a mesma gravação em duas versões: mono e stereo e a qualidade de som é incrivelmente fantástica...

Kim Kehl. Não sei...

2112. Mas voltando aos Kurandeiros, todos no grupo colaboram com composições?

Kim Kehl. Geralmente, apareço com algo quase pronto, alguma coisa que tenha muito a ver com todos. Faço também algumas versões e apropriações, as vezes óbvias, que já me renderam algumas ofensas... rsrs Trabalho também com idéias e sugestões dos músicos da banda. Mas, sim, respondo pela direção musical e repertório.

2112. A banda tem uma qualidade instrumental que a diferencia de muitas bandas atuais do rock brasileiro por trazer à tona o blues e o rock’n’roll em seu estado cru e direto sem muitas firulas ou efeitos de estúdio. Como você definiria o som da banda?

Kim Kehl. Procuro tocar da maneira mais simples possível, mas tomamos liberdades, somos uma banda de rock Brasileiro, não somos puristas do Blues, do Country ou Jazz. A formação do trio básico dos Kurandeiros tem estado estável desde 2011, com o Carlinhos na bateria e o Luiz no baixo. Isso faz uma diferença incrível. Estamos muito entrosados, estou curtindo tocar como nunca!
2112. Neil Young é conhecido por gravar tudo ao vivo num único take e posteriormente acrescenta uns poucos overdubs para não perder a espontaneidade. E vocês?   

Kim Kehl. Concordo totalmente com essa abordagem. Procuramos fazer assim também, quando possível!    

2112. Como é recriar a energia dos shows em estúdio?     

Kim Kehl. Mantendo as coisas simples e não exagerando muito em efeitos. Nos álbuns dos Kurandeiros procuro manter essa simplicidade mas timbrar cada um de modo diferente. Então nosso 1° é bem seco, o Mambo Jambo e mais pesado, e o 7 Anos, que fiz em casa, com mais tempo disponível, é mais profundo... no EP Seja Feliz, voltamos ao início dos 70.
2112. Mesmo com tanta porcaria sendo classificada como “música” atualmente o que você tem escutado de bacana no rock brasileiro?  

Kim Kehl. Não vou citar nomes, mas ouço coisas legais sim, a maioria no underground, mas no mainstream também. O mercado ainda está em choque com a internet, tentando reorganizar. As ferramentas estão agora mais acessíveis, nas nossas mãos, e eu gosto disso. Existe uma quantidade enorme de lixo eletrônico, mas sempre tem gente tocando boa música em algum lugar, e acho que sempre vai existir o rock Nacional também.

2112. Costumo dizer que o melhor do rock está no underground... Você concorda com isso?

Kim Kehl. Agora, eu acho que praticamente só existe o underground! rsrs

2112. Ano passado vocês lançaram o EP Seja Feliz. E para este ano a banda tem projeto de gravar um álbum inteiro?   

Kim Kehl. Gostaria muito, temos um monte de músicas, literalmente, para gravar... mas é preciso criar as condições $$$. Enquanto isso, temos uma boa quantidade de material de arquivo ao vivo, de boa qualidade, e que gostaria de lançar em 2 álbuns. Um com apresentações ao vivo em rádios, e outro, um show ao vivo gravado em 2009. Serão edições simples, mas acho que os fãs vão curtir. Os Kurandeiros ao vivo tem sempre uma boa energia, e as versões ao vivo são sempre exageradas, quase grotescas, o que, na minha opinião, combina com nosso repertório. Para isso, estamos em busca de parceria.

2112. O microfone é seu...

Kim Kehl. Carlos e amigos do 2112 obrigado pelo convite para conversar sobre meu trabalho musical. É uma grande honra e privilégio para mim. Grande abraço à todos!

sábado, 17 de março de 2018

Entrevista Nuno Mindelis


É maravilhoso quando se consegue realizar grandes sonhos em sua vida... e que de alguma maneira repercute na vida de outras pessoas. Esta entrevista é uma delas assim como foi com o Made In Brazil, China Lee, Tibet, Beto Guedes, Marcos Valle entre muitos outros. Nuno Mindelis é um dos percursores do blues em nosso país numa época que pouco se falava sobre isso: blues brasileiro! Foi uma grande honra entrevistar um dos meus ídolos que é considerado um dos maiores guitarristas do mundo. Yeah!!

