quinta-feira, 22 de março de 2018

Entrevista Kim Kehl


O rock brasileiro é formado por um naipe de bandas maravilhosas... mas que precisam fazer um milagre por dia para se manterem vivas já que a mídia e uma grande parcela da população estão preocupados apenas com a mediocridade musical. Mas Kim Kehl e sua banda Kurandeiros lutam para manter vivo o espírito do verdadeiro rock’n’roll. Os quatro álbuns e um EP gravados pela banda é a garantia dessa verdade!!                  

2112. Podemos começar falando um pouco sobre a Lírio de Vidro sua primeira banda?

Kim Kehl. O "Lírio de Vidro" não foi minha primeira banda, teve um longo caminho até lá. Nasci em 1958, passei a infância ao som da Beatlemania, Festivais da Record e música clássica, então sempre foi um lance muito forte a música. Tamborilei piano, percussão e violão até uns 12 anos, até surgir um interesse mais sério. Daí foram as aulas de música, bandas de garagem e festivais de escola até chegar a guitarrista base na banda "Pecado Mortal", com o amigo de colégio Cassio Poletto, hoje consagrado guitarrista, violinista e produtor musical, e ainda um grande amigo.
Em 1976, conheci o baterista Ricardo 'índio´Cardoso em uma jam e depois de tocar um monte juntos, durante alguns meses, decidimos começar uma banda. Nossa junção era explosiva, estridente & barulhenta, e com a chegada do baixo de Luiz 'frajola' Marcello e a guitarra de Raul 'zica' Mueller, no ano seguinte, virou uma verdadeira massa sonora. Ensaiávamos na garagem da casa da minha avó paterna, e logo começamos à atrair a atenção da pessoas, já que podia se ouvir a banda tocando à 2 quarteirões de distância.  rsrs
O 'Lírio de Vidro' fez algumas apresentações privadas e aos poucos fomos indo pra rua, até começar a abrir shows para a 'Patrulha do Espaço' e a participar do festival intinerante 'Rock & Jeans', produzido pelos rockers Oswaldo Vecchionne, da 'Made in Brazil' e Luiz Carlini, da 'Tutti Frutti'.
Em 1978 tivemos uma mudança na formação com a entrada no baixo de Orlando 'netão' Neto e do guitarrista Paulo 'pirata' de morais. Seguimos tocando até o ano seguinte, e essa era a cena que existia na época, um tanto precária e amadora, mas com um público muito fiel e presente, entusiasmado.

2112. Ouvi Mar Metálico e posso afirmar que vocês faziam um som bem pesado para a época...  

Kim Kehl. Como te disse, nossa mistura era explosiva, criávamos uma quantidade enorme de energia apenas com uma guitarra e a bateria, e quando juntamos o baixo e uma 2a guitarra, virou um paredão sonoro. A 1a fase é o período clássico, quando ensaiávamos bastante e compusemos a maior parte das músicas. Com a 2a formação, passamos a maior parte do tempo na estrada.

2112. O que você ouvia?

Kim Kehl. Como te disse, minha formação era Beatles, Stones num segundo momento e à partir do início dos anos 70, tudo o que hoje chamamos de 'Classic Rock', já que não existia o termo 'Heavy Metal'. É lógico que sempre temos algumas bandas preferidas, mas nessa época, ouvia se tudo que havia para ouvir sob o nome 'Rock': Blues Rock, Hard Rock, Prog Rock, Jazz Rock, aí por diante... tudo mesmo. Foi a era de ouro da música!

2112. Outra coisa que achei bacana é que você já trabalhava com material autoral o que era um ponto a favor, não é?  

Kim Kehl. Bem, já contei isso antes, as pessoas acham difícil acreditar, mas não tinha essa de 'tocar cover'. Quando houve o primeiro ensaio, tudo montado, nos olhamos e veio a pergunta: 'o que vamos tocar?' ...aí, é claro, e já tinha alguns 'vamps' e 'riffs' na manga, e comecei compondo 'na hora' o que veio à ser nosso repertório conhecido. Parece uma pretensão incrível, hoje reconheço, mas o que queríamos era ser uma banda autoral de rock brasileiro, como Os Mutantes, O Terço e outros gigantes que habitavam a terra. Depois começamos à acrescentar, aos poucos, algumas músicas de outros artistas.

2112. Você poderia falar um pouco sobre as gravações de Mar Metálico?

Kim Kehl. Gravávamos todos os nossos ensaios, principalmente na 1° fase, com um velho Philips de rolo, em velocidade 7 1/2 e com apenas 2 microfones, um em cada canal. Posicionávamos a banda para mixar o som da sala e ... gravando. Eram horas e horas gravações precárias, só pra que a gente mesmo ouvisse nossa prática, mas algumas ficaram boas, e fui colecionando essas fitas, que ficaram guardadas por décadas.


