quarta-feira, 4 de abril de 2018

Entrevista Jazzmine


O Brasil é um dos países mais rico em diversidade musical do planeta Terra. Basta visitar seus estados, suas cidades, seu folclore, seus festivais espalhados por todo o canto do país que veremos a rica herança que possuímos. É uma pena que a grande mídia perdida nos vícios banais do imediatismos não divulgue toda essa riqueza. Mas enquanto houver cabeças pensantes teremos bandas bacanas como o Jazzmine. Leia a entrevista e veja se estou errado!      

2112. Podemos iniciar nossa conversa falando um pouco sobre o surgimento da banda, pode ser?

Jefferson. Claro! A banda surgiu em 2014 quando nós três trabalhávamos na academia de música BSB Musical. Já nos conhecíamos de outros trabalhos, mas convivendo diariamente na escola, as idéias fluíram mais fácil. Assim, o Alan fez o convite ao Luís para montar o projeto autoral ao mesmo tempo em que chamei o Luís para fazermos um trabalho de duo (baixo e guitarra). Acabou que montamos o Jazzmine com a proposta de fazer música instrumental autoral e que nós nos identificássemos com a sonoridade da banda.

2112. Vocês estudaram na Escola de Música de Brasília o que significa que tiveram acesso a uma grande variedade de ritmos. Isso de certa maneira ajudou na rica musicalidade do Jazzmine?

Jefferson. Com certeza! Primeiro, porque foi lá na Escola de Música que nós conhecemos e a Escola possibilita que pratiquemos vários gêneros músicas de forma bem aprofundada além de nos ajudar a se aprofundar musicalmente nos gêneros que mais gostamos. Então a Escola de Música tem sim participação fundamental na nossa formação musical e consequentemente na forma como o Jazzmine faz música.

2112. Quais bandas ou instrumentistas mais influenciam vocês?

Jefferson. Milton Nascimento, Gilberto Gil, Led Zeppelin, Pat Metheny, Arthur Maia, Cama de Gato, Hiromi Uehara, Jamiroquai, Metallica, Charles Mingus.

Luis: Ricardo Silveira, Mike Stern, Robben Ford, Luciano Magno, Lenine. Além dos citados acima

Alan. Dave Weckl, Dave Matthews Band, Spyro Gyro, Dream Theater, Rush, Tears for Fears, Ivan Lins.

2112. Ainda em 2014 vocês compõem o material que faria parte do primeiro EP de vocês. Enfim, todos na banda colaboram com composições?  

Jefferson. Sim. A gente compõe em trio mesmo. Reunimos-nos duas vezes por semana e passamos a manhã ensaiando e compondo. Quase tudo parte de uma sugestão e um de nós três. Alguns compassos de uma melodia, algo rítmico ou uma cadência harmônica e aí nós vamos elaborando.
Quando temos alguma ideia em casa normalmente gravamos o áudio, ou um vídeo e enviamos no grupo do whatsapp e aí todo mundo já vai pensando e na sequência. Quando a gente chega pra ensaiar juntamos todas as idéias, criamos coisas novas juntas e transformamos tudo em música.

2112. É muito comum entre bandas de jazz criar a maioria de suas músicas a partir de jams ou mesmo durante os ensaios. Isto também acontece com vocês?   

Jefferson. Normalmente criamos tudo durante os ensaios. São raras as composições já virem prontas por parte de apenas um de nós. Normalmente a gente amarra as sugestões musicais que surgem e criamos uma música dos três. Do jazzmine.

2112. Em pouco tempo vocês lançaram o EP Three Songs Album. Poderiam comentar um pouco sobre as gravações?  

Jefferson. O primeiro EP fazia parte do projeto inicial da banda. Compor algumas músicas, gravar em estúdio e fazer alguns vídeos. Foi o que fizemos. Compomos Casa de marimbondo, Viagem Brasil e Madness and tango e fomos para o estúdio gravar.
Foi uma gravação em estúdio (Feedback, com o Valério Xavier), mas foi ao vivo. Todo mundo tocando ao mesmo tempo. Chegamos lá na sexta a noite, montamos tudo, passamos todo o som, a monitoração, a captura e aí, quando estávamos super confortáveis para gravar, fomos pra casa descansar e dormir. Voltamos no sábado super motivados e passamos o dia gravando. Foi muito legal. O resultado final foi ótimo. Musicalmente e tecnicamente o disco ficou incrível. Para fechar com chave de ouro, a Luda Lima, fez uma arte maravilhosa para a capa. Só orgulho.