2112. A sua história com a música começou aos 5 anos de idade ainda em Angola... Você tem idéia do que você ouviu ao ponto de desejar ser músico? Os seus pais eram também eram músicos ou na sua casa ouvia-se muito música?

Nuno Mindelis. Ninguém era músico na família. Zero. Ouvia-se bastante música clássica e francesa, meus pais eram da leitura, da música, do Teatro etc. Gostavam muito, além dos clássicos (Beethoven, Mozart, etc.) de Gibert Bécaud, Georges Brassens e outros. Não sei qual foi o estímulo, mas além desse, provavelmente o começo do rock ’n roll e da guitarra rock, que foi meio naquela época, um pouquinho só antes de eu nascer. E quando tinha uns 5 ou 6 anos surgiram Beatles com força. Chegou um compacto com Hey Jude lado A e Revolution Lado B. Pode ter sido tudo isso, mas ainda acredito que possa também ser genético. Da mesma forma que saí tocando sem ninguém me ensinar, saí desenhando, escrevendo e outras coisas.

2112. É verdade que você aos 9 anos já confeccionava seus próprios instrumentos? 

Nuno Mindelis. Sim, (na verdade antes dos nove, aos nove ganhei violão de verdade) eu aprendi com os meus coleguinhas nativos. Numa lata de azeite de 5 litros fazia um buraco como aqueles dos violões, adaptava um pedaço de madeira como escala e usava fios de nylon de pesca como cordas. Tenho uma réplica mais ou menos recente de um desses, ainda os fazem por lá. 

2112. Os seus pais o incentivava? 

Nuno Mindelis. Eu diria que eles talvez se espantassem mais do que incentivassem. Mas deles ganhei o primeiro violão de verdade, aos 9 anos. A escola, o curso superior etc. eram sempre mais incentivados, de forma obsessiva até. Mas os professores (apesar de muito bons tecnicamente) eram uma lástima do ponto de vista pedagógico. Eu simplesmente não tinha interesse naquilo. Apesar disso, a ‘síndrome do fracasso’ fica tão impregnada que me formei em Direito. 

2112. Que impacto causou o blues na sua vida? Foi amor à primeira vista?  

Nuno Mindelis. Pode-se dizer que sim. Já ouvia um monte de coisa (Otis redding, Beatles, Shadows, etc.) quando ouvi B.B. King e Big Bill Broonzy aos 10 anos nunca mais fui o mesmo.

2112. Em 1975 sua família mudou-se para o Canadá e lá você formou uma banda de blues e participou também de várias jams nos clubes locais. Deve ter sido um período de grande aprendizado, não é? 

Nuno Mindelis. Parte da família, meu pai não foi. Sim, sem dúvida, na questão do aprendizado. Mas mais aprendizado ainda foi assistir de perto os meus heróis, verdadeiros Deuses inalcançáveis cujos LPs tinha em África, de repente ali, bem na minha frente, dava para pedir música. Aos 17 vi Willie Dixon com banda da Chess Records e Roy Buchanan na guitarra, por exemplo. 

2112. Nestas idas aos clubes você chegou a tocar com algum grande bluesmam?  

Nuno Mindelis. Não naquela época. Tinha só 17 anos e era o começo de um longo exílio. Mas raspei uns caras em canjas que hoje são artistas consagrados. 

2112. Um ano depois você já estava morando em terras brazillis... Até o lançamento de Blues & Derivados o que você fez neste período?   

Nuno Mindelis. Fiquei tentando sobreviver, redesenhando a minha vida, tinha perdido tudo na guerra civil, trabalhando em emprego regular, batente durante o dia todo, terminando faculdade à noite, alguma gig de noite aqui e ali também e nos fins de semana, 3 filhos para alimentar etc.

2112. 1990 marca o lançamento do seu primeiro trabalho o “Blues & Derivados” pelo selo Eldorado. Como surgiu a proposta?  