2112. Porque esse material levou tanto tempo para vir à tona?

Kim Kehl. As fitas ficaram guardadas desde então, até o ano de 2001, quando fui procurado pelo Ray da Medusa Records, uma loja de raridades em vinil e CDs na Galeria do Rock, em SP. De alguma maneira, ele sabia da existência das fitas, e propôs recuperar e lançar o material selecionado em um CD.  Não achava que fosse possível, mas ao reouvir as fitas, depois de tanto tempo, percebi que mesmo com a precariedade da produção, as músicas apresentavam algum mérito. Após uma transferência digital minuciosa, e a criação de um trabalho gráfico baseado na arte de nossos releases originais, o álbum estava pronto. Isso tudo prova a fidelidade do público rockeiro, que mencionei antes. Em minha carreira, foi sempre muito frequente ser indagado sobre a banda 'Lírio de Vidro', que se tornou algo 'cult'. A sobrevivência desse mito sempre me deixou muito surpreso, e grato!

2112. Em Mambo Jambo já com Os Kurandeiros você regravou Vampiro. Você pretende fazer isso novamente?

Kim Kehl. A música 'Vampiro' foi composta tendo como inspiração 'Unchain my Heart', do Ray Charles. É um Blues gótico com pegada latina, se existe tal coisa ... rsrs. Em 1995, apresentei a composição para o Nasi, enquanto escolhíamos o repertório do 2° álbum d'Os 'Irmãos do Blues', 'Os Brutos Também Amam', e ele quis gravá-la. Essa versão, com metais e uma grande banda foi gravada ao vivo no Festival Internacional de Blues Nescafé & Blues. A música que dá o título ao álbum, 'Os Brutos Também Amam', também é uma composição minha, e também foi regravada para o Mambo Jambo, com Os Kurandeiros. O Nasi é um grande cantor e arrasou, é claro, mas eu queria versões atualizadas e mais rockeiras para o 2° album com Os Kurandeiros, de músicas que estavam dispersas em vários trabalhos.

2112. Nessa época você tinha um estúdio de ensaio no fundo da casa de sua vó e reza as lendas que era lá que a Patrulha do Espaço ensaiava e também realizou a pré-produção do seu primeiro álbum. Todo mundo ensaia lá?         

Kim Kehl. Era apenas uma sala de ensaio, e não um estúdio formal, como existem tantos hoje em dia, para alugar. Mas era um bom espaço, e foi bastante útil! Por estarmos próximos na época, ofereci para que a 'Patrulha do Espaço' lá fizesse os primeiros ensaios depois da saída do Arnaldo Baptista, preparando um novo trabalho. Foi memorável! Assisti ali, ao vivo, a criação de vários clássicos da Patrulha, em companhia de amigos queridos, alguns dos quais já nos deixaram na saudade! Os Kurandeiros tem tocado ultimamente, algumas dessas músicas, em sentida homenagem.

2112. Ouvi dizer que o Oswaldo ao contratar você e o baterista Índio acelerou o fim da Lírio de Vidro. Isso é verdade?   

Kim Kehl. Não é bem assim! Quando veio o convite do Oswaldo para integrar o 'Made in Brazil', a verdade é que o 'Lírio de Vidro' estava em uma sinuca e em evidente esgotamento. Já conhecia o Oswaldo a anos, grande mestre e querido amigo, e o Made estava em uma mudança importante também. Eu e o Índio entramos juntos para integrar a banda de estrada do Made, agora um quarteto, com o Oswaldo assumindo o vocal.  O Índio logo quis sair, e no lugar entrou o Beni, revezando sempre com o Nelson Pavão e o Franklin Paolillo. Foi uma decisão profissional correta, não tinha como, e veio um período muito produtivo de trabalho para todos, muito legal mesmo. O resto é história!

2112. Como foi trabalhar em um grupo com uma estrutura melhor?     

Kim Kehl. A banda estava bem estruturada, com equipamento, equipe, assessorias e gravadora (RCA), agenda... Em 80/81/82 tocamos muito, centenas de shows. Participamos também do timaço de musicos que gravou o LP 'Minha Vida é o Rock and Roll': Oswaldo, Celso, Tony Babalu, Edu Depose, Juba (antes da Blitz), Wander Taffo, Manito, Marinho Testoni e muitos outros. Quer dizer, foi uma grande fase, puro Rock and Roll!  

2112. Em quantos discos do Made você participou?

Kim Kehl. O LP 'Minha Vida é o Rock and Roll' é o ultimo do Made na RCA, depois vem a fase independente. Participo de vários nos anos 80 e 90. Ultimamente, tenho participado da Tour 50 Anos, com DVDs e CDs já lançados, material ao vivo de alta qualidade, muito legal.