2112. Como surgiu o interesse do selo sueco, Record Union em lançar o trabalho de vocês?

Jefferson. Na verdade nós fizemos uma pesquisa bem extensa sobre todos os distribuidores digitais que encontramos no mercado. Verificamos os contratos, a forma de trabalho, a distribuição dos royalties e o alcance deles. A Record Union a primeira vista era bem pequena. Ainda mais se comparar com a CdBaby por exemplo. Mas tinham as melhores ofertas de royalties, um bom alcance, prazos bem curtos e um atendimento para lá de personalizado mesmo estando bem longe da gente. E o fato deles serem suecos me motivou uma vez que morei lá por uma temporada.
Entramos em contato com eles, aprendemos como tudo funcionava e em poucas semanas tinha gente até no Iran ouvindo o Jazzmine.

2112. Casa de Marimbondo, Madness And Tango e Viagem Brasil foram disponibilizadas em várias plataformas de compartilhamento na internet. Mas sempre acontece de vazar material e ser distribuído gratuitamente em algum site? Vocês são contra ou a favor?          

Jefferson. Eu acredito que música deve ser compartilhada, ouvida. Claro que o direito intelectual deve ser respeitado e pago e se alguém estiver tendo lucro com sua obra de arte esse alguém deve pagar os royalties, mas não tenho a preocupação de sair atrás de pequenos blogs e pequenas rádios para cobrar nenhum direito e eu mesmo disponibilizo gratuitamente as músicas onde acho interessante disponibilizar.
Mas esse assunto é extenso e profundo. Merece uma conversa apenas sobre ele pois, vamos ter que falar sobre YouTube, Spotify, Deezer que todos sabemos que não são transparentes na distribuição dos direitos dos artistas e são quem realmente lucram com a venda de música pela internet.

2112. O trabalho acabou fazendo sucesso em várias partes do mundo como EUA, Japão, Israel, Bélgica, Camboja, Egito, França, China, Havaí, Irã, Belize... Além do próprio Brazil. Este sucesso surpreendeu vocês de alguma maneira?      

Jefferson. Sim. Não esperávamos obter tantos seguidores e em tantas partes diferentes do planeta.

2112. A boa aceitação do EP levou vocês a tocarem no exterior?

Jefferson. Ainda não. Mas vamos chegar lá. Estamos trabalhando forte na construção de uma rede de contatos e conhecendo as pessoas que fazem os espetáculos acontecerem. Acredito que seja uma questão de tempo.

2112. Havia material inédito para compor o restante da setlist ou vocês incluiram algumas releituras?

Jefferson. Quando gravamos o Three Songs Album, nós tinhamos mais uma música pronta (The wind) e um arranjo da música Lôro (Egberto Gismonti). Logo que o EP ficou pronto e começamos sua distribuição, seguimos para a segunda etapa do projeto que era montar o show “A tale of no one’s savior” que agora virou o disco. Compomos mais algumas músicas, acrescentamos o arranjo de I want you (The Beatles) e fizemos o show. Outras músicas foram compostas para finalizar o disco, mas já vinhamos tocas várias das músicas que hoje fazem parte do álbum “A Tale Of No One’s Savior”.

2112. Recentemente vocês lançaram o álbum A Tale Of No One’s Savior que inclui um tema central onde as músicas estão interligadas entre si o que nos remete diretamente às Árias de Óperas, ao Jazz, ao Rock Progressivo que popularizou o estilo nos anos 70 e ao próprio rock quando a banda The Who lançou Tommy com enorme sucesso no final dos anos 60. O que levou vocês a lançarem um álbum conceitual?      

Jefferson. Essa é a natureza do Jazzmine. A gente sempre quer contar uma história com cada música que criamos. Sempre foi assim, desde o inicio.
Quando o Alan nos apresentou a letra de “Inner Emancipation”, o conceito do álbum ficou claro, para nós três, e aí as músicas começaram a se encaixar. As ideias para a parte gráfica do disco começaram a surgir e aí tudo se amarrou.