Nuno Mindelis. Blues & Derivados não foi na verdade selo Eldorado. E foi acho que em 1987 ou 88. Saiu por um estúdio/gravadora independente (Origem) que fez uma parceria com a Brasil 2000 (rádio). O que acontece é que a rádio Eldorado tocou muito esse disco, tinha uma versão blues para uma música do Caetano que eles piraram. 
  • Informação incluída na discografia do guitarrista na Wikipédia: Blues e Derivados (1989) em formato LP vinil pelo selo Eldorado.
2112. Você já tinha material autoral suficiente ou também incluiu releituras de clássicos? 

Nuno Mindelis. Coloquei somente um clássico, I put a Spell on You, de Screaming Jay Hopkins, mas porque gosto da música, não porque faltasse material.

2112. O que mais o inspira na hora de compor? 

Nuno Mindelis. Atualmente, para ser franco, pouca coisa. Talvez somente o próprio blues seja o motor. 

2112. 1992 foi um ano fecundo com a sua participação em vários festivais de blues e também do lançamento do álbum Long Distance, certo?  

Nuno Mindelis. De fato. Ali acharam que eu era a melhor coisa depois da descoberta da mortadela, então era chamado para tudo, aparecia o tempo todo na TV, jornais, rádios. Mas foi preciso muito suor e anos de trabalho para (e que a revista Veja e a Radio Brasil 2000 revelassem que valia a pena) para os festivais acreditarem e chamarem.

2112. Me responda uma coisa... por que este álbum foi relançado em 1988 como Nuno Mindelis & The Cream Crackers? Algum problemas contratual? 

Nuno Mindelis. Boa pergunta, por que foi relançado sem eu ser consultado, com capa diferente, nome diferente, sequência diferente, tudo diferente mas a mesma coisa? (tive amigos que compraram e descobriram que já tinham, era o mesmo álbum). Essa aberração é cometida pela gravadora que não tem respeito pelo artista e nem o consulta sobre o assunto. Recentemente estão fazendo o mesmo com os fonogramas, publicaram nas plataformas digitais sem me avisar e sequer ajustar royalties. Descobri por acaso, assim como o relançamento desse disco. 

2112. Seus esforços foram recompensados ao ser eleito pela revista Guitar Player em 1994 como o melhor guitarrista internacional de blues. O que isto significou para você? O prêmio te abriu muitas portas?    

Nuno Mindelis. Foi em 1998 o prêmio. Antes (acho que em 1992) foi um spotlight (destaque) feito pelo editor da revista, que comparou a Jimmy Page. Sobre o prêmio, não sei se abriu tantas portas assim, as maiores portas foram provavelmente da autoconfiança. Apesar disso, numa época em que não havia distribuição digital, comecei a receber cartas dos EUA e da Europa sobre o fato. Foi uma grande vitrine e trata-se da Bíblia mundial da guitarra. 

2112. Você é tipo que ouve apenas blues ou gosta de tudo um pouco?  

Nuno Mindelis. Eu sou o tipo que se bobear gosta mais de outras coisas até mais do que de blues. Blues para mim não é gosto, é religião e abecedário, é outra coisa. Ouço muito pouco, aliás. E quando ouço, prefiro milhares de vezes os meus heróis, John Lee Hooker, Jimmy Reed, etc. Eu gosto muito de muitas outras coisas, seja na música ou em qualquer área. Eu ouço muito mais Keith Jarret e Bob Dylan do que blues, por exemplo. E gosto de bandas novas boas também, inglesas (e algumas americanas como Alabama Shakes, Foo Fighters etc.). Falando em Alabama, eu gosto muito de Alabama3, que faz blues com eletrônica. Gosto de Marisa Monte, Zé Ramalho, de Nick Drake, Alex Murdoch, etc.etc.

2112. Particularmente acho que todos os músicos deveriam ouvir vários segmentos musicais para criarem um estilo próprio e mesmo apreciar a música por diferentes ângulos. Achei muito interessante o grupo Sepultura ter incluído material étnico em Roots pois deu novas possibilidades para o heavy metal que é uma vertente muito fechada, não é?      

Nuno Mindelis. Sem dúvida nenhuma. Sou favorável a misturas, sou aliás bastante irrequieto com isso. O meu último disco de blues elétrico em formato tradicional é de 2003. Depois disso só fiz experiências, com eletrônica e outros elementos, em português, poesia, etc. Fiz um disco chamado Free Blues que exatamente pegava os clássicos que fizeram a minha cabeça quando criança e os relia com elementos novos, eletrônica, hip hop, etc. RL Burnside lançou pelo menos dois discos assim dos quais gosto muito. 