2112. O que te levou a sair da banda? 

Kim Kehl. É muito bom ter um bom emprego. rsrs... Mas tem que ter o laboratório onde testamos tudo, é uma necessidade da natureza do artista. Quero tocar, compor, cantar, produzir e gravar, e nem sempre temos espaço no 'trabalho'. E, uma banda não é tão regular como uma repartição pública, existe o desgaste, o risco, a fase ruim de $... Então é um processo natural da vida por aí.

2112. É verdade que você ganhou mais dinheiro trabalhando com uma dupla sertaneja que com o próprio rock?

Kim Kehl. Sim, é verdade! Esse foi o período profissional mais importante pelo qual passei, o auge da minha carreira como musico acompanhante, o sideman. O convite para integrar uma dupla de sucesso popular no auge da carreira é irrecusável, e a experiência que me proporcionou é inestimável. Tive a oportunidade de participar um fenômeno de sucesso de massa em nosso país, com tudo o que isso significa. É uma grande responsabilidade, e encontrei nessa trilha muitos colegas músicos de imenso valor.

2112. O que fez você voltar para o rock’n’roll? 

Kim Kehl. Depois de 10 anos no universo sertanejo, chegou o momento de voltar para casa. Não que tivesse jamais abandonado o rock. Gravei o 1° álbum dos Kurandeiros entre 1999/2002, nas brechas de minha agenda de shows com a dupla, e com as condições financeiras favoráveis que esse trabalho possibilitou. Fiz alguns show de lançamento também. Pra tocar, a gente sempre acha tempo... rsrs

2112. O Mixto Quente surgiu depois que você saiu do Made?

Kim Kehl. Isso... Em 82, junto com o Benny na bateria e o Marcio Milani no baixo, nos reuníamos para ensaiar músicas e sair tocando. De tudo um pouco: material do 'Lírio de Vidro', músicas novas e alguns covers, como sempre.

2112. A banda chegou a gravar um álbum pela Baratos Afins, não é?
Kim Kehl. Sim. A Baratos Afins procurava uma banda de Rock para gravar e propôs que nos juntássemos ao guitarrista e cantor Thomas Beerman, alemão que veio para o Brasil com a banda Bagga’s Guru.

2112. Me diga uma coisa: porque a banda não vingou?

Kim Kehl. Gravamos um ótimo LP, com músicas que eu gosto de tocar até hoje, mas a banda, na época, não conseguiu sair do lugar. Fizemos poucos, mas importantes shows, e alguns programas de TV. Pintou um desgaste semelhante ao do 'Lírio de Vidro', uma fase difícil. Mas foi bom conhecer o Luiz Calanca e a Baratos Afins, até hoje um querido amigo. Foi uma de suas primeiras produções como gravadora independente, a terceira, acho eu.

2112. Foi neste período antes de formar os Kurandeiros que você trabalhou com o Nasi & Os Irmãos do Blues e acompanhou Ciro Pessoa na banda Nu Descendo a Escada?

Kim Kehl. Conheci o Nasi em uma jam-das-segundas-feiras-a-meia-noite-no-Aeroanta, com músicos da cena de SP anos 90, e com o sucesso, logo se tranformou no 'trabalho-solo' do Nasi. Foi uma banda muito produtiva, o Nasi é um grande parceiro para compor, e fizemos boas coisas juntos. Infelizmente, a agenda d'Os Irmãos' era sempre subalterna à agenda do Ira!, o que tornava a banda apenas sazonal. Mas foi uma grande banda.
Quanto ao Ciro, tive a honra de tocar com ele e os atuais Kurandeiros no projeto "Ciro Pessoa & Nu Descendo a Escada'. Há um bom material escrito, em arquivo. Por motivos pessoais do Ciro, tivemos algumas interrupções, e seguimos com Os Kurandeiros, enquanto posteriormente, ele engatou com um novo projeto, a banda 'Flying Chair'

2112. Em que momento surgiu Os Kurandeiros?

Kim Kehl. Eu já tinha algumas músicas dos 2 primeiros álbuns desde o fim dos anos 80's, e estava tentando ganhar impulso para começar uma nova banda, convidando os amigos para participar, da maneira que fosse possível. Kim Kehl & Os Kurandeiros é um nome que surgiu no início dos anos 90. Mas é apenas um novo nome, um nome bacana, para a mesma banda que tenho mantido todos esses anos, para tocar e cantar meu repertório ... para mim é isso. Ultimamente, estamos usando apenas 'Kurandeiros'.

2112. O seu timbre de voz lembra muito as dos bluesmans em particular Johnny Winter... Não estou comparando ou mesmo dizendo que você o copia, entendeu? Mas a similaridade entre vocês dois é incrível e muito mais quando se escuta os álbuns dos Kurandeiros. Ele é uma grande influência sua ou eu me enganei? 