2112. Como foi o processo criativo do material? A história é baseada em fatos reais ou é apenas uma obra fictícia?     

Alan. Na verdade toda a ideia vem de reflexões e observações da realidade e pegamos isso para fazer uma história que enriquecesse o trabalho instrumental e que ao mesmo tempo evidenciasse as nossas influências. Dentro desse contexto buscamos criar com uma versatilidade de estilos explorando desde as influências brasileiras, africanas até cubanas e árabes. A parte gráfica também compõe a obra reforçando o tema. Tivemos a ideia de colocar imagens que impactasse mas que ao mesmo tempo incitasse a reflexão.

2112. A musicalidade de vocês tem como base o jazz, a inclusão do elementos do rock e da música brasileira em particular a nordestina deve ter deixado o som além de requintado, exuberante em sua essência. A mutação constante é um fato na banda?      

Luís. O rock é o estilo responsável pela nossa musicalidade. Começamos a tocar ouvindo rock, e ainda fazemos trabalhos dentro desse gênero musical. Nossa conexão com o jazz vem da improvisação, que diferente do rock onde há solos imortais e imutáveis (Imagine Sweet child o mine sem o solo, impossível) nós improvisamos todas as vezes que tocamos, não apenas os solos, mas os temas tb são reinterpretados, essa é a nossa natureza jazzística. Somos brasileiros, roqueiros, com a intenção e cabeça de jazzistas essa mistura resulta no Jazzmine.

2112. Tudo isso me faz lembrar de nomes como Miles Davis, David Bowie, Madonna e mesmo o Led Zeppelin que viviam em constante mutação a procura de novas sonoridades. É isso o que torna a música rica, não?   

Luís. Sim! Esses artistas sempre se reinventaram e o mais surpreendente que apesar de todas as mudanças eles continuam com suas personalidades musicais bem consolidadas. Gostamos de pensar assim, dentro da sonoridade do Jazzmine podemos fazer tudo sem deixar de ser o Jazzmine.

2112. Vocês estão sempre estudando novas sonoridades?

Luís. Sempre buscamos nos aperfeiçoar, sempre buscamos melhorar como músicos com novas técnicas e novas sonoridades.

2112. Alguma vez vocês já pensaram em incluir ruídos eletrônicos ou elementos dessa natureza? Acho que seria interessante... ou vocês preferem um som mais puro?   

Luís. Quem assistir nosso show saberá. Kkkk não queremos estragar a surpresa, então compareçam aos nossos shows.

2112. Nas viagens da banda vocês procuram conhecer os ritmos locais?

Alan. Brevemente, quando estivermos na estrada mais intensamente vai ser um grande prazer aprender mais e enriquecer a música do Jazzmine.

2112. O que vocês ouvem em casa?

Alan. Eu ouço varias coisas tipo: Chicago, Eliane Elias, Jamiroquai, Dream Theater.

Jefferson. Estou ouvindo muito Milton Nascimento ultimamente. E acabado ouvindo o resto dos caras do Clube da Esquina. A Esperanza Spalding e a Hiromi Ueraha estão sempre na minha playlist. E o Led Zeppelin é lei.

Luís. Sempre escuto minhas influências para fins de estudo e apreciação, ultimamente tenho escutado Queen, Mike Stern, Ricardo Silveira, Emily Remler.

2112. Vocês acompanham o que acontece no mercado musical? O que vocês tem escutado de interessante?   

Alan. Eu particularmente não tenho acompanhado... Mas já tiveram vezes que por acaso escutei algo interessante... o que tenho escutado são as coisas que tenho me envolvido nos trabalhos da noite.

Jefferson. Eu tenho curtido Esperanza Spalding, Hiromi Ueraha, Avishai Colen, Snarky Puppy.

Luís. Gosto de toda a produção que o Lenine faz sempre o acompanho. Gosto de ir assistir, quando tenho tempo, artistas de Brasília
 
2112. Quais os projetos para este ano?

Luís. Em 2018 estamos focados na divulgação do nosso álbum, internamente também estamos começando a reunir informações, conceitos, temas, para o próximo álbum, mas 2018 estamos focados em tocar e divulgar ao máximo “A tale of no one’s savior”.

2112. O microfone é de vocês...

Jazzmine. Sejam receptivos ao trabalho das bandas e artistas independentes, tentem apoiar e valorizar porque é muito importante para quem está começando. Quem sabe aquele artista que você conheceu no início não se torna um grande ícone da música mundial.

Nenhum comentário:

Postar um comentário