2112. E mesmo você ao aproximar o blues do samba, da tecnologia usando baterias eletrônicas em um dos seus álbuns e mesmo a inclusão de DJ’s em seus shows. Porque devemos ser tão fiéis diante de infinitas possibilidades, não é mesmo?    

Nuno Mindelis. Acho que a linguagem pura serve para você aprender as regras. Depois de conhecê-las bem, deve quebrá-las, de preferência. Mas atenção , repito: depois de as conhecer bem, senão é chute sem valor artístico. Em palavras mais simples: antes de pintar abstrações, deve ser capaz de pintar paisagens e/ou desenhar retratos decentemente. Por aí. 

2112. Os mais puristas reclamaram muito com você?

Nuno Mindelis. Na verdade não. Talvez quem não compreendeu a proposta tenha deixado de ouvir sem reclamar. Mas conheço pelo menos três super puristas que acham Free Blues o melhor caminho e me pedem para continuar nele, inclusive. (puristas de rádios e produções nos EUA, que são mais radicais em geral, até). 

2112. ... mas o risco foi positivo? 

Nuno Mindelis. Sempre é positivo. Mesmo que não pareça na época em que se faz.  Sempre é preciso risco na arte e na vida. Eu faço as coisas por elas próprias, faço para mim. O que credencia é o tempo e a sinceridade da obra. As pessoas em geral só compreendem as coisas muito tempo depois, se elas estiverem por aí podem acabar sendo descobertas, como pepitas. Senão, não, mas você fez a coisa certa. 

2112. Em conversa com Álvaro Assmar falei do meu desejo em ouvir um disco tributo ao Cartola com suas músicas vertidas para o blues. Não seria algo inusitado e interessante? 

Nuno Mindelis. Poderia ser, claro. Mas quem fizesse teria que saber bem as regras, senão ficaria estereotipado.  

2112. Numa resenha de um box sobre o compositor Cartola fui rechaçado ao dizer que suas composições eram tão intensas e viscerais quanto as do bluesman Robert Johnson. E eu fiquei me perguntando o que os faziam diferentes. A música? A etnia? Vejo que o que os une é muito mais forte que é o racismo que eles vivenciaram e o próprio amor que ainda é matéria prima para o blues e o próprio samba de raiz.     

Nuno Mindelis. Eu sempre uso esse tipo de comparação, caras como Pixinguinha etc. me parecem o equivalente dos bluesman do Mississipi, em legitimidade e talento. Nada para ser rechaçado, você está certo nisso. 

2112. Regis Tadeu escreveu certa vez que você é “um dos maiores representantes do blues da América do Sul (...) um compositor de mão cheia" e um "excelente guitarrista.” Isso mexe com seu ego ou você é do tipo que continua seguindo em frente? 

Nuno Mindelis. A única coisa que isso mexe em mim é no carinho pelo Regis, aos 30 anos talvez isso mexesse no ego, agora não chega perto. 

2112. Em suas viagens para tocar em festivais ou apresentações próprias você fica atento ao que está acontecendo com o cenário do blues. Na sua opinião ele cresceu nos últimos anos?  

Nuno Mindelis. Não tão atento, vai parecer arrogante mas é sincero, é difícil me surpreender depois deste tempo todo (até com gringos no blues contemporâneo, que praticamente não ouço). Apesar disso, sei que há talentos muito grandes no blues nacional, ele cresceu muito, especializou-se bastante.  O blues contamina, mesmo não estando na mídia, há sempre um moleque querendo aprender a tocar gaita no Arroio e outro dedilhando com bottleneck no Chuí. 

2112. Quem você destacaria atualmente?  

Nuno Mindelis. Diria que Fred Sunwalk é um guitarrista de primeiríssima. Como dizem os americanos, alguns têm “the thing”, outros tocam bem mas não têm. “The thing’ muda tudo, emociona, impressiona, move, empurra, etc...  

2112. Bandas principiantes o procura para que avaliem seus trabalhos? Tem muita coisa bacana acontecendo sem o conhecimento do público?  

Nuno Mindelis. A vida inteira recebo material de bandas e mais bandas. Umas gosto, outras nem tanto. 

2112. Meu primeiro entrevistado foi o guitarrista Igor Prado. Acho o seu trabalho bem interessante e diversificado ao trazer elementos do soul, do funk, do boogie, do rthythm & blues e claro do próprio blues que é a base do seu trabalho. Isso o leva a interagir com variadas plateias além de dar a ele condições para experimentar constantemente, não é?             

Nuno Mindelis. Costumo chamar isso de erudição. Não basta gostar de Stevie Ray Vaughan, sair copiando e achar que já foi. Ninguém pode ser completo e transcender se não tiver na bagagem milhares de horas e audição de todos os mestres em todos o gêneros possíveis. Não existe blues sem Gospel (o de verdade) ou spirituals, não existe electric blues sem delta Blues e sem soul, não existem Jazz, rock, country ou folk sem blues ou sem soul. A música americana (chamada justamente de ‘Americana” pelos próprios americanos), é um DNA completo, é mais vasto do que somente um gênero ou outro. É como aprender samba sem aprender bossa ou coisa parecida. Igor acompanha artistas de fora, só por isso já ampliou o vocabulário. 

2112. Isso muito me faz lembrar do Robert Cray e sua música...

Nuno Mindelis. Robert Cray é Blues e Soul. Com pitadas de Pop, na fase inicial. Foi uma boa fórmula, na minha opinião, embora eu só ouça quando toca em algum rádio que deixei ligado. 

2112. Você poderia falar um pouco sobre os álbuns Outros Nunes e Free Blues?  

Nuno Mindelis. Acabei falando um pouco sobre eles antes. Free Blues visava responder à pergunta de uma criança do século 21: o que é blues?  Bom, vamos responder com um pouco de atualização de linguagem e de forma mais palatável, esse foi o mote, digamos. Afinal, quando eu era menino e ouvi John Mayall & The Bluesbreakers aquilo já era blues com injeção de eletricidade e de rock. Stones também! Não era o blues tradicional de Skip James, Son House ou Robert Johnson. E essa mistura arrebatou gerações e mais gerações, que acabaram conhecendo (e se apaixonando por) blues do qual nem tinham ouvido falar. Portanto imaginei que para as gerações século 21 a injeção deveria ser de eletrônica e rap, trance, coisas assim. Sem perder a magia do blues.  Se deu certo para mim e para tanta gente, por que não daria para a molecada de então? (foi em 2010) . Outros Nunos era um pouco isso também, mas tinha menos foco no blues em si (embora tudo que eu encoste vire blues) e mais na questão de eu precisar ‘vomitar’ todos os textos em português que escrevo desde sempre, que ficam em baús e mais baús, gavetas e mais gavetas, guardanapos e mais guardanapos. Tem letra ali que escrevi com 17 anos (Rei dos Animais, por exemplo). 

2112. A última vez que ouvi falar de um disco seu foi em 2013 quando comprei o Angels & Clowns com a participação da The Duke Robillard Band. Como surgiu essa parceria?   

Nuno Mindelis. Obrigado por ter adquirido o disco. O selo Duchess Blue é de Duke e de um grande fan meu de muitos anos, americano. Um dia encontrei os dois numa cerimônia do Memphis Blues Awards e papo vai papo vem um tempo depois, relembrando daquele dia etc. veio a idéia de fazer um disco pelo selo deles. Era para ser um disco de Blues mas acabei fazendo Angels & Clowns que não é blues na forma tradicional. (taí um indício inequívoco da questão que vc colocou sobre a necessidade de  diversidade musical, bagagem, fusões etc..Angels tem um pouco de tudo o que ouvi, Soul de Booket T e Otis, Rock de Jimi, Pink Floyd , Stones , etc.etc.etc.) 

2112. Quando teremos um novo trabalho seu?

Nuno Mindelis. Estou pensando se vale a pena. Parece que agora é preciso que a letra tenha palavões, sexo explícito e as melodias sejam retardadas  para lançar algo. Não consegui ainda retroceder nessa área, estou tentando. 

2112. Bem falado... aproveito para agradecer sua disponibilidade em dar esta entrevista e mesmo pela paciência em responder. O microfone é todo seu... 

Nuno Mindelis. Muito grato pela atenção e consideração. Um prazer.