Kim Kehl. É claro que é. Para minha geração, o Johnny Winter é um ícone, só amor para o Johnny. Mas, a minha grande inspiração para cantar, são cantores de rock nacional que eu pude ver em pessoa e que realmente me impressionaram: Cornélius Lúcifer, Percy Weiss, Nasi, Caio Flávio... Esse é o mundo do qual faço parte, quero levar adiante essa tradição.

2112. A sua morte foi uma grande perda tanto para o rock, como para o blues. Ele era realmente fodaço...     

Kim Kehl. Totalmente fodaçççço!

2112. Falando em Johnny, você conhece um bootleg do Jimi Hendrix chamado “Woke Up This Morning and Found Myself Dead” com participação de Winter e do Jim Morrison dos The Doors numa jam gravada no The Scene Club em Nova York?  

Kim Kehl. Não ouvi, acho..

2112. Cara, o bootleg traz a mesma gravação em duas versões: mono e stereo e a qualidade de som é incrivelmente fantástica...

Kim Kehl. Não sei...

2112. Mas voltando aos Kurandeiros, todos no grupo colaboram com composições?

Kim Kehl. Geralmente, apareço com algo quase pronto, alguma coisa que tenha muito a ver com todos. Faço também algumas versões e apropriações, as vezes óbvias, que já me renderam algumas ofensas... rsrs Trabalho também com idéias e sugestões dos músicos da banda. Mas, sim, respondo pela direção musical e repertório.

2112. A banda tem uma qualidade instrumental que a diferencia de muitas bandas atuais do rock brasileiro por trazer à tona o blues e o rock’n’roll em seu estado cru e direto sem muitas firulas ou efeitos de estúdio. Como você definiria o som da banda?

Kim Kehl. Procuro tocar da maneira mais simples possível, mas tomamos liberdades, somos uma banda de rock Brasileiro, não somos puristas do Blues, do Country ou Jazz. A formação do trio básico dos Kurandeiros tem estado estável desde 2011, com o Carlinhos na bateria e o Luiz no baixo. Isso faz uma diferença incrível. Estamos muito entrosados, estou curtindo tocar como nunca!
2112. Neil Young é conhecido por gravar tudo ao vivo num único take e posteriormente acrescenta uns poucos overdubs para não perder a espontaneidade. E vocês?   

Kim Kehl. Concordo totalmente com essa abordagem. Procuramos fazer assim também, quando possível!    

2112. Como é recriar a energia dos shows em estúdio?     

Kim Kehl. Mantendo as coisas simples e não exagerando muito em efeitos. Nos álbuns dos Kurandeiros procuro manter essa simplicidade mas timbrar cada um de modo diferente. Então nosso 1° é bem seco, o Mambo Jambo e mais pesado, e o 7 Anos, que fiz em casa, com mais tempo disponível, é mais profundo... no EP Seja Feliz, voltamos ao início dos 70.
2112. Mesmo com tanta porcaria sendo classificada como “música” atualmente o que você tem escutado de bacana no rock brasileiro?  

Kim Kehl. Não vou citar nomes, mas ouço coisas legais sim, a maioria no underground, mas no mainstream também. O mercado ainda está em choque com a internet, tentando reorganizar. As ferramentas estão agora mais acessíveis, nas nossas mãos, e eu gosto disso. Existe uma quantidade enorme de lixo eletrônico, mas sempre tem gente tocando boa música em algum lugar, e acho que sempre vai existir o rock Nacional também.

2112. Costumo dizer que o melhor do rock está no underground... Você concorda com isso?

Kim Kehl. Agora, eu acho que praticamente só existe o underground! rsrs

2112. Ano passado vocês lançaram o EP Seja Feliz. E para este ano a banda tem projeto de gravar um álbum inteiro?   

Kim Kehl. Gostaria muito, temos um monte de músicas, literalmente, para gravar... mas é preciso criar as condições $$$. Enquanto isso, temos uma boa quantidade de material de arquivo ao vivo, de boa qualidade, e que gostaria de lançar em 2 álbuns. Um com apresentações ao vivo em rádios, e outro, um show ao vivo gravado em 2009. Serão edições simples, mas acho que os fãs vão curtir. Os Kurandeiros ao vivo tem sempre uma boa energia, e as versões ao vivo são sempre exageradas, quase grotescas, o que, na minha opinião, combina com nosso repertório. Para isso, estamos em busca de parceria.

2112. O microfone é seu...

Kim Kehl. Carlos e amigos do 2112 obrigado pelo convite para conversar sobre meu trabalho musical. É uma grande honra e privilégio para mim. Grande abraço à todos!